quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Reflexões sobre o futuro

O PSD/CDS mantém uma acentuada crispação política por ter sido afastado do poder. É natural e, até certo ponto, compreensível. O partido ganhou as eleições e a sua expetativa era poder governar. Só que não manteve a maioria absoluta de que dispunha nos últimos quatro anos, perdendo mesmo 700 mil eleitores.

Em 2011, com essa maioria absoluta, Passos Coelho recusou a proposta que o PS lhe fez para partilhar o governo, para implementar o "memorando de entendimento" com a Troika. Desta vez, para governar, a coligação precisava de obter, pelo menos, a abstenção do PS. O PS considerou que os seus eleitores não queriam que apoiasse, ou sequer tolerasse, uma política da qual o partido discordava em absoluto e contra a qual se tinha batido durante quatro anos. Aliás, António Costa tinha dito claramente, durante a campanha, que não daria o seu apoio a um governo de direita. Como tal, o PS recusou-se a dar esse "nil obstat". Não pode ter sido surpresa para ninguém.

O PS sabia que, para poder ter o gesto que teve, tinha de apresentar uma alternativa, sem o que deixaria o país sem governo. Pode não se gostar desssa alternativa e, em especial, pode desconfiar-se se ela terá condições de sobrevivência e se o modo como ela está construída tem a solidez e a coerência para garantir uma governabilidade estável. Como já disse em diversas ocasiões, partilho fortemente essas dúvidas. E ao ver a CGTP à volta de S. Bento, ao ouvir Jerónimo de Sousa interrogar-se sobre a racionalidade da regra do limite do défice em 3% do PIB e Catarina Martins a contrariar, com imperdoável ligeireza, as sensatas palavras de Mário Centeno ao "Financial Times" sobre a dívida, só encontro motivos para manter a minha preocupação. 

Sei que isto não é popular no PS, mas eu falo apenas pela minha cabeça e espero para ver: não confio em que o PCP e o Bloco se mantenham num apoio leal a um eventual governo do PS. Se e quando eu tiver razão - e gostava muito de estar errado - o eleitorado ajuizará em conformidade. A democracia tem as eleições como terapêutica para as crises. 

Mas há uma preocupação que eu não tenho. É com António Costa, com o PS e com o seu compromisso para com as metas europeias. Tenho total confiança no líder do PS - até agora só tenho ouvido dizer que perderam essa confiança pessoas que não votaram nele -, um político com provas dadas, com quase quatro décadas de empenhamento democrático, que foi um excelente ministro, um magnífico presidente da Câmara de Lisboa. Além disso a Europa conhece-o: foi vice-presidente do Parlamento Europeu e presidiu a conselhos de ministros da União Europeia. Não lhe falta experiência e nunca ninguém o viu, alguma vez, falhar no seu empenhamento em procurar garantir o prestígio para Portugal na Europa.

Se o PS for governo sê-lo-á pelo facto de, não tendo uma determinada solução minoritária conseguido garantir apoio parlamentar, o presidente da República se ter visto obrigado a recorrer à segunda solução minoritária que lhe foi apresentada. Pode compreender-se que Cavaco Silva não goste de ver a sua década de Belém "coroada" com um governo de esquerda no poder. Mas, enfim, e para a História, sempre se poderá dizer que terminou do mesmo modo que Mário Soares e Jorge Sampaio...

25 comentários:

João Pedro Garcia disse...

Antes do mais, era preciso punir exemplarmente aqueles que nos últimos quatro anos tanto mal fizeram aos portugueses, retirando-lhes dinheiro, e sobretudo esperança. A troika é certamente culpada mas também o é é a ideologia liberal "à outrance" que, privatizando até o que dava lucro, esbanjou património português em favor de outros paises, não propriamente modelos de democracia e de "fair business". Prepotência, incompetência e anti-patriotismo andaram de mãos dadas na última legislatura.

A punição não foi exemplar devido ao terrorismo verbal do maioria cessante e à conivência da generalidade da comunicação social.

Abre-se agora outro caminho. Veremos se, como é desejável, consegue devolver aos portugueses o sentido de decência e generosidade que tanta falta fez recentemente. As coisas não serão fáceis mas vale a pena tentar.

Há sempre que contar com Cavaco Silva para que tudo corra mal até ao fim do seu mandato, além, claro, do terrorismo verbal e da conivência acima mencionados. Espera-se que António Costa continue a revelar a mestria que tem usado desde as eleições para encontrar os consensos possíveis na alternativa possível, a fim de ganhar folgadamente as próximas legislativas.

