domingo, 25 de outubro de 2015

Um desespero divertido

O "Observador" é um projeto jornalístico de indiscutível qualidade técnica. No panorama da nossa comunicação social, introduziu novidades e um estilo novo. Alguns bons profissionais davam garantia de um bom produto. E isso confirmou-se. 

Desde o primeiro instante, nunca alimentei a menor dúvida de que o "Observador" havia sido criado para servir de veículo de combate à esquerda, marcado por uma ideologia bastante conservadora, liberal no sentido que a direita dá à palavra. Travar a esquerda, evitar o seu regresso ao poder, denunciar-lhe as fragilidades, destacar as suas contradições, explorar as suas debilidades, lembrar as suas "maldades", escalpelizar o lado negativo das suas figuras - esse era o projeto. Ninguém simboliza melhor esse desiderato do que a evolução do tratamento dado a António Costa, que passou de simpático político urbano ao estado de diabolização que agora sofre. Até no tratamento fotográfico isso se torna evidente. 

A opção ideológica do "Observador" foi sempre mais evidente na "opinião", onde o amável acolhimento pontual de convidados da esquerda (de que o autor deste blogue já beneficou, com grande "fair play") torna ainda mais notória a tendência para a publicação de uma esmagadora maioria de textos de direita pura e dura. Infelizmente, a própria informação, que já teve momentos de alguma neutralidade ideológica, tem vindo a ser poluída, cada vez com maior frequência, pelo viés a que o jornal já se aculturou. 

O público-alvo do "Observador" são as novas gerações, as que hoje usam predominantemente meios informáticos, que leem poucos jornais e até veem menos televisão - embora o "Observador" se "prolongue" com a presença de vários dos seus colunistas pelas colunas televisivas, neste tempo de hegemonia opinativa da direita em todos os canais, desde a "situacionista" RTP às televisões privadas, que já não escondem ao que andam. 

O "Observador" tinha como projeto contribuir para conservar a direita no poder. Tão simples como isto. Ora a direita está prestes a sair do poder e, neste novo cenário, o "Observador" "passou-se"! O tom que as "opiniões" do jornal trazem nos últimos dias, frequentemente num estilo de desespero caceteiro que se aproxima já do paleolítico político, acaba mesmo por ser bastante divertido. Só não recomendo que leiam e se riam porque alguns dos meus amigos políticos mais radicais - para quem o "Observador" é uma espécie de "Diário da Manhã" da ditadura salazarista - nunca me perdoariam. Um deles disse-me um dia: "não digas mal do "Observador" no teu blogue ou no Facebook. Isso é falar dele..."

Mas eu não sou ortodoxo, pelo que não dispenso a consulta diária desse "inimigo de estimação" que é o "Observador". Estar bem atento aos movimentos do adversário é meio caminho andado para se ganhar o jogo... 

7 comentários:

José Alberto disse...

Concordo em absoluto com a opinião expressa pelo Francisco Seixas da Costa. Raramente consigo ler mais do que os títulos, mas também às vezes faço um esforço para ler mais alguma coisa exactamente porque: "Estar bem atento aos movimentos do adversário é meio caminho andado para se ganhar o jogo..." O Sun Tzu é que sabe destas coisas.

Helena Sacadura Cabral disse...

Caro Francisco
O que já me ri com este seu sério post. É que ontem à noite num grupo de amigos - bastante heterogéneo nas ideologias - acabei uma longa conversa política com a lapidar frase " não estejam vocês atentos - de direita ou de esquerda - aos vossos respectivos adversários e nenhum de vós irá a jogo".
O sentido era bem próximo do seu!

Fátima Diogo disse...

Nunca li este pasquim, mas sei perfeitamente que o é pelos artigos partilhados no facebook, dele provenientes, que vou encontrando e leio na diagonal, que o meu tempo é de ouro - foi criado para " conservar a direita no poder" e não o conseguiu, claro, o que é natural : os seus jornalistas são medíocres como o foram em outros orgãos de informaçåo por que passaram e o tom geral é demasiado subdesenvolvido e pouco inteligente para levar atrás de si jovens, adultos maduros ou idosos, por mais desorientados que estejam...

Isabel Seixas disse...

Bem Pensada a estratégia de defesa...
É sempre de bom tom não se fiar na virgem
passos batem portas, jogos de cintura presa
conquistas sem ganho triunfos que só afligem...

aamgvieira disse...

São realmente divertidos os textos que aqui se publicam.

Um oásis de humorismo blasé.

Jaime Santos disse...

Eu acho que é pena que não exista à Esquerda (presumivelmente por falta de meios) algo que faça aquilo que o Observador faz pela Direita, isto é, guerrilha política, debate de ideias, exploração das fraquezas do adversário e por aí a fora. Farto estou eu dos diários e dos semanários pretensamente neutros que servem sobretudos os interesses de quem manda neles. As saudades que eu tenho de 'O Jornal' que tinha uma linha editorial claramente de Esquerda.

egr disse...

Senhor Embaixador: confesso que não sou leitor do "Observador"; todavia porque tenho presente o calibre de quem o dirige é natural que nele se espraiem as mais destemperadas opiniões da direita que, pelo que leio e ouço noutros espaços,está de cabeça perdida; na verdade já não se trata de defender pontos de vista legtimos, mas sim do verter de ódios- que julguei já sepultados- em estilo trauliteiro digno de quaisquer saudosos do Múrias e repectivos admiradores.
Gostaria de deixar aqui uma nota acerca do que me apetece qualificar como falta de vergonha dos responsveis da RTP e da RDP;é o "comentador de politica nacional da Antena 1" Raul Vaz é o Camilo Lourenço,a politogola Marina da Costa Lobo,o André Macedo mais a Helena Matos, e o Manuel Carvalho, mais um tal Pinheiro, e o João Marcelino;. em suma um festival de "pluralismo,e independencia; e isto sem esquecer o escritor Rodrigues dos Santos, e ultimamente até o João Adelino Faria.
Devo dizer que quando li uma refencia favoravel que o Senhor Embaixador fez ao Paulo Dentinho, aquando da sua nomeação para Director de Informação da RTP pensei que as coisas iriam correr bem.
Pura e completa desilução! já tenho idade suficiente e acompanhmento bastante da vida pública para afirmar que não recordo algo de semelhante.
E, quero ainda, dizer que já exprimi, mais que uma vez, no "site" da RTP o meu protesto acerca de tudo que se passa.
Duma dessas vezes responderam-me, remetendo para essa figura de ficção que é o Provedor do Telespectador.
Esta tudo dito!