quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Uma nova "suicide note"?

Poucas histórias políticas da esquerda, em democracia, são tão fascinantes como a do "Labour" britânico. A vida operária marcou fortemente o curso da sociedade do Reino Unido, dos sindicatos à intelectualidade, do "flirt" com o comunismo às conquistas do "welfare state". Pelo trabalhismo britânico passaram algumas das figuras que orientaram o turbulento curso político progressista no mundo industrializado. A Inglaterra foi, desde sempre, um dos grandes laboratórios da esquerda na Europa.

Quando vivi em Londres, assisti ao sonho de Niel Kinnock de recuperar os anos perdidos com a aventura Michael Foot, autor de um programa político tão radical que foi humoristicamente considerado "the longest suicide note in History". Antes, não conseguindo cavalgar a onda que Harold Wilson desenhara na vida britânica dos "swinging sixties", James Callaghan havia revelado uma rara inabilidade para lidar com o radicalismo de Arthur Scargill e das suas tropas sindicais e, dessa forma, contribuiu para abrir o caminho a Margareth Thatcher. O esquerdismo de Foot (e de Tony Benn) conduziu ainda à cisão social-democrata protagonizada pelo SDP do "bando dos quatro". Na oposição, Foot ainda tentou o compromisso impossível com as "Unions" e, também desajudado pela guerra das Falkland, acabou por contribuir para que a "dama de ferro" se prolongasse em Downing Street.

Kinnock, que o substituiu, iniciou então a árdua tarefa de libertar o "Labour" do "block vote", "modernizou" o programa, mas nem sequer foi capaz de derrotar John Major, o que constituiu uma imensa "proeza" política. Seria sucedido, brevemente, por John Smith, cuja morte súbita abriu o caminho a Tony Blair. Com Blair e o seu "new Labour", o trabalhismo chegou ao "grau zero", ajudando fortemente a uma descaraterização ideológica que varreu toda a esquerda europeia, a que nem Portugal escapou. Com uma esquerda que "fazia de direita", os conservadores foram forçados a atravessar um deserto que só terminaria quando Blair, apanhado pelo descrédito e pelas mentiras do Iraque, passou a pasta a um Gordon Brown que, em tempo de crise económica, perdeu a estafeta para uma rara aliança entre conservadores e liberais-democratas. Foram depois os anos "shadow" de Ed Miliband, cuja manifesta inabilidade levou à reeleição reforçada de David Cameron.

Com esta forte derrota, os trabalhistas entraram num novo ciclo sucessório. A crer nas sondagens, a nova liderança poderá vir a ser chefiada por Jeremy Corbyn, uma figura da ala esquerda do partido que, em Portugal, andou já por iniciativas do Bloco, o que é muito significativo. A ser esta a escolha, que alguns já olham como um novo erro de "casting", o "Labour" pode vir a fazer um dos maiores erros táticos da sua história, afastando-se do "mainstream" do poder ou, para utilizar uma expressão que a nossa "esquerda da esquerda" detesta, deixando-o longe do "arco da governação" por muitos e bons anos. Tony Blair disse isso mesmo, há dias. Nem o facto de isso ter sido dito por ele transforma, necessariamente, o que é uma evidência num prognóstico errado.

22 comentários:

Anónimo disse...

Se a social democracia europeia continuar a revelar-se incapaz de ser alternativa a doxa econômica ordo liberal dominante, fenômenos como estes vão generalizar-se ( o que eu também não vejo com alegria...)

a) Alcipe

Anónimo disse...

Claramente a social democracia europeia já não existe. Os antigos partidos sociais democratas e socialistas da europa são desde meados dos anos noventa partidos de centro direita(incluo aqui o PS em Portugal). O caro Embaixador é claramente um PS que está no centro direita. Para mim esquerda não é ajudar grupos económicos, até porque essas ajudas são para patrões e acionistas, esquerda para mim é outra coisa.

Domingos Sousa disse...

Depois da sua posição perante o referendo escocês e a maciça perda de votos que isso acarretou, dificilmente o Labour voltará a ganhar uma eleição no RU, com qualquer líder. Oxalá me engane. (Domingos Carneiro S.)

Anónimo disse...

Bela síntese! Mas quid juris para o futuro?
Abraço

CSC

Anónimo disse...

Lá vai o outro fazer questão de nos explicar a evolução da social-democracia e a sua corrupção pelas forças imperialistas...

Anónimo disse...

Porque é que nào se menciona Mandelson?

Jaime Santos disse...

