quarta-feira, 2 de setembro de 2015

O adversário

O curioso debate ontem entre Catarina Martins e Jerónimo de Sousa constatou uma realidade insofismável: o verdadeiro adversário que ambos se propõem abater é, como já se suspeitava, o Partido Socialista. 

Amáveis um com o outro - longe parecem idos os tempos de um ódio figadal, quando PCP pensava ter a sua existência em perigo pelo crescimento do Bloco -, os simpáticos representantes da "esquerda da esquerda" há muito perceberam que é na disputa das franjas de simpatizantes do PS (o Bloco debate-se ainda com a "cissiparidade" histórica da extrema-esquerda) que estão as suas margens possíveis de crescimento. Ou os riscos de diluição de apoios.

Um governo de esquerda moderada é o mais perigoso cenário para a progressão eleitoral do PCP e do Bloco, partidos cuja contribuição objetiva para a construção de uma qualquer alternativa política é pouco mais nula, porquanto alimentam posturas sobre questões tidas por essenciais para o posicionamento identitário do país no plano externo que não são compatíveis com nenhuma outra força política com condições de governar, desde logo o PS. PCP e Bloco não gostam do conceito de "arco da governação", que consideram excluí-los. O curioso e óbvio é que são eles próprios quem cuida em se pôr de fora desse "arco".

Imagina-se que, na noite de ontem, os espíritos para os lados da Santana à Lapa e do Caldas devem ter estado bem altos. Têm razões para isso.

Nas quatro semanas que aí vêm, PSD, CDS, PCP e BE reencontrar-se-ão nessa frente comum contra esse temível adversário que os ameaça - o PS. Como nunca deixarei de lembrar, esta "santa aliança", este "bloco lateral" direita/esquerda, não traz essencislmente nada de novo: foi precisamente o mesmo que derrubou o governo do Partido Socialista em 2011, abrindo caminho àquilo por que Portugal passou nos últimos quatro anos.

O Partido Socialista está assim sozinho "no meio da praça". Só me custa dizer "orgulhosamente só" para não trazer outras memórias a quem já as tem.

19 comentários:

Jaime Santos disse...

Com a conclusão óbvia de que o cenário favorito da Esquerda da Esquerda e um Governo do PS minoritário a quem possam malhar pela 'Política de Direita' e depois roubar votos quando este cair prematuramente. Nao vou ser tão ma língua a ponto de dizer que esta Esquerda e a do 'quanto pior, melhor' e que de facto preferem uma vitoria da Direita, porque não acho que seja isso que se passa. Mas e triste que quer o Bloco quer o PCP não entendam duas coisas: a primeira e que os chamados Partidos Populares (Volksparteien em Alemão, o PS e o PSD em Portugal), na verdade se comportam no Governo como comportam, porque são de facto Coligações de Interesses, mas dos seus Eleitores. Nao, senhores, o PS não nos anda a enganar ao ir para o Governo ter aquelas 'Políticas de Direita', nos votamos no PS porque nos identificamos com elas. Enquanto os senhores continuarem com um ideário marxista-leninista (mesmo que envergonhado), não terão o nosso voto, ponto. Em segundo lugar, numa coligação de Governo não se pode ter tudo o que se quer (sobretudo quando se e a forca menos votada), mas acaba por se obter alguma coisa do que se pede. Por isso, se realmente quisessem fazer alguma coisa de concreto pelos vossos eleitores, em vez de serem puros veículos de protesto, iam para o Governo ou no mínimo apoiavam um Governo do PS na AR. Mas e mais fácil só apoiar as medidas avulsas com que concordam e deixar ao PS todo o ónus dos erros inevitáveis da Governação, não e? Portanto, a triste conclusão e que acabam a fazer o jogo da Direita, não por maldade, mas por cegueira ideológica...

Anónimo disse...

Sr. Embaixador, estaremos cá para ver...
Num provável cenário de vitória do PS sem maioria absoluta veremos se as posições do lendário indio e da princesa do vaudeville serão assim tão 'irrevogáveis'.

Anónimo disse...

