quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Crónica de uma viuvez amarga

Foram mesmo muitos anos. Primeiro nos tempos de Guterres, depois nos idos de Sócrates. Falava-se de António Costa e alguma direita logo se "derretia". Era "inteligente", "culto", "frequentable", como se diz em França. A sua capacidade de diálogo, também a esses olhos, era ímpar, era "outra loiça", na política cá do burgo. As suas passagens pela Administração Interna e pela Justiça foram saudadas, nos "dîners en ville" e nos Verões sociais dos Ancão, como correspondendo a outra forma de fazer política, mais moderna, quiçá mais nobre: "assim, sim!". Antes, ainda no Parlamento Europeu, a sua prestação, se bem que breve, foi muito elogiada, demonstrativa de capacidade internacional. "Temos homem, é um estadista!". Veio depois a Câmara de Lisboa, o que viria a coroar todas as elegias. Ah! e os debates plurais na rádio, urbanérrimos. Com o tempo, brotaram os convertidos, em especial as convertidas. "Votei nele para a Câmara, claro!", ouvi a muitas almas conservadoras, seduzidas pelo sorriso, elogiando a capacidade de fomentar consensos, destacando a contemporaneidade das intervenções. A "solidez", era o epíteto mais comum. Com Seguro ao leme do PS, essa direita entrou em êxtase por Costa: "tem outro carisma", "com ele à frente, outro galo cantaria". Era elogiado pela prestação "firme" na "Quadratura". "Ele pode ser o que quiser, até presidente!"

Um dia, o PS decidiu escolher Costa. "Finalmente!", ouvi eu a muito boa gente que sempre vota à direita. Foi sol de muito pouca dura. Passada uma curtíssima lua-de-mel, o "Observador", fiel dessa balança dos ontens que hoje cantam, de um dia para o outro, descobriu "outro" Costa. De "esperança" passou a ameaça. De "fiável" a "dúbio". Colunistas que lhe gabavam um sorriso que projetava bonomia, passaram a vislumbrar nele um esgar de arrogância e sobranceria. Nas conversas, agora que a Costa competia assumir a despesa da conversa da oposição - titulando a denúncia da austeridade, do duo dinâmico Passos & Costa e dos "doces" de Belém - o olhar mudou. Afinal, era "cínico", "frio", "calculista". Estava rodeado de "radicais". Ah! E "traiu Seguro!", condenavam os que antes apostrofavam pela esquinas o antigo líder. "Não se esqueçam que ele esteve no governo com o Sócrates", surgiu como a suprema condenação retroativa. Umas vezes era o "lá foi ele a Évora!", doutras o "vejam que ele nem vai a Évora!". Blogues, facebooks e twitters correlativos entraram na campanha surda, às vezes canalhamente racista, frequentemente caluniosa, declinantemente hostil. Afinal, Costa era Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Que tristeza: mas a esquerda é sempre assim, "pecébe"? 

Vieram as eleições. Costa fez uma opção, polémica, por sua conta e risco. E leia-se agora o que dele se diz: "usurpador" é quase elogio no catálogo dos insultos. Devo confessar - mas deve ser do meu feitio, com certeza - que, estando onde sempre estive, não consigo deixar de achar alguma graça a tudo isto. E dá-me imensa vontade de rir: deles e delas. Apetece-me mesmo aconselhar-lhes: habituem-se!

10 comentários:

opjj disse...

Caro Dr. Seixas da Costa, com o devido respeito,essa é a sua visão fantasiosa de ACosta. Eu sempre pensei o contrário. Pelos debates AC mostrou ser um político impreparado, fraco. Destronou Seguro o providêncial D.Sebastião com maiorias absolutas.O REI POSTO. Afinal foi um flop. Chama cedências a negociador.
O que sei na prática é que acompanhou Sócrates que nos conduziu ao buraco.
O tempo o dirá, oxalá me engane!
Cumps.

Majo disse...

~~~
~ De facto, fenómenos hilariantes.

~ Excelente ironia...
~~~~~~~~~~~~~~~~~

Helena Sacadura Cabral disse...