JPGarcia

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Alcipe disse...

Caro Francisco, se leres o documento dos 72 (lembras-te?) verás nele as mesmas dúvidas que Jerónimo e Catarina vieram agora exprimir. Penso que te recordas também de quem assinou o manifesto dos 72, que coincide aliás com as análises de economistas que vão de Jacques Sapir a Paul Krugman, de Peter de Grauwe a Wolfgang Munchau... Se muitos dos signatários hoje não reafirmam o que disseram na altura é por óbvios, compreensíveis e razoáveis motivos tácticos, mas um pouco na linha de Averróis : " Há uma verdade para os iniciados e uma verdade para o povo"... Ou, se quiseres, também há momentos para ter razão. Abraço

a) Alcipe

Jaime Santos disse...

Partilho as suas dúvidas, mas sou igualmente da opinião que não existe qualquer dúvida relativamente à legitimidade política (porque a constitucional é óbvia, numa Democracia com representação proporcional governa a Maioria) de um governo PS apoiado pela Esquerda. Sou mesmo da opinião que face à disponibilidade do BE e PCP para subscreverem um acordo mínimo de Governo, António Costa não podia ter deixado de tentar esta hipótese, sob pena de o PS definhar à Esquerda como muleta de um Governo Minoritário da Direita. Se há coisa em que os eleitores do PS não votaram foi na continuação das políticas do Governo demissionário. Há no entanto um pormenor curioso no seu comentário. Vejo que trata o PSD/CDS como 'o Partido'. É lapso, ou dá já como concluída a 'OPA' do PSD sobre o CDS, que começou a ser consumada depois da 'Demissão Irrevogável' de Paulo Portas?

jj.amarante disse...

As minhas apreensões coincidem com as suas. Tenho-me surpreendido com os argumentos usados maioritariamente pela direita para criticar a estratégia do PS. E gostaria de ouvir considerações suas sobre a constatação práctica que afinal os conceitos de direita e esquerda ainda têm utilidade. Toda a gente se refere a eles agora com grande frequência.

António Azevedo disse...

António Costa não quer governar!
Parece que só quer acordar! Só por acordar aqui e além…hoje, amanhã, com toda a gente!... É-lhe indiferente…
(Os outros são o contrário. Só querem “governar”…)
antónio pa

Manuel do Edmundo-Filho disse...

Partilho das suas dúvidas quanto à solidez do acordo. Não gostei que tivesse sido assinado à porta fechada e de uma forma tri-partida. São "trunfos" que se deram a Cavaco Silva para, pelo menos, adiar a indigitação de Costa. E não estou a gostar do clima de confrontação social (e da sua arrogância) que a CGTP/PCP, como ninguém, tem o dom de saber criar. Há também algumas medidas, como a reversão da concessão dos tranportes públicos e a descida do IVA da restauração (os consumidores não vão beneficiar dessa medida), de que discordo – fácil imaginar que esta reversão tenha sido uma condição "sine-quanon" para o PCP assinar. Mas comungo igualmente da sua confiança em António Costa. É um político preparado (preparadíssimo), maduro, sereno e paciente, mas, ao mesmo tempo, ousado como se prova pela solução governativa (inteiramente democrática e legíima) que logrou negociar e impor ao lider desta direita que perde completamente as estribeiras quando perde o poder. A forma destemperada como Portas/Montenegro/Telmo Correia reagiram, e muito bem sintetizada por Carlos César com o "ou somos governo ou vai tudo abaixo", é quase incendiária. Mas, confesso, é "isso" que mais gozo me tem dado em todo este processo. Só espero (e confio) que este gozo não me (nos) saia caro.

