terça-feira, 7 de julho de 2015

Acabou a conversa

Olhando em perspetiva, há que convir que o resultado do referendo grego constitui o mais importante desafio com que a União Europeia se confronta, nas suas décadas de existência. O alargamento a Leste, outro desses grandes desafios, resolveu-se formalmente, não obstante o choque de diversidade que induziu. Este desafio tem, porém, uma natureza muito diferente.
 
Foi importante que a votação grega fosse inequívoca. Um resultado equilibrado daria a sensação de que a vontade nacional estava dividida. As coisas ficaram muito claras: a Grécia recusa receitas de austeridade e quer soluções que rompam com os modelos tradicionais. À mesa de Bruxelas estará um parceiro que, mais do que no passado, irá dizer, alto-e-bom-som, que não aceita, não apenas aquilo que pelos outros lhe é proposto que faça, se quiser continuar a ser financiado, mas, essencialmente, que não se revê na filosofia subjacente ao funcionamento do “eurogrupo”. E, legitimada agora por um expressivo voto popular, a Grécia quer mudar as regras do jogo, propondo abrir outros tabuleiros paralelos, como o da reestruturação da dívida.
 
A Grécia tem um novo problema. Como ontem aqui escrevi, o governo grego tem o dever de defender, sem desiludir quem agora o reforçou, um novo e mais imperativo mandato de recusa da austeridade. Nos últimos cinco meses, andou num vai-e-vem de propostas. O referendo deu-lhe agora a possibilidade de transferir para os parceiros europeus o ónus da resolução do problema. Como? Aceitando estes as soluções que a Grécia apresenta, as quais, tendo até uma relativa sensatez, se confrontam com a dificuldade de fugirem por completo à lógica dos restantes parceiros. Podem dizer que estou a simplificar o problema. Não estou, é só isto.
Mas os parceiros europeus da Grécia também têm um novo problema. No passado, tiveram consigo o fator tempo: embora crescentemente irritados, foram deixando prolongar a tramitação negocial, na errónea esperança de que a chegada das “deadlines” temporais para a liquidação dos empréstimos pudesse vergar a vontade grega. Enganaram-se.
Ao impor a votação de domingo, o governo da Grécia conseguiu a dramatização que pretendia. Se as torneiras do financiamento se fecharem, se a miséria se tornar evidente no dia-a-dia, Atenas dirá, agora mais do que nunca, que tal se deve à obstinada intransigência dos credores. E isso não demorará semanas a acontecer, será dentro de dias.
Vamos agora ser testemunhas de um inédito braço-de-ferro, num cenário mais emocional do que nunca. Se, com esta sua atitude, por um golpe de mágica, a Grécia conseguir vir a alterar as políticas financeiras da Europa, “chapeau”! E todos ganharemos, claro, desde logo, Portugal. Se assim não acontecer, se um compromisso de qualquer natureza não vier a estabelecer-se, se a catástrofe financeira for o destino trágico desta aventura, poderemos estar a assistir ao princípio do fim do projeto europeu.
(Artigo que hoje publico no "Diário Económico") 

12 comentários:

Anónimo disse...

Sr. Embaixador,

Por esta lucidez, este incrivel bom-senso, é que acho que não pode ficar de fora de um futuro executivo.

Se acaso a Grécia acabar por sair, ai é que não pode mesmo virar as costas ao seu País. Necessitamos dos melhores dos melhores.

Abraço

opjj disse...

Oxalá tenha razão, mas não acompanho V.Exª.O dinheiro é a mola real da vida. A Grécia quere-o. Apesar dos cortes feitos, os salários e pensões são mais altos do que em Portugal. Sem economia a Grécia é um sorvedouro de dinheiro e ele por si só nada fará, apenas aumentará as importações, tal como em Portugal. Isso está claramente espelhado na quantidade de carros (e não só),comprados e mais caros.
O desemprego é o maior desastre que lamento.
Cumps.

Joaquim de Freitas disse...

De acordo com o que escreve, Senhor Embaixador. Como frequentemente. Mas penso que nao haverà Grexit. Obama começa a agitar-se. A partida ultrapassa a simples crise financeira grega e as relações com a UE. Putin resta muito silencioso e isso deve preocupar Obama.

