quarta-feira, 11 de novembro de 2015

A independência de Angola e os "retornados"


Hoje, quatro décadas exatas sobre a independência de Angola, deixem-me que volte a contar aqui uma cena ocorrida comigo, em S. Paulo, em 2005, na inauguração de uma exposição de pintura de José de Guimarães, na FIESP.

Eram os meus primeiros tempos no Brasil e muitas pessoas queriam conhecer o novo embaixador, recém-chegado. A certo passo do cocktail de abertura do evento, aproximou-se de mim uma senhora idosa que, com extrema simpatia, me disse, com um sotaque já muito brasileiro, mas onde se detetava a sua origem portuguesa: "Tenho sempre muito orgulho em conhecer os representantes da minha pátria! Por isso, queria saudá-lo, senhor embaixador, e desejar-lhe muitas felicidades para o seu trabalho".

Fiquei naturalmente sensibilizado com o gesto daquela simpática compatriota, que agradeci, tendo-lhe perguntado, com naturalidade, quando tinha vindo para o Brasil. Os bonitos olhos da octogenária entristeceram, antes de dizer: "Nem me fale nisso! Vim de Angola, em finais de 1974, deixando para trás tudo o que havia ganho numa vida de trabalho. Com o desgosto, o meu marido acabou por falecer pouco depois da chegada ao Brasil. Graças a amigos, consegui mudar a minha vida. Mas olhe! Nunca perdoarei àquela bandidagem que, no nosso país, fez o 25 de abril!"

Não tive a menor coragem para retorquir à senhora que, com o maior dos orgulhos, eu também fazia parte da "bandidagem" que fez o 25 de abril, que essa fora a data que dera a liberdade à pátria de que ela tanto gostava e que esse fora um dos dias mais felizes da minha vida. "Compreendi" a senhora? Claro que sim. Ponho-me no lugar dela e pergunto-me se apreciaria que lhe oferecessem cravos vermelhos... 

Nunca me passaria pela cabeça tentar explicar àquela senhora, tal como nunca o faço quando cruzo outros portugueses que viveram e sofreram esses tempos, que a tragédia da descolonização desordenada foi, como bem dizia Ernesto Melo Antunes, a outra face da tragédia que foi a colonização. E que, por muitas culpas que possam ser atribuídas aos responsáveis políticos que geriram o país logo após o 25 de abril, a responsabilidade maior competirá sempre àqueles que, tendo tido a oportunidade histórica de negociar atempadamente a independência das colónias, não o fizeram, pela cegueira da ditadura que defendiam e nos faziam sofrer - a nós, portugueses, e aos povos dessas mesmas colónias, convém também nunca esquecer.

O imenso respeito que tenho pelo drama que marcou a vida dos "retornados", que sempre afirmo publicamente, vai de par com aquele que não tenho pela classe política que o 25 de abril, em boa hora, derrubou.

18 comentários:

ARPires disse...

Um bonito testemunho que me fez emocionar, tal é a minha semelhança de visão deste assunto.
Subscrevo na integra.
E para continuar a representar-nos lá fora e bem, segundo o meu entendimento destas coisas da diplomacia de que nada entendo, espero que a SIC tenha apostado e acertado com a sua pessoa para um cargo ministerial.
O país agradece, eu e milhares de nós também.

Luís Lavoura disse...

a tragédia da descolonização desordenada foi a outra face da tragédia que foi a colonização

A colonização não foi uma tragédia. Ela foi natural e correu relativamente bem. A colonização enriqueceu Portugal e enriqueceu as colónias. A tragédia foi ter querido postergar a independência por demasiado tempo.

Joaquim de Freitas disse...

Pena foi que os colonos portugueses que mandavam em Angola e Moçambique, Guiné, etc., não tivessem seguido em tempo oportuno o drama da descolonização da Argélia "francesa" e a descolonização exemplar da África Negra francesa feita por De Gaulle.