Deixemo-nos de análises da treta. O tal "arco da governação" é um arco de interesses privados e até públicos. O PSD, PS e CDS comem todos da mesma manjedoura e o PS não é, nem nunca foi, um partido social-democrata (e muito menos de esquerda). Se olharmos para os países escandinavos, mesmo com governos conservadores são mais à esquerda do que o PS, no respeitante à saúde, educação (que pretendem que seja grátis), reforma, pensões, protecção de empresas de interesse público, na consideração e respeito do fisco para com os seus contribuintes, etc. Costa e o seu PS, se ganharem estas eleições, o que não é líquido, terão uma "minoria absoluta" e irão, sem margem para dúvidas, cair na tentação de arranjos político à direita. o BE é talvez hoje o que mais se aproxima do iderário social-democrata, mas, mesmo o PCP, não está muito longe disso. Querem ambos a saída do euro? Talvez. Não vejo nenhum mal nisso. A verdade é que do CDS ao PCP e BE todos, indistintamente, são a favor de uma economia de mercado. O que os diferencia é a defesa de uma maior, ou menor intervenção e acçaõ do Estado, sobretudo nos sectores da educação, saúde, reformas/pensões, na defesa ou diminuição, da imagem do Estado, de mais ou menos privatizações, de mais ou menos apoios à banca, etc.
E se existe coerência de princípios, essa regista-se apenas na direita, PSD/CDS e na esquerda, PCP/BE e não no "centro", o PS, que não é ideologicamente rigorosamente nada, nem carne, nem peixe, embora, na prática acabe por se aproximar sempre das políticas do PSD/CDS. As primeiras agressões ás reformas, pensões, na saúde, na educação, na venda de empresas públicas, etc,foram feitas pelo PS de Sócrates. Este governo de extrema-direita limitou-se a "melhorar" o mal que já tinha sido semeado pelo PS, anteriormente.

patricio branco disse...

Pcp e be ja nao se temem mas tambem nao se aliarao.
Pcp e ps nao se associarao: para o pcp o ps ee mais perigoso que os psd e cds, ee o revisionismo; para o ps o pcp estraga-lhe a reputacao de democratico e retira-lhe possiveis votos aa dta da area do psd, etc
Posicoes irreconciliaveis, rigidas, nada a fazer, o sistema partidario cristalizou, nao se renova, etc

António Serôdio disse...

A conclusão é que qualquer que seja o resultado das eleições (PS sem maioria, PSD/PP sem maioria) o PS para sobreviver, no governo, ou fora dele, vai ter que ceder à coligação de direita. Caso não ceda poderá ter como consequência a situação que originou a primeira maioria absoluta de Cavaco Silva

Anónimo disse...

A "banha da cobra" vai á mesa dos rosinhas como gourmandise, quem Vê e Ouve não se deixa enganar por essas "ementas esturradas" desde 1998 a 2011.

Anónimo disse...


Atenção ao main-stream do "políticamente correcto" que não se coaduna com a realidade portuguesa:

"Penela vai acolher vários refugiados. E no meio de um conjunto de actividades que visam a integração desses refugiados surgem as aulas de português. As tais que “serão dadas aos homens e às mulheres em grupos separados”

Alguém endoidou por aquelas bandas. Vamos lá saber o seguinte: quando as refugiadas forem ao hospital tb vão ser apenas vistas por médicas e enfermeiras mulheres? Por alma de quem se vão duplicar os esforços para dar aulas aos refugiados que me parece que nem se devem ter pronunciado sobre o assunto?

E a coordenadora do projecto tb pensa arranjar um homem-coordenador para que os homens refugiados não se sentam ofendidos caso tenham de falar com a mulher-coordenadora?"

via Helena Matos
via Observador

Anónimo disse...

Se o PS tivesse aproveitado as enormes oportunidades que teve à sua disposição desde que este poder começou a fazer das suas, teria agora pelo menos 60% das intenções de voto e não precisaria de se preocupar com os partidos à sua esquerda, que por sua vez também veriam diminuidas as suas expectativas.

JPGarcia

Jaime Santos disse...

