quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Hermínio Martins (1934-2015)


Em dezembro de 1972, numa das minhas primeiras visitas aos Estados Unidos, deu-me para procurar na New York Public Library obras em inglês sobre o Estado Novo. A certo passo, deparei com um livro de textos sob o título "European Fascism", com um capítulo sobre Portugal, publicado anos antes, em Londres, assinado por Hermínio Martins. 

Quem seria Hermínio Martins? Não tinha então menor referência sobre nome, o que era natural, tanto mais que eu não era um especialista, apenas um mero curioso do tema. Ainda pensei que fosse um pseudónimo, embora o texto trouxesse uma nota concreta sobre a ligação universitária do autor. Fiquei sempre com vontade de saber mais sobre a pessoa por detrás daquele nome.

Passaram alguns anos até que comecei a saber um pouco sobre Hermínio Martins e, finalmente, acabei por comprar o livro que vira em Nova Iorque (hoje muito desatualizado, face à investigação posterior, nos vários casos abordados). Fui-o lendo, entretanto, em outros livros e em artigos publicados em revistas. Achei sempre muito curiosa a sua perspetiva pluridisciplinar, onde a sociologia se misturava com a filosofia, numa escrita aliás pouco vulgar, recheada de temáticas complementares inesperadas.

Quando fui viver para Londres, em 1990, estabeleci contacto com Hermínio Martins, creio que por intermédio do Eugénio Lisboa, e talvez também do Rui Knopfli. Recordo-me de ter convencido o embaixador Vaz Pereira a convidá-lo para um almoço na embaixada. O almoço não foi aquilo a que se poderá chamar um grande sucesso. Hermínio Martins falava pouco, a conversa "desligou-se" e, manifestamente, não conseguimos gerar um ambiente estimulante, não interessa agora saber por culpa de quem.

Alguns anos mais tarde, durante a visita de Estado de Mário Soares ao Reino Unido, insisti pela inclusão do nome de Hermínio Martins no grupo de intelectuais que ali viviam e que o presidente português entendeu dever condecorar.

As últimas décadas acabaram por trazer o reconhecimento devido a Hermínio Martins, cujo perfil intelectual e académico, a começar pela sua contribuição para a sociologia britânica, estão hoje estabelecidos de forma incontroversa, ao que leio. Também em Portugal, graças a vários seguidores e colegas, esse reconhecimento impera, sendo considerado uma das figuras cimeira das nossas ciências sociais.

Li agora no "Público" que Hermínio Martins morreu, em Oxford, na passada quarta-feira.

4 comentários:

Retornado disse...

Os moçambicanos brancos ao contrário dos brancos de angola, eram muito anglofilos e até imitavam muito os ingleses, no chá e no apartheid.

Em angola era mais à sanzaleiro.

Mas o ultramar sempre deu gente especial, e principalmente na escrita, artes e futebol

Para a apanha da azeitona não foram grande coisa.

Clara Mendes disse...

O Hermínio era pouco falador mas muito atento ao que se passava em Portugal. Tive oportunidade de conviver com ele em Oxford, de participar nas "mesas" que por sua iniciativa juntava os portugueses que em Oxford trabalhavam, investigavam, faziam os seus doutoramentos. Ali discutíamos o nosso quotidiano, a vida na Universidade, muita literatura e muito pouco sobre Moçambique. Quando anos mais tarde a vida me pregou uma partida o Hermínio foi dos primeiros a dizer presente.
Obrigada amigo por tudo o nos deixaste e por tudo o que me ensinaste.

Clara Mendes
27 de Agosto de 2015

Onesimo Almeida disse...


Hermíno Martins era um senhor a pensar por si, um pensador de grande calibre. Nem toda a gente pode saber apanhar azeitona.

onésimo t. almeida

Retornado disse...

Também houve antigos "estudantes do império", principalmente de Moçambique e Caboverde, que foram grades jogadores de futebol, grandes jornalistas, grandes cantores e músicos e até grandes militares.

Foi pena a maioria não poderem poderem tomar parte no desenvolvimento das suas novíssimas pátrias.

Como eles sonhavam.