Se tivessem seguido a descolonização violenta da Argélia, teriam compreendido que após esse drama, as colónias portuguesas seguiriam o mesmo caminho, com o mesmo resultado. Se a França, com o seu poder económico e militar, não pôde "impor" aos argelinos a presença de 1 milhão de colonos franceses, mesmo nascidos lá, Portugal, com a sua fraqueza de sempre não poderia fazer melhor que partir , um dia. Não se impõe uma presença colonial contra a vontade dos povos. Nem os Americanos o conseguiram no Vietname, nem no Iraque.

Permitam que lhes conte uma história que eu vivi . Já como cidadão francês, que o sou desde 1958, fui instalar uma agência da minha firma na África do Sul, em 1970. A firma que seleccionei era dirigida por um Afrikaans , descendente dos Boers, e ferozmente pro-apartheid. Nelson Mandela partia calhaus na ilha de Robben Island. A ANC estava na clandestinidade.

Ao almoço, com um grupo de colaboradores da firma, o proprietário e presidente perguntou-me o que pensava do embargo que a Europa e a África impunham à África do Sul ( South African Airways não podia sobrevoar a África e utilizava a ilha do Sal como escala). e como eu via o futuro do pais. Respondi que depois da descolonização inglesa e francesa da África, o dia viria em que a África do Sul e Portugal seriam obrigados a seguir um caminho idêntico.

Respondeu-me, irritado : Aqui, nunca os Negros dominarão o "nosso" país! Temos aqui ao lado a maior base de aviões Mirage da África. Nalguns minutos limpamos tudo!

Frederik de Klerk e Nelson Mandela acabaram por se encontrar. O meu agente tinha analisado mal a situação. Depois de Bandoeng, a marcha dos povos para a liberdade era inevitável.

Mesmo se isso feriu para sempre a alta estima que os Portugueses tinham para o seu destino de evangelizadores e descobridores, as colonizações que resultaram contam-se nos dedos da mão: Os EUA e a América Latina, ao preço do genocídio do povo ameríndio, e a Nova Zelândia, onde os colonos conseguiram fixar-se após algumas guerras e largas concessões ao povo Maori. Quanto à Australia, os aborígenes, contaram tão pouco...

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Bom Dia Senhor Embaixador

Fala-se em si para Ministro dos Negócios Estrangeiros. Apesar de achar que esta confusão não vai durar muito tempo, desejo-lhe, caso se concretize a nomeação, a melhor das sortes. Ao menos Portugal fica bem representado lá fora, com uma pessoa experiente e sobretudo educada

João Forjaz Vieira disse...

Post bem português: a culpa é sempre de quem está atrás, nunca dos próprios! E na descolonização há uma responsabilidade objectiva, boa ou má, de quem a fez e é muito fácil atribuir enormes responsabilidades concretas, objectivas, a quem a conduziu.
João Vieira

septuagenário disse...

Para Portugal, as colónias e os Retornados, no 25 de Abril "foi o cuspir o bagaço de um citrino azedo".

No 26 de Abril fez-se uma revolução digna de um terceiro mundismo.

Ainda há vergonha de os políticos explicar o que fomos, o que somos e o que podemos ser quando temos esporádicamente políticos sérios.

Sem Marcelo e sem colónias ficamos com a nossa "sarna" própria para nos coçarmos, o resto são desgovernações históricas nossas.

No Brasil, há 40 anos, Ernesto Geisel publicou uma ordem para desburocratizar todas as legalizações de portugueses provenientes de África ou Europa.

Deu ordens para a Marinha e Aviação socorrer as traineiras em fuga de Moçâmedes, Luanda e Lobito que atravessaram o Atlântico às pressas e se perdiam ou ficavam sem gasóleo no meio do oceano.

Geisel inteligentemente, simultâneamente reconheceu a independência de Angola, acarinhou essa octogenária que interpelou o senhor Embaixador (e a minha pessoa) mais o Marcelo Caetano, mais os banqueiros e seus capitais, estes para não serem detidos em Caxias.

É muito desagradável sentirmo-nos excluídos (bagaço) nem que seja por um minuto.

Ser Retornado foi uma "escola de vida" extraordinária, para quem sobreviveu.

