terça-feira, 16 de junho de 2015

Sons de casa


Um dia, em Brasília, numa magnífica casa em frente ao lago Paranoá, um amigo queixava-se-me de que, todas as manhãs, era acordado por um chilrear infernal de passarada, que isso lhe era extremamente incomodativo e que, se soubesse que tal ocorreria, não tinha alugado aquela moradia. Fiquei siderado! É que se havia coisa que me agradava na casa onde eu então vivia, a uns quilómetros de distância da dele, era começar o dia a ouvir o descansativo som musical das aves. E sentia mesmo pena por não poder ter ali comigo o meu pai, "birdwatcher" militante, que, nos seus noventa e muitos anos de então, se dedicava ainda a distinguir e identificar o gorjeio dos pássaros, que toda a vida o entretivera.

Nos dias que correm, por um bambúrrio acústico por que sempre me felicito, e que tem muito a ver com a casual barreira de prédios circundantes, vivo no centro de Lisboa numa casa em cujas traseiras, para além de um muito vago rumor de fundo da cidade, só ouço os pássaros que andam pelos jardins e os sinos de uma igreja (que nunca percebi se é de a Santos ou a da Estrela), complementado, em parte dos dias da semana, pelo "chilrear" da pequenada de um infantário próximo. De longe a longe, lá do rio, ouço o ronco da sirene de um navio de cruzeiros. E é tudo! A vizinhança é sereníssima, os barulhos da rua não chegam a grande parte da casa e, mesmo no bulício da manhã lisboeta, usufruo de um magnífico quase silêncio. Se há um "paraíso" sonoro em Lisboa, ele anda ali pelas traseiras e pelo jardim da minha casa.

Gabava-me desta "felicidade", há uns dias, a um amigo. Perguntou-me se os elétricos que passam à minha porta não se faziam sentir, inquiriu sobre o efeito das aceleradelas na minha movimentada rua, tive de garantir-lhe que as rotas dos aviões não cruzavam o meu "share" de céu. Por fim, sempre com um olhar cético, não resistiu a inquirir: "Mas será que tu ouves bem? É que, com a idade..."

10 comentários:

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Caro Chico

Durante 31 anos morei na Lapa, mais precisamente na Travessa do Ferreiro (sempre tive a esperança de que um presidente da CML, talvez mais distraído, emendasse para Travessa do Ferreira, mas em vão...) onde o sossego e a passarada davam as mãos (as asas neste último caso) conseguindo superar o som que vinha da Infante Santo.

Mas a Lapa não era só rosas, também tinha espinhos (e estou certo de que continua a ter...): as "tias", as celebérrimas "tias da Lapa". Que ficavam estacionadas nos carris dos eléctricos na Rua de Buenos Aires, os seus carros de um e outro lado, enquanto as respectivas donas/"tias" conversavam amenamente - atropelando o tráfego como canta o Chico Buarque.

Uma noite, vinha acompanhado pela Raquel pela Rua do Sacramento à Lapa e estava um carro estacionado no meio da rua (que não é muito larga, como sabes). Dentro do carro uma "tia" falava tranquilamente pelo telemóvel. Fiz sinais de luzes com os faróis e a "tia" continuava ao telemóvel impávida e serena; então dei uma buzinadela curta. E a "tia" saiu do carro (aliás sem as luzes de estacionamento ligadas). E disse: "Não vê que estou a falar ao telemóvel?!"

Não fora a Raquel estar ao meu lado e a minha resposta seria outra; por isso disse-lhe que se fazia favor afastasse o carro do centro da rua ou eu ia à polícia... A alternativa não era muito aliciante: encostou o carro ao passeio. Mas quando passei pela viatura, saiu de dentro dele um comentário a que não liguei e ouvi qualquer coisa terminada em uta

Safei-me da Lapa e hoje estou na Rua José da Costa Pedreira, perpendicular à Alameda das Linhas de Torres em frente do Hospital Pulido Valente - onde ainda não consegui encontrar nenhuma "tia"...

E mesmo ao pé do prédio onde moro há uma rua do embaixador Armando Martins Janeira, mais um transmontano muito meu amigo...

Abç

Anónimo disse...

Também adoro ouvir o chilrear dos passarinhos!
pena que em várias regiões de Portugal os apanhem para os petiscos

Anónimo disse...

Curioso,

Passados tantos anos, contínuo a ter as primeiras horas da manhã com hard rock ou heavy metal. Nada melhor para dar "pica" ao resto do dia.

Pássaros nem vê-los pelo jardim circundante.

Raul

Anónimo disse...

Penso que os falcões estão a chegar....

"Vem aí um Lehman Brothers Made in Germany?

E se o 12º maior banco do mundo, o Deutsche Bank (DB), estivesse já numa espiral implosiva? A sua exposição ao mercado de derivados financeiros é superior ao PIB mundial!!!

Os sinais abundam e o pânico que parece ter tomado subitamente conta de Angela Merkel e François Hollande perante o incumprimento grego de 5 de junho é porventura o mais avermelhado aviso do buraco negro que poderá, de um momento para o outro, abrir-se diante do euro, mas também do dólar.

Tem muito dinheiro no DB? Mais de 50 mil euros? Mude-os para o BPI, para o Crédito Agrícola, ou mesmo para a Caixa Geral de Depósitos!"

CORREIA DA SILVA disse...


Se bem me lembro (ao estilo, do saudoso Vitorino Nemésio), a letra da canção "construção", do Chico Buarque, a determinado trecho diz:

"morreu na contramão ATRAPALHANDO o tráfego" , e não -ATROPELANDO-, como refere o Senhor ANTUNES FERREIRA.

CORREIA DA SILVA disse...


Se bem me lembro (ao estilo, do saudoso Vitorino Nemésio), a letra da canção "construção", do Chico Buarque, a determinado trecho diz:

"morreu na contramão ATRAPALHANDO o tráfego" , e não -ATROPELANDO-, como refere o Senhor ANTUNES FERREIRA.

Anónimo disse...


Eu ouço os pássaros do Jardim Botânico Tropical, as gaivotas do Tejo, que passam mesmo à frente da minha janela, os barcos a entrarem ou a saírem da barra e, em dias de jogo, concerto ou reunião da Igreja Maná, Universal do Reino de Deus ou outras desse estilo, os sons que me chegam do Estádio do Belenenses. Tirando isso, a rua, que é uma praceta, é bem calma e silenciosa.

Luís Quartin Graça

Anónimo disse...

corrigenda: a rota dos aviões passa mesmo por cima de tua casa, eu vejo-os a noite, um atrás do outro. Felizmente raramente se ouvem e a noite fazem um "ballet" constante e divertido, mas lá que passam, passam.
Fernando Neves

opjj disse...

V.Exª. ouve sons que o traquilizam, ainda bem para seu bem. O meu prédio com 16 inquilinos é silencioso. Ninguém tem cães ou outros animais. Tem gente de muitas profissões. Mas dois sujeitos de prédios ao lado, um põe 3 cães e outro 1 cão nas varandas, ladrando. Incomodando, castigando quem não faz qq barulho.E depois há uns parvos que dizem que a fala dos cães é ladrar. Que ladrem para o seu dono!
Cumps.

Anónimo disse...

Lisboa é realmente um encanto! Todos dizem bem do sítio onde moram! Que maravilha! O Costa, quero dizer, o Medina está de parabéns!