Majo disse...

~~~
~ António Costa tem evidenciado uma determinada coragem e elevado sentido ético ao ser coerente com os princípios que tem defendido.

~ É ridículo a direita imaginá-lo a desempenhar um papel semelhante ao de Seguro...

~ Gostaria de ver a esquerda portuguesa honrar os seus compromissos, estabelecendo um novo e bem vindo equilíbrio de forças na nossa democracia.
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João Forjaz Vieira disse...

A questão é esta, como já vários observadores e comentadores disseram: existe um acordo ou existem três panfletos para inglês ver? essa é a grande questão para além das legitimíssimas dúvidas que existindo um acordo este funcione. É esse o papel do presidente da República: ver, como Jorge Sampaio viu, que embora exista uma maioria formal (e absoluta no caso de Santana Lopes), esta não existe na realidade.
João Vieira

Manuel do Edmundo-Filho disse...

Só que, João Vieira, nessa altura Jorge Sampaio tinha a prerrogativa de dissolver a Assembleia que este, constitucionalmente, não tem. Só o próximo presidente é que terá de novo. Cavaco não é obrigado a indigitar Costa, mas fica de mãos atadas: não pode dissolver a AR porque esta não pode ser dissolvida antes que decorram 6 meses após a sua eleição; se empossar um governo de iniciativa presidencial, a maioria de esquerda dá-lhe o mesmo destino que deu ao do Passos/Portas – rejeita-o; se deixar o "rejeitado" (e desajeitado) em gestão, pergunta-se se o país "aguenta" quase nove meses sem governo efectivo. Com uma agravante: a Assembleia da República não está em gestão e a maioria de esquerda poderá fazer aprovar muitas das medidas que constam do acordo. O melhor é mesmo Cavaco indigitar Costa. O país e a democracia agradecem.

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Senhor Embaixador,

Os acordos são frágeis e o Governo vai cair rapidamente. Concordo que o Dr António Costa é um politico experiente, mas neste caso deixou-se cegar pela sua ambição e pelo seu desejo de poder.
Não vai poder governar de maneira diferente pois como todos sabem quem manda na maneira de governar, e quem aprova as medidas a serem tomadas é quem entra com "a massa".

Por isso mesmo vão desentender-se rapidamente, pois não acredito que a Dra Catarina e o Jerónimo de Sousa tenham a mesma capacidade do Dr António Costa para engolir sapos.
Depois haverão eleições e teremos o PSD/CDS com uma maioria absolutíssima e volta tudo ao normal.

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Quanto ao Senhor Presidente da Republica não me esqueço que o Dr Jorge Sampaio, desculpando-se que estava a interpretar a opinião dos Portugueses, deitou abaixo um Governo com maioria no Parlamento. Nada impede neste momento o Dr Aníbal Cavaco Silva de tentar também interpretar a opinião dos Portugueses. E como o Senhor Embaixador bem sabe, a maioria dos Portugueses está contra esta solução

aguerreiro disse...

O presidente da república deste bananal deveria em minha opinião chamar agora para fazer governo a coligação menos votada CDU, já que com a mais votada a coisa não funcionou. pode ser que nos valha a parábola bíblica de que os primeiros serão os últimos e os últimos os primeiros, Força Cavaco se queres ver os Césares e os Costas a espinotear.

aamgvieira disse...

"Há três espécies de cérebros: uns entendem por si próprios; os outros discernem o que os primeiros entendem; e os terceiros não entendem nem por si próprios nem pelos outros; os primeiros são excelentíssimos; os segundos excelentes; e os terceiros totalmente inúteis.".

Maquiavel


Isabel Figueira disse...

Não sei o que diga, mas que isto está mau e ainda vai ficar pior isso vai. Não se vão entender, vão estar contra tudo e contra todos, greves atrás de greves... :(

João Forjaz Vieira disse...

Manuel Edmundo
E porque é que só o Ps tem o direito de ser irresponsável? Se deitar um governo presidencial abaixo fica em gestão POR CULPA DO PS, ou não será? E o presidente é obrigado a engolir trapalhadas contra o sentido do mandato que elegeu?

aamgvieira disse...

Educação de Adultos:

"Líder da Coreia do Norte envia “número três” para reeducação

Choe Ryong-hae vai ter de cumprir um programa na principal universidade do país"

Ana Vasconcelos disse...

