quarta-feira, 24 de junho de 2015

Ribeiro e Castro


O deputado do CDS-PP José Ribeiro e Castro anunciou que não fará parte das listas de candidatos a deputados para a próxima legislatura. 

Nos últimos anos, foi patente o progressivo isolamento de Ribeiro e Castro no partido que ajudou a criar, um pouco como tem acontecido com Mota Amaral no PSD. Os partidos convivem mal com quem tem ideias próprias, com quem pensa pela sua cabeça e, por vezes, não está disposto a aceitar que a cega obediência à estratégia conjuntural ponha em causa princípios por que se bateu por muitos anos. Não há nada que mais irrite as "nomenklaturas" do que pessoas que, perante algumas questões concretas, tendem a vocalizar o que muito bem entendem, não apenas porque é essa a sua opinião mas porque acham que essa deveria ser a orientação da formação política a que historicamente estão ligados.

Os partidos de hoje, com o nosso modelo centralizado de escolha de deputados, tende a facilitar a ascensão de quem ecoar, sem reticências, a voz do "patronato" político. Se o fizer com alguma capacidade de expressão, o partido não deixará de dar uma palavra junto das televisões ou jornais para que essas pessoas sejam convidadas para os representar em debates ou nas "balcanizadas" colunas - onde, com maior ou menor originalidade, se sabe quase sempre o que vão dizer, nesses "tempos de antena" que, por serem baratos, são alimentados com gosto pela comunicação social. Depois, se as coisas continuarem a correr bem, lá terão um lugarzinho de secretário de Estado, quando o poder vier a sorrir ao seu partido. É assim, um pouco por todo o lado.

Ribeiro e Castro não fazia parte desse grupo. Democrata-cristão desde sempre, líder, em tempos, da Juventude Centrista, mostrou, em todos os lugares e causas por onde passou, uma coerência e uma firmeza de princípios que, de facto, não vão bem com os ventos dominantes. Recordo a sua excelente prestação como presidente da Comissão dos Negócios Estrangeiros da Assembleia da República, onde inaugurou a saudável prática de ouvir os embaixadores portugueses. Envolveu-se em várias iniciativas de raiz nacional, como foram a luta pelo feriado do Primeiro de Dezembro ou a recente denúncia do abandono na obrigatoriedade da língua portuguesa no processo europeu de patentes. Lutas pouco populares, às vezes solitárias, mas que o identificam como uma personalidade de uma qualidade que faz falta à democracia portuguesa.

Deixo-lhe aqui o abraço de consideração e respeito de quem, andando por outras áreas políticas e tendo dele frequentemente discordado ao longo das últimas décadas, reconhece contudo o elevado mérito e a elevada seriedade que tem marcado a sua intervenção cívica.

7 comentários:

opjj disse...

Discordo de V.Exª. Antes desta legislatura Ribeiro e Castro combateu Paulo Portas e apesar disso foi reconduzido e feito deputado.Coisa que fiquei espantado.Nenhum partido fez tamanha obra de caridade.
Agora querer negar todas as benesses adquiridas através do partido, essa acho-a cínica.Mais, irá viver de proventos adquiridos de quem lhe deu a mão a comer e agora diz renegar.Há mais gente assim tb noutros partidos.
Muitas vezes gostei de o ouvir.
Cumps.

Anónimo disse...

Tiro-lhe o chapéu!

Anónimo disse...

OPJ tem razão. Convém refrescar a memória, para não nos esquecermos. Isto de "homens bons" hoje em dia, tem que se lhe diga!

Luís Lavoura disse...

Ribeiro e Castro está com um aspeto muito envelhecido. É bom que saia. Gente muito velha já a há a mais na política portuguesa. Deve-se dar lugar aos novos.

Anónimo disse...

