terça-feira, 15 de setembro de 2015

Os dias da Europa

1. Não surpreende surpreende o impasse ontem verificado na reunião ministerial de Bruxelas, que não aprovou o acolhimento do número suplementar de 120 mil refugiados, como era proposto pela Comissão europeia. As posições conhecidas dos governos europeus iam nesse sentido. Como um responsável francês dizia há pouco, por cada hora perdida sem acordo perdem-se muitas vidas. Esperemos que não se percam muitas mais.

2. Saúde-se a posição solidária do governo português na matéria. E não quero seguir a irónica ideia, de uma pessoa que me é próxima, que acha que o executivo português só assim atua porque segue a posição alemã.

3. A generosidade alemã no acolhimento dos refugiados tem sido notável. Angela Merkel terá agarrado esta oportunidade para colocar a Alemanha do lado certo da Europa, como que tentanto desfazer a ideia de um país "sem coração", que ficara dos debates mais acesos sobre o caso grego. Ser um país rico ajuda, claro. Mas o facto da sociedade civil a seguir prova de que é para isso mesmo que os líderes servem: para liderar.

4. Percebe-se perfeitamente que a Alemanha tenha invocado as cláusulas de salvaguarda que Schengen permite para controlar os fluxos de refugiados. Acolher significa também poder organizar o acolhimento e isso obriga a certos controlos, que não são incompatíveis com a generosidade. Berlim não colocou em causa Schengen, como Sarkozy preconiza em França, apenas usou, com naturalidade, as cláusulas apropriadas.

5. Expectável, no seu pior sentido, foi a posição dos países de Visegrado (com a Polónia mais "nuancée") e outros Estados do centro e Leste da Europa. Sei bem que não é saudável, para o bem-estar intra-europeu, estar a estigmatizar países. Mas é importante que fique clara a posição de quem tem na Europa uma atitude humanista, à altura das grandes tradições do continente, e de quem a não tem, recriando agora para outros os "muros" que denunciou, e bem, no passado.

6. Sabiam, por acaso, que no anonimato cobarde das redes sociais de muitos desses países, circulam graçolas xenófobas,que se congratulam e ironizam com a morte de Aylan, a criança curda que morreu na praia grega? Sabiam que a maior parte da imprensa desses países "escondeu" até onde pôde a foto de Aylan, nalguns casos recusando-se a publicá-la, porque  podia gerar sentimentos contrários a orientação dos governos? Sabiam que estão em vigor em alguns desses países instruções para as televisões não filmarem crianças e mulheres refugiadas, privilegiando homens jovens com aspeto de emigrantes económicos? 

7. Não obstante, foi arrogante e inaceitável a atitude do ministro alemão do Interior, "ameaçando" com os corte dos fundos estruturais aos Estados que não acolham refugiados. Concordo que a atitude desses países está a ser miserável e indigna, porque negam agora solidariedade a alguns quando antes a receberam de outros, mas não quero uma Europa cujas regras podem ser subvertidas e ditadas por um ministro alemão. Principalmente do Interior.

8. Devemos manter-nos muito atentos ao debate sobre o futuro do acordo de Schengen, que é inevitável. A filosofia europeia que enforma a nossa postura na ordem externa, a que não são alheias considerações que relevam da nossa particular posição geográfica, do facto de sermos origem de migrações económicas e de possuirmos uma diáspora que tem toda a vantagem na livre circulação europeia deve obrigar qualquer governo nacional a estar na vanguarda da defesa desse importante princípio. 

15 comentários:

Jaime Santos disse...

Sr. Embaixador, eu lamento mas há muito que as regras na Europa são ditadas por Ministros Alemães. Costuma no entanto ser o Ministro das Finanças...

Anónimo disse...

Palavra de honra que gostava de saber quais são as grandes tradições humanistas da Europa:

- o antissemitismo?
- o colonialismo?
- a intolerância religiosa?
- a intolerância étnica?

Um continente que é uma manta de retalhos onde dificilmente se passou um ano sem que houvesse uma guerra qualquer...

O Séc. XX, então... que maravilhoso exemplo de tolerância!

Carlos correia disse...

