sábado, 28 de novembro de 2015

Notas britânicas

1. "Have you tried to be nice to people?". Saiu-me a frase ao assistir a um arrogante (e latagão, o que torna o meu gesto bem mais "heróico") condutor de autocarro, antes da partida de Heathrow para Oxford, tratar de forma displicente um casal de estrangeiros, que, justificada e delicadamente, pretendiam uma qualquer indicação. O fulano olhou-me de alto (era alto...) mas não reagiu muito, embora grunhisse em voz baixa o que imagino fosse um palavrão (o meu léxico de "slang" anda um bocado por baixo, foi o que me valeu...). Talvez pelo meu tom tivesse percebido que eu estava preparado para chamar de imediato o "supervisor" ou lá quem quer que fosse de quem ele dependia. E metia-se em chatices, porque eu sou muito ASAE...

2. E quem me manda a mim andar às compras num "Boots" num "Black Friday"?! Chusmas de adolescentes (e de outras que o foram, até há anos que agora procuram atenuar) a aproveitar os saldos brutais nos cosméticos, fazendo filas de longos minutos para pagar. Adoro o "Boots": descubro aí sempre coisas estranhas que (julgo que) não há em Portugal. Como sou um hipocondríaco com sorte (às vezes tenho mesmo doenças; o hipocondríaco sem sorte é alguém que se queixa muito mas que está sempre fino que nem um pêro), descortino sempre uns medicamentos de venda livre que me vão fazer um jeitão... mas que, chegado a Lisboa, alguém mete lá para umas gavetas sem fundo e, quando se vai a dar conta, já perderam a validade. Mas lá vou outra vez com alguns na mala, daqui de Oxford!

3. Também em matéria de "stationery" saio aviado. Não que a qualidade da WHSmith onde fui de compras seja por aí além, mas ainda há por lá uns blocos, umas canetas de "ballpoint" a que me afeiçoei e um papel de carta a que não resisti. Já estou a presumir a reação de snobeira de alguns amigos: "Olha! Para esse nível podias ter ido à Ryman, ias na mesma mal servido...", deixando depois cair na conversa, finíssimos e londrinos eternos que eles são, que, para essas coisas "só se vai" ao Smythson. Pode ser que sim, mas um reformado não pode pagar o triplo do preço que o Smythson leva por coisas que o WHSmith tem quase idênticas.

4. Bati com o nariz na porta da fantástica livraria da Oxford University Press e, provavelmente, amanhã não vou conseguir passar por lá. Nunca pensei que fechasse às 5.30, logo num "Black Friday", em que as compras tomam conta do dia. Em alternativa, lá corri os quatro pisos da Waterstones, de onde saí ajoujado de livralhada. Ao passar pela secção de "crime" voltei a ter uma sensação esquisita, que há muito me acontece: olho para as caras das pessoas que nessas áreas dedilham os livros e dou comigo a descortinar fisionomias de potenciais assassinos. Sim, porque essa gente em algum lado aprende e o Reino Unido é nisso mestre, como os factos e a literatura nos atestam. Como eu, na minha pesquisa, os olho fixamente, vejo-os quase sempre retribuir-me com um olhar frio, o que me aumenta as suspeitas. E a inquietude. Ontem, havia por lá um cavalheiro, de cabelos revoltos, óculos de aros grossos, gabardine longa, que, pela certa, ia dali para cometer um crime. Tirava-se-lhe pela pinta. É só esperar pelos tablóides...

5. Muito português há em Oxford! Ouvi imensos jovens - nas ruas, nas lojas e até na mesa ao lado no restaurante - a falar português de Portugal. Numa esquina, estava um ao telefone, conversando com um ou uma compatriota: "Aquilo vai durar pouco, dizem-me de Lisboa. Lá para o Verão zangam-se todos e o governo cai". Não resisti e, sem parar a passada, lancei-lhe: "Olhe que não! Olhe que não!" Ficou parado e calou-se, pelo menos até eu desaparecer. De uma coisa tenho a certeza: não tinha idade para fazer a mais leve ideia da paternidade da frase que eu reproduzira.

13 comentários:

Maria disse...

Por vias dos encontroes, ontem "Black Friday" fiquei pelo meu bairro a tentar por em ordem varias coisas. Por aqui, o Boots estava as moscas e o HWSmith quase. Quem nos manda importer o conceito "Black Friday? Nzao tem nuito a ver conosco e ja chegou a Portugal!!!

Vou agora partir para Oxford num autocarro de Londres-Vitoria. Espero que o conductor do meu esteja bem humorado porque para mim estas madrugadas matam-me.

Oxford acena-me com o museu mas de novo, os horarios sao incompativeis. Para o proximo autocarro noutra viagem!