O anónimo das 13:33 está enganado, o Partido Social Democrata Dinamarquês fez recentemente uma campanha eleitoral tão à Direita, sobretudo no que diz respeito a restrições aos direitos dos Imigrantes que o seu congénere sueco se recusou a participar na Campanha Eleitoral Dinamarquesa, como era tradição (e eles perderam as eleições, o que foi muito bem feito). E defende um Orçamento Equilibrado, coisa que o PS não defende. Sei do que falo, porque lhe escrevo da Dinamarca. O Estado Social que temos em Portugal (SNS, Segurança Social, Rendimento Mínimo, Complemento Solidário para Idosos, etc) é sobretudo obra dos Governos do PS e já na altura o PCP (e depois o BE) acusava o PS de estar em conluio com a Direita, coisa que irá dizer sempre. E quanto à suposta conversão do BE e PCP à Economia de Mercado, bem, que remédio, depois da falência do 'Socialismo Real', não há mesmo mais nenhuma Alternativa, pois não? Mas não gostam dela, esse é o meu ponto. O PS acredita numa Economia Social de Mercado, coisa em que até a Direita acreditava, mas deixou de acreditar. O único ponto em que eu acho que estes Partidos têm razão é na questão do Euro não ser adequado para Portugal. Só que como não fazem a mínima ideia de como sair dele (eu também não, mas não sou político), porque nem sequer dispõem de pessoas capazes de estudar isso, se calhar esperam que seja um futuro Governo PS a fazer esse estudo...

Anónimo disse...

Bravo, Jaime Santos, pelo comentário. Se já alguém já viu a direita desta terra a melhorar o que seja que o PS tenha feito?. Enfim... Mas fico preocupado, pois é esta gente que os elege. O pcp e be, são contra a Europa, mas nunca falam disso e até tem lá euro deputados. Falta de coerência, é o que é. O PS está de facto sozinho, mas acredito, quero acreditar, que as pessoas não são sempre estúpidas e as que não são marxistas-leninistas e que experimentaram estes pequenotes da direita, que irão votar em força no PS, por forma a não precisar de "queijinhos limianos". Que foi na história governativa do PS, uma infelicidade marcante. Para ser assim, então que entregue o volante do assunto ao apanhador de alfarroba. Ele e Mádama, resolvem!.

EGR disse...

Senhor Embaixador : partilho inteiramente da sua analise.
Recorrendo a uma linguagem de que ambos gostam é a chamda "convergencia obejectiva com a direita".
Esse é o grande papel que sempre desempenharam, ressalvando evidentemente que PC
o faz há mais tempo.

Ana Vasconcelos disse...

O cenário de sempre. O PCP e o BE estão muito mais próximo da direita a quem têm prestado grandes serviços, incluindo, como bem o nota, o chumbo do PEC IV, que nos levou à situação actual. Pena é que o PS não tenha tido mensagens mais claras e tenha feito uma oposição frouxa.

Jaime Santos disse...

Caro anónimo das 22:52, Ha imensa coisa em que eu discordo do PS, a começar pelo seu Europeísmo entusiástico. Quem olha para a Europa hoje já devia ter percebido que tem pouco a ver com aquela a que nos juntamos em 1986. Um pouco de Euro-Ceticismo na Esquerda Democrática não faria mal nenhum. Depois, a excessiva ligação ao mundo dos negócios e uma visão demasiado otimista relativamente a capacidade da Ciência e da Tecnologia em resolverem problemas eminentemente políticos (o cumulo desta atitude foi visível durante o consulado de Sócrates, Costa e bem mais realista). Mas, dada a pobreza do discurso da Esquerda da Esquerda (excluo aqui o Livre e companheiros de viagem, mas acho que ainda estão algo verdes), que se enquistou numa atitude puramente defensiva (o PCP há muito, o BE mais recentemente, sobretudo depois do descalabro do Syriza), a única atitude racional de quem quer correr com este Governo e votar no PS. O resto e, como diz EGR, 'Convergência Objetiva com a Direita'. Ponto final.

Anónimo disse...

" Economia Social de Mercado" - O que é isso?

Jaime Santos disse...

Caro anónimo das 14:46, Vou fazer de conta que não percebo o seu sarcasmo e indicar-lhe a página relevante da Wikipedia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Economia_social_de_mercado. É fundamentalmente o sistema criado no pós-guerra na RFA que permitiu que os Europeus Ocidentais gozassem os níveis de Liberdade e de Bem-Estar social mais elevados do Mundo (excluí-se aqui Portugal e Espanha até aos anos 70, obviamente). Isto enquanto os Europeus Orientais estavam ocupados pela URSS e os próprios Russos tinham que fazer filas para comprarem alimentos. Como disse admiravelmente o Presidente Kennedy em Berlim a propósito, 'O gozo da Liberdade não é uma coisa simples e a Democracia não é perfeita, mas nunca tivemos que construir um muro para impedir as pessoas de nos deixarem'. Ficou esclarecido?

