domingo, 31 de maio de 2015

Carlos Costa


Conheço Carlos Costa, o governador do Banco de Portugal, há bastantes anos. É uma personalidade a quem sempre reconheci um elevado sentido de responsabilidade no serviço público, uma pessoa séria e dedicada, com grande conhecimento da área financeira e europeia. Não tenho a menor dúvida em considerá-lo um dos grandes técnicos que Portugal possui nesta área. 

Todos estes atributos não excluem a possibilidade de Carlos Costa poder cometer erros. No caso BES pareceu-me ter ficado evidente que Carlos Costa, podendo tendo visto chegar a "vaga" da tragédia que se aproximava, não foi capaz, em tempo útil, de "puxar o tapete" a Ricardo Salgado. A doutrina divide-se sobre as razões por que assim procedeu, sendo que a versão menos benévola é a de que teve receio de provocar um embaraço público ao governo no termo da presença da "troika", com risco de afetar a "glória" da "saída limpa". 

Já me parece menos criticável a solução encontrada para o BES, embora todos devamos estar solidários com os custos que a mesma implicou para muitos. Naqueles difíceis dias, julgo que Carlos Costa - que o executivo deixou, de forma cobarde, sozinho no meio da praça - teve uma atuação muito responsável e tecnicamente tão boa quanto era possível. Com a única exceção, como à época aqui disse: não ter acautelado a eventualidade do processo poder acabar por ter um encargo substancial para o erário. Neste particular, ao afirmar, com aparente convicção, aquilo que não era uma evidência, fez um desnecessário frete ao governo e não prestou assim um serviço à imagem do Banco de Portugal. Foi pena.

A recondução de Carlos Costa por Passos Coelho não me surpreendeu. Como também não me surpreendeu que os tenores da maioria na Assembleia da República, que haviam sido estimulados pelas declarações da ministra das Finanças a criticar a supervisão na Comissão parlamentar de inquérito sobre o BES, tivessem mudado de agulha verbal, quando confrontados com (mais um)a cacofonia dissonante do governo - e isto não é um elogio para eles, é claro. 

O primeiro-ministro quer no Banco de Portugal, nos próximos anos, alguém que prolongue, qualquer que seja o seu destino nas urnas, a defesa da bondade da solução encontrada para o BES. Melhor: alguém que lhe sirva de pára-raios retroativo no caso do processo Novo Banco vir a obrigar um forte custeio orçamental. Passos Coelho, lá de Massamá, irá silenciosamente fazer dizer que a decisão da solução foi de Carlos Costa. Se acaso as coisas correrem menos mal, então não deixará de lembrar que foi ele quem renomeou Carlos Costa.

Termino dizendo que Carlos Costa não deveria ter aceite continuar sem exigir ao governo que o PS ficasse associado à sua recondução. Da mesma maneira que, quando foi nomeado por um governo PS, este não deixou de tomar em conta a opinião do então principal partido da oposição, o PSD, partido de quem Carlos Costa nunca escondeu estar politicamente próximo. Tenho muita pena que isso não tivesse acontecido, por Carlos Costa e pelo país, que necessitaria de ter, nos próximos anos, um governador do Banco de Portugal forte e com um reforço político assegurado.

8 comentários:

Anónimo disse...

Exemplar foi Vítor Constâncio, uma "rosinha-sem-espinhos...."

O texto corresponde ao pensamento deslizante ondulante das "papoilas desbotadas" das cooperativas de 5º Divisão,Vasco Gonçalves & Associados.

A ética e honradez de Carlos Costa pode bem com a daqueles que fogem para Bruxelas ou para lugares no estrangeiro ao primeiro sinal de tempestade.

Haja pachorra !!!!

Anónimo disse...

Basta Cavaco ter dito o que disse sobre Carlos Costa para eu não o querer novamente como governador do Banco de Portugal.

JPGarcia

opjj disse...

V.Exª que é um homem inteligente, sabe que em consciência ninguém fazia a coisa melhor.Afinal quem traíu foi o PS apenas com a finalidade de a troco de uns hipotéticos jogos de sedução eleitoral.A política deve ter primordialmente a honradez e neste caso, parece até pelas palavras do PS, incriminam o ladrão errado,
quando na verdade os sapientes deputados PS nem sequer foram capazes de descobrir onde o falso ladrão Salgado pôs a massa, uns míseros 1.600 MM€ em 3 dias últimos da sua estadia no BES.Imagine-se agora a glória dos sapientes deputados PS se acaso tivessem descoberto o cofre-forte recheado.
Cumps.

Anónimo disse...

Não faço ideia como seria antes, quando Seixas da Costa conheceu Carlos Costa, mas depois da primeira passagem pelo governo do BdeP, Carlos Costa tem cadastro e não currículo. Mais valia que o chutassem para o BCE como ao anterior conivente.

Manuel Silva disse...

Ao senhor Anónimo das 00:56
É muito interessante ver como quem não tem argumentos se escuda na comparação com o que acha pior dos adversários.
Não argumenta sobre o que se discute, argumenta com o efeito do espelho, no qual faz aparecer a imagem de quem, na sua opinião, ainda fez pior.
Sem discutir a bondade (ou falta dela) da solução anterior (BPN) nem a desta (BES), porque isso também exigiria revisitar os contextos diferentes e os enquadramentos normativos do BCE, esses muito diferentes.
Sem falar na existência de uma experiência anterior, que pode sempre ser usada como contraponto para não se repetirem erros semelhantes.
Mas o que me interessa relevar é a vacuidade dos argumentos, que me remete para a frase recentemente proferida por Umberto Eco: «No momento em que todos têm direito à palavra na internet, temo-la dada aos idiotas.»

Anónimo disse...

O último parágrafo do texto do Senhor Embaixador parece-me defender e tocar melhor os interesses de muitos "portugueses honestos", bem como o comentário do anónimo das 11.00h, pelo pragmatismo e coragem que demonstram. Digo que pertenço ao partido do Presidente do Banco de Portugal - anterior conivente - mas a quem não reconheço nenhuma ocasião aonde pudesse ter defendido Portugal e os portugueses que têm estado com uma dívida "às costas" (que se calhar nem é dívida nenhuma), quando comparada com a responsabilidade das decisões tomadas nas Praças de: Londres, Nova York ou Hong Kong etc.; mais o disparate das construções das segundas casas de fim-de-semana de luxo, com créditos bancários, como fez a nossa vizinha Espanha em quantidades exageradas. Nesse tempo... não ia ninguém preso. Hoje, se calhar por menos se prendem pessoas que foram "embaladas" nessas ondas do "pelotão da frente"...

Antonio Cristovao disse...

Gostava de entender em que parte entra nos discursos inflamados a noticia de que a solução seguida para o BES foi decidida em Bruxelas e executada pela primeira vez em Portugal.
Se é um facto porque é ignorada nos diversos arremessos duns contra os outros?

Anónimo disse...

Parabéns à burra...