Aquela octogenária sentiu-se "cuspida", mas ma realidade era Retornada, nome desconhecido dos que foram para o Brasil.

Cumprimentos

Manuel do Edmundo-Filho disse...

Estava lá nessa noite. Em Luanda. Eu e o meu grupo de amigos, estudantes universitários, todos afectos ao MPLA, decidimos não estar presentes no local da cerimónia, na altura recém-denominada praça 1º de Maio, por razões de segurança, como, aliás, a esmagadora maioria da população de Luanda. A cerca de 30 quilómetros de Luanda, em Kifandongo, travava-se a mais dura das batalhas entre as forças do MPLA (as FAPLA), apoiadas pelo exército cubano, e a FNLA de Holden Roberto alimentada pelo exército da república do Zaire. Ouvia-se em Luanda a artilharia pesada. Não se sabia qual o epílogo dessa batalha. Temia-se que o tenebroso Holden Roberto pudesse entrar em Luanda. A chacina seria grande. O medo era justificado. Esse temor levou a que a população ficasse em casa. Eu incluído. Hoje, lamento não ter assistido a esse momento histórico. Mas, hoje, é um momento histórico que não comemoro.

“É minha impressão ou nestes anteriores comentários há muito saudosismo, muito "Africa adeus"?”

Caro embaixador,

Uma coisa é, quem nasceu ou se conheceu em África, como eu que fui para lá com dois anos de idade, e que lá viveu durante muitos anos (regressei em 77), ter saudades desse tempo que eram, sem qualquer dúvida, “tempos coloniais”, outra coisa é ter saudades do colonialismo. São coisas bem distintas. E em muitos destes comentários, ajuízo eu, há mais saudades dos “tempos colonias” do que do colonialismo. E em muitos deles permanecerá ainda uma réstia de amargura. Porque, talvez, alguns deles, ou os seus pais, “viveram e sofreram esses tempos, que a tragédia da descolonização desordenada foi”, como bem disse.
.../...

Manuel do Edmundo-Filho disse...

Melo Antunes foi, dos militares de Abril, o mais corajoso. Fez o 25 de Abril. Fez o 25 de Novembro e nesse mesmo dia teve a coragem de matar à nascença uma “caça às bruxas” que se adivinhava, ao afirmar que não haveria de democracia se o PCP fosse dela excluído (e hoje, por razões óbvias, é bom recordá-lo). E já no fim da vida, ao contrário de outros que juntamente com ele tiveram papel preponderante na descolonização, teve a coragem de reconhecer que poderiam ter feito melhor descolonização. É a humildade dos grandes.

Subscrevo inteiramente este seu último “post”, excluindo um “senão”, mas da maior importância: “a tragédia que foi a colonização”. Reduzir a colonização a uma tragédia é um grande erro de perspectiva histórica: o Brasil é o que hoje, culturalmente falando, “graças” à colonização. Sem ela o Brasil até poderia ser bem melhor, mas não seria a mesma coisa… você que o diga. As suas fronteiras são o que são hoje, “graças” à colonização. Hoje, os brasileiros orgulham-se delas e, se for preciso, bater-se-ão por elas, mas antes foram os colonos que as desenharam e, em alguns casos, morreram por elas. O mesmo se passa com as de Angola e com as dos outros países (excepto Cabo Verde). Hoje há cerca de 280 milhões de falantes em português e é uma das línguas mais faladas no mundo, “graças” à colonização. Hoje fala-se em lusofonia, com a qual muita gente “enche a boca”, “graças” à colonização. E…, vou ousar dizê-lo por ser historicamente verdade, graças aos colonos! Graças aos colonos. Se se debita, e bem, aos colonos as tragédias da colonização, que as houve e muitas, é inteiramente justo creditar-lhes algumas das suas boas e belas heranças.

