segunda-feira, 8 de junho de 2015

Não somos neutrais

Há dias, um amigo que ouviu um comentário meu na televisão, a propósito de temas internacionais, interpelava-me sobre se, por detrás da aparente neutralidade do meu discurso interpretativo, eu não tinha sempre uma agenda pessoal, embora não formalmente assumida, um quadro de valores que servia de permanente referente às minhas apreciações. Não tive a menor dúvida em estar de acordo com ele: nenhuma análise sobre estas temáticas é neutral. 

Lembrei-me ontem disto ao observar a minha reação da íntima satisfação pelo facto do presidente turco, Recep Erdogan, não ter obtido, nas eleições do fim de semana, a maioria qualificada de deputados que eram necessários à sua estratégia para mudar a constituição turca com vista a conferir ao regime um modelo presidencialista. Dei então comigo a perguntar-me: que tenho eu a ver com as opções dos turcos? Porque me desagrada ver um avanço para o presidencialismo na Turquia mas não me causa qualquer reação a sua existência nos Estados Unidos, em França ou mesmo no Brasil? A resposta é simples: porque Erdogan tende a representar uma agenda de islamização que afeta interesses estratégicos que partilho, pelo que não favoreço algo que possa vir a reforçar os seus poderes.

As preferências pessoais em matérias que nos são aparentemente estranhas têm sempre uma justificação, no futebol como na política e, muitas vezes, com estas dimensões a confundirem-se. No sábado, ao ver o Barcelona-Juventus, embora reconhecesse que a equipa catalã merecia ganhar a partida, "puxei" intimamente pela Juventus. Porquê? Porque, subliminarmente, não me agrada algo que possa reforçar a Catalunha, as suas pretensões independentistas, porque sou um ferrenho adepto de que continuem a existir apenas duas capitais nacionais na península ibérica.

Nunca somos neutrais nas nossas apreciações.


9 comentários:

Fernando Correia de Oliveira disse...

Um dos grandes problemas de uma putativa independência catalã seria, como muita gente já observou, saber com quem iria, a partir desse passo, competir o Barça - confinado a um campeonato nacional catalão?

Joaquim de Freitas disse...

Quando analisamos as consequências da reunificação alemã, as pretensões hegemónicas da Alemanha actual, as características intrínsecas do povo alemão, a lição do passado da História da Europa, eu preferia que continuassem as duas Alemanhas. A paz estaria mais garantida.

A grande ilha Irlandesa suporta facilmente duas capitais. E resolveu um problema ancestral.

A Bélgica tem um problema idêntico para resolver, que será resolvido um dia pela existência de duas capitais.

Anónimo disse...

A Catalunha, se fosse independente, seria uma séria potência desportiva: no futebol, no tênis e até no hóquei em patins. Eles querem aliás, mesmo continuando em Espanha, ter equipas nacionais, como sucede no R.U.
Quanto à Irlanda só tem uma capital. A outra está na ilha em frente, e esse é o problema.
Fernando Neves

Anónimo disse...

Não somos neutrais, em política, é o mesmo que dizer não nos levem a sério! Parece que foi isso que quis dizer...E está certíssimo!
Quanto a capitais prefiro a da maçã...

Dor em Baixa disse...

Sou sempre contra Madrid. Já me parece suficientemente desagradável ter que passar por lá para seguir por via aérea para certos destinos. Em princípio sou favorável a qualquer coisa que se oponha a Madrid. Por exemplo: independência da Catalunha. Sou também a favor do Barça, mas por outras razões, porque pratica o melhor futebol do mundo. Por isso outros lhe seguem na esteira: Seleção de Espanha, Bayern Munich.

Luís Lavoura disse...

sou um ferrenho adepto de que continuem a existir apenas duas capitais nacionais na península ibérica

O primeiro problema é que uma dessas capitais não é nacional, porque a Espanha não é uma nação. E o segundo problema é que existe outra capital nacional, que é Barcelona, quer o Seixas da Costa o queira, quer não.

E é muito feio estarmos nós aqui, independentes, a querer negar a independência a uma outra nação, que é nossa irmã e que muito ajudou (em 1640) à nossa própria independência.

Anónimo disse...

Só os totós são neutrais !...então diplomatas...escorregam que nem azeite....conforme as oliveiras !......



Anónimo disse...

O mais engraçado é que os espanholistas (como o embaixador), nunca explicam o porquê das suas "razões"... São feelings, coisas da alma.

Anónimo disse...

Dedução: Só os totós é que são sérios!