sexta-feira, 24 de julho de 2015

"Governo de Portugal"


A legislatura que agora termina foi dominada por uma coligação pouco comum: entre uma maioria escolhida por um país em estado de necessidade e um grupo de instituições internacionais mandatadas pelos respetivos credores para impor um imperativo "take it or leave it". A maioria colocou com visível gosto a sua assinatura no programa de ajustamento, determinado a um Governo que negociara em situação de fragilidade extrema, um pacote drástico de medidas em que declarou que se revia e que, não raramente, considerou mesmo recuado face àquilo que eram ao seus reais propósitos. Em algumas áreas, o zelo da nova governação, exercido perante um país aturdido, atingiu proporções que chegou a surpreender os delegados dos credores, como está hoje documentado.
 
Para essa troika, deve ter sido um cenário de sonho vir a encontrar por cá, recém-eleito com confortável margem, um Governo que só por facilidade logística se sentava no outro lado da mesa. Ela que vinha de uma experiência com uma Irlanda que lhe havia batido com sucesso o pé em questões como a baixa do IRC, ou de uma Grécia que, não obstante ter conseguido obter cada vez melhores condições, dizia num dia uma coisa e fazia outra depois. Que sossego não terá sido, para os "homens de cinzento" aportar a um país tutelado por um Executivo complacente, "mais papista do que o papa"!
 
Não é comum, na história dos povos, assistir-se à ascensão, à tutela de um Estado, de um Governo que, movido por uma agenda ideológica contra esse mesmo Estado, cuida criteriosamente em desarticulá-lo, para melhor poder demonstrar a ineficiência do que pretende enfraquecer. Já menos incomum é a aplicação num país de receitas desenhadas no exterior, executadas por atores internos colaborantes; em algum passado, casos houve que ficaram marcados por algum desapreço na memória coletiva do Mundo.
 
O Governo desta atípica coligação chega agora ao fim. Os resultados são o que são: na dívida que aumentou, no desemprego que provocou, nas falências que originou, na emigração que promoveu, nas clivagens internas que potenciou - público versus privado, ativos versus reformados, novos contra velhos. O Governo vive sob a glória dos juros conjunturais de S. Draghi, o país permanece classificado de "lixo" pelas agências de notação, mas ostenta um sincrónico défice virtuoso, construído por vagas de impostos e pela degradação acentuada dos serviços públicos. Um coisa é indiscutível: cumpriu, com lealdade, as funções que lhe foram confiadas. Na lapela, mantiveram o pin do seu "Governo de Portugal". Não fosse dar-se o caso de se terem esquecido.
 
(Artigo que hoje publico no "Jornal de Notícias")

24 comentários:

Anónimo disse...

O actual Governo ganhou as eleições em 2011 numa situação extremamente difícil, quando Portugal estava a um passo da bancarrota na sequência da governação do PS, então liderado por José Sócrates.

Portugal saiu dessa situaçào catastrófica e fez reformas sérias (não as pseudo reformas do Estado do Dr. Portas) para aumentar a competitividade e produtividade do país.

Só através de uma maior produção e aumento das exportações é que conseguiremos afastar-nos de vez do abismo onde estivemos quase a cair em 2011.

Anónimo disse...

Caro Seixas. Ao que me recordo este é talvez o seu texto mais violento contra este governo. Que nunca lhe doam as mãos.
CSC

Jose Martins disse...

Senhor Embaixador,
Transcrevemos
http://aquitailandia.blogspot.com/2015/07/teclas-do-embaixador-seixas-da-costa.html
Saudações de Banguecoque

Anónimo disse...

Muito bom!!!

A questão crucial é mesmo "a glória dos juros conjunturais de S. Draghi"... vamos enfrentar tempos dificeis.

Este Governo resolveu muito pouco quando teve a oportunidade como nenhum outro. Fez umas reformas na saúde e na educação que eram necessárias mas agravou as coisas em quase todos os sectores

Anónimo disse...

E nós portugueses entre estas duas posições que dizem o pior uma da outra, escondendo que foram ambas que nos levaram até aqui e, pelos vistos, vão continuar alegremente a massacrar-nos!

Anónimo disse...

Continue a escrever, nota-se bem a diferença do Dr. Medina Carreira, e para bom entendedor (?).,, chega.