O problema dos outros candidatos à sucessão de Milliband, é que enquanto eles precisam de 'focus groups' para saberem o que pensam, Corbyn, concorde-se ou não com ele, é um Homem de princípios. E isso agrada os militantes e simpatizantes do 'Labour'. Se é para o 'Labour' governar como a Direita governa, é preferível deixar que seja a Direita a governar, pensam eles. Claro, isto ignora o que de bom foi feito nos anos de Blair e Brown, mas a participação do Reino Unido na invasão do Iraque e as mentiras de Blair representaram um choque tão grande para o eleitorado de Centro-Esquerda, que se sentiu usado num jogo sangrento, que suspeito que o Liberalismo Social que Blair representava dentro do Labour dificilmente irá voltar a governar a Grã-Bretanha nos anos mais próximos (até porque os Liberais Democratas sofreram também eles um massacre eleitoral por terem ido para o Governo com os 'Tories'). E dada a perda da Escócia pelo 'Labour' para o SNP e a dispersão do voto progressista no Reino Unido, tendo em conta o seu sistema eleitoral maioritário, parece-me que o Sr. Domingos Sousa tem infelizmente razão. Suspeito igualmente que algo de semelhante se poderá passar em Portugal se o PS perder as eleições e se José Sócrates for acusado e eventualmente condenado. Haverá no PS a tendência para enveredar por um purismo de Esquerda que poderá deixar o Partido na oposição por muitos anos. Mas vejamos as coisas pelo lado positivo, finalmente começamos na Europa a falar de alternativas reais, e não de mera alternância. Convencer o eleitorado centrista a apoiá-las (é isso que os Partidos devem fazer, não ir meramente atrás do que pensam os eleitores, e Thatcher sabia isso muito bem), é tarefa para muitos anos...

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Caro Chico

Ando muito afastado desses "britain ways" e mais virado para os "portuguese". Extrapolo, portanto. Pelos vistos por aqui ninguém se lembra da última vitória do Cameron (ou ninguém se quer lembrar o que é "pioríssimo"...)

Daí um novo recado (nunca dou conselhos) ao António Costa: não se ponha a jeito...

Abç do Leãozão (ontem podiam ser mais, mas na URSS, oops, na Rússia é que se vai ver. Mesmo assim - foi obra!)

Anónimo disse...

Em Portugal,2015:

"Enquanto Portugal teve homens de "havemos de fazer" (que sempre os teve) não tivemos liberdade, não tivemos reino, não tivemos coroa.

Mas tanto que tivemos homens de "quid facimus" (que fazemos), logo tivemos tudo."

Padre António Vieira

Anónimo disse...

O anónimo das 14:31 e Jaime Santos têm toda a arazão. Deixo aqui um pequeno texto retirado de um Blogue:
"Ao longo de vinte anos, a doutrina da terceira via, segundo a qual as eleições se ganham ao centro com uma política de centro, conduziu à vitória monumental da direita. Por isso, muitos militantes trabalhistas querem romper com este passado e Corbyn aparece como o homem certo para o fazer.
Os cínicos argumentam que Blair tem mesmo razão e que, se o partido virar à esquerda, a direita se eternizará no poder. Vai ser refrão em Portugal e em toda a Europa, assustada com esta surpresa. Portanto, a ideia é que tudo deve continuar na mesma, com o centro a aceitar que a direita determine a única política admissível. Esta solução é a da eternidade da ordem liberal."
FSC é, nunca houve dúvidas sobre isto, um elemento da ala conservadora do PS.

Anónimo disse...

Eu diria que um "socialista" gostaria de Corbyn. É muito significativo que não goste. Em Portugal para ter políticas sociais-democratas ou trabalhistas tem de se votar no BE ou na CDU.

Joaquim de Freitas disse...

O Senhor Embaixador responde implicitamente a Francisco Louça, que escrevia sobre Corbyn: " Nacionalizar a grande indústria e recuperar bens públicos, incluindo os caminhos de ferro, o gás e a electricidade, aumentar a progressividade dos impostos, investir para criar emprego, reconstruir o serviço nacional de saúde, abolir as propinas nas universidades, sair da NATO e recusar as aventuras belicistas, terminar com a opção nuclear das forças armadas britânicas. É o programa de Jeremy Corbyn, que é hoje o candidato mais bem colocado para ganhar a liderança dos trabalhistas britânicos (eleições em Setembro).

Pena é que a esquerda portuguesa, como a francesa, não adoptem o mesmo programa. Por isso estão já com as calças na mão, ao aproximar-se a data das eleições...

Já o escrevi aqui : Se a esquerda parte para a batalha com as mesmas ideias da direita para governar o país, muitos eleitores considerarão que não vale a pena correr riscos, e preferirão continuar com os mesmos. Em França será mesmo um salto para a retaguarda, com o risco do populismo ameaçador, ou, pelo menos, a "revanche" dos conservadores.

Isabel Seixas disse...

Hum, dá que pensar, mas não tenho conhecimento para emitir opinião.

Anónimo disse...

Anónimo das 00:37, a verdade é que eu já nem sei o que é ser "socialista", nem o que é ser de esquerda. Tudo a que eu estava habituado a que fosse chamado de esquerda ou mesmo social democrata, agora é um ai jesus, é remetido para a extrema-esquerda, um bando de doidos. Eu acho que ao senhor embaixador ficou-lhe só uma vaga nostalgia de ser de esquerda, uma espécie de jóia de familia antiquada que está arrumada num baú, em que de vez em quando se remexe e de que nos custa livrar. É a ideologia do "vai-se vivendo" ;)

Francisco Seixas da Costa disse...

