sexta-feira, 8 de maio de 2015

Viva a política!

 
O resultado das eleições britânicas, confirmando de uma forma inesperada David Cameron em Downing Street, esmagando com fragor os trabalhistas, fazendo pagar aos liberais-democratas o estatuto de partido-muleta sem identidade apelativa, dando novo alento ao independentismo escocês e tornando irrelevante o euroceticismo radical, é a prova que o eleitor é livre e que as sondagens, particularmente num sistema como o britânico, valem o que valem - e, neste caso, valeram muito pouco.
 
O que sai daqui? Sai a óbvia necessidade de Cameron cumprir a promessa de, em 2017, fazer um referendo sobre se o Reino Unido quer ou não quer permanecer na Europa, o que vai transformar-se numa imensa pressão sobre a própria Europa no sentido de "dar" aos britânicos aquilo que eles necessitam para vencer este referendo, abrindo o dossiê da "devolution" de poderes europeus noutros países, a começar pela Finlândia. Sai a necessidade do "labour" se reinventar, seguramente com novo líder e sabe-se lá com que linha política, depois do fracasso do "new labour" de Blair e Brown, seguido desta derrota de "Red Ed". Sai o início de mais um ciclo da reconstrução dos liberais-democratas, que hoje pagam, e bem, o facto de não terem conseguido que, no acordo de há cinco anos com os conservadores, tivesse ficado preto-no-branco a aceitação do sistema proporcional (que os trabalhistas também detestam). Sai, muito provavelmente mais cedo do que esperado, um novo referendo sobre a independência da Escócia, que não é indiferente para os equilíbrios europeus (bom dia, Catalunha!). Sai a constatação de que ser eurocético não é necessariamente sinónimo de ser uma caricatura disso mesmo e que, para um votante médio, a direita tradicional faz bem esse papel, sem necessitar do folclore do UKIP.
 
Esta eleição é a vitória da política, da surpresa depois do encerrar das urnas, da rasteira dos votantes aos espertalhaços dos institutos de opinião. Ou, como diria Churchill, do facto da democracia provar ser o menos mau de todos os regimes. Mesmo que o resultado não agrade a alguns, como me acontece a mim no dia de hoje.

15 comentários:

Anónimo disse...

Caro Francisco -

desta feita o Red que saiu derrotado foi Ed, nao o Ken...

Luis

Anónimo disse...

Tal como no futebol, qualquer um pode ganhar lá. Eis a grande diferença para cá: temos o arco do poder na politica, e iremos sem qualquer dúvida continuar a aguentar com eles e, no futebol são os inevitáveis!
Já é conclusivo que o nosso fado tem a ver com os “árbitros” tanto no futebol como na politica!

Anónimo disse...

Sr. Embaixador,

Penso que se quer referir a uma derrota do "Red Ed", alcunha que tentaram colar a Milliband tendo em mente o "Red Ken", Ken Livingstone, antecessor de Boris Johnson em Londres.

Anónimo disse...

Também quer dizer que passamos a vida a ser endrominados pela comunicação social com a história de partidos supostamente radicais, que estão sempre à beira do poder mas nunca lá chegam...


Catinga (sem paciência para fazer login)

Anónimo disse...

Nem tudo é o que parece!...Os tempos são de mudança!

Antonio Cristovao disse...

não são boas noticias para os "democratas" lusos.

Anónimo disse...

Sr. Embaixador,

Red Ken era o anterior mayor de Londres http://www.dailymail.co.uk/news/article-2139816/Ken-Livingstone-announces-retirement-politics-losing-London-Mayor-election.html

Anónimo disse...

Apenas duas notas: O UKIP foi, em termos de votos, o terceiro partido mais votado, com quase 13% dos votos. São quase 4 milhões de votos. Mais do que o SNP e Lib Dem juntos. Não teve o reflexo em MP’s, dado o sistema eleitoral britânico, mas terá de certeza impacto no futuro referendo. Mais importa referir a vulnerabilidade que este resultado provoca a Cameron ( se ficar sozinho no governo) face aos seus backbenchers, tradicionalmente rebeldes e muito right-wing. Lembrar o que sucedeu a Jonh Major.

Cumprimentos

Francisco Seixas da Costa disse...

Têm toda a razão quem "protestou" pelo "Red Ken", figura, aliás, que conheci aquando da minha passagem por Londres. Era "Red Ed" que eu queria dizer e vou retificar.

Anónimo disse...

A derrota do Labour deve fazer ver à sua liderança o erro que foi não ter eleito o outro irmão Miliband, que defendia uma linha moderada na sequência de Tony Blair. Ed Miliband foi eleito devido aos sindicatos, que impuseram um regresso à esquerda e ao velho Labor de Kinnock e Foot, com os resultados que agora se viram. O Labour tem de voltar ao centro e fazer um grande esforço para recuperar o seu lugar, uma vez que perdeu uma das suas mais importantes bases de apoio, a Escócia. Os resultados do SNP são uma ameaça clara à integridade do Reino Unido que é essencial para a Europa.
Espero que o Partido Conservador consiga manter a recuperação económica do RU e manter-se na UE.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Caro Chico

Na minha modesta opinião, o maior problema para Cameron é manter o Reino Unido - unido...

Tudo o resto decorre daqui. Pode a Europa fazer figas sobre o referendo (para o UK ficar na UE ou não ficar) para que ele seja ganho pelo ficar.

Mas isso são outros quinhentos mal réis. Fui um ruropeista convicto, aliás como sabes, comecei ter dívidas e hoje sem margem nenhuma digo de deixei de acreditar numa Europa (des)Unida.

Abç

Anónimo disse...

E sai o princípio da livre circulação na UE y compris para os cidadãos comunitários, polacos incluídos já estabelecidos no RU.

João P Seixas disse...

Sr. Embaixador
Para memória futura dos 3 partidos mais votados:
Partido Conservador - 11334920 votos +0,8% - 36,9% do total, 331 deputados (+24) - maioria absoluta.
Partido Trabalhista - 9347326 votos +1,5% - 30,4% do total, 232 deputados (-26).
Partido UKIP - 3881129 votos +9,5% - 12,6% do total, 1 deputado eleito (+1).
Abstenção: 33,9%.
Agora façam as leituras que entenderem.
Melhores cumprimentos
João Seixas

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Que inveja eu tenho dos Ingleses. As eleições foram na 5ª Feira e para a semana já estão a governar. Não podiamos aprender nada com eles? A começar na Chefia de Estado.

Joaquim de Freitas disse...

Vamos ver se a Comissão de Bruxelas e os dirigentes da UE adoptam a mesma atitude que a que tiveram e continuam a ter com a Grécia, quando tiverem de passar pelo buraco da agulha de Cameron dentro de dias . A chantagem vai ser forte para ficar na Europa! "I want my check back" é uma musica que ele conhece! Margareth Thatcher deixou a lição bem ensinada aos conservadores.