sexta-feira, 18 de setembro de 2015

As aventuras de um diplomata de aviário


Hoje, com a assertividade e o rigor a que nos habituou, o "Correio da Manhã" titula "Diplomata acusado de desviar 962 mil euros".

Devemos nós ficar envergonhados por esta acusação a este nosso "colega"? Mas será que ele é "nosso colega", será que o "diplomata do Correio da Manhã" - quase que poderíamos dizer "o diplomata do crime" - é mesmo diplomata?

Já perdi a esperança, de tanto o tentar sem sucesso, de explicar à comunicação social que diplomatas são funcionários de uma carreira para cujo acesso se faz aquela que é, sem a menor sombra de dúvida e sem contestação, a mais exigente prova de acesso à função pública portuguesa. É verdade que, das não muitas centenas de pessoas que, em Portugal, já passaram pela carreira diplomática, nem todos nos deixaram orgulhosos, alguns - muito poucos, felizmente - não honraram o nome da profissão e não dignificaram o serviço do Estado que juraram respeitar. Mas isso foi uma escassa minoria. Na grande generalidade dos casos, a carreira diplomática é constituída por gente séria e honesta.

O alegado delinquente a que agora são atribuídas algumas falcatruas, não é nem nunca foi um diplomata, é uma figura a quem, por razões e "cunhas" que talvez fosse interessante o tão falado "jornalismo de investigação" desenvolver, foi nomeado para "vice-cônsul" numa cidade do Brasil, numa escolha completamente arbitrária e discricionária.

Ao tempo em que eu era embaixador no Brasil, numa asneira deliberada, erigida em política para as Comunidades, foi decidido fazer renascer a figura dos "vice-cônsules", que estava (e bem) arquivada nas páginas do regulamento consular e de que um iluminado de segunda linha se lembrou então, com o manifesto objetivo de afastar verdadeiros diplomatas da chefia de alguns postos consulares. Ao saber dessa intenção, alertei por escrito (para algum incómodo nas Necessidades) que achava que assim se estava a abrir caminho à emergência de alguns "vício-cônsules".

(Um parêntesis para dizer que gente séria, honesta e competente foi nomeada nesta leva, mas que a consequência lateral foi, como se vê, abrir caminho a figurões do jaez que agora se aprecia).

O renascimento da figura dos "vice-cônsules" não ofereceu, aparentemente, as menores dúvidas à oposição de então, bem como à máquina sindical que se alimenta da estrutura administrativa do MNE. Pudera! Todos ganhavam... PS e PSD podiam colocar por esses postos, sem concurso e "a olho" político, o seu pessoal fiel e ver-se livres de diplomatas de carreira; o sindicato do ramo via, também por ali, uma janela de oportunidade para ter gente sua a substituir os verdadeiros diplomatas - relembrando eu que estes últimos estão sujeitos a regras e escrutínio de que os vice-cônsules estão dispensados. Prometo que um dia, darei alguma contribuição escrita para a revelação das artimanhas, por via do "Diário da República" deste "bloco central" de interesses, onde também figuram alguns "cônsules honorários" (e aqui poder-se-ia falar-se, por exemplo, do alegado "diplomata" do negócio dos submarinos...)

Uma vez mais, foi a imagem dos verdadeiros diplomatas que "pagou as favas". Mas não tenho esperança que o "Correio da Manhã" corrija isto, claro!

14 comentários:

Anónimo disse...

Num País em que apenas e com rarissimas excepções só vingaram ladrões e vigaristas, o que será de esperar? Como há muito defendo sou pela acção directa.

Anónimo disse...

O JN, ontem, referia o ex-diplomata no corpo do texto! Está melhor assim?... (Apesar de no titulo dizer que foi nomeado por Sócrates)... Só o CM é que tem que justificar? Será por descobrir mais "carecas" do que os outros? Ou é por incomodar os donos disto tudo?

Anónimo disse...

Sempre o vosso "CiencesPro"......

Anónimo disse...

Um Vice-Cônsul não é, nem nunca foi um diplomata de carreira.

A extinção de muitos consulados chefiados por diplomatas,que têm de responder a Lisboa e a entrega de chefias de vice-consulados a pessoas escolhidas por critérios indefinidos foi um erro crasso. Os vice-consulados funcionam em auto-governo, causando por vezes alguns problemas.

Francisco Seixas da Costa disse...