Se o Anónimo das 12.27 está confuso, o problema é apenas seu. O facto de que "estava habituado" a algumas coisas prova apenas que tem de rever o que pensa. E, essencialmente, não tente colocar nos outros as angústias que não consegue resolver dentro de si.

Anónimo disse...

Eu que sou o anónimo das 00:37 não sei muito bem de que se queixa Seixas da Costa, na resposta ao meu homónimo de 20 de agosto de 2015 às 12:27.

Para o antigo secretário de Estado de um Governo PS, erro histórico do Labour é afastar-se do mainstream do poder. Está errado o Labour que procura recentrar o mainstream numa banda que já foi a sua, está certo o Blair, a depois sanguinária musa inspiradora do governo onde Seixas da Costa esteve com Guterres. O poder é o fito, aqui reafirmado, do partido visto por esta gente.

Mas há esperança para Seixas da Costa, no texto que faz sobre a Ucrânia já recentrou a sua análise, anteriormente demasiado desculpabilizadora para o papel activo da UE no acicatar da crise presente.

Anónimo disse...

Senhor embaixador, assumo plenamente que ando confuso e angustiado. Mas sobre o que é ser agora de esquerda, é conversa que nunca teremos, por isso, afasto-me.

O tal anónimo

Pensativo disse...

Sobre este assunto, estou mais é com o António Costa, que em entrevista ao "Sol" desta semana afirmou ver como muito perigosa a ausência de diferenciação entre esquerda e direita, pois estimula extremismos de direita e de esquerda (não tenho o texto à mão neste momento, mas é algo assim).
Política sem princípios não vale a pena.

Anónimo disse...

Ui, 22 de agosto de 2015 às 11:28, a social-democracia é um extremismo.

Onde chega a tontaria.

Anónimo disse...

22 de agosto de 2015 às 11:28, é a face do monolitismo ideológico e de pensamento único no estado demencial a que chegou. Keynes é um perigoso e radical comuna.

Joaquim de Freitas disse...

Podemos procurar ainda a diferença entre a gestão da esquerda, socialista ou social-democrata, e a gestão da direita, mas chegamos ao fim com um sentimento que Jean Daniel descreve muito bem no "L'OBS":

" No fim duma jornada como a do 15 de Agosto, um homem da minha experiência e mais exactamente da minha idade pode mergulhar na perplexidade, em qualquer caso, sobre uma questão precisa: Quem admirar? Em quem fazer confiança? Sobre quem se repousar? Subitamente a resposta a estas perguntas é incerta. São todas as elites, todos os ídolos, todos os seres de autoridade e de prestígio que parecem afastar-se de nós.

Não se ouviu nenhuma grande voz, excepto a do papa Francisco, ainda ele, ora não se pode imaginar situação mais insuportável para a alma, o espírito, a moral, o ideal.

Gilberto Ferraz disse...

Excelente historial do “labour” particularmente observado aquando da sua estadia em Londres. Com a rotunda vitória de Jeremy [Bernard] Corbyn abre-se um novo capítulo na política britânica. Com o novo líder tradicionalmente de “esquerda”, aliás grande amigo das causas de Timor-Leste, que nesse capítulo bem o conheci e sobre o qual o entrevistei, há que distinguir não apenas os velhos tempos do mencionado Michael Cook, que igualmente entrevistei e bem conheci, como o cenário atual britânico é diferente. Não predomina, como então (Kinnock, por mim igualmente entrevistado) a vociferante ala troytskista de que além de Liverpool dominava uma boa faixa do então “labour”, mas um renovado e rejuvenescido Partido Trabalhista que Corbyn ressuscitou. Particularmente as bases, cimento de qualquer movimento, que se encontravam ausentes. Tal como Corbyn anunciou no seu discurso de vitória, o seu objectivo é liderar de baixo para cima e com ele levantar as vozes que até aqui não se tinham feito ouvir. Neste contexto, além da histórica predominância do labour na Escócia, que se refugiou no SNP, que muito possivelmente Corbyn recuperará, a sua grande tarefa é na Inglaterra e mui particularmente em certas faixas do centro, mas muito particularmente no sul e sudoeste. Quanto ao partido, a sua imediata missão é uni-lo, e nomeadamente os “Blairites” mais moderados. Neste capítulo quando se propalava que devido à sua antecipada contestação não dirigiria o Partido por mais do que seis meses, graças à sua rotunda vitória, não apenas dos sindicalistas, mas do voto popular, os seus opositores partidários, a tentá-lo, deparam co m uma difícil tarefa. E se pelo país inteiro, o fenómeno “Corbyn” cria uma nova e desejável expectativa política , o mais excitante será nos debates frente a frente com o primeiro-ministro, na Câmara dos Comuns às quartas-feiras!
Gilberto Ferraz