quarta-feira, 15 de julho de 2015

... para além da Grécia

Há mais mundo para além da Grécia, felizmente. E há boas notícias no cenário internacional sobre a difícil questão nuclear iraniana. 

Depois de uma longa negociação liderada pelos EUA, com apoio da França, Reino Unido e Alemanha (e a União Europeia), terá sido possível chegar a um acordo com o governo de Teerão, que vai permitir o levantamento das sanções que esmagam, desde há vários anos, a economia do país. Em troca, o Irão aceita uma monotorização muito rigorosa do seu processo de enriquecimento de urânio, mantendo-se ainda alguns condicionamentos importante em matéria do seu equipamento militar.

Quem sabe mesmo se, com este passo, Washington não poderá ter aberto caminho a uma relação de novo tipo com o Irão, em moldes que lhe permitam ter nele um parceiro para a luta contra o Estado Islâmico, que o EUA já devem ter entendido ser hoje a grande ameaça à estabilidade na região (e não só). À coragem e determinação de Obama correspondeu também uma evolução sensível da parte iraniana, que procura convencer o mundo de que os seus propósitos sempre foram e são pacíficos - o que nunca foi a convicção generalizada da comunidade internacional, como é bem sabido sabe. O enriquecimento de urânio para fins não militares é permitido, sob regras conhecidas e internacionalmente aceites.

Quem se opõe a este acordo, que consagra uma forte vitória da diplomacia sobre a linguagem bélica? Naturalmente, a Arábia Saudita, que vê no Irão shiita uma ameaça muito forte ao proselitismo sunita que lidera na região. Depois, com o apoio de setores americanos hostis ao presidente, Israel surge como um dos mais ferozes detratores deste entendimento, porque não acredita que o mecanismo de fiscalização posto no terreno venha a ser suficientemente eficaz para impedir o Irão de ter a arma nuclear. Naturalmente, Israel tem, nesta matéria, particular "autoridade": toda a gente sabe que possui a arma nuclear, não sendo talvez por acaso que se opõe a qualquer operação de fiscalização da Agência Internacional de Energia Atómica no seu território...

A questão nuclear iraniana foi, ao longo da última década, um tema central nas preocupações das instâncias internacionais. Recordo-me que, quando era embaixador em Paris, o tema estava constantemente sobre a mesa das conversas com os meus colegas da UE e do Quai d'Orsay. Nesses tempos, pelo cruzamento das informações recebidas dos diversos serviços de "intelligence", íamos estabelecendo um calendário de aproximação do Irão ao fabrico efetivo da bomba, tentando perceber então se Washington ia ou não dar "luz verde" a Tel-Aviv para um "preemptive strike". Esperemos que esse cenário esteja agora definitivamente afastado, porque, no estado em que está o Médio Oriente, seria álcool sobre o fogo!

Uma última nota sobre as sanções aplicadas ao Irão, com o apoio muito alargado da comunidade internacional - Russia e China incluídas, ou não fossem estes dois países detentores da arma nuclear e, por isso, muito pouco interessados em alargar a "concorrência" na matéria. Para notar que estas sanções funcionaram e foram realmente efetivas.

Há cerca de dois anos, numa deslocação a Istambul, tive uma conversa casual com um médico iraniano que viajava com a família. Fiz-lhe algumas perguntas sobre os equilíbrios internos do regime e, em particular, sobre o efeito das sanções. Recordo a tristeza com que me disse, mais ou menos isto: "No passado, nós vínhamos à Turquia e sentíamos que estávamos a visitar um país bem mais pobre do que o nosso. Desde há alguns anos, as coisas inverteram-se: os turcos vivem muito melhor do que os iranianos e é muito claro que, para além disso ser o resultado de algumas opções internas erradas, as sanções contribuíram muito para o empobrecimento brutal por que o meu país hoje passa. Mas há exceções: a classe política não é excessivamente afetada pelas sanções, continua a ter os seus privilégios e mordomias. Mas o povo, infelizmente, sofre muito com o condicionamento internacional em torno do Irão".

O modo como os iranianos saudaram ontem o acordo obtido em Viena leva-me a crer que o meu interlocutor iraniano deve também estar feliz. Até eu estou, porque não é todos os dias que a diplomacia tem um êxito claro. Além de que é excelente que haja boas notícias na vida internacional.

7 comentários:

São disse...

Esperemos que as perspectivas não saiam goradas.

Quanto a Israel , como se sabe, é um Estado que está fora do Direito Internacional, já que comete crimes de guerra e não cumpre uma só determinação da ONU.

Peço desculpa, mas sugiro a revisão do texto só por um pequenissimo pormenor

Os meus respeitos

Abraham Chevrollet disse...

A lista dos intervenientes nas conversações não está curiosamente curta? Lapsus calami? A bomba do Irão será perigosíssima. A bomba de Israel é usada nos jardins escola,divertindo os meninos israelitas com as suas (dela)facécias.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Caro Chico

O caso do Irão é sinónimo que tudo se pode resolver pela diplomacia; pelo menos foi o que disse o Obama... Mas na prática há que ter muito cuidado em seguir a prática

Infelizmente também as há péssimas: o terrível problema ucraniano parece que se alargou e piorou...

Abç do alfacinha

Anónimo disse...

Sr. Embaixador,

Não conheço um único caso em que as sanções tenham funcionado. Acha que funcionaram? Fortalecem quem está no poder e fragilizam os povos. Foi assim com o Irão, está a ser assim na Rússia.

Anónimo disse...

Alem da Grécia... existe um problema da maçonaria financeira de cuja fraternidade e igualdade sabemos todos infelizmente os seus "valores".

A Igreja Ortodoxa grega,um estado dentro de outro estado, e a Igreja Ortodoxa russa pertencem todos á mesma origem: Bizâncio.

Os não crentes tendem sempre a desvalorizar a religiâo.

Ainda vamos ver o definhamento da Grecia e o seu alinhamento com a Rússia, com Israel e a Turquia do outro.

Vamos assistir ao declínio do Ocidente cristão e profundas alterações nessa zona,berço de civilizações milenares.

Anónimo disse...

Por cá também não é só «grunhos» e desgraças... Acabo de ler notícia veiculada pela Renascença - uma empresa têxtil de Viseu, GOUCAM, se não estou em erro, dá um salário mínimo de prenda a cada trabalhador, mãe ou pai, por nascimento de uma criança. Não fará parte, seguramente, da primeira página de um qualquer jornal àmanhã.

Anónimo disse...

http://www.iss.europa.eu/publications/detail/article/eu-sanctions-in-context-three-types/

http://www.iss.europa.eu/publications/detail/article/eu-sanctions-exit-strategies/