terça-feira, 14 de julho de 2015

Vive la France!

Depois das bravatas iniciais, para alemão ver, as vozes governamentais portuguesas foram moderarando a sua hostilidade pública contra a Grécia, confiando em que os gregos se encarregariam, eles mesmos, de cavar a sua própria cova. No que quase acertaram... É hoje claro que o Portugal oficial era, de há muito, bastante favorável à saída da Grécia do euro. 

O governo português foi dizendo o contrário, claro, aliás como todos os que, pela Europa, partilhavam a mesma ideia. Até que aconteceu o referendo grego. Aí, com a cambalhota de Tsipras, a quem não se viam artes de fazer o contrário daquilo para que fora votado, alguns Estados acharam ter encontrado o pretexto ideal para pôr a Grécia "com dono". O argumento da "perda de confiança" caiu como sopa no mel no Eurogrupo e, daí, foi transportado politicamente para os "adultos" (como diz Christine Largarde). Parecia descoberto um motivo natural para a "eurolândia" se livrar da Grécia, para "purificar" o euro e regressar à "pax germânica". Berlim aí se encarregaria de proteger os seus "länder" ibéricos, tremidos nas eleições que se avizinham. 

Porém, enganaram-se numa coisa: a Grécia tudo faria para continuar no euro. Mesmo um "hara-kiri". Mesmo que isso implicasse cair no ridículo negocial e ter de aceitar condições muito mais duras do que as que, sob a indignação maioritária do país, tinha acabado de recusar com estrondo. Imagino que, para cabeças nórdicas, nada disso fizesse sentido. Até para nós, confessemos, não fazia muito... 

Mas a Grécia vive noutro mundo! E, para além das suas erráticas táticas, terá tido um sobressalto estratégico e percebeu que (1) uma certa Europa estava, de facto, fortemente predisposta a afastá-la do euro e (2) que isso corresponderia à sua irrecuperável periferização e agravamento de empobrecimento, para além de que (3) era dessa mesma Europa que, a bem ou a mal, poderia surgir o financiamento para a sua sustentação, depois da trágica experiência partilhada com as receitas do FMI. Porém, esta obstinação grega, aliás num registo algo masoquista, não teria servido de muito se não encontrasse eco em quem tem ainda, sabe-se lá por quanto tempo, a possibilidade de levantar a voz à Alemanha.

Assim, seria graças à teimosia da França, aliás por razões que foram muito para além da mera "salvação" da Grécia, que Berlim foi impedida de levar a sua avante e criar condições para uma saída imediata do país da zona euro. Digo "imediata", porque é evidente que nada está ainda "perdido" para quantos acreditam que uma purga do euro é a solução ideal para o futuro. Isso aliás pode observar-se lendo a esperança raivosa que é alimentada por algumas "viúvas do Grexit" na nossa imprensa, no dia de hoje. 

Dia de hoje que é o "14 juillet", a data nacional francesa. Dia em que, também por isto, apetece dizer: "Vive la France!"

12 comentários:

Alcipe disse...

Vive la France!

arber disse...

Vive la France!

Viva a Grécia!

Viva Portugal!

Carlos Fonseca disse...

Não foi nada teimosia da França. Então o senhor não sabe que #PorAcasoFoiIdeiaMinha? E não foi a primeira: quem é que teve, entre outras, a brilhante ideia de criar cursos - financiados pela CEE - para técnicos de aeródromos inactivos?

Abraham Studebaker disse...

Também pelo que escreve,digo: Vive la France de Jean Moulin,pas la France de Vichy !!!

Anónimo disse...

Vamos ver se a Grécia tem "unhas" para continuar na "Eurolândia".

Joaquim de Freitas disse...

Oui, VIVE LA FRANCE ETERNELLE.La France des Sans-Culottes.

Anónimo disse...

Para ser muito franco, esta Europa de hoje deve envergonhar todos aqueles que não gostam de "lamber botas". Agora para todos aqueles cuja vida tem sido feita com base nesse "serviço" continua tudo bem. Ao olhar para aquele "senhor alemão" para a "dama portuguesa" que está sempre ao seu lado e para a generalidade daquela gente dá nojo.

