sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Os indecisos



As eleições não se ganham apenas com os votos dos militantes e dos simpatizantes ferrenhos. PS e PSD têm, cada um, uma percentagem basicamente similar de votantes garantidos (que alguns dizem rondar 22-25%, cada um). Essa quase metade do país votante, em princípio, “não mexe”, não depende dos líderes que os partidos tiverem, tem um estado de alma “clubista”. Não é a eles que se destinam as campanhas eleitorais. Tenho a certeza de que muitos leitores, qualquer que seja a sua “lateralização” política, reveem-se neste retrato.

Descontados os votantes regulares em outros partidos menores, as campanhas são conduzidas com vista a seduzir um número de pessoas bem inferior a metade do eleitorado, os quais, como diz um amigo meu, “é afinal quem manda no país”. É a flutuação de voto dessas pessoas, de quem se move alternadamente nas duas direções, que faz a diferença: derrota uns e elege outros. É nestes “swinging voters” que estarão os muitos indecisos que as sondagens revelam. Porquê tantos? Cada um terá a sua explicação, eu tenho a minha.

Desde logo, porque há muita gente que não quer reeditar a experiência deste governo e lhe recusa o voto. Gente que não esquece o que se passou: os cortes a torto e a direito, o desemprego, a emigração, a permanente instabilidade na sua vida e dos seus, a arrogância, legislativa e não só. Gente que olha para o nível da nossa dívida e, agora também, para o défice e, com razão, duvida que tenham valido a pena os sacrifícios feitos. Gente que não compra o discurso de que “Portugal está melhor, embora os portugueses possam estar pior”. Gente que percebe que é a Europa que aqui induz esta aparente acalmia, vendida como melhoria virtuosa. Gente que preferirá abster-se a votar nesta maioria.

Mas, se assim é, por que é que essas pessoas não decidem optar pelo PS, a única real alternativa à coligação?

Porque o PS, causticado pela imagem de um passado, que um conjunto de fatores acumulados impediu de explicar devidamente, optou por fazer uma campanha sem um mínimo de demagogia, assente num grande sentido de responsabilidade. E na verdade. O “cenário macroeconómico” e o programa do PS não trazem mudanças entusiasmantes? Talvez, mas trazem políticas que rompem com a austeridade sem romper com os compromissos e indiciam medidas para um futuro de crescimento. Medidas quantificadas e não ideias vagas, como acontece do outro lado do espetro político.

É aos indecisos que cabe entender que, no dia 4 de outubro, mais do que uma eleição, estarão perante um plebiscito: serão eles a decidir se querem repetir a experiência de uma governação que lhes infernizou o passado recente ou se pretendem uma mudança moderada, titulada por um líder com provas dadas, que recusa ser “económico com a verdade”?


(Artigo que hoje publico no "Jornal de Noticias")

10 comentários:

Jaime Santos disse...

Não deixa de ser irónico que o programa do PS tenha sido escrutinado até a exaustão ao mesmo tempo que o programa da Coligação não seja de todo discutido e sejamos remetidos para o PEC em Bruxelas. Isto é mérito de Passos e Portas, mas mostra igualmente que nestas situações o ónus da prova está nos ombros do 'challenger'. Aparentemente, as pessoas estão cansadas da presente Governação, mas de algum modo habituaram-se a ela e como as coisas não parecem muito más, têm receio de mudar, até porque, como diz, o programa de Costa não pode entusiasmar ninguém, dado o seu conservadorismo em termos de metas. Mas creio que terá que ser assim no futuro e o mesmo se deverá aplicar a toda a Esquerda, já que o seu eleitorado cresceu com a crise e já não acredita só em retórica (tirando talvez o núcleo irredutível de cada partido).

Fernando Correia de Oliveira disse...

"o PS, causticado pela imagem de um passado, que um conjunto de fatores acumulados impediu de explicar devidamente" é uma frase típica de um PS que continua a não assumir os erros do consulado Sócrates, que levou Portugal à bancarrota. Costa não convence os indecisos nem o país. E eu, voto nulo.

Joaquim de Freitas disse...

Os indecisos encontram-se dos dois lados do espectro político. E é bem verdade. E a razão é simples: o nosso regime não é claramente uma "democracia".

Estamos antes numa oligarquia (porque são sempre as mesmas pessoas que nos dirigem: profissionais da política que correspondem a um meio social homogéneo), numa plutocracia (porque são sempre pessoas duma classe "aisée" para não dizer abastada que nos dirigem, nunca os pobres) e numa aristocracia (só aqueles que são considerados como "os melhores" para governar, determinados pela eleição, obtêm o poder: a direcção efectiva dos assuntos públicos não é a função de todos os cidadãos mas somente duma elite, uma categoria de indivíduos cujo papel, "métier", interesse, é de dirigir os outros, criando assim uma divisão fixa e estável da sociedade política entre dirigentes e executantes.

Temos assim um regime que acorda na realidade mais representantes às classes superiores e que por conseguinte não introduz a igualdade social entre os cidadãos ( segundo a classe a que se pertence não somos tão bem representados).

Este sentimento pode levar a uma abstenção elevada. Os indecisos podem ser os maiores abstencionistas.

Anónimo disse...

