terça-feira, 8 de setembro de 2015

Adeus, Chico


Olhei sempre para o Chico Menezes como alguém mais velho. Nesses idos de 60, então com 16 ou 17 anos, ser cooptado para integrar grupos mais maduros significava uma orgulhosa ascensão social no estatuto de adolescente.  

O Chico Menezes era um desses "mais velhos". Filho de militar, ele próprio viria a seguir essa carreira. O inconfundível "estilo" com que se passeava pela cidade, passo pausado, serenidade madura, patilhas longas e atitude já adulta, tudo isso lhe conferia um estatuto que, teoricamente, o distanciava de nós, mais novos, mais "putos". Quantos anos mais velho era o Chico? Sei lá! Dois ou três, o que é uma imensidão quando não se havia chegado ainda aos 20 anos. E, por isso, ser integrado pelo Chico no seu grupo foi, para mim, uma coisa importante.

Em meados dos anos 60, naquela inenarrável "seca" de vida que era Vila Real, o Chico tinha ao seu regular dispor um carro, coisa não muito comum à época. Era mesmo um carro grande, creio que um Vauxhall, preto, pertencente ao pai. Um grupo de "habitués", de que tive o privilégio de fazer parte, passou a ser utente regular dos passeios no carro do Chico. Eu tinha "chumbado" a Ciências no 7º ano e, por isso, "fiquei" com essa cadeira, como então se dizia. Isso significava um período de imensa "calaceirice", sem aulas, sem horários, uma espécie de "preparatórios" para aquilo que viriam a ser os "dois anos em férias" (tomo de empréstimo o título do livro do Jules Verne), que, logo de seguida, fui passar ao Porto, nesse projeto frustrado que foi o "meu curso" de Engenharia Eletrotécnica.

O Chico Menezes foi assim meu companheiro quase diário nesse ano de 1965. Ao final da manhã, depois de um sagrado "covilhete" na Gomes, encontrávamo-nos no "Excelsior", para um café de saco servido pelo Manuel Rato, em cujo setor de bilhares o Chico "tinha taco". "Ter taco" estava para os bilhares como "ter garrafa" estava para os bares: conferia automático estatuto, implícito prestígio. O Chico Menezes era um dos grandes bilharistas de Vila Real, aproximado, mas ainda assim à distância, pelo Olívio das bicicletas (o pai tinha uma loja disso), esse o meu mais antigo amigo - nascemos na mesma rua, no mesmo ano, fomos para a escola juntos. 

Com o Chico, o Olívio e o Mourão, este último funcionário da garagem S. Cristóvão (ainda há dias o vislumbrei numa tertúlia de reformados, no "shopping"), às vezes com outros integrantes menos regulares, constitui-se, nesse ano de 1965 (caramba, já lá vão 50 anos!), uma "troupe" que, à hora de almoço, fazia um invariável e sucessivo percurso, para ver "miúdas". Às dez para a uma passávamos a "galar o pequename" à saída do liceu, depois subíamos a Avenida rumo à Escola Comercial e Industrial, daí rumávamos ao Pioledo observar as "externas" do Colégio de S. José e, descida a rampa do Calvário e chegados ao "cabo da Bila", "cobríamos", finalmente, a saída da Escola do Magistério Primário. Em 15 minutos, melhor era impossível!

O percurso era feito no imenso Vauxhall, com cada um de nós, se o tempo o permitisse, bem estilosos, com o cotovelo fora do vidro (o meu lugar era atrás, à direita - o Chico, muitos anos mais tarde, brincava que eu já ensaiava para assento "de embaixador" ou "de governo"!). Hoje, posso imaginar o ridículo dessa "troupe" motorizada, a armar em "conquistadores", com um sucesso, diga-se, raramente muito expressivo.

Aos sábados, o programa era, muitas das vezes, exterior: partilhada irmamente a "gasosa", rumávamos em expedições a Chaves, à Régua, a Amarante, a Famalicão e até a Guimarães! Nunca ousámos o Porto, terreno mais denso, desconhecido. Connosco aperaltados para o engate, as coisas às vezes corriam "bem", na maioria dos casos vínhamos de "orelha murcha", porque o "fossado" romântico redundara em insucesso. Não concretizámos uma muito especulada ida a Espanha, a Orense, mas isso nunca nos deprimiu porque, com base nas experiências com as jovens "hablantes" que passavam em excursões por Vila Real, a doutrina era que "com as espanholas nunca dá nada!" Não era verdade: às vezes, "dava"! Teorias empíricas, antes da "movida", claro...