Ate ja

F. Crabtree

Majo disse...

~~~
Fiquei desconfiada, mas enganei-me.

~~ Uma leitura sempre agradável.

~~~~~~ Ótimo fim de semana.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

José Sousa e Silva disse...

Foi mesmo uma "Friday Black"

Portugalredecouvertes disse...


"olhe que não! olhe que não"

que o diabo seja cego, surdo e mudo, Sr. Embaixador!

Joaquim de Freitas disse...

Quando se começa a ler os seus textos, Senhor Embaixador, somos obrigados a ler até ao fim! Delicious !

João Pedro Garcia disse...

Um abraço grande ao Helder.

O Grunho disse...

Camarada onde se meteu! Má ideia, má ideia... Mas a sua escolha de cidade foi impecável.

Ana Vasconcelos disse...

Black Friday é uma maçada inoportuna que temos que aturar porque os ingleses têm uma enorme fraqueza por tudo o que é Americano. Até na cidade pacata do Norte onde vivo, onde as pessoas ainda agradecem aos condutores de autocarro e estes respondem amavelmente 'you're welcome, luv!', o trânsito torna-se num enovelado impossível, os encontrões multiplicam-se e os nervos afinam. Nesta altura, resta-nos recolher à tranquilidade dos subúrbios, levar o cão ao 'local' (pub) e esperar que o Natal chegue depressa.
Espero que Portugal escape a esta importação desnecessária; por aqui já não há grande esperança.
Desejo que esteja a ter um bom regresso a este País que com todas as suas idiossincrasias - e talvez por causa delas - é cativante de uma forma única.

OdeonMusico disse...

Mais um belo texto a partir de um "quase nada". Gostei da sua paternidade...

o Jaime S.

Fátima Diogo disse...

Em Portugal também houve Black Friday e foi ótimo : não trouxe a alegria dos americanos que têm um fim de semana familiar de Thanksgiving Day, mas trouxe pelo menos alguma gente às lojas - muito melhor que o aspecto patético habitual nas lojas vazias que abundam cá no burgo. E também foi ótimo porque comprei livros que me interessam com um desconto jeitoso.
Boa estadia , Oxford é preciosa, por muitas razões!

maria inês disse...

Como vivo em Oxford sinto-me no dever de comentar uns detalhes do seu relato:

1. Talvez tenha apanhado um motorista num mau dia, que também os têm, os coitados. Faço Oxford-Heathrow–Oxford umas quantas vezes ao ano e nunca tive razão de queixa. Recentemente, um motorista que fazia o horário das cinco da manhã voltou atrás (a caminho do aeroporto) para apanhar em Lewknor uma rapariga que se tinha enfiado por engano no OxfordTube rumo a Londres. De resto, a arrogância é uma característica que reconheço – pasme-se! – ser mal atribuída aos britânicos.

2. Ir às compras em Oxford é sempre um desafio. Quer seja numa Black Friday, que descobri hoje estender-se ao fim-de-semana, quer seja em épocas festivas (no Natal não sobra espaço para andar), quer seja no dia-a-dia. As minhas mãos sofrem imenso com este clima e acabei de comprar um cremezito careiro por metade do preço.

4. Aqui tudo fecha cedíssimo, com excepção das quintas-feiras em que as lojas encerram às 19h00. De segunda a quinta também a biblioteca central só fecha às 19h00. Como fica na High St. é normal que a livraria da OUP feche a essa hora, mas podia sempre ter ido à magnífica Blackwell’s na ponta oposta à Waterstones na Broad St. Existe deveras muita gente ‘particular’ nesta pequena cidade, mas essa dos potenciais assassinos é uma graçola – influências do detective Lewis?

5. Confirmo a presença de imensos jovens portugueses. E espanhóis, italianos, franceses, alemāes, holandeses, noruegueses, mexicanos, argentinos, chineses, japoneses, etc. Enfim, tudo um mundo que por aqui passa.

Maria Inês

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Maria Inês
1. Há sempre uma ovelha negra ou apenas um mau dia, reconheço.
2. Eu adoro "shopping", mas que o dia estava difícil lá isso estava.
4. Lá consegui hoje ir à OUP... mas os livros "hardcover" estão pela hora da morte. E por falar em morte, as linhas sobre o crime eram uma brincadeira, como terá percebido. Escapou-me a Blackwell's. Porque não me avisou mais cedo? A minha mulher agradece-lhe que o tamanho do saco não seja maior...
5. Há, de facto, um mundo dentro desta cidade. Adoro Oxford! Parabéns por aí viver

Ana disse...

A Blackwell's! Sobretudo o cavernoso Norrington room, que se estende sob os pátios e jardim do Trinity College..
Beijo, Ana