domingo, 4 de outubro de 2015

José Vilhena

Faço parte dos privilegiados que têm (quase) a coleção completa dos livros que José Vilhena editou antes de 25 de abril. São várias dezenas. Ao folhear alguns deles, fico com aquela sensação de distância que temos ao rever certos filmes antigos. O que nos fazia rir nesses textos de Vilhena, pela ousadia e pela insinuação ambígua, perdeu hoje grande parte da sua graça, ou melhor, só nos faz recordar o que éramos quando os líamos.

José Vilhena era um magnífico ilustrador e descobriu, durante a ditadura, um filão editorial. Os pequenos volumes que misturavam desenhos de "capitosas" (era assim que se dizia) e bem "descascadas" pequenas com a crítica feroz aos costumes hipócritas do tempo, com muito anti-clericalismo à mistura, tornavam José Vilhena um autor muito procurado, simultaneamente, pelos seus ávidos leitores e pela polícia, que fazia devastadoras apreensões dessas obras. O rumor que corria de que "saiu mais um livro do Vilhena!" levava-nos a discretos pedidos de "reserva" nas livrarias e tabacarias por onde passava a sua venda. Trocavam-se os volumes entre amigos (masculinos, claro) e, entre gargalhadas, citavam-se algumas das frases mais sonoras dos textos. Vilhena pagou com várias estadas na prisão a sua ousadia, mas imagino que nenhum dos polícias que o prendeu deixava de se divertir com os seus textos - que hoje seriam considerados machistas, sexistas e homofóbicos, aqui e ali com um toque a rondar a pedofilia, que os tempos de então, como é sabido, não condenavam com o rigor atual. Às vezes ponho-me a pensar que um cidadão português de hoje, na casa dos 20 ou dos 30 anos, deve achar uma "charopada" sem o menor sentido se acaso olhar esses badalados escritos do Vilhena, a que tanta piada achávamos.

Com o 25 de abril, tal como aconteceria com as "revistas" do Parque Mayer, José Vilhena "perdeu-se". De início, a "Gaiola Aberta", a revista colorida que passou a editar nesses tempos de liberdade, teve grande popularidade, de certo modo como aconteceu com a "moda" dos filmes eróticos e pornográficos que então invadiu Portugal. Depois, com o tempo e com o desbragamento da linguagem a que passou a recorrer, Vilhena deixou, pelo menos para mim, de ter o menor interesse. Deixou-se cair num registo ordinário, recheado de palavrões, com os próprios "cartoons" a não escaparem a esse declínio de imaginação, embora não na qualidade de traço, que se manteve sempre excelente, servindo porém "scripts" cada vez mais banais.

José Vilhena morreu ontem, aos 88 anos. Andei à procura de uma sua imagem para ilustrar este post. Encontrei algumas muito curiosas, outras que até brincavam com eleições, o que até dava jeito. Optei, porém, por uma bem antiga que, a meu ver, representa muito bem um certo Portugal dos anos 60 ou 70, de que José Vilhena foi um extraordinário retratista.

7 comentários:

Anónimo disse...

Partilho a sua opinião.
Também eu tenho muitos livros do José Vilhena, alguns mais antigos comprados em 2.ª mão.
E também acho que o 25 de Abril de 1974 não lhe fez nada bem.
A partir daí foi sempre a descer, cada vez com menos piada.
José Vilhena foi um fogacho de liberdade quando tudo era cinzento e proibido.

Anónimo disse...

Vilhena demonstrou a imaturidade dos dois regimes: rir de si mesmo!

Portugalredecouvertes disse...


quererá dizer que para se dar valor a algo, tem de existir o seu contrário?!
ui, ui!

bom domingo
Angela

Anónimo disse...

Nos anos 60/70 tive uma Tabacaria no centro de Lisboa. Vendi milhares de obras do Vilhena. Havia uma lista dos clientes habituais, para quem se reservavam os exemplares. De vez em quando, lá aparecia a PIDE e levavam alguns exemplares, porem poucos, já que entretanto os clientes estavam fornecidos... Também foi por isso que subi as escadas, por duas vezes, da António Maria Cardoso para interrogatório na sequência dos autos de apreensão. Conheci-o pessoalmente, mas não sabia do seu estado de saúde. Paz à sua alma.

Anónimo disse...

Que descanse em paz - foi um Homem c/ H grande!

Reaça disse...

A fonte de inspiração de autores, cantautores, poetas castrados e outros iluminados, humoristas e revisteiros já repousava há mais de 5 anos, serenamente, em Santa Comba, quando se deu o episódio do 25 de Abril.

Anónimo disse...

Seria injusto não recordar aqui a tese de mestrado de Rui Zink, posteriormente editada em livro em 2000, sob o título "O humor de bolso de José Vilhena". Como se comprova, José Vilhena após o 25 de Abril manteve o interesse, quanto mais não seja o da investigação.