Não acredito que António Costa esteja a conduzir este processo por ambição cega, como muitos têm dito. Ele não é ingénuo. Teve muita experiência em fazer acordos diferentes, com forças distintas, em muitas e diversas circunstâncias, quando esteve na Câmara, como nos lembrou Pedro Santana Lopes nesta semana. O caminho que está a traçar é inconvencional na nossa cultura política - mas não tanto noutras mais dadas à negociação de consensos múltiplos. Concordo que neste nosso contexto vai ser um caminho muito difícil de trilhar, mas quero ter esperança nele. Custa-me também um pouco a acreditar que esta opção tenha aparecido do nada, subitamente, a seguir às eleições, sem qualquer testar de águas ou quaisquer contactos prévios, mas se calhar estou enganada.

Jaime Santos disse...

Cavaco tem margem constitucional para fazer o que lhe der na gana: empossar Costa, manter Passos em gestão ou talvez mesmo para convidar uma terceira personalidade para formar Governo (de Iniciativa Presidencial). E nós da Esquerda ficamos todos muito contentes a vê-lo obrigar Marcelo Rebelo de Sousa a definir-se. Primeiro Marcelo não queria dividir os Portugueses, agora já acha afinal que tudo depende do acordo entre as Esquerdas, não faltará muito para, 'noblesse oblige' à banda de onde lhe vem o apoio, dizer que afinal dissolve a AR se for eleito. Se as últimas sondagens significam alguma coisa, mais de 50% dos Portugueses ainda apoiam o PS+BE+CDU. Isso é mais do que suficiente para eleger um Presidente de Esquerda se as circunstâncias obrigarem Marcelo a definir-se como sendo o que sempre foi, isto é, alguém manifestamente de Direita. Por isso Cavaco, não dês posse a Costa!

David Lencastre disse...

Diga-nos uma coisa: você é a favor - ou não - do TTIP?
David Lecastre

David Lencastre disse...

Você está -ou não -contra o TTPI? É importante saber onde se coloca nesta questão.
David Lencastre?

David Lencastre disse...

Que Diabo, é difícil entrar neste Blogue. Uma pessoa acaba por se aborrecer! Vamos lá ver se é desta!
Você, Dr. Seixas Costa, é ou não a favor do TTPI?
Diga-nos lá qual é a sua posição nesta delicada questão.
David Lencastre

Francisco Seixas da Costa disse...

Já conhece o texto final do TTIP, David Lencastre? Eu não. Quando conhecer, pronuncio-me. Mas acho muito positiivo que se tente o exercício.

Alcipe disse...

No meu comentário, onde se lê "Peter de Grauwe" deve, é claro, ler-se "Paul de Grauwe".

a) Alcipe

pamaralseixas disse...

“ A maioria dos Portugueses está contra esta solução.”Mas em que fontes fidedignas se baseia(m) o(s) autor(es) desta frase? Nos adeptos da coligação( Paf), no representante dos empresários (CPP), no porta-voz dos agricultores (CAP) , no eurodeputado Assis, nos Tweets e posts do Facebook ou nos comentadores X e Y? É tão fácil espalhar clichés e mottos , imprimindo a sua opinião “ em nome do povo”. A Assembleia da República não é a realidade virtual . O bloco Paf não conseguiu, por sua conta e risco, a maioria necessária e agora há uma alternativa em cima da mesa. Será consistente o suficiente? Na prática, ninguém sabe, é um cenário novo. E a ideia de catástrofe (” … vai estar tudo contra tudo, greves atrás de greves…”, lembrando o boneco de Medina Carreira no programa Contrapoder) está a ser meticulosamente passada na “rede” e nalguma imprensa. Imagino o rodízio de chavões e maus presságios que rodopiam nas redes sociais. Felizmente que mantenho uma dieta saudável desse mundo virtual e aguardo com serenidade e expectativas reforçadas o desenrolar do futuro.

Jorge Almeida disse...

Em 2011 o PSD não obteve maioria absoluta. Podia optar por coligar-se com o CDS, com o PS ou tentar um governo minoritário como o tinha sido o governo anterior, de má memoria, liderado por José Sócrates. Preferiu uma aliança com o CDS que vista em perspectiva foi uma escolha atribulada em que o parceiro júnior da coligação acabou por ter um grande ascendente sobre o partido social democrata. Foi uma aliança natural uma vez que PSD e CDS ocupam o mesmo espaço, na direita, no espectro político nacional.

Mas essa aliança não fora previamente prometida aos eleitores. Pelo contrário o PSD pediu uma maioria absoluta e não a consegui. O Presidente não teve dúvidas em nomear Passos e em dar posse ao governo de coligação. Ninguém clamou por novas eleições clarificadoras, nem acusou o PSD de se coligar nas costas do seu eleitorado.

Assim situação é, desse ponto de vista, muito semelhante ao cenário actual. Há uma maioria que se forma na AR e que, tal como em 2011, deve governar. Fora desta solução teremos uma muito perigosa deriva constitucional que claramente nos põe fora do lote das democracias liberais e no grupo das repúblicas bananas (uma curiosidade latino-americana dos anos 60 do século passado) e que pode comprometer a nossa presença na União Europeia.