Carlos Botelho

Joaquim de Freitas disse...

Senhor Embaixador peço desculpa do tamanho do texto. O Senhor decidirà.


""Algo está podre no reino da Dinamarca", escreveu Shakespeare no seu famoso Hamlet há cerca de quatrocentos anos. Os acontecimentos das últimas semanas e meses demonstram que as palavras de Shakespeare ganharam uma nova actualidade. Agora, é em toda a Europa .
"‘Você até tem razão no que está a dizer, mas vamos esmagar-vos à mesma’”.disseram a Varoufakis.
Já sabíamos que os funcionários europeus não têm nenhuma legalidade democrática. Os povos não os elegeram.
Mas esta ausência de escrúpulo democrático por parte dos supostos
defensores da democracia deve abrir os olhos dos povos da Europa.
Assim, Quando os responsáveis da zona euro se reuniram com Tsipras, o relatório do FMI hoje divulgado pela Reuters, que aponta necessidade de reestruturação da dívida, já era conhecido.
Uma fonte da União Europeia disse hoje que os responsáveis europeus que passaram 17 horas na cimeira que levou ao acordo de terceiro resgate à Grécia já conheciam então o relatório do FMI que a Reuters hoje revelou. Este documento aponta claramente a necessidade de reestruturação da dívida grega.
A agência cita uma fonte da UE que garante o conhecimento por parte dos líderes da zona euro desta última análise do Fundo, segundo a qual a Grécia precisará de alívio de dívida muito além daquilo que os parceiros europeus se têm revelado preparados a considerar. A devastação da economia e dos bancos do país nas últimas duas semanas são pontos críticos para a instituição de Christine Lagarde. Apesar de terem conhecimento, os chefes de Estado e de Governo colocaram Tsipras perante a saída do euro e a aceitação de um reforço da austeridade.
Photo de Joaquim de Freitas.
Joaquim de Freitas
OUSARAM HUMILHAR A DEMOCRACIA

Esta manha, ao pequeno-almoço, no meu terraço , a minha esposa, olhando para as montanhas e após ter ouvido as noticias, disse:

" Os alemães recomeçam". "Recomeçam sempre".

Depois de terem destruído a Europa duas vezes, em duas guerras que perderam, e terem recuperado com a ajuda dos Europeus e dos Americanos, rapidamente, graças ao perdão das dividas monstruosas que tinham para com os povos que destruíram, os Alemães recomeçam . Na base, a mesma ambição de supremacia, de dominação dos outros povos, não hesitando a utilizar as armas mais abjectas da humilhação, agora, e do genocídio no passado".

Anne Marie sabe do que fala. Expulsa, com a sua família, em 1940, pelos alemães, da sua vila de Lorraine, às seis horas da manha, intimaram-lhes de deixar a casa e a loja comercial, em 10 minutos, com as armas apontadas nas costas, para acelerar a saída.

O Pai pensou que este "tratamento" era devido ao facto que ele tinha sido piloto de caça durante a primeira guerra mundial, a precedente! Mas não era. Era a "germanização" da Lorraine que começava com a expulsão dos cidadãos de origem francesa.

A Alemanha punha assim em prática a politica de criação do "espaço vital" de que sempre sonhou, que ia da França à Rússia.

O desejo de criar condições para uma paz "eterna" na Europa ou pelo menos duradoira, levou De Gaulle, Adenauer et De Gasperi, a lançar as bases da futura União Europeia, sobre organismos criados no fim da guerra, como a Comunidade do Carvão e do Aço.
Sabiam que sem uma cooperação e amizade entre os dois povos da Europa, Franceses e Alemães, não pode haver paz na Europa. A História provou-o largamente.
De Gaulle aceitou-o tanto mais facilmente que entretanto dotou a França da arma nuclear, que mantém em respeito os seus eventuais inimigos. E a Alemanha não a pode desenvolver, tendo sido proibida pelo Tratado de Armistício, embora a NATO a possua, sob a qual a Alemanha se abriga.

Joaquim de Freitas disse...