A UE é o terreno da supremacia dos lobbies das firmas transnacionais. Tudo é feito para lhes agradar. O presidente da Comissão é o campeão da optimização fiscal destas firmas transnacionais. O Chefe da BCE é um antigo patrão duma banca de investimento de primeiro nível, relais entre as firmas transnacionais e os mercados.

Toda esta gente agita-se com um objectivo : salvar os moveis do desastre !

A UE é uma peça da construção do futuro Estado transnacional. Mesmo uma peça central. Nenhum buraco será tolerado na imagem da carta.

A saída da Grécia não poderá ser tolerada, tanto mais que os povos compreenderam que o seu futuro é posto em perigo por uma "elite" da classe capitalista transnacional.

Por conseguinte, a Grécia não pode simplesmente deixar a zona Euro ou a UE. Seria uma mensagem nefasta enviada ao império em construção .Não existe nenhum texto que a obrigue também.

A crise grega não é nada mais que uma guerra lançada contra o que resta ainda da soberania nacional deste Estado. A crise das finanças é portanto secundária.

A austeridade exigida pelos credores da Grécia é de longe mais importante que a dívida ela mesma. Fazer reconhecer a superioridade das exigências das firmas transnacionais consiste a renegar a democracia e as necessidades humanas do povo. Trata-se duma exigência de "rendição".

Para o momento, todos os outros povos renderam-se sem condições. A Grécia é o primeiro país a recusar a subserviência. A UE passará pelo buraco da agulha para evitar o pior para o grande projecto transnacional.

E a aceitação da reestruturação da dívida, o grande obstáculo a ultrapassar, sem a qual a Grécia não poderá nunca respeitar os seus compromissos, porque a dívida é impagável doutra maneira, nem poderá desenvolver a sua economia, nem fazer as reformas necessárias, será o grande sinal que deve vir hoje de Bruxelas :

- Ou Tsipras ganha a batalha das reestruturação ou se rende.

carlos cardoso disse...

A palavra-chave é "por um golpe de mágica", pois só um tal golpe poderia trazer essa "Solução". Como eu escrevi num comentário a um outro post: ainda há quem acredite que é possível fazer omeletas sem partir ovos.

Anónimo disse...

Despejar euros para economias podres é o mesmo que o deitar a uma lareira com ou sem austeridade. O retorno só é garantido impondo relações económicas sérias e reguladas com independência por um Estado livre de corruptos e de interesses privados e outros. Cá como lá! Era isto que o eurogrupo deveria impor! Os cortes seriam estritamente dirigidos a esta imposição. Não parece que queiram assim…

Por acaso gostaria de ver a posição do eurogrupo se aparecesse petróleo do mar Jónico ou Egeu ou em ambos em quantidades assinaláveis! Seria engraçado ver as “novas” posições dos políticos…

Anónimo disse...

Ao impor o referendo, o governo da Grécia conseguiu a dramatização que pretendia. Concordo. Mas também avaliou, e bem, a coragem do povo que representa.

O referendo de domingo passado mostrou 62% de coragem e 38% de medo. O que é obra, porque a coragem costuma vir de par com os bolsos mais cheios e o medo da fome costuma ser superior ao vigor dos princípios.

Os gregos são um povo corajoso.
Emocionalmente sinto-me do lado dos gregos, mas racionalmente acho que a GR fez grossa asneira, porque o "pacote" de medidas que aí vem já é pior que o anterior, a condicionalidade imposta é mais gravosa para o povo, os prazos apertados não dão tempo a pressões sobre a Troika.

Mas ou a GR fez asneira, ou acabámos de assistir à melhor negociação de que há memória na UE.

Já o disse aqui 3 vezes. Os GR são grandes negociadores.
Pela primeira vez o Embaixador SC, que tanto sabe destes assuntos e cuja inteligência sagaz tanto admiro,acaba de concordar comigo quando põe pelo menos a hipótese de isso ser uma realidade. "Vamos agora ser testemunhas de um inédito braço-de-ferro, num cenário mais emocional do que nunca. Se, com esta sua atitude, por um golpe de mágica, a Grécia conseguir vir a alterar as políticas financeiras da Europa, “chapeau”!

Vamos aguardar.

Anónimo disse...

As unhas, com tanto roer, já quase chegam ao sabugo....

Jose Martins disse...

Senhor Embaixador,
Segundo li algures os gregos são maus pagadores e pretendem empréstimos de borla.