Mesmo assim,sorte a dele de não ser chamado de "maluco"... Quem não alinha sempre pela "tola" dos dirigentes de serviço geralmente recebe o diagnóstico: doente da cabeça... E, que dirigentes têm estado de serviço nos nossos Partidos (de todos!). Paulo Portas ainda é dos mais politizados - no sentido do exercício da defesa da democracia - pois tem sido capaz de mudar com os tempos. Sinal de inteligência, e de crescimento cinéfilo; que lhe acrescentou provavelmente aos "percursos oficiais no Partido e nos Governos", as mais ricas metáforas que os bons filmes trazem sempre às nossas vidas...

Anónimo disse...

Eu cá chutava com o Portas, esse "pantomineiro político".
a)Rogério A.

José Ribeiro e Castro disse...

Agradeço ao Embaixador Seixas da Costa este seu "post" e as palavras simpáticas que deixa.

Sabe bem da estima e admiração que tenho por si, que se consolidou sobretudo desde a altura em que o Embaixador era secretário de Estado dos Assuntos Europeus e eu deputado ao Parlamento Europeu. Depois, segui também, com atento interesse, a sua brilhante carreira diplomática e a sua intervenção pública, sempre com observações pertinentes, ainda quando não estamos de acordo. E leio-o com gosto neste blogue de referência, onde venho sempre que posso e sempre com proveito. É uma voz. Acompanho os desejos daqueles que aqui, frequentemente, o encorajam a escrever e publicar as suas memórias ou, ao menos, a editar em livro tantos episódios que aqui tem partilhado a partir da sua rica e variada experiência.

Muito obrigado e um abraço.

Quanto ao leitor OPJJ, tenho pena que não se identifique. E lamento sobretudo que não comente nenhuma das razões e factos objectivos que critico. Isso é que é sempre fundamental: as razões e os factos, não o fulanismo habitual, que nada diz, nada serve e a nada conduz.

Quero, ainda, esclarecer OPJJ que está errado. Não é verdade o que escreve: "Antes desta legislatura Ribeiro e Castro combateu Paulo Portas e apesar disso foi reconduzido e feito deputado."

Na legislatura anterior a esta, isto é, 2009/11, fui também deputado do CDS-PP, já com esta direcção do partido, e apoiei-a na oposição ao governo de José Sócrates e no caminho para a coligação com o PSD. Também fiz esse trabalho político. Fui encabeçar a lista pelo Porto em 2009, passando o CDS de 2 deputados para 4. Em 2011, repeti essa posição e voltámos a subir no Porto, embora erros da campanha nacional, já internamente analisados, não permitissem que passássemos de 4 para 5 deputados, como merecíamos – mantivemos os 4. Estou muito contente com o trabalho político feito.

Por seu turno, na legislatura anterior a essa, isto é, a de 2005/09, não fui eu que combati Paulo Portas, mas ele que, depois de ter saído porque quis (contra a opinião de muita gente, incluindo a minha), foi liderar o grupo que se aplicou a combater a minha direcção. Eu nunca combati qualquer direcção de Paulo Portas; e até aceitei integrá-la de 1998 a 2005. Na inversa, é que não se pode dizer o mesmo.

Quanto a “benesses adquiridas” e “proventos adquiridos de quem lhe deu a mão a comer” que, à falta de argumentos, OPJJ vem apontar traduz apenas uma fala mesquinha e medíocre. Não tenho nem umas, nem outras. Vivo, como sempre, do meu trabalho. E assim irei continuar. Noutro trabalho.

No tocante ao leitor Luís Lavoura, faz a confusão entre idade e afinidade ideológica que tenho encontrado como muito frequente entre os auto-intitulados “liberais”. É uma segregação política como qualquer outra.

Nem de propósito, o seu “post” de hoje – SOROS: http://www.speakerscorner.org.pt/soros-0 - é uma evidência disso mesmo. Graças a Deus, sinto-me muitíssimo bem nos meus 61 anos e, ainda assim, 24 anos mais novo que o George Soros que o entusiasma.

Obrigado de novo ao Embaixador Seixas da Costa. E escreva as suas memórias ou, ao menos, crónicas da vida pública e diplomática. Uma delícia.