Sr. Embaixador,

Quando eu andava no liceu e era confrontado com aquelas questões por parte dos professores em relação às quais eu não estava muito seguro de que os meus conhecimentos pudessem resultar numa resposta correta, tinha uma estratégia que assentava na técnica de iniciar a minha resposta por "é um conjunto de..." muitas das vezes a técnica 'colava' ou, pelo menos, era suficiente para 'passar a bola' sem ficar muito mal no 'figurino'. Dito isto, será que pode materializar melhor o "conjunto de fatores acumulados"?

Nuno de Santamaria

Anónimo disse...

"Essa quase metade do país votante, em princípio, “não mexe”, não depende dos líderes que os partidos tiverem, tem um estado de alma “clubista”."

Algo que não se compreende. Ambos os partidos têm tido verdadeiras nódoas como Presidentes ou SG. Como é que é possível haver metade dos eleitores tão fiéis. Só pode ser masoquismo puro.

Manuel do Edmundo-Filho disse...

Acusado (e matraqueado) pela frente de direita (PSD, CDS, Observador “I” afins) de irresponsabilidade ao deixar-se seduzir por aquela onda “syrisista”, o PS teve a (excessiva) preocupação de apresentar um programa que mostrasse e provasse exactamente o contrário. E o que apresentou (já demasiado tarde, depois de deixar a coligação instalar a ideia de que o PS de Costa, afinal, não tinha propostas) foi um programa, efectivamente, sólido, assente num cenário macroeconómico credível, com medidas devidamente quantificadas e que mostrava à saciedade ter o PS, afinal, um grande sentido de responsabilidade. Mas o que sobejou em sentido de responsabilidade, faltou-lhe, exactamente, em entusiamo e… no abrir de uma janela por onde entrasse um ventinho de esperança. Ou seja, um sólido programa, mas cinzento…

E dentro das medidas quantificadas, uma estava bastante polémica e que surpreendeu tanto à direita, como à esquerda, como… ao centro. A diminuição temporária da TSU. Esta medida, se não minou a credibilidade do programa, diminuiu, seguramente, o impacto que o programa teria sem ela. Com esta medida, o PS levou (e leva) pancada de todos os lados. Ou seja, um programa credível, mas com uma medida no mínimo questionável num ponto, hoje em dia, nevrálgico – o da Segurança Social.

Quanto à campanha, e não é de agora, nunca percebi por que é que o PS só se preocupa em dar luta à direita e não faz um combate ideológico aos partidos à sua esquerda (PC e Bloco) de quem, aliás, tem sido vítima. O PC abriu as portas a doze anos de cavaquismo ao votar uma moção de censura a um governo de Soares. O mesmo PC, juntamente, com o Bloco, com a recusa do PEC 4, escancaram as mesmas portas à troika e à coligação. E o PS mostra-se incapaz de explorar a inegável responsabilidade destes dois partidos no advento da direita ao poder e deixa-os, assim, subir eleitoralmente à sua custa. Não entendo.

Helena Sacadura Cabral disse...

Meu caro Francisco
Se o problema fosse apenas de comunicação não haveria tantos indecisos. Aliás, a populaçao votante aproxima-se de metade da população do país. O que já prova alguma coisa.
O problema, para mim, reside na dúvida que muitos indecisos têm sobre se o PS teria governado o país de forma muito diferente para alcançar resultados semelhantes.
Esse é que é o nó górdio da questão. Porque, mesmo analisando ao pormenor o programa PS/Centeno, creia que há gente séria que desejando esclarecer-se, fica com muitas dúvidas.
E, na dúvida, votam no conhecido ou não votam. Os portugueses podem ter muitos defeitos, mas as suas qualidades mereciam políticos bem melhores do que aqueles que têm tido!

Anónimo disse...

"Um líder com provas dadas , onde ?

No MAI ? No processo Casa Pia? Na CML ? no PS ?

Anónimo disse...

Com a devida vénia:

"O programa da coligação explicado aos terminalmente distraídos (os media conhecem-no, só fingem que não)"
por José Mendonça da Cruz, em 24.09.15, Blog "Corta-fitas"

Anónimo disse...

O que se avalia nesta eleição:
Impostos: IRS e IVA a subir. COELHO. MENTIRA. Cortes nos vencimentos e pensões. PORTAS. MENTIRA. Irrevogável. Submarinos. Emigração: 500.000. RELVAS. MENTIRA. Vendas: TAP, EDP, Tranquilidade, CTT, Carris, Metro. CRATO. MENTIRA. Perda de direitos laborais. Desemprego. Ataque à escola pública. BES. Taxas moderadoras. CAVACO. MENTIRA. Ordenado mínimo generalizado. MARIA LUÍS. MENTIRA. Encerramento de serviços públicos. Estaleiros de Viana para amigos. TEIXEIRA DA CRUZ. MENTIRA. Citius. Tecnoforma. Dívidas à segurança social. Ataque ao Tribunal Constitucional. MOTA SOARES. MENTIRA. Pobreza. Penhoras. Perda de casa. Além da Troika. Retirada da dignidade das pessoas. BALSEMÃO. MENTIRA. Controlo da comunicação social. Observador. Vistos gold. Dinheiro sujo. Dívida. Déficit.
É mais disto que queremos, com Coelho e Portas?
Quem acha que não, só tem um caminho. Votar em quem possa de facto governar resgatando a dignidade das pessoas. Não ficar em casa e não desperdiçar o voto em quem não possa constituir governo ou apresente propostas irrealizáveis.

David Caldeira