quinta-feira, 5 de novembro de 2015

As chaves do Cairo


Este retalho de memória vem na sequência da nota que aqui ontem publiquei sobre a morte de Itzhak Rabin, passado em novembro de 1995. Para tal, recupero parte de um texto antigo que aqui escrevi há três anos. Num registo menos pesado.

Nas últimas horas, muito se tem falado do deserto do Sinai, cenário triste do atentado ou acidente que vitimou os viajantes do voo que ligava Sharm el-Sheikh a São Petersburgo. (Uma amiga enviou-me ontem um email, informando ter partido do mesmo aeroporto, uma hora antes...). Desde há alguns anos, o Sinai converteu-se numa zona de alto risco. Atravessá-lo passou a ser uma aventura insensata e, ao que a imprensa reporta, já quase impossível para viaturas civis. Mas não era assim nesse tempo.

Como ontem relatei, e após o assassinato de Rabin, a delegação portuguesa, chefiada por Mário Soares e que eu acompanhava em representação do governo, havia interrompido subitamente a visita a Gaza, que se sucedia a uma estada em Israel. Nessa manhã de 5 de novembro de 1995, saíramos da Faixa de Gaza para o Egito, pela "pesada" fronteira de Rafah, onde Israel mantinha então um controlo, politicamente muito sensível para os palestinianos.

Um avião posto à disposição pelo governo egípcio iria buscar-nos à cidade de Al Arish, umas dezenas de quilómetros adiante, onde era suposto almoçarmos, num hotel de praia sobre o Mediterrânico. Mário Soares, insistiu em tomar um banho e alguns o acompanhámos. Ainda hoje guardo umas belas fotos da autoria de Rui Ochoa, com Mário Soares, Alfredo Duarte Costa e eu, vestidos com uns longos calções emprestados.

À época, era nosso embaixador no Cairo, Eduardo Nunes de Carvalho, uma figura muito simpática da nossa "carreira", onde era conhecido pelos amigos pelo "nickname" de "Iá".Era uma pessoa por quem tinha uma grande estima e consideração e que, infelizmente, nos deixou há já algum tempo. Hhomem de sorriso permanente, de uma agudeza fina de espírito, muito culto e educado, foi uma das boas "cabeças" que serviu a nossa diplomacia. Tinha, porém, como todo o ministério sempre soube, uma relação algo desligada com as coisas e, em especial, com o tempo, com distrações e atrasos que se tornaram lendários na tradição oral do MNE.

Nessa manhã, para receber o presidente à chegada ao território egípcio, o "Iá" tinha vindo ter conosco, de carro, do Cairo a Al Arish, depois de uma jornada de várias horas, através do Sinai. E chegou a tempo do almoço, depois do nosso banho. Soares insistiu que ele nos acompanhasse na nossa viagem de avião para a capital egípcia. O seu carro, com o seu motorista, iniciou então o regresso pelo mesmo caminho, atravessando o deserto do Sinai e o canal do Suez, devendo chegar ao Cairo lá pela noite. 

Nós chegámos às primeiras horas da tarde. Mário Soares, a Dra.Maria Barroso e o ajudante de campo foram para uma "guest house", posta à sua disposição pelo presidente egípcio. Percebi que o presidente se separava contrariado da sua delegação, "exilado" num palácio que lhe limitava os movimentos e a companhia. O resto dos portugueses, que incluía deputados, jornalistas e algumas figuras da vida pública portuguesa, foi instalada num hotel. Eu não perdi tempo: com a assessora de imprensa do presidente, Estrela Serrano, aproveitei para ir ver as pirâmides e a esfinge. A memória de p"O mistério da Grande Pirâmide", de Edgar P. Jacobs, perseguia-me. Era a primeira vez que ia ao Cairo e, tendo uma horas livres, decidi aproveitá-las bem.

Regressámos ao hotel ao final da tarde. Notei que o embaixador, um excelente conversador, ainda pairava por lá, no lóbi, a fazer companhia aos membros da delegação. A certa altura, Mário Soares telefonou a perguntar o que íamos fazer, onde íamos jantar. Disse-lhe que não tínhamos planos para sair do hotel e que aí jantaríamos. Soares de imediato se entusiasmou: "vou ter aí convosco!" Pediu-me então para passar o telefone ao embaixador Nunes de Carvalho. A este, Soares fui percebendo que Soares dizia ter tido a ideia de, antes do jantar, o grupo português conhecer a residência oficial do embaixador, situada umas escassas centenas de metros do hotel, também na ilha de Zamalek, o bairro onde estávamos.

Notei que o embaixador começou a titubear na conversa, resistindo à ideia, dizendo que já não havia muito tempo, explicando que tinha a sua mulher fora do Cairo, para além de outros pretextos de ocasião, que me pareceram pouco convincentes. Ora a sua casa era a residência oficial do Estado e nada mais natural seria que acolher, ainda que para uma simples bebida antes do jantar, o chefe do Estado e os seus convidados. A minha estranheza era tanto maior quanto Nunes de Carvalho era um "homem do mundo", que gostava de receber e recebia muito bem, como eu próprio tivera oportunidade de testemunhar noutras embaixadas onde com ele me cruzara.

A conversa entre o embaixador e o presidente, com o último a fazer aquilo que eu presumia ser uma contínua pressão para a aceitação pelo embaixador da ideia que tivera, foi-se prolongando, com Nunes de Carvalho, entre risadas nervosas e frases incompletas, tentando dissuadir Mário Soares. Até que, finalmente, o ouvi retorquir: "Ó senhor presidente! É que eu tenho um problema, que nos impede, em absoluto, de ir lá a casa". Fiquei curioso e apurei o ouvido. Depois de mais uma gargalhada, sempre muito mais de nervos do que de graça, gaguejando um pouco de embaraço, o embaixador esclareceu o presidente: "É que eu - desculpe ter de dizer-lhe! - deixei as chaves de casa no meu carro, que está a atravessar o deserto do Sinai, e que só chega daqui a umas horas. Vou mesmo pernoitar no hotel..."

A verdade é que o embaixador, não sonhando com a hipótese da sua residência ter de ser "mobilizada" na ocasião, e na ausência da sua família, havia dispensado todo o pessoal. Sendo já tarde e, para mais, estando sem motorista, num tempo em que pouca gente tinha telemóvel, seria impossível andar à procura, pelo dédalo do Cairo, das segundas chaves da casa.

E lá jantámos nós, com o nosso embaixador como convidado, no antigo Gezirah Palace, hoje um Marriott, cujo corpo central havia sido construído para a inauguração do canal do Suez, em 1869, um evento que, à época, foi testemunhado localmente por um viajante português que muita graça achava aos episódios da diplomacia que serviu - José Maria Eça de Queiroz. Voltei a ficar nesse hotel por duas vezesm depois dessa visita. E sempre recordo esta história.

2 comentários:

João Pedro Garcia disse...

Vintage Iá, de quem tenho muitas saudades. Foi muito amigo em todos as ocasiões. Uma pessoa impecável, como já não há.

Um abraço do

JPGarcia

Ricarda Moura disse...

É sempre um prazer ler as suas historietas.
Bem haja.
Ricarda Moura