quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Não sei


Alguns leitores deste blogue e de notas que deixo no Facebook fizeram-me notar a quase ausência de comentários da minha parte sobre a gravíssima questão, humanitária mas cada vez mais política, que hoje atravessa a Europa, fruto da conjugação temporal da tragédia das travessias migratórias do Mediterrâneo, oriundas em especial através da Líbia, somadas aos fluxos de populações saídas em pânico do atoleiro da Síria.

É verdade. Tenho escrito muito pouco sobre esse assunto, que, mais ou menos silenciosamente, parece estar a mudar a face da Europa. O diferenciado modo como cada país que é confrontado com a questão está a reagir, desde a criação de novos muros e reforço de fronteiras a atitudes de maior compreensão e abertura face aos refugiados, mostra que a Europa está muito longe de caminhar para uma unanimidade nas soluções. Cada país, fruto da sua exposição geográfica, da sua história, da sua riqueza, mas também do modo como as respetivas opiniões públicas olham para o tema e da capacidade e clarividência das suas lideranças, tem uma atitude diversa, às vezes pontualmente conjugada em posições comuns em Bruxelas, outras vezes em claro confronto entre si, com troca de acusações nada amenas, que em nada ajudam à decantação da imagem de uma União Europeia a caminho de uma política comum. Esta é a realidade e não podemos fugir a ela.

Tenho a sensação que, sem nos darmos muito conta, estamos a avançar, com esta nova questão migratória, para a gestação, no seio da Europa comunitária, de uma das realidades mais marcantes na formação das opiniões públicas de cada país, com implicações crescentes no plano da evolução relativa das forças político-partidárias. Para ser mais claro: em alguns Estados, este tema está em vias de tornar-se central na agenda política e pode mudar a respetiva relação interna de forças, num sentido que, estou certo, só favorecerá aquelas que fazem o seu "fond de commerce" no medo e no egoísmo, às vezes na xenofobia e no racismo.

Dito isto, quero deixar claro que não tenho por ora muito mais para dizer. Quem comenta a atualidade tem a obrigação de não ir para além daquilo que julga poder saber. E eu, confesso, não tenho ainda uma opinião firme sobre que tipo de comportamento, em matéria de políticas de fundo, a Europa deveria adotar nesta matéria, para além das platitudes que se dizem sobre a necessidade de intervir, em termos de paz e desenvolvimento, a montante dos problemas, isto é, nos países e regiões de origem dos fluxos migratórios.

Mas há uma coisa que eu sei e sobre essa não tenho a mais leve dúvida: a Europa perderia toda a dignidade e o mínimo de respeito que deve a si própria se não fosse capaz de acomodar e encontrar solução para as pessoas que já estào no seu solo e que agora aqui procuram uma solução para a sua vida. Os homens, mulheres e crianças que nos interrogam, com olhares de desespero, por esses já muitos espaços europeus onde se acolhem hoje refugiados de diversas origens, têm de encontrar um destino de acolhimento.

Portugal pode ter problemas de pobreza, exclusão e desemprego, mas nada se compara à tragédia que aquela gente vive. Essa é a razão pela qual temos a estrita obrigação de assumir a nossa quota de responsabilidade nesta questão. Sem hesitações. Num tema em que tenho muitas dúvidas, essa é a única coisa que eu tenho por certa.

23 comentários:

Luis Martins disse...

Eu sei quem é culpado desta tragédia , eu e muitos outros , o Sr Embaixador também deverá saber ! Quanto Á solução ? Olhem para a Alemanha : Mão de obra barata , para competir com a China e Leste Europeu , aumento das exportações .... E fico-me por aqui quanto ao aproveitamento econômico que a Famigerada Sra Merckel & CA fizeram desta Tragédia ! Ou será que esperavam Solidariedade ou bondade econômica da " Cavalheira " ? ?

Retornado disse...

Em todas as enormes capitais africanas, vagueiam milhões de jovens perdidos, sem qualquer perspectiva de vida, de família, de trabalho, desintegrados da sua tribo, com governantes sem preparação de governação quer à europeia quer africana.

P sonho desses milhões de jovens é avançar sobre o arame farpado de Ceuta e Lampedusa, para jogar futebol.

Mas só podem jogar 11 de cada lado.

A ONU tem lá a explicação deste fenómeno em discursos de Franco Nogueira, Rui Patrício e Paulo Cunha e mais um ou outro, que já me esqueci.



Anónimo disse...

É a mesma posição do Guterres, PM ou do Galamba. Guterres: “resposta coerente”, O PM: “olhar com outros olhos”, o Galamba: A Merkel só diz o que o povo quer.
Banalidades ditas com ar circunspecto… são os nossos “timoneiros”! só sabem "surfar"! (em ondas sem tubarões)

Anónimo disse...

