domingo, 25 de outubro de 2015

José Sócrates


José Sócrates decidiu ocupar o espaço público, na defesa pessoal do seu caso. Tem esse direito, em particular por ter sido vítima, no último ano, de quebras escandalosas do segredo de justiça que, claramente, condicionaram a opinião pública em seu desfavor, sem que, até ao momento, tenha sido formalmente acusado, não obstante ter permanecido vários meses detido.

Sócrates, com uma esperada violência verbal, volta-se contra o que entende ser o conúbio entre alguma comunicação social - oportunisticamente inscrita como "assistente" do processo, apenas para poder colher informação constante do mesmo - e uma magistratura que a utilizou para legitimar, a montante da acusação, a privação de liberdade do antigo primeiro-ministro. No fundo, Sócrates dá a entender que existe como que uma "vendetta" corporativa contra ele, instalada em ambos os setores.

O atraso na produção de uma acusação legitima que José Sócrates possa continuar a protestar a sua inocência e a invocar, como agora o fez, a plenitude dos seus direitos cívicos. 

Devo dizer que, depois do que se passou neste último ano em relação a José Sócrates, alimento já alguma dúvida sobre a validade absoluta do mote "à política o que é da política, à justiça o que é da justiça". Se não for em sede política que se discutem as eventuais discricionariedades da justiça, onde poderemos fazê-lo?

Mas também não deixo de compreender a relutância do Partido Socialista de fazer um "casus belli" deste tema específico, por muito que isso custe a José Sócrates. Não sei mesmo se este último ganharia alguma coisa se o seu partido viesse a assumir as suas dores. Como é sabido, este é um tema que parece dividir o PS, cujo recente curso político não deixou de ser subliminarmente marcado pela sorte do seu anterior líder. Porque, por muito que alguns amigos de José Sócrates possam não concordar, é uma evidência que a sua sombra continua a projetar-se sobre o partido de que é militante, num sentido que, nos dias de hoje, está longe de ser positivo. 

Uma coisa tenho por clara: a menos que estejamos perante uma monstruosa mistificação organizada por um sistema de justiça vingativo e irresponsável, o caso Sócrates não configura uma questão simplesmente política. Por isso mesmo, julgo que José Sócrates faria melhor em evitar paralelos com casos de outras figuras que, em diferentes paragens, se defrontaram ou defrontam com a privação da liberdade, por motivos quer relevam de delitos políticos ou de opinião. A invocação que ontem fez do caso Luaty Beirão, o jovem detido em Angola, foi muito infeliz.

8 comentários:

Manuel Rocha disse...

Comento sobre a última frase do seu texto.

A menos que não tenhamos ouvido as mesmas declarações de JS sobre a questão em apreço, o que me parece é que a questão suscitada não compara nada com nada; limita-se a dizer que um Estado que administra a Justiça como o faz o nosso, perde autoridade moral para comentar as práticas alheias. E a menos que me consiga demonstrar que esta ilação não tem fundamento, sinto-me claramente tentado a concordar com o que disse JS e a discordar da sua conclusão.

Cordialmente,

MRocha

josé neves disse...

"..., é uma evidência que a sua sombra continua a projetar-se sobre o partido de que é militante, num sentido que, nos dias de hoje, está longe de ser positivo."

E como se pode saber se, precisamente, não é a falta de discutir e abrir à opinião pública, no caso tão arrevesado aos zigue-zagues incompreensíveis racionalmente, a política da justiça que neste caso produz/deixa produzir esse tal sentido negativo na opinião pública-publicada?
No estadio actual deste processo que deambula da Venezuela a Angola passando por todo o lugar onde passou Sócrates como quem anda à caça pelo mundo inteiro onde o "suspeito" esteve ou para onde telefonou, já me parece mais próprio fazer o que faz Sócrates, coerente e corajosamente, do que enfiar a cabeça e mergulhar nas águas insípidas e inodoras do politicamente correcto, "à politica o que é da política e à justiça o que é da justiça."
Porque, como se vê, nesta postura séria mas cómoda neutral de julgar a justiça cega enquanto ela nos faz sentir que afinal tem apenas o olho direito cego, somente favorece a imprensa desonesta alinhada que atira às malvas a neutralidade e seriedade.
Também do resumo dado ontem à noite na TVi, não ouvi qaisquer referência ou paralelismo com o caso angolano com que os anti-Sócrates "ponderados" logo se lançaram para atirar farpas a Sócrates.
Aliás como o faz, também aqui, o Senhor Embaixador.

Ana Coucello disse...

Neste caso estamos de acordo! E sim, é necessário que quanto antes haja um sério debate político sobre a arquitectura judicial e o exercício do poder de investigar e de julgar.

septuagenário disse...

Sócrates fala tanto que está a criar uma imagem semelhante ao caso de Carlos Cruz.

disse...

Dizer que a referência a Luaty Beirão foi infeliz é não dizer nada.
Pobre Sócrates.
Como diria a minha avó, "deixai-o falar que ele calar-se-à".
Esperemos que não tarde muito.

Manuel Rocha disse...

Volto ao cometário para lamentar que o autor do post entenda que a afirmação com que termina o seu texto não carece de fundamentação.

ARPires disse...

A frontalidade de José Sócrates é a mais valia que ele tem e demonstra ter, e, que não reconheço em muitas gradas figuras que deambulam pelos corredores do poder.
Hoje é que eu entendo o quanto é vantajoso ter um curso de direito.
José Sócrates até pode estar enterrado até às orelhas no lodaçal que é este pântano chamado de Portugal, mas aquilo que lhe fizeram não se faz a um sem abrigo.
Investigavam, acusavam e julgavam.
Culpado então iria pagar por isso.
Só gente sem escrúpulos é que foi capaz de tais desmandos justicialistas.

Um Jeito Manso disse...

Leio com um certo desconforto estas suas palavras, Embaixador.

Portugal não se porta bem ao prender durante quase um ano uma pessoa sem que se saiba de que a acusam. Sócrates não se comparou a Luaty Beirão, disse que Portugal deixa a desejar em matérias de justiça - e tem razão.

Mas, seja como for, Sócrates foi condenado? Foi julgado? Foi acusado?

Então como nos poderemos pronunciar sobre o seu direito à indignação? Como poderemos pronunciar-nos sobre a matéria de que, eventualmente, será culpado se ainda nem acusado foi?

Sobre este assunto escrevi lá no meu blog e, porque o refiro a si, acho que devo dizer-lhe do meu desconforto também aqui.

Receba, Embaixador, os meus cumprimentos.