Quando trabalhei na década 70, século passado, na Arábia Saudita, parte do pessoal expatriado, suas famílias viviam em Atenas e diziam cobras e lagartos dos gregos...

Tive um colega, espanhol, que caiu de amores com uma grega, casaram e tiveram 2 filhos, só que o homem vivia amargurado, principalmente, por pagar enormes montantes de contas de telefone...

O meu amigo espanhol, Diaz Sola, um dia foi a Atenas visitar a família e a conta de chamadas era tal que não esteve com meias medidas... Com uma tesoura cortou o fio ao telefone.
.
Matou o bicho e se foi a peçonha... Separou-se, levou os filhos com ele e começou nova vida com outra senhora, espanhola, em Alicante.
Saudações de Banguecoque

Anónimo disse...

"Quanto mais alto te puserem a fasquia, mais fácil te será passar-lhe por baixo".

É isto que Tsipras vai tentar fazer, numa negociação que fica para os anais da história das negociações europeias. Passar por debaixo das exigências da troika, beneficiando de uma conjuntura que lhe é altamente favorável, ainda que sustentada em factores exógenos que em nada dependem da sua acção, menos ainda são produto dela.

Se há efeito que a vitória do NÃO provocou é o da premência de chegar a acordo, o de obter o tão famigerado compromiso. E isso é uma "espada de dois gumes" porque está também apontada ao coração dos outros 18. Particularmente a estes, eu creio.

Por várias razões: a falta de liquidez da banca grega e o possível contágio; a pressão de Washington e, presumo, da China, entre outros; o facto de que em política podemos mudar tudo menos a geografia.

A GR já tem pouco a perder e Tsipras sabe-o.

Antes de abandonar o cargo Varoufakis ameaçou com a liquidez paralela, os tais de IOU, que eu nem sei bem o que sejam. Mas sei que a UE não quer substituir o seu maior projecto político desde 1951/1957 por uns IOU quaisquer, fazendo da GR a Argentina da Europa. .

Anónimo disse...

Voltamos ao folhetim habitual. Tsipras e o seu novo Ministro das Finabças vào para Bruxelas sem qualquer proposta concreta. Só palavras como sempre. Têm até sexta para inverter o seu rumo, senão adeus ao Euro.
Não é a Europa que os empurra, é a sua actual liderança que os leva para o abismo.

Anónimo disse...

Os alemães já falam em reestruturação e reescalonamento da dívida.
No meio do caos por ele mesmo promovido Tsipras vai fazendo o seu caminho. Devagar, devagarinho. Porque o caminho faz-se caminhando.

Os GR são grandes negociadores.Il faut patienter.

Anónimo disse...

1. O Governo GR queria um resgate.
2. Há 5 meses atrás sabia que a UE não pactuaria com tal pedido.
3. Que fazer? Provar à UE que, mesmo sendo o elo mais fraco, não estava disposto a ceder na procura de soluções que apenas contemplavam mais austeridade a troco de dinheiro para pagar juros de empréstimos vincendos.
4. Causou, então, o caos nas negociações. Deu o dito pelo não dito. Esticou bem a corda, para provar que não tinha medo que ela partisse.
5.Impôs um referndo ao povo que sabia estar farto de austeridade, beneficiando do capital de confiança que lhe davam as múltiplas idas e vindas a Bx, Berlim; Paris, etc.
6. E o povo acreditou que o Governo fará qualquer coisa para os livrar da austeridade imposta a troco de quase nada.


7. O fundo de resgate da zona euro recebeu esta 4f o pedido formal da Grécia de um terceiro programa de ajuda financeira por um prazo de 3 anos. E o PM Valls classificou já a carta enviada pelo Governo grego para pedir aos parceiros europeus um novo programa de ajuda financeira como "um avanço" que permite dialogar.

Oh, meu Deus, digam lá que isto não é a negociação mais bem sucedida de sempre?

OS GR VÃO TER MAIS DINHEIRO A TROCO DE MENOS SACRIFÍCIOS.
E VÃO REESTRUTURAR A DÍVIDA LÁ MAIS PARA A FRENTE.
E VÃO AMARRAR A UE AO SEU DESTINO.
PORQUE DAQUI A 3 ANOS A GRÉCIA AINDA ESTARÁ NO MESMO SÍTIO NO MAPA DA EUROPA.