sexta-feira, 10 de julho de 2015

As questões do Brasil

Para um observador exterior, a crise política profunda que atravessa o Brasil tem alguns aspetos incompreensíveis.

Por muitos meses, vimos o povo na rua clamando por melhores serviços públicos, contra certas mordomias, contra a corrupção e o desvio de verbas de empresas públicas, pelo fim das comissões cobradas em determinados contratos, etc. Essa luta deu passos em frente, com uma atuação firme do poder judiciário, que está a "limpar a casa" e a provocar um terramoto em alguns conluios históricos entre a política e os meios económicos.

Porém, numa análise mais fina, os últimos dias mostram que uma tensão entre a presidente e o congresso de deputados tem agora como origem próxima duas questões essenciais: a não facilitação, por parte de alguns ministérios, em matéria de abertura de cargos para as clientelas partidárias e as dificuldades encontradas por alguns deputados para financiarem as suas "emendas" legislativas, isto é, o seu quinhão de utilização do orçamento para favorecerem as suas clientelas políticas próprias.

Nem por um segundo o sentimento público brasileiro surge a interrogar-se sobre a legitimidade destas duas práticas, as quais, em si, constituem fontes de discricionariedade e arbítrio: no primeiro caso, de escandaloso aparelhamento partidário da máquina pública e, no segundo, de alimentação da rede do verdadeiro "polvo" que é o financiamento do "envelope" de iniciativas dos deputados, para garantirem os seus votos futuros.

Ninguém - mas ninguém! - surge na imprensa brasileira ou no discurso político a denunciar estas duas práticas. Porquê? Porque elas fazem parte da matriz "patrimonialista" do regime, beneficiam o conjunto de partidos da "base governista" (embora com desequilíbrios entre si, que estão na origem dos atuais confrontos políticos interinstitucionais) e são, até ver, um "fact of life".

Quando acordará o Brasil para o absurdo democrático destas práticas? Tenho pena não ter podido estar ontem na conferência que o antigo presidente Fernando Henrique Cardoso proferiu na Gulbenkian. Gostava de ter podido fazer-lhe esta pergunta.

3 comentários:

Joaquim Moura disse...

Espera aí a ver se nós entendemos!
Mas não foi o próprio Fernando Henrique Cardoso (FHC) o mestre em jogar com as especificidades do sistema político brasileiro para conseguir comprar votos que lhe permitisse mais um mandato?
Não foi no mandato do FHC que os tocanos (PSDB) compraram a aliança com Sarney, Campos, etc. para reforçar e institucionalizar muitas das práticas clientelares com a total partidarização do aparelho do estado?

O sistema político (e não só) no Brasil está assente no clientelismo, no tráfico de influências e na percepção que os eleitores tem sobre o partido que melhor defende a sua "quinta". Para reformar esse sistema seria preciso uma mudança constitucional, que com o atual establishment - de que FHC é um das maiores figuras - é impossível.

O nível de corrupção no aparelho de estado no Brasil é tão alto que se pode falar em pandemia. Contagia todos e só os partidos anti-sistema (PSOL, etc.) é que por agora estão imunes.

Anónimo disse...

Lavajato

A melhor lavadora do mundo, com filiais em Portugal !

Um texto do melhor humor !

Joaquim de Freitas disse...

Les hommes ne vivraient pas longtemps en société, s'ils n'étaient les dupes les uns les autres.
La Rochefoucauld