(Suite)

"Mas o espírito de conquista e expansão alemão não desapareceu, apesar dos milhões de mortos que provocou na Europa e sofreu também. Este espírito está-lhe no sangue. Basta ver como foram capazes, aquando da explosão da Jugoslávia, como conseguiram convencer o resto do mundo que a Eslovénia devia recuperar a sua independência. Em 48 horas estava feito! A Eslovénia, como a Eslováquia, como todos os países de Leste acabaram por ser satélites da Alemanha. Hoje, é nestes países que se fabrica 75% das peças para os Mercedes e os BMW! , com uma incidência sobre a qualidade. O projecto do "espaço vital" que tinha levado Hitler às portas de Moscovo, foi concretizado.

No Ocidente, a conquista foi feita de outra maneira. O erro trágico da Europa (Mitterrand e Kohl) foi de impor a moeda única a países que têm economias débeis, e que perderam assim a possibilidade de adaptar o valor da sua moeda em função das áleas da economia.

O Euro é o filho do DM, moeda forte para uma economia forte, com a industria mais forte da
Europa, sobretudo nas pequenas e médias empresa, tecido gigantesco que faz a força da Alemanha.

E, sobretudo, o EURO, só pode ser cunhado no Banco Central em Frankfurt, fixa o seu fluxo, e é este Banco que aplica a política que lhe foi ditada pela UE, na qual a Alemanha tem a voz preponderante.

E esta política é baseada, primariamente, na defesa dos interesses dos fundos de pensão alemães, que distribuem os benefícios aos reformados, grandes batalhões de votantes, com um peso político considerável. E a melhor maneira de defender os seus interesses é evidentemente de conservar uma moeda forte, que não se deprecie, mesmo se isso deve custar às economias dos países fracos que, em certos momentos, poderiam necessitar uma certa flexibilidade na economia, como por exemplo, um pouco de inflação para relançar a maquina produtiva, e por conseguinte o emprego. Mas à simples evocação da palavra "inflação", a Alemanha envia os seus "panzers"!

O sistema económico europeu não permite derrogações à regra que foi implementada por países ricos para países ricos! Mas mesmos estes escapam por vezes a esta regra: a Alemanha em 2011, a França ainda hoje, não respeitam os critérios de Maastricht. Mas são países ricos e motores da UE. Estão absolvidos .

Resta que a imagem mais degradante do caso Grego, é que este país é obrigado de aceitar condições degradantes, humilhantes, e finalmente perigosas para uma saída real das dificuldade no futuro, mas que foi obrigada de aceitar porque senão não têm notas nos distribuidores para a vida de todos os dias. Simplesmente isso: a vida pára. Porque o Banco Nacional desapareceu.

Os países pobres, como Portugal deviam reflectir nesta imagem, porque reúnem as mesmas condições que trouxeram o caos à Grécia.

Aquilo que agora começa a transpirar das negociações do Eurogrupo, a chantagem exercida sobre os Gregos , é uma lição pensada pelos países ricos à intenção dos outros: - que fora da lei anti democrática da UE, não há vida possível.

A UNIAO EUROPEIA morreu na noite do 13 de Julho de 2015. Quando a democracia é assaltada desta maneira, o FASCISMO bate à porta. E foi frequentemente o prelúdio de guerras mundiais.

Porque sabemos todos que por trás destas manobras odiosas dos fortes contra os fracos, existem as oligarquias poderosas que estão preparados para manter os povos na dependência total.

Anónimo disse...

Não esquecer a História, que vai repetir-se no Ocidente, num futuro próximo, com outros protagonistas :

"Queda de Constantinopla" (1453)

Anónimo disse...

O importante seria o Governo actual saber que a Guerra hoje em dia se faz noutros espaços. Se antes tinhamos o espaço terrestre, naval e aéreo. Hoje, temos também o espacial, cibernético e mediático.

Mas no que a nós nos diz respeito e à Grécia também, temos um novo espaço muito importante. As Guerras na espaço Económico. Os Franceses falam abertamente em Guerra Económica.

Anónimo disse...

Daqui de Paris um abraço fraterno com a Grécia e com Portugal. O 14 de Julho teve 35 minutos de fogo-de-artifício. Isto diz muito...