Majo disse...

~~~
~ Muito bem escrito, FSC!
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

~ Eu acrescentaria: uma coligação de direita eleita com
a colaboração da esquerda, que opondo-se terminantemente
ao PEC, abriu as portas à «Troika».

~ Também não deixaria de referir que foi um governo
terrorista que conseguiu silenciar e anular a opinião
das classes trabalhadoras, pela ameaça do desemprego,
convidando à emigração jovens e despedidos.

~ O governo de Portugal que mais desonrou a classe
dirigente, pelas constantes contradições - inverdades
que manejou ardilosamente.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

João Pedro Garcia disse...

Tudo isto com um Presidente da República tão irrelevante que nem sequer é mencionado no texto (porque faz parte do governo/maioria?).

JPGarcia

Anónimo disse...

Bom dia,

Senhor Embaixador, efetivamente este governo vale o que vale( ou seja muito pouco). Mas também tenho pena que o PS seja há várias décadas um partido de interesses, de negociatas escuras e de muita gente pouco recomendável, este partido foi durante os primeiros anos o maior garante de Liberdade e progresso, mas depois foi entrado a tal gente pouco recomendável e fez dele uma organização sinistra.Portugal com PS E PSD só tem um caminho a desgraça. Agora brincando um pouco, repare no meu caso que estou fora do País, já viu a saudade que sinto dos nossos covilhetes de Vila Real, dos toucinhos do céu do Artur Cramez, dos caramujos, napoleões, bolas de berlim e da bola de carne da Gomes. Para já não falar nas francesinhas do Cardoso ou do salpicão em vinha de alhos do malcriado na Raia. Acha que algum dia poderei perdoar a toda esta gente, nunca.

Anónimo disse...

Nunca estivemos a cair no abismo, como, errada e tendenciosamente, o anónimo das 00:26 nos quer fazer crer. Isso é propaganda deste governo. A situação era, apesar de frágil, muito menos má do que a actual, que estes incompetentes nos deixam, agora, que vão partir. O que se passou por ocasião das negociações com a Troika, que nos levaram ao tal "programa de ajustamente" (vulgo de destruição socio-economica) foi a oposição PSD/CDS, acolitada nos tais credores, obrigar o anterior governo a aceitar as condições humilhantes que veio a ter de aceitar. Com um PR que não esteve à altura, nem tem estado, que aliás colaborou com essa oposição para derrubar o governo anterior e na aceitação daquelas medidas. Não quero com isto dizer que José Sócrates fosse um santo e não tivesse responsabilidades, mas as coisas foram o que foram e negar isto é de gente pateta que nada percebe do que fala, ou então está ideologicamente de acordo com o este governo e o desastre praticado por esta coligação.
Jorge Sarmento

Anónimo disse...

Prezado Senhor, é com grande conformo que o vejo aposentado. Era preocupante Portugal ter um embaixador, em postos de destaque, com esta visão deturpada da realidade económica e social do país por razões politiqueiras e partidárias. Não faz falta. Que venham os mais novos fazer um trabalho válido por Portugal.

Anónimo disse...

Caro Seixas da Costa,
Como réplica ao anónimo da hora do almoço, 13:26, pena é que você não esteja disponível para o exercício de funções governativas, ou outras...mesmo estando aposentado. Grande Post!
a)Rilvas

Antonio Cristovao disse...

A chatice das narrativas é que a realidade se mostra melhor que a linda prosa.

Anónimo disse...


Um texto da saudosa 5ºDivisão (PREC) restaurado para o século XXI.

Anónimo disse...

Acho que a sua sapiência desde as sardinhas aos profiteroles, como reformado ou pensionista,devia ir para Paris, para a SPro, onde se formam verdadeiros educadores do povo, como deve saber.

Anónimo disse...

Grande e verdadeiro Post! Só acho que o autor do blogue é demasiado permissivo em aprovar e aceitar comentários como o das 13:26, que ofende os leitores normais e decentes deste blogue. Senti grande incómodo. Até 5 de Outubro, sem essa corja! De gente nova que fez tem feito um trabalho de acordo com o juízo do dito. Ah, sem esquecer também o protetor desse trabalho e dos trabalhadores dos pin´s da lapela.

opjj disse...

Garanto que fui prejudicado por todos os partidos(defeito meu), excepto pelo Bloco pq não existia.
Mas neste seu blogue verifico que, aqueles que se autotitulam de esquerda, só instilam ao ódio na linguagem, mas porquê? Do outro lado não se passa isso! Na esquerda só o bem e pessoas boas e do outro lado os maus da fita.