Meu caro Francisco
Admiro-o por muitos e bons motivos. Mas num é imbatível. É a escrever textos que eu entendo de uma forma e outros lêem de forma completamente oposta. É preciso para tal ter,de facto, uma finesse já muito rara de encntrar!
Isto, claro, partindo do principio de que não sou inteiramente burra. Talvez seja essa a razão porque também eu, "não consigo deixar de achar alguma graça a tudo isto".

Antonio Cristovao disse...

Quem tem que validar os votos dos deputados?
Não vejo argumentar contra quem clama pela validação entre votos validos e não validos, que PaF pede ao cavaco,aos tudologos e talves chamar o TC para declarar o BE e comunistas como votos só validos se votarem contra.

Manuel do Edmundo-Filho disse...

O opjj, salvo o devido respeito, não percebeu nada deste post. As sucessivas visões acerca do Dr. António Costa que o embaixador expõe ao longo desta mensagem, todas elas entre comas, são da direita, "de alguma direita", que consoante os seus interesses, as vai desfiando: umas, elogiosas, antes de António Costa ganhar o PS e outras, acusadoras, caluniosas, "ad hominem", depois de o mesmo António Costa ter logrado obter uma maioria absoluta na Assembleia da República que viabilizará um governo do PS se o pr (deveria ser PR, mas não o é) o indigitar. Tivesse, meu caro, António Costa viabilizado o governo da coligação voltaria a receber os encómios de então.

É caso para dizer: tal direita, tal presidente...

Jaime Santos disse...

Para a Direita, o político de Esquerda aceitável é aquele que governa à Direita, sem ter os tiques dela, e só quando tem que ser. Como Costa não tem os tiques da Direita, esta pensou em tempos que ele poderia, idealmente, ser o 'junior partner' de um Bloco Central. Agora, levar Portugal por outros caminhos, isso nem pensar...

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Helena. Cada vez me divirto mais com esta escrita que, nem por ser rápida, deixa de poder ser "burilada" num jogo de sombras. Um forte abraço, de Trás-os-Montes,

António Azevedo disse...

Mutatis mutandis! Tal direita tal esquerda, a atitude é igual! Aliás é típico. Não é só na política! O que diziam e o que dizem de F. Leite? Estamos entre a “quequice” e a esquerda "florida" lisboetas. Cá em Trás-os-Montes já estamos bem habituados!
Pois eu vou dar um palpite: Cavaco vai nomear Costa com um cardápio extenso de condições, mais parecendo os conselhos da nossa Mãe quando saíamos à noite. Costa, com a anuência da Catarina e Jerónimo, vai aceitar porque depois logo se vê… Já estou habituado!
(nota: está toda a gente com o cheiro no 2020!)
(outra nota: o texto é muito bom como é “tradição”)
antonio pa

Graça José disse...

A direita que queria tudo na ordem até acabar de arrumar a casa, em particular a tal "Função Pública" que um dos nossos políticos dizia; que era preciso esperar que morressem... António Costa era mesmo certinho a trabalhar que até calhava - um daqueles empreendedores mais privado que público - tão a jeito para os elogios da Direita à Esquerda de serviço. Há que reconhecer que a Direita que assim fala é radical e pertence ao grupo daqueles que secaram a Social Democracia. Foi tudo em nome da CRISE... essa, a crise financeira e bancária continua, mas agora há outras crises... vamos aguardar para vermos os "défices" que não vão ser cumpridos na UE pelos novos acontecimentos sociais e migratórios que andam por aí na Europa. Até se vão esquecer de nós. E quem vai pagar, por exemplo: a TAP ,e, o BES, que serviu de cobaia para vermos como reagiam os Mercados e o Euro... à falência de um grande Banco?!

septuagenário disse...

Costa e o futuro são imprevisíveis.
Tudo o que se passa foi absolutamente imprevisível até ao dia das eleições.
E com Costa vai continuar tudo imprevisível.

o futura aos "acordos" secretos do Costa pertencem.