domingo, 23 de agosto de 2015

Ceuta


Foi em 21 Agosto de 1415. Caramba! Já lá lá vai algum tempo!

"Chegámos" (este plural majestático dá jeito, quando nos calha partilhar glórias) a Ceuta, tomámos a cidade "aos mouros", iniciámos a expansão - embora tivesse havido uma forte pausa temporal antes do início das fantásticas navegações atlânticas.

Seria pela aventura? Seria pela fé? Seria pelo interesses? Há anos, durante a ditadura, um historiador felizmente ainda vivo, Borges Coelho, publicou o livro "Raízes da Expansão Portuguesa" em que defendia que tinham sido as motivações materiais a alavanca essencial da vontade por detrás do empreendimento. O livro foi recolhido pela PIDE!

Fosse por que razão fosse, foi um tempo muito interessante da história de um pequeno povo que teve como destino andar pelo mundo, Às vezes por boas razões, outras vezes por motivos menos bons.

11 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

" história de um pequeno povo que teve como destino andar pelo mundo". Verdade.

Sempre pensei a mesma coisa doutro pequeno povo que a partir do Latium e do Monte Alban construíram um Império. E vieram até nós , deixando-nos a nossa língua e muito mais.

Ceuta , foi o nosso ponto de partida, para a primeira "globalização" da história. Empresa imperial que necessitou uma frota de mais de 200 navios e 20 000 homens! Comparativamente, o desembarque da Normandia foi uma brincadeira! Para qual resultado?

Cada vez que vejo os habitantes desta região, trepar nas grades de arame farpado que os separa da Europa, ou embarcar nos barcos da morte com os quais procuram atingir as nossas costas, penso que não progrediram muito na vida desde aqueles tempos em que lhes levamos a "nossa" civilização, pelas armas, como hoje os ocidentais continuam a fazer para levar a democracia ao vasto terceiro ou quarto mundo, sem resultado.

Os Romanos do Latium deixaram-nos muito mais, de maneira perene.

Quando fui para a escola disseram-me que lhes levamos o verdadeiro Deus. Aparentemente rejeitaram-no e preferem impor-nos outro. A bandeira da Cruz do Cristo , esfarrapada, recua perante as hordas islamistas de Daesh , do país onde se fala ainda a língua do Cristo, o Aramaico, uma das línguas vivas mais antigas do mundo, dos bordos do Tigre e do Eufrates, até às igrejas da Síria.

O que resta da nossa epopeia? Os Portugueses são hoje um povo pobre, tão pobre como aqueles que outrora tinham colonizado, e é mesmo colonizado ele mesmo todos os dias um pouco mais por alguns antigos colonizados. Se os Portugueses não se afogam nos mares para fugir à miséria, é graças a Shengen: podemos passar livremente na nossa fuga para lá de Castela!

Castela que era uma barreira para a nossa expansão no XIV° século, e nos obrigou a olhar para os mares como alternativa. Parece que inventamos tecnologia para a navegação, barcos avançados, instrumentos e capacidade. E que ai reside o sucesso do projecto de Henrique o Navegador.

Mesmo se nas caravelas embarcavam sempre os jesuítas, para a propagação da fé, opto para a expansão comercial, que foi realmente, na minha opinião o verdadeiro objectivo.
A partir dum certo momento, a responsabilidade de descobrir novas terras não é mais a do Rei, mas dos comerciantes, que se financiam pela exploração das riquezas descobertas.

A escravatura vai trazer também a sua parte de riqueza. E quando um vento inesperado ou desconhecido faz descobrir , por acaso, outras terras do outro lado do Atlântico, o principio será o mesmo: explorar tudo e dar pouco. Tão pouco que ainda hoje a maioria procura o que lhe foi negado desde o início.

Muitos dos problemas humanos que descobrimos hoje através das multidões que batem à nossa porta, famélicas , desamparadas, fugindo as guerras , são o resultado da globalização começada pelos Portugueses, continuada pelos outros povos europeus, e que se perpetuou sob o signo dos valores ocidentais.

Majo disse...

~~~
~ Muito curiosa esta denúncia da PIDE!
~ Tempo de beatos falsos e hipócritas...

Interessante relacionar a invasão de Ceuta
~~~~~ com a diáspora portuguesa...

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Anónimo disse...

A grande noite colonialista começou antes em 1147. Em 1415 só mudaram os meios: Passamos a utilizar "chalandras" por necessidades técnicas.
O objetivo da dita expansão sempre foi o mesmo: o saque e a escravidão! A descolonização é um processo inverso que até agora tem tido os mesmos objetivos. Claro que no ínterim destes séculos sempre aparecem uns escassos espaços de boas intenções e muitos a reclamarem hipocritamente a posse da razão, aos quais apelidámos de neocolonialistas. Como por exemplo tentando impôr a lingua como "nossa" ou dando lições de honestidade sem se enxergarem!

Carlos Fonseca disse...

Claro que a PIDE (quer dizer o regime), tinha muita razão! Interesses materiais? Que aleivosia! Todos os que, como eu, estudaram a história do Mattoso, sabem que foi a fé e a pregação da palavra de deus, perdão, da santíssima trindade, com a consequente condução dos gentios ao rebanho sagrado, que estiveram na origem dos Descobrimentos.

