quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Apodos


Hoje, um amigo mandou-me um SMS em que falava dos meus "correligionários". Devo dizer que adoro este tipo de linguagem geracional, muito distante daquilo que hoje é vulgar ver publicado na imprensa dos nossos dias. Lembro-me de quando era vulgar utilizar a palavra para qualificar quem pensava politicamente da mesma forma.

Vivi ainda o tempo da ditadura, quando o mundo se dividia entre os que eram da "situação" e os do "reviralho" ou, para alguns setores pouco politizados, designar alguém que se sabia comunista como tendo "ideias avançadas".

Mas o que mais me diverte, ainda desse tempo antigo, são os apodos, as "alcunhas afrontosas", como vem nos dicionários.

Ainda me recordo de ouvir republicanos "ferozes" designar os monárquicos por "talassas" e os envolvidos na aventura restauracionista da "monarquia do Norte" como os "trauliteiros".

Da linguagem da oposição à ditadura, fazia parte, por exemplo, chamar os republicanos históricos que se tinham exilado em Espanha e França como os "Budas". A Mocidade Portuguesa era "a Bufa" e os seus membros os "piolhos verdes"(1). Tratava-se depreciativamente o pessoal do regime como "fachos" ou "reaças"(2), com os mais radicais, já nos anos 70, a serem qualificados de "ultras"(3). Mas também usar o "esquerdalhos" (4), num tom um tanto condescendente para a generalidade do "povo de esquerda" ou o sonoro "emieles" para qualificar a generalidade dos grupos "marxistas-leninistas" (maoístas). Ou ver a extrema-esquerda pronunciar o termo "revisas" (para "revisionistas") ou "social-fascistas"(5) para mimosear o PCP.

Depois do 25 de abril, a direita passou a tratar os comunistas como "comunas" e os socialistas como "chuchas".

Acho muito graça a esta terminologia política depreciativa. Alguém se lembra de mais?

ps - Prometo atualizar o texto com as contribuições criativas (mas não com as simplificações, tipo "anarcas" ou similares)
(1) contribuição de Maria Amélia Clemente Campos
(2) contribuição de Victor Figueiredo
(3) contribuição de Victor Figueiredo
(4) contribuição de João Freitas
(5) contribuição de Nuno Roby Amorim

4 comentários:

João Pedro Garcia disse...

Até 1980, ano em que morreu, a minha avó sempre tratou os comunistas por bolchevistas. O Doutor Azeredo Perdigão tratava os da esquerda em geral por vermelhuscos - ouvi-o eu numa entevista à televisão, ainda esta era a preto e branco, no tempo do General Eanes, salvo erro.

Um abraço

JPGarcia

Luis Miguel Correia disse...

Na Marinha, o ministro e depois presidente era o "Pai Tomás" e as suas meninas a "Fataça" e a "Bicuda", nomes de duas lanchas de fiscalização das pescas.

Francisco Baptista disse...

Durante as guerras liberais no sec. xix, os miguelistas chamavam aos liberais os "malhados" e estes "corcundas" aos soldados miguelistas (lido na BD "Almeida Garrett e a cidade Invicta" de José Ruy).
Cumps

Francisco Teixeira disse...

E os "melancia"? Verdes por fora mas encarnados por dentro.
Cumprimentos
Francisco F. Teixeira