Sr.embaixador
Não posse estar de acordo com o seu pos....e todavia sou um fam da sua prosa.
Desde a muito que e a senhora chanceler que dita o que o resto da Europa deve fazer
Diz o Sr.Embaixador a atitude positiva do governo Português.....
Também não estou de acordo,pois como sabe ,duvido muito que a sensibilidade social do 1 Ministro seja o que apregoa ....é porque?
Basta ver o que fez aos mais nessecitados em Portugal para dai tirarmos a conclusão final.

Defreitas disse...

O Senhor Embaixador apresenta um quadro bastante realista da situação. Creio que alem da imagem "cinzenta" da Alemanha, e o "retrato" do "gauleiter" Schauble,que Frau Merkel pretende "apagar", existe também o facto que a Alemanha retirará grandes benefícios duma massa de mão de obra barata que o patronato alemão aceita com prazer. Nestes últimos tempos havia protestos contra a subida do nível dos salários e sobretudo depois da introdução do salário mínimo.

O problema da demografia será também mais fácil de resolver com um afluxo de homens jovens, muitos dos quais prontos para trabalhar, porque educados ou formados em profissões onde hã necessidade de braços.

Resta a saber como vão reagir os alemães no quadro das negociações salariais do Outono, porque muitos consideram já que existe a possibilidade do patronato utilizar esta alavanca dos migrantes para sustar a tendência da escalada salarial.

Para os resgatados do Mediterrâneo resta o Eldorado que será cada vez mais difícil a atingir.

Bartolomeu disse...

Quem visita Berlim, encontra ainda em alguns pontos da cidade, troços do antigo muro que dividia a cidade... oriental... da ocidental - são memoriais de um periodo da História muito viva ainda na memória do povo alemão. Será que os alemães terão, num futuro próximo, de reerguer esse muro?

Anónimo disse...

Texto redigido dentro das redacções poiitícamente correctas, a tapar o sol com a peneira.

O assunto ultrapassa os costas , os coelhos, os sampaios, os cavacos, os soares, os nóvoas, etc, etc,.......

O problema deve-se simplesmente á questão religiosa que enferma a Europa face aos muçulmanos.

Quem resolve ?

Pode responder ?

As susceptibilidades são um aborrecimento......

Anónimo disse...

Já Bocage dizia:

O Leão e o Porco

O rei dos animais, o rugidor leão,
Com o porco engraçou, não sei por que razão.
Quis empregá-lo bem para tirar-lhe a sorna
(A quem torpe nasceu nenhum enfeite adorna):

Deu-lhe alta dignidade, e rendas competentes,
Poder de despachar os brutos pretendentes,
De reprimir os maus, fazer aos bons justiça,
E assim cuidou vencer-lhe a natural preguiça;

Mas em vão, porque o porco é bom só para assar,
E a sua ocupação dormir, comer, fossar.

Notando-lhe a ignorância, o desmazelo, a incúria,
Soltavam contra ele injúria sobre injúria
Os outros animais, dizendo-lhe com ira:

«Ora o que o berço dá, somente a cova o tira!»
E ele, apenas grunhindo a vilipêndios tais,
Ficava muito enxuto. Atenção nisto, ó pais!
Dos filhos para o génio olhai com madureza;
Não há poder algum que mude a natureza:

Um porco há-de ser porco, inda que o rei dos bichos
O faça cortesão pelos seus vãos caprichos."

Anónimo disse...

Embaixador, o Orban já não é o unico, olhe o que diz o Premir da Eslováquia. Bem estes são os que tem coragem de falar, agora junte a tudo isto o que não tem essa coragem e os que dizem uma coisa, mas bem lá no fundo acreditam noutra bem diferente.

Anónimo disse...

Uma "pérola de inteligência":

"O vice-presidente do Banco Central Europeu (Vitor Constâncio) admite que as taxas de desemprego são elevadas e defende que os imigrantes são vitais para manter a força de trabalho."

A qualquer "preço" para as raízes religiosas da Europa do Atlântico aos Urais ?

Joaquim de Freitas disse...

Enquanto diversos países da Europa fecham o cerco e negam a entrada de refugiados da Síria e de outros países, a Finlândia procura ampliar a sua capacidade de acolher os imigrantes. O ministro das Finanças do país apresentou, na última semana, uma proposta para aumentar o imposto de renda da parcela mais rica da população para angariar recursos e, assim, poder oferecer asilo a mais pessoas.