Os domingos eram "sagrados": as tardes eram passadas em mesas de "lerpa", a doer, no primeiro andar da "Maria do Carmo", uma tasca (hoje um simpático restaurante) em Abambres, no "circuito", regadas a "lapardana", uma mistura de vinho branco, cerveja e, creio, açúcar. Em fundo sonoro, ouviam-se então os relatos de futebol "da Emissora", com a expressão clássica  do Artur Agostinho, em Alvalade ou na Luz, a passar a emissão ("alô, Nuno"), para o Nuno Braz prosseguir das Antas. A função dominical acabava, impreterivelmente, às seis, porque, às seis e meia, estávamos todos, armados em galãs, encostados à esquina da Gomes, a assistir à saída das pequenas da "missa das seis" na Sé. Alguns bailes nesse tempo, em garagens, não são para aqui chamados. Outras expedições noturnas, de outra índole iniciática, idem.

No ano seguinte, saí de Vila Real. Desde então, fui encontrando o Chico Menezes a espaços, pelas esquinas da cidade, nos Natais ou outras férias. Sem surpresas, como referi, seguiu a carreira militar, na tradição familiar, chegando a oficial superior. Projetava sempre o seu ar muito sereno, simpático, com grande dignidade e esmerada educação. Não sei se voltou aos bilhares ("bilhar livre", claro, clássico, nada dessa coisa de "snooker") ou se, com o tempo, foi "perdendo a mão". De qualquer forma, o "Excelsior" entretanto fechou, as mesas da "Pompeia" e da "Brasileira" também se foram há muito, as "tabelas" dos bilhares da cave da "Gomes" secaram com o estranho desuso e o Chico nunca confiou (nem eu) no equilíbrio da lousa da mesa do "Clube". Ainda haverá hoje bilhares (livres, claro) em Vila Real?

No "Primeiro de dezembro" do ano passado, numa "ceia" de amigos e conhecidos, alguém me apontou o Chico numa mesa. Já quase o não conheci. Fui ter com ele. Caímos em abraços mas, no meio dos sorrisos, achei-o algo triste, disseram-mo doente. Nunca mais o vi.

Ao final do dia de ontem, contaram-me que morreu. Adeus, Chico! Não cheguei nunca a matar a curiosidade sobre qual foi a tua maior "tacada", nas gloriosas jornadas de que fui testemunha na mesa do "Excelsior". Fosse ela qual fosse, meu caro, ontem perdeste a última partida. Deixo-te aqui um abraço, muito amigo e sentido. 

5 comentários:

Fernando B. disse...

O famoso Vauxhall das " 24 Horas da Bila "

Anónimo disse...

É assim a vida! Todos nós, em certos períodos de nossas vidas, tivemos os nossos ídolos. Um dia, tudo acaba, infelizmente!

Anónimo disse...

As suas crónicas de Vila Real fazem-me sempre lembrar o ambiente dos filmes do Fellini, nomeadamente no filme Amarcord.
Vila Real seria Rimini, terra natal de Federico Fellini, uma Rimini do interior.

António disse...

Que excelente sinopse para um livro que se tivesse mão gostaria de escrever. O que conta não é exactamente o que vivi, pois em 1963 vim viver para Lisboa mas anda lá muito perto. Parabéns pelo bom texto, que dá vontade de ler mais.

peciscas disse...

Não sei se o Chico Menezes foi o Menezes que foi meu colega algures no 3º ano do Liceu. Era filho de um sargento do Exército e depois perdi-o de vista.
Eu pertenço a uma geração ligeiramente anterior à sua mas leio com gosto as histórias da Bila dos meus velhos tempos.
Também eu vim para o Porto depois do Liceu. Num dos seus recentes posts vi que frequentava a Unicepe. Pertenci à direção da Cooperativa durante anos. Por isso devemo-nos ter cruzado por lá algumas vezes.