Anónimo disse...

"Página relevante da Wikipédia" - o que é isso?
OK, sem sarcasmos...A ideia central deste modelo (ESM) é a de que o cidadão, qualquer que seja o seu papel na sociedade, tem de estar no centro de tudo. Tudo tem de estar ao seu serviço incluindo o Estado. Mas há uma condição fundamental: É que o cidadão também tem de estar ao serviço de tudo, isto é, do seu esforço, do seu desempenho, do risco assumido, da sua competência, depende a parte que lhe cabe na distribuição do rendimento gerado nas instituições onde trabalha, ou de forma independente, a partir de uma base normal, considerada socialmente aceitável.


Este modelo pressupõe igualmente que as empresas privadas, substituam alguns papéis sociais do Estado em relação à protecção social dos seus próprios colaboradores, aumentando assim a oferta social e constitua o principal sector da economia.

Não me diga que não identifica a que isto se assemelha. Parece-lhe que a sociedade portuguesa consegue ultrapassar as barreiras da utopia que este modelo envolve? Tem a certeza que é por aì que o PS quer ir?
Há uma abissal diferença entre o modelo ESM e o modelo Estado Providência. "Do Estado vai-se exigir que ele seja o modelador, o conformador da vida económica e social, como produtor de bens, como empresário, como agente de crédito, como organizador de serviços públicos. O Estado deverá definir as metas que à sociedade interessa alcançar e a ele cabe, igualmente, o planeamento, a orientação e o controle da atividade dos restantes sujeitos económicos, com vista a que tais objetivos sejam efetivamente realizados. A realidade económica e social passa a ser um material que ao Estado compete estruturar de acordo com outras condicionantes, nomeadamente as de carácter político-jurídico.
Assim, o Estado irá intervir pelas formas e para os fins mais variados, dirigindo, incentivando ou fiscalizando a atividade dos restantes sujeitos económicos e sociais, participando ele próprio, como sujeito, nessas tarefas, produzindo, comercializando e distribuindo inúmeros bens e serviços úteis à coletividade. Exemplo de um serviço de solidariedade do Estado é a Segurança Social, que deveria garantir o mínimo de sobrevivência condigna em todas as situações de carência. O Estado deveria garantir, igualmente, o acesso de todos os cidadãos aos cuidados de saúde...".

Jaime Santos disse...

Caro anónimo das 11:28, Lamentavelmente, não consigo aceder ao artigo da Infopedia sobre o Estado Providencia que cita (requer password). Mas acha sinceramente que o PS atual acredita num Estado-Providencia tal como esta definido nas linhas que cita? Podemos concordar ou não com a posição do PS, mas não acho de todo que seja essa. O PS provavelmente não ira subscrever a cem-por-cento os conceitos da ESM, mas que aquilo que ele propõe hoje em dia esta bem mais próximo da ESM do que do Modelo Social-Democrata clássico de uma Economia Dirigida, julgo que em relação a isso não há duvidas. Mas isso e igualmente verdade em relação a todos os Partidos Social-Democratas da Europa, incluindo em particular os dos Países Nórdicos. Era esse o meu ponto, embora eu próprio simpatize com a ESM. E, por amor de Deus não venha dizer que teria que defender a privatização da Segurança Social, ou o modelo alemão das Caixas de Saúde. Cada Pais tem obviamente a sua Historia particular, e não há um tamanho que sirva a todos...

Anónimo disse...

Percebo perfeitamente tudo o que diz o que me leva à ironia do meu primeiro comentário. O modelo da ESM assenta bem nos países nórdicos porque encaixa no seu modelo social.Infelizmente, a sociedade portuguesa apenas está disposta a aceitar uma parte do 'contrato'.

Jaime Santos disse...

Caro anónimo das 15:20, Peco desculpa, pensei que a sua ironia era, digamos, de sinal contrario. Sim, tem razão, o sindicalismo (e ja agora o capital) renano ou nórdico e bastante mais cooperativo que as tradições mais meridionais (inclusive no Reino Unido), por exemplo. Mas não sejamos tão pessimistas a ponto de pensar que Portugal merece transformar-se num Modelo Ordoliberal para pobres, a semelhança dos Países Bálticos... E que quem pensar assim, pode votar PaF...