Denominada “imposto da solidariedade”, a proposta faria com que o país pudesse receber um número dez vezes maior de pessoas. No ano passado o país recebeu, ao todo, 3,6 mil pedidos, enquanto somente este ano já foram 30 mil.

Com o aumento dos impostos dos mais ricos, o país conseguirá equilibrar as contas, já que o aumento do fluxo migratório deve custar aos cofres públicos finlandeses cerca de 114 milhões de euros .

Essa não é a primeira vez que a Finlândia sinaliza solidariedade para com os refugiados. No início do mês o PM finlandês Juha Sipila disse que colocaria a sua casa no norte do país à disposição dos refugiados.

A xenofobia é um sentimento doentio que avilta aquele que o ressente. Mas isso não concerne só as pessoas vindas do estrangeiro. A generosidade, o acolhimento, a bondade, a caridade são virtudes culturais, que, portanto, se cultivam. Imaginar que se podem introduzir por decreto e mesmo exigi-los de quem não está pronto ou convencido é absurdo, e mesmo injusto, e constitui uma rendição sem condições à ideologia globalista do consumismo do pensamento único liberal.

Pulsao profunda, antropologica, que mesmo os médias não conseguem conter ou dirigir. Se não reagirmos contra essa tendência, teremos banhos de sangue e massacres duma amplitude nunca vista na História. Também é verdade que nunca vimos na História uma sociedade à deriva como hoje, aparentemente sem alternativas.

Anónimo disse...

Das crianças cristãs assassinadas na Síria....não interessa a laicos e socialistas...só as outras, talvez um dia seja tarde!

"pela boca morre o peixe"

Anónimo disse...

"A generosidade, o acolhimento, a bondade, a caridade são virtudes culturais, que, portanto, se cultivam. Imaginar que se podem introduzir por decreto e mesmo exigi-los de quem não está pronto ou convencido é absurdo, e mesmo injusto" e constitui uma rendição sem condições à ideologia globalista do consumismo do pensamento único liberal."

Pior é a xenofobia religiosa e mental classista de países medieviais, aos quais não podemos deixar que contaminem a Europa !

"rendição sem condições à ideologia globalista do consumismo do pensamento único liberal."

Por trás da ideologia globalista está o capitalismo da Nova Ordem Mundial Maçonica que se está nas tintas para a destruição da cristandade das nações europeias, aproveitando a xenofobia medieval do médio oriente.

Anónimo disse...

A ler:

"Ruínas"
Paulo Tunhas, no Observador.

Joaquim de Freitas disse...

Ao anonimo das 16:04: O emprego da palavra "cristã" nem sempre constitui um argumento de valor humano ou moral. As crianças, qualquer que seja a sua religião são sempre crianças. Para mim, fico tão revoltado quando os cristãos assassinam as crianças palestinianas em Sabra e Chatilla, como quando são os muçulmanos que assassinam outras crianças , cristãs ou outras, na Síria ou no Iraque.

Joaquim de Freitas disse...

Ao anonimo das 16:58:



O Cristianismo tem as suas páginas negras nos livros de História, de Roma a Jerusalém, passando por Constantinopla, comparáveis àquelas que cita sem as nomear. Não creio que as religiões tenham exercido na Europa a influência que esperávamos, no bom sentido. O século passado foi o século do terror e da chacina no nosso continente, que o Cristianismo acompanhou sem interferir.

Nesta mesma Europa, impregnada de religiões e de filosofias, o progresso técnico exaltado pelo cientismo pode assim também servir para matar: é o que ensina a Primeira Guerra Mundial que, com os seus oito milhões de mortos e os seus seis milhões de inválidos, décuplou a angustia do Velho Continente. Com a Grande Guerra, o fantasma decadente assombra mais que nunca a Europa. E depois veio a Segunda, para confirmar. E porquê?

Porque a Europa, traumatizada pelos corpos mutilados, a miséria e aterrorizada pela propagação da Revolução Russa, enterrou-se no ódio – contra o estrangeiro, o homem político, o comunista, o Judeu.

Hoje é contra o Muçulmano.

Pensamos todos que o progresso técnico saberia dominar as perturbações trazidas à vida em comum pelas pulsoes humanas de agressão e de autodestruição. Mas enganamo-nos.