Assim não haverá coligações que o país precisa.
Se calhar vai engolir alguns sapos com o seu último parágrafo.Com Cavaco, 5 contra 1 deu no que deu.

Cumps.

Isabel Seixas disse...

Subscrevo com admiração, embora não me admire nem me espante pois conheço a sua capacidade inata para escrever o que quer como quer, cada vez escreve melhor e transmite com rigor o
argumento sem argumentos de uma peça de teatro que dura há quatro anos numa representação feita num palco de carrocel borgista, onde atores dissimulados de tailleur e adereços estendem um auditório de areias movediças e desfaçatez que inibem pelo pasmo abismal que provocam...

Oh será?

“Destino: aquilo que autoriza os crimes do tirano e serve de desculpa para os fracassos do idiota.”

“Paciência: forma menor de desespero disfarçado de virtude.”

―Ambrose Bierce

Naa é também a nossa displicência, mas textos como o seu post ajudam, vou roubar para o meu face, parabéns.


Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Senhor Embaixador

Estranho este seu post publicado precisamente na altura em que finalmente, Portugal vai ter um défice inferior a 3% (calcula-se 2,7%). Finalmente, Portugal vai regressar à decência financeira.
É bom que não se esqueça que quem arruinou Portugal no passado o arruinará outra vez no futuro. Se lhe derem a oportunidade...

Abraço

ZT

Anónimo disse...

José Tomas Melo Breiner parece que não leu com a devida e requerida atenção o que o post de FSC diz. Convém ler uma segunda vez. É que se assim for o caso, já não diz as enormidades que refere. Felizmente para nós que este governo que nos levou à ruína se vai embora definitivamente!
O anterior governo deixou um país com capacidade de recuperar, mas este que lhe sucedeu, em 4 anos, comportou-se como um feiticeiro em vez de médico e na hora de curar o doente, o País, destruí-o.

Antonio Cristovao disse...

A politica sai um pouco chamuscada desta cronica. Tanta demagogia,em que se fala do desemprego ou do defice, como se fosse da vontade dos que lá estão, carregar num botão e alterar os dados- aqui o cronista consegue isso, mas não se recomenda o estratagema, ou da vantagem para Portugal em que a estabilidade governativa nos tem ajudado nos sucessivos positivos(chumbos na óptica dos demagogos), nas negociações com os credores.
Enfim a propaganda no seu pior.

inconfessável disse...

Grande post!
Quando aqui entrei a primeira vez, do que mais gostei foi da sua qualidade de escrita, que não tem desmerecido. Depois de tudo o resto.
Os meus parabéns por, apesar da moderação de comentários, deixar editar todos estes comentários.

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Ao Anónimo das 15:22

Se o Senhor acredita que o Governo liderado pelo prisioneiro nº 44 da Cadeia de Évora deixou um "País com capacidade de recuperar" então está tudo dito.

Esquece-se o Sr Anónimo que quem chamou a Troika e quem promoveu o acordo de resgate foi esse Senhor que agora está em Évora às contas com a justiça.


Anónimo disse...

O que eu mais gosto nos comentários sobre o actual PR é o facto de todos eles se apoiarem numa análise não sustentada na realidade constitucional que suporta a actuação de um Presidente em Portugal ( qualquer um ). O que interessa é dizer mal.
Pois eu não concordo com essa visão negativa do exercício do mandato presidencial.
O PR tem os poderes que a COnstituição lhe confere. Nem mais um.

Pois eu acho que os exerceu com isenção, com talvez excessivo apego à letra da lei ( no caso, a Lei Fundamental, que é a Constituição da República ), com sentido de Esatdo e com bom senso, que era o que se pedia num período invulgar da nossa história política, com uma Troika a liderar os destinos do país, variáveis internacionais voláteis, mediatização de qualquer acto por mais insignificante que fosse, etc.

Este PR continuará a não ser o homem de boas famílias que chegou a PR, mas isso não retira nem acrescenta um milímetro à dignidade que emprestou ao cargo, à forma isenta como o exerceu, às muitas diligências que fez para que Portugal fosse caminhando. é muito injusta a apreciação que se faz na generalidade dele, apoiada em notícias muitas vezes falsas enuma campanha orientada para denegrir a sua imagem.
Basta olhar para a cara dele quando fala na TV, par se ver que está de consciência tranquila. Fez o que tinha de ser feito.