Talvez antes de agirmos, devessemos primeiro escolher um dia a nivel mundial em que que cada um a seu modo escutasse um Poder mais subtil.
Entretanto, quando acolhermos a nossa cota de refugiados era bom que se alargassem esses programas e fundos aos excluidos e pobres que sofrem muitissimo num Portugal vergado.

Anónimo disse...

Sr. Embaixador,

Portugal, acolhe, e muito bem, 1500-2000 migrantes como está previsto.
Arranja-lhes casa, comida e um mínimo de condições dignas.
Até aqui muito bem.
O pior vem depois.
Como vão eles pagar a renda de casa? Onde vão trabalhar? Onde vão estudar? Quem vai pagar as suas contas?
Se temos milhares de portugueses, igualmente com formação académica, à semelhança de muitos migrantes, a emigrarem todos os anos, que condições vão ter estes? Vai haver portugueses de 2ª e migrantes de 1ª?
E durante quanto tempo vai o Estado sustentar esta solidariedade?

Lembro-me vai para uns anos que trouxeram com todas as condições uma série de famílias brasileiras para Vila de Rei onde durante muito tempo os sustentaram visto que o Concelho se estava a desertificar. Não ficou lá nenhum! O que ganhou Portugal com isso? NADA!!!
Será que o mesmo não pode acontecer aqui?

E será que nesta falange de migrantes não podem estar infiltrados elementos do ISIS ou do Boko? Como irão aferir isto?

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

A caridade começa em casa. Enquanto houver nem que seja um Português sem tecto não devemos acolher mais ninguém

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro José Tomaz de Mello Breyner. Não sou religioso mas choca-me muito que o não seja.

Anónimo disse...

Faço minhas as palavras do Senhor José Tomaz Mello Breyner.
Digo ainda mais: tenho 40 anos e ainda vivo com os meus pais porque não tenho possibilidades de alugar ou comprar uma casa. O Estado também vai dar-me uma habitação? Se dá aos "migrantes" a mim também tem que dar. Certo?

Sérgio

Anónimo disse...

Bagão Félix tocou ontem na ferida. Isto pode vir a ser o fim da UE, a médio prazo. Talvez fique algo meramente formal. Sem significado. Sem relevância. E Portugal (e o MNE), como vem sendo habitual, sobretudo com este governo, não tem uma opinião sobre o assunto. A solidariedade europeia desapareceu há já algum tempo. Viu-se com a Grécia e agora com esta crise de refugiados. A única coisa que preocupa a UE é a economia, assente no tal modelo neo-liberal. A UE hoje é comandada pelo Eurogrupo a o Eurogrupo estás-se nas tintas para os refugiados. Prefere ouvir a opinião dos mercados. Curiosamente, a menos que tenha andado distraído, nenhum Partido com assento parlamentar tem uma opinião sobre esta matéria. Sobretudo aqueles que têm tido e continuarão a ter responsabilidades governativas. O comentador José Tomaz Mello Breyner afinal mais não diz do que aquilo que a esmagadora maioria dos europeus pensam deste assunto. Custa ou não esta é a Europa de hoje. Caiu-lhe o véu da fraternidade há muitos anos.
a)Rilvas

Anónimo disse...

Pensei em muitas hipóteses. Ouvi até a da queque lisboeta que não queria os refugiados perto da praia dela.
Agora esta do Mello Breyner ultrapassou-me... Já lhe terão dito que os tetos em Portugal ultrapassam o dobre da população?

Anónimo disse...

Mesmo com todas as verdades e razões - de todos os seus assíduos leitores do blog - a obrigação moral de dar entrada, a todos os que fogem do seu próprio país em guerra é uma obrigação... Que contrapartidas depois da declaração de guerra por parte do Ocidente, aos países dos "migrantes" governados pelos chamados "ditadores", que tinham o controle efetivo dos movimentos extremistas nos territórios, de onde todos querem fugir nos dias que correm?! A História acerta-se sempre, mesmo para aqueles que fazem dela; "estórias" de entreter diplomatas e jornalistas.

Anónimo disse...

Esta a acontecer á UE o mesmo que aconteceu em Maio de 1453 ao Império Romano, (ja cristão):

A tomada pelos refugiados de diferentes correntes religiosas, resultantes dos extremismos alimentados pela própria UE extasiada pela ganância da sua politica económica de ganho a qualquer preço.

Estamos apenas no principio do começo do fim da maioria de cristãos na UE.

Os actores europeus são outros, ainda piores que os de 1453 !

Jaime Santos disse...