Se, por acréscimo, vieram os negócios, isso já foram benesses do bom deus, agradecido.

inconfessável disse...

Mais do quer tudo o que está dito, segundo a minha opinião, mostra como desde D. Dinis com o pinhal de Leiria, madeira necessária para as embarcações, até D. João II, este pequeno país teve uma estratégia bem definida. Depois...acabou, com a excepção do Marquês de Pombal.

Portugalredecouvertes disse...


Eu pergunto: se não será muito mau para os povos da Africa ou da América do Sul renegarem a herança dos portugueses ou seja a construção de cidades modernas onde a pessoas encontram maior segurança, estradas, caminhos de ferro, portos, igrejas, escolas, hospitais, em resumo a reprodução de uma cultura e hábitos europeus que trazem em tempos normais melhor qualidade de vida?
ou será que alguém deseja voltar às cabanas, à falta de alimentos e de água potável, ao perigo de muitas doenças que se evitam com a higiene, à raridade dos alimentos, etc.
não temos nós à nossa volta e nessa aventuras dos mares o conhecimento que nos foi imposto pelos romanos e pela cultura árabe e que nós aproveitámos em vez de rejeitar,
ainda hoje valorizamos essa herança, apesar dos combates travados contra esses povos na altura "colonizadores", das mortes e dos escravos... Não nos vem à ideia que possamos renegar a força do latim na nossa língua ou as técnicas agrícolas dos outros ocupantes
Assim as raízes se vão criando cimentadas por essa aceitação e conhecimento do passado que criou progresso para o presente
Os povos que rejeitam as suas raízes, mais facilmente aceitarão todo o tipo de novos ensinamentos ou ideologias de todo o tipo de interesses
ou não será assim?

Retornado disse...

Os muitos africanos que por Ceuta e mediterrâneo em geral e Calais vêm dizer aos Europeus, Pai/colono, que ainda estão vivos, não lhe vão largar o pé.

Os Pretos conhecem bem as manhas do Branco.

Claro que também outros tiveram culpa, não foram só os europeus, mas vai ser a Europa a pagar.

Anónimo disse...

O fanatismo político é assim: a conquista de Ceuta transforma-se numa discussão sobre a PIDE... É não ter a mínima noção das proporções das coisas.

Joaquim de Freitas disse...

Eis uma estatística de arregalar os olhos do Brasil: 1 por cento da população controla quase metade da terra. O país é um dos lugares mais desiguais do mundo em termos de distribuição de terras. E uma das razões são as leis da era colonial que ainda estão vigentes.

Em um escritório no centro do Rio de Janeiro, onde as vendas de imóveis nesta área têm firma reconhecida, o notário lê-nos uma lista de famílias que recebem porcentagem de todas as transações imobiliárias em certas partes da cidade.

Entre elas está Orleans e Bragança – o nome da antiga família real brasileira.

O sistema é chamado “enfiteuse”. Em termos práticos, isso significa que algumas pessoas no Brasil ainda têm que pagar impostos sobre a propriedade a ex-membros da realeza e nobres portugueses.

Acredita-se que a enfiteuse começou na Roma antiga e foi levada para o Brasil quando Portugal colonizou o lugar em 1500.

“Nos tempos coloniais, a propriedade privada não existia. Todas as terras foram consideradas propriedades da coroa portuguesa. O rei dava concessões aos amigos da corte”, conta Alex Magalhães, professor da Universidade Federal de Rio de Janeiro.

Algumas dessas concessões eram vastas. Afinal, o Brasil era praticamente do tamanho de um continente.

Esses nobres – e a Igreja Católica, que também recebeu terras – poderiam ganhar pelo aluguel, permitindo que outras pessoas construíssem na propriedade, mas mantendo os direitos de terra para si próprios.

Emula uma espécie de sistema feudal que era popular em muitas partes da Europa há séculos. Ao contrário do sistema de locação na Inglaterra, a enfiteuse concede direitos para sempre.

Magalhães diz que, naquela época, fazia sentido: foi uma forma de apoiar o conjunto da empresa colonial e nenhuma pessoa poderia desenvolver enormes latifúndios.

Mas o que faz menos sentido, afirmam os críticos, é que o sistema ainda está funcionando 500 anos mais tarde.

O post 1% da população controla quase metade da terra no Brasil, diz site americano apareceu primeiro em Portal Metrópole.

Anónimo disse...

O Freitas, de tanta necessidade de dissertar, já nem vê onde escreve, nem sobre o que se escreve. O que interessa é atulhar o écran.

Joaquim de Freitas disse...

Ao sempre anonimo das 16:59: Homem, leia o que escreve o Senhor Embaixador no seu "post" : "que teve como destino andar pelo mundo, Às vezes por boas razões, outras vezes por motivos menos bons.".

O meu texto enquadra perfeitamente , pois que ele põe em evidência o "menos bom" da colonização. Mas você não sabe ler os textos: só lhe interessa o autor! E acaba por não escrever nada sobre nada, porque não compreende nada. Olhe, obrigado por ter trazido à superfície o termo "atulhar". Tinha-o perdido de vista! Vai-lhe como uma luva : pode-se ser atulhado de "vazio".