Ao Anónimo das 13.29. Tem toda a razão. Há uma diferença cultural, que ajuda a imagem de quem representa um país. Um diplomata não escreveria uma calinada como "CiencesPro", saberia que é "Sciences-Po". Percebe agora melhor por que (e não "porque") se devem nomear diplomatas para esses lugares? Obrigado por me ter ajudado a ser claro.

Anónimo disse...

Há uns tempos falou da AICEP e expliquei-lhe o problema que a casa vive.

Falei também do Sr. Administrador do MNE. Ele só cá passou para isto:

http://observador.pt/2015/09/18/portugal-abre-em-outubro-a-embaixada-no-panama/

Anónimo disse...

o SENHOR FALA NUM DOS SEUS POSTS A PROPÓSITO DO sYRIZA, QUE VEIO ESTRAGAR O QUE A FAMILIA SOCIALISTA ESTAVA A CONSEGUIR NO SEIO DAS INSTITUIÇÕES EUROPEIAS. DEIXE QUE LHE DIGA O SENHOR E OUTROS COMO O SENHOR TEM QUE SER INTELECTUALMENTE HONESTOS, PORQUE SABEM MUITO BEM QUE ESSES A QUEM CHAMA DE SOCIALISTAS NÃO O SÃO DE FACTO, NEM MESMO O SENHOR O É. ASSIM COMO O PRÓPRIO PSD EM PORTUGAL É UMA PROSTITUTA DA SOCIAL DEMOCRACIA, ASSIM TODOS OS PARTIDOS QUE NA EUROPA OCIDENTAL SE DESIGNAM COMO SENDO SOCIALISTAS, SÃO TAMBÉM ELES PROSTITUAS QUE VENDERAM O SOCIALISMO AO NEOLIBERALISMO. ESPERO QUE AGORA PASSEM A SER INTELECTUALMENTE HONESTOS.

Anónimo disse...

Subscrevo - em volume sonoro mais consentâneo com as Necessidades - o que diz o senhor que grita.

Anónimo disse...

FSC escreveu: "Obrigado por me ter ajudado a ser claro."

Pois.... o meu 2º comentário também foi claro.

Anónimo disse...

O problema não reside na existência, ou no repescar, da figura do Vice-Cônsul. Não há, rigoramente, nada de mal nisso. O problema está na forma como são nomeados. Porque o são politicamente. Tachos. Que são distribuídos entre o PSD e o PS – sobretudo - como diz e bem. Por exemplo, a história da abertura de Escritórios Consulares foi um absurdo, que teve em vista, tão só, favorecer politicamente uns tantos amigalhaços, tal como, aliás, sucedeu e sucede com as nomeações dos responsáveis pelos assuntos sociais nas Embaixadas e dos Adidos Culturais.
Hoje, esta questão está a afectar até as nomeações dos Delegados do AICEP, por via da perversão que Paulo Portas introduziu nestes casos - o que Portas tem feito é inqualificável, mas já estamos habituados à figura (de Portas!).
Por conseguinte, venham os Vice-Cônsules, desde que sejam escolhidos pelo mesma forma, ou bitola, que os Chanceleres nos Consulados.
Evite-se sim é a mãozinha nefasta da política, sobretudo dessa imundice promíscua, entre PSD e PS (com o CDS de permeio).
E que os Secretários de Estado das Comunidades Portuguesas tenham um mínimo, já que o máximo não lhes é possível exigir, de rectidão na escolha dessas pessoas. António Braga, ao tempo de Sócrates foi péssimo, mas José Cesário, o actual, do PSD, foi ainda mais longe, para pior!


Isabel Seixas disse...

a foto é o máximo.
Concordo que há tendencialmente a mania de por a parte a representar o todo...

Antonio Cristovao disse...

É uma minoria ínfima os polícias que são não hontam a profissão! e os carpinteiros, os professores....

patricio branco disse...

o correio da manhã é incorrigível, mas há que esclarecer sempre.

Jose Martins disse...


Senhor Embaixador,
Sim muitos diplomatas não honraram a profissão e outros que a desonraram, fica o segredo, entre os claustros das Necessidades.
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A minha experiência entre a diplomacia deu-me o ensejo de conhecer muito que muita gente não tem acesso....
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Compreendo que o senhor embaixador Seixas da Costa defenda a classe a que pertenceu, por muitos anos e a desempenhou com mérito e esse eu sei.
Saudações de Banguecoque