A sorte que nos temos que tantos e tantos Países por esse mundo fora tenham recebido de braços abertos e desde há séculos os nossos emigrantes (eu incluído). Que, note-se, eram emigrantes e não refugiados, tirando os foragidos antes do 25 de Abril. Sempre gostaria de saber o que aconteceria se de repente aplicassem a lógica dos Srs Mello Breyner e Sergio acima. Tínhamos que acolher não uns largos milhares de pessoas mas uns poucos milhões. A vossa atitude não e apenas desumana, senhores, e irracional.

Anónimo disse...

A ler:

"Depois trata-se do resto" (blog O Insurgente)

Posted on Setembro 3, 2015 by Carlos Guimarães Pinto
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Um texto do Henrique Burnay, publicado no Facebook

Anónimo disse...

Este é um dos exemplos que acolhemos em 2009. Desempregado e a receber subsídio. Há muitos portugueses que nada recebem.

http://expresso.sapo.pt/sociedade/2015-09-02-Nao-vamos-a-procura-de-uma-vida-melhor.-Vamos-a-procura-de-vida.-Atras-de-nos-so-ha-morte-4

Anónimo disse...

Onde está a responsabilidade da Turquia, VIZINHA da Síria e primeiro local onde deviam de ser construídos campos de "refugiados"?

Onde está a responsabilidade da Rússia, ALIADA tradicional do regime sírio?

Europa, Europa, Europa? (entenda-se UE ou, no mínimo, Europa ocidental)

Não me venham falar de refugiados porque, esses existem em muitos lados (a começar pela Palestina), e não me parece que desatem todos a "remar" em direção à Europa, pois não?

E os inúmeros "indianos" que se veem? São "refugiados" sírios?

Aquilo a que estamos a assistir é, de facto, um enormíssimo aproveitamento de uma catástrofe política/militar para iniciar uma vaga migratória por razões económicas.

Anónimo disse...

Anónimo 14:23: Isso não é argumento,aliás,é próprio de quem não tem argumentos...

Sérgio

Anónimo disse...

Eu, por não ser politizado, este assunto faz-me espécie. Sem dúvida que os migrantes teem de ter o direito de ser recebidos mas não de roldão. Tem de haver um tempo em que terão de ser inseridos nas respectivas sociedades onde forem recebidos. Não poderão por muito tempo ficar como párias nos países onde forem residir. Quanto a tudo o resto não sei de facto o que pensar sobre este assunto muito grave e que pode transformar a UE.

Anónimo disse...

Mas estamos a falar de argumentos ou de tetos? É que argumentos têm todos como o Guterres, o PM, o Galamba, etc. conforme num comentário que já fiz.

António Santos disse...

Compreendo a dificuldade em formar uma opinião sobre a estratégia a adoptar para entender esta tragédia, se é que alguma vez a UE a vai conceber e implementar.Até porque a informação a que temos acesso, manipulada ou não, tem mais a ver com as consequências, circunstâncias e casos deste fenómeno do que com as suas causas profundas e próximas. Sem esquecer as responsabilidades daqueles que, por falta de visão estratégica e política, nos fizeram chegar a este estado.
É igualmente necessário ter em conta que, depois deste "tsunami", a Europa nunca mais será a mesma. Mesmo considerando a posição, muito pouco cristã, do primeiro ministro da Hungria que, para além de construir muros na fronteira, diz que cumpre as regras da UE e pretende preservar a tradição cristã da Europa.
Com estratégia ou não a verdade é que agora o que temos de fazer é minimizar o sofrimento de milhares de refugiados e imigrantes que nos batem à porta, vítimas de uma tragédia de que não são os responsáveis.
Não nos podemos esquecer de que já nos chegam imagens de crianças que morrem na praia.

António Santos

Defreitas disse...

A Europa não morreu" Ela nunca existiu, excepto para o mundo da finança, que a formatou e continua a formatar para os seus interesses exclusivos.
Leiam bem no espirito do comentário do sr. Melo Breyner: Os migrantes e ou refugiados não "pesam" mais que os emigrantes portugueses vitimas da classe a qual ele pertence.
O nojo imenso que tenho em relação a essa classe que não tem o mínimo de sensibilidade humana, cairá um dia sobre a sua cabeça. : Eles berram porque não têm pão? Dêem-lhes bolo... Marie Antoinette perdeu a dela por muito menos...

Anónimo disse...

É pena o "Defreitas" não sentir também nojo pelos ignorantes que se limitam a repetir frases feitas que nunca foram ditas. Como essa dos bolos...

Anónimo disse...

Desde que sejam identificados sem burka e sem barbas, ate mesmo que virados para meca ou vaticano serao sempre iguais aos.