“Pode-se ir à Índia sem Vasco da Gama? Talvez possa, mas para um português, não se deve. Não digo tanto “sem Vasco da Gama”, mas “sem Goa”, sem a memória da nossa identidade que lá ficou um pouco enterrada e está a cair aos bocados. Mas mesmo que já estivesse toda no chão, enterrada por desprezos diversos, o lugar está lá, as almas estão lá num canto qualquer a assombrar-nos. A história é assim: não se pode ir à Índia com inocência absoluta, nem aliás os indianos nos responderão com inocência. A história pesa. Não é saudosismo, é respeito por nós próprios que fomos feitos por aqueles homens que por lá andaram à espadeirada, à pimenta, na pirataria, brutos, cruéis, gananciosos, vaidosos, crentes, santos, líricos, o que se queira, mas nossos. Vem nos Lusíadas, que tanto patriota cá da casa gosta de bater no peito, para esquecer quando vê um call center deslocalizado”. Palavras escritas por Pacheco Pereira, a propósito de uma viagem de um presidente da República à India… (em Abrupto 12/01/07)

Peço-lhe desculpa, e aos eventuais leitores, por um comentário tão longo.

Jose Martins disse...

Senhor Embaixador,
Não sei se o nome retornado está exacto ou errado, mas parece-me que o certo seria refugiado. Eu também andei por Angola, Moçambique e terminei na Rodésia ao fim de 16 anos. Considero-me refugiado porque tive de dar às vila-de-diogo, com uma caixa de ferramenta de mecânico, o que era, da Rodésia em Agosto de 1976, porque depois da independência de Moçambique, já não era segura um branco naquelas paragens.
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Em verdade nunca alinhei com o 25 de Abril nem com a tal liberdade que foi concedida aos portugueses. Nasci na ditadura, fiz a quarta classe (e viva o velho!) nas escolas de Salazar (hoje, parte delas, abandonadas por todos os cantos de Portugal), tive sempre trabalho e pão para comer.
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Não tardam 42 anos depois da Revolução de Abril de 1974 e em Portugal há pobreza e um desiquilibrio social, enorme, entre ricos e pobres.
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Os tais arautos da democracia e da liberdade, poliam os assentos das cadeiras das esplanadas de Paris, outros no Norte de África, regressaram a Portugal, inseridos em vários governos (depois de Abril) e não fizeram nada. Governaram-se!
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Fico por aqui e termino: “o latino para ser governado em condições tem que viver com a rédea curta, meia sardinha numa fatia de pão e porrada no costelado”. Levei alguma e só se perdeu as que cairam no chão!
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Eu, o senhor embaixador (não me diga que não...) fomos criados sob a ditadura caseira da época. Correr para casa no principio do toque das avé-marias e entrar pela porta de sua casa no fim da última badalada do sino da igreja tocado pelo sacristão. Era então um Portugal “porreirinho” e lusitano 100%!
Saudações de Banguecoque

Joaquim de Freitas disse...

Interpreto assim, o comentário ,

Do Senhor Mello Breyner ao Senhor Embaixador: - Arrisca-se a ser nomeado MNE. Não o será muito tempo, porque há confusão nesta nomeação. Mas mesmo assim, boa sorte para o Senhor, o que não espero, porque cairá rapidamente, como o governo, que não foi nomeado pelo Rei e, por isso, não é viável.

Ao menos, representará bem Portugal lá fora, porque, ao menos, é experiente e bem educado, o que não era o caso antes.

Joaquim de Freitas disse...

A colonização foi normal! escreve o Senhor Lavoura! A escravatura, os barcos repletos de pobres humanos que seriam vendidos a vil preço no Brasil ou na América, é normal.
Por favor, Senhor Lavoura, não acrescente mais nada ao peso que temos na consciência, ou que devíamos ter todos na consciência.

Uma civilização que se mostrou incapaz de resolver os problemas que suscitou no seu funcionamento é uma civilização decadente. Uma civilização que esquece os seus princípios é uma civilização moribunda. Claro, fugimos e deixamos lá uma elite para governar, "independente", e formada nas nossas universidades! Mas com as nossas manhas e que só pensa em governar-se, como ...os brancos se governaram!!

O facto é que a civilização dita "europeia", a "civilização ocidental" como a modelaram quatro séculos de monarquia e de burguesia , está hoje sob um acto de acusação proferido por dezenas de milhões de homens que, do fundo da escravatura, se erigem em juízes.

A Europa é moralmente, espiritualmente indefensável.

Podia-se matar na Indochina, torturar em Madagáscar, desterrar o Gungunhana para a ilha Terceira, aprisionar em Angola e Moçambique, tratar de "indígenas" os negros, que não eram "cidadãos" , e obrigar os "metropolitanos" a ter um passaporte para ir a Moçambique, uma "província" portuguesa , como se dizia ! Tudo e nao immporta quê!

E um dia, a burguesia acordou estremunhada pelo inevitável choque : eles revoltaram-se. E toca agora a contar a nossa história aos nossos soldados, filhos do povo, para ir defender os proprietários agrícolas que detinham 99,9% das terras e as grandes empresas de comércio e os bancos. Tenho sempre essa imagem da CUF , na Guiné!

Os pequenos, como por toda a parte, nestes cataclismos, são os que mais sofrem : os autóctones e os pequenos imigrantes.
E é aqui que deixo a minha acusação aos pseudo humanistas : de ter durante muito tempo esfrangalhado os direitos do homem, lá como cá, e de terem tido uma concepção estreita , parcelar e parcial e, de facto, sordidamente racista.

Uma colonização nunca pode ser normal, Senhor Lavoura. Impõe-se sempre algo a alguém que não o pediu.

Catinga disse...

Na minha nhurrice fascistoide tenho dificuldade em compreender como é que a traição das FA portuguesas - que abandonaram os portugueses e colaboraram com os "libertadores" na opressão sobre os primeiros -, pode ser culpa dos políticos da ditadura.

Tenho dificuldade em perceber como é que o abandono de posições e a entrega apressada do poder - sobretudo em Angola, onde a guerra estava mais do que controlada (e ganha?) -, foi culpa dos responsáveis da ditadura.

Figuras como o Rosa Coutinho foram responsabilidade do Estado Novo? Só se tiver sido por incompetência da PIDE...

manuelpereirabarros Meira disse...

Ah, a batalha do Cuito Canavale... que pena... não fora isso, ainda mostrávamos à pretalhada quem mandava...

Manuel do Edmundo-Filho disse...

O Joaquim de Freitas voltou... e no seu melhor!

septuagenário disse...

Joaquim de Freitas como a maioria dos portugueses e até de muitos europeus que não sabem uma palavra de umbundo, quimbundo, fula ou mandinga ou zulu ou outra lingua africana qualquer, nem mesmo «angolês» ou crioulo, tentam analisar a história à luz do nosso abrilismo.

Os povos africanos revoltaram-se pela escravatura, e no caso português soma-se ainda a leitura abrilista do anti-colonialismo/salazarismo.

Senhor Joaquim de Freitas, pergunte aos africanos que estão ao longo do mediterrâneo, de Ceuta a Lampedusa e também no túnel da Mancha, pergunte-lhe de que se queixam, e garanto-lhe que se queixam mais do abandono europeu (independências), do que da exploração e escravatura.

Na Guiné, nenhum africano se queixa da CUF (casa Gouveia), os que conheceram CUF queriam era o velho comércio às maneira tuga, mas ... aquele luxo não voltava mais.

Tem muitos guineenses às portas de Ceuta que subiram o deserto.

Joaquim de Freitas disse...

Caro Septuagenário: Não falo essas línguas, mas curiosamente, na escola primária , memorizei as tribos da Guiné, e ainda hoje as sei de cor : Fulas, Felupes, Benhumes, Cassangas, Balantas, Mandingas, Papeis, Manjacos e Biafadas. Para que me serviu? Para nada.

A África evoluiu do colonialismo de conquista ao neo imperialismo económico, no qual vimos a Europa (e hoje a China,) espojar-se nas riquezas imensas do continente. Do petróleo e dos minerais, todos estratégicos, passando pela riqueza da floresta devastada, milhares de milhões de dólares de rendas africanas passam para as contas bancárias na Suíça e no Luxemburgo, ou investidas em apartamentos luxuosos no Estoril, em Paris ou em Londres.

Os Portugueses e os colonizadores europeus em geral, asseguraram a continuidade do saque do continente negro , pondo no poder homens de confiança. E quando não inspiravam confiança, eliminavam-nos : Lumumba, no Congo, Samora Machel em Moçambique, Amílcar Cabral , em Cabo Verde, e outros, antes da independência, pagaram com a sua vida.

A África, para mim, é visível e audível numa história escrita maioritariamente pelos Europeus. A África é um buraco negro no espírito como no mapa. Meio século depois da descolonização, a África resta num impasse: desenvolvimento empanado, situações políticas instáveis, guerras, sida, fome, confiscação das riquezas por uma minoria que sentamos no nosso lugar, desertificação devido ao aquecimento global, crise económica e financeira, rarefacção do petróleo, da água, e dos recursos naturais, corrupção erigida em sistema de governo. A África faz-me mal! Sofro com ela.

Mas é sobretudo o lugar do "homem africano" e do migrante no seio da mundialização que está em jogo aqui. Como explicar que no solo dos recursos naturais entre os mais importantes do planeta vivem os mais pobres da terra?

Sejamos honestos: após quatro ou cinco séculos de presença do homem branco, da sua religião e dos seus princípios, do seu poder económico, qual é a primeira matéria prima da África? A miséria. O mundo inteiro engorda sobre a miséria africana. Da ajuda das nações ocidentais, de alguns milhares de milhões, só 10% chega realmente ao Africano!

A constatação é simples: Se o mundo pagasse as produções e matérias primas a um preço mais equitativo e justo , e participando ao mesmo tempo à redistribuição das riquezas que beneficiam ao maior número e parando de considerar todo um continente pelo contentor de detritos dos seus smartfones, tabletes e outros computadores, a África estaria em bem melhores condições, e não veríamos a fila de migrantes que se estende do sul ao norte até Ceuta.

Hoje, como ontem, os Europeus açambarcam os recursos naturais e vendem-lhes os bens manufacturados. As bugigangas contra o ouro , há séculos atrás. E esta é a essência do colonialismo. Mas Portugal não era o único. Todos os países ocidentais o fizeram. Se os Britânicos foram à África e à Índia, era para assegurar as matérias primas e os mercados.

septuagenário disse...

Podemos não falar línguas africanas, mas podemos falar com africanos, Joaquim de Freitas.

Principalmente dos poucos antigos lusófonos que ainda restam.

Isto para não gastarmos o nosso "latim" mas o "latim" deles, que é isso que interessa, para conhecermos a verdadeira história colonial portuguesa.

A tal colonização atrasada, incapaz e sem desenvolvimento, como universalmente é assumida, mesmo pelos que andámos lá a colonizar (ou a ser colonizados).

Joaquim de Freitas, havia mais sobas e régulos mais salazaristas, do que os nossos presidentes de juntas de freguesia.

E aquela gente tinha a sua sabedoria própria.

LF disse...

É lamentável como se continua a reescrever a história, omitindo factos que muito contribuiriam para um conhecimento mais adequado da realidade. Não pretendo falar de aspectos politicos, mas sim da história. os Bantu sairam da selva equatorial, região esta que é hoje ocupada pelos Camarões e pela Nigéria e dividiram-se em dois movimentos diferentes: para o Sul e para Este criando assim a maior migração jamais vista na áfrica. Os Bantos à região que hoje compreende o território de Angola no Séc. XIII, Caminhando sempre em direcção ao Sul, chacinaram os povos Pigmeus e Koisan verdadeiros habitantes daueles lugaras, a tal ponto que estes foram empurrados para outras regiões: os Pigmeus para zonas marginais da floresta e os Koisan para as chanas do leste e do sul de Angola. A chegada dos Portugueses aconteceu nos fins do Séc. XV. Isto é, um pouco depois do povo Bantu. Se os Portugueses foram colonialistas, então o povo Bantu que ocupa actualmente aqueles territórios é o quê? os movimentos "ditos" libertadores africanos, foram fomentados por potências estrangeiras, como aliás continua a acontecer actualmente.