domingo, 10 de maio de 2015

A bandeiras da vitória


O final da Segunda Guerra mundial, cujos 70 anos se comemoraram agora em várias partes do mundo, foi um grande momento histórico na vida europeia. 

Em Portugal, país europeu que, tal como a Espanha, foi poupado ao conflito, esse foi também um tempo de esperança. Com a vitória dos Aliados, criou-se em alguns a ideia de que as potências vencedoras poderiam forçar Salazar a uma democratização do regime. 

Foi uma ilusão breve. À paz das armas seguiu-se, quase de imediato, a Guerra Fria, a tensão Leste-Oeste tomou conta da Europa e os nossos democráticos "amigos de Peniche" decidiram - e tudo isso está hoje bem documentado - não exercer qualquer pressão para que o regime português se abrisse. Portugal não seria admitido nas Nações Unidas (o que só ocorreria uma década mais tarde) mas, no entanto, não deixaria de ter assento como membro fundador da NATO, para a defesa do "mundo livre" a que passou institucionalmente a pertencer, mas que não se aplicava no país.

"Livres" foram também as eleições legislativas desse ano de 1945. Melhor ainda: "tão livres como na livre Inglaterra", como hipocritamente afirmou com solenidade, na Assembleia Nacional, o déspota de Santa Comba. Como era de regra, só pôde concorrer uma única lista de deputados, pelo que a União Nacional - tal como ocorreria durante os 41 anos de vigência da Constituição da ditadura - ocupou de novo todos os assentos de S. Bento. Depois, foi o que se viu. Os subscritores das listas do Movimento de Unidade Democrática (MUD), que haviam tentado organizar-se para o sufrágio, foram perseguidos, acabaram demitidas da função pública dezenas de figuras eminentes da comunidade académica e um novo ciclo de forte repressão política abateu-se sobre o país. 

Para justificar o seu ziguezaguiar entre a Alemanha nazi e os Aliados, Salazar tinha crismado, ainda durante a fase final da guerra, o conceito de "neutralidade colaborante", qualificador do facto - que, aliás, ocorreria quer Portugal quisesse quer não - de ter aceite a concessão das facilidades militares nos Açores às forças aliadas. O cinismo não o impediria, contudo, de decretar três dias de luto nacional, por virtude da morte de Adolf Hitler.

Mas a verdadeira "neutralidade colaborante" foi aquela que o Reino Unido e os Estados Unidos (a França era, à época, um poder menos relevante) aplicaram à situação interna portuguesa. Campeões da ingerência, tal como a União Soviética, em vários espaços e países das zonas de influência ditada pela partilha do mundo que haviam decidido em Ialta, os Aliados revelaram-se hipocritamente "neutrais" face à ausência das liberdades (por cuja bandeira se tinham batido) em Portugal. E, por isso, acabaram como objetivos "colaborantes" com a ditadura, que demoraria três décadas mais a derrubar.

E, por falar em bandeiras, deixo uma fotografia que me é cara, porque curiosamente mostra a fachada da casa onde hoje resido. Trata-se da manifestação junto ao edifício que à, época, era a Embaixada britânica em Lisboa. Foi no dia subsequente à vitória aliada, faz hoje 70 anos. Nela poderão ser vistas os estandartes dos países vencedores da Segunda Guerra mundial. De todos? Não. Há uma bandeira que não podia ser exibida e, por essa razão, se notarem bem, há quem segure apenas um pau, sem pano... Adivinhe quem quiser!   

10 comentários:

Anónimo disse...

foice

Anónimo disse...

foice o pano :)

Anónimo disse...

O Senhor ainda se dá ao trabalho de uma "hermenêutica" do tempo de há 70 anos quando hoje há um primeiro ministro preso e outro que aponta como exemplo a seguir o dias loureiro?... PORRA!!!!

Anónimo disse...

Lamentável que chame à USSR um dos vencedores. Foi a USSR quem aliada à Alemanha nazi iniciou a 2GM.
Que se passa consigo que com a idade perdeu todo o bom senso?

Anónimo disse...

...mesmo o passado é incerto". (David Mouráo Ferreira)

Lebasiaifos disse...

Isto de ser anónimo é um espetáculo! Dá inteligência e conhecimentos de história!

Joaquim de Freitas disse...

Senhor Embaixador : Muito simplesmente, Obrigado! Obrigado pela justeza da análise que, evidentemente, alguns anónimos que pululam neste blogue não compreendem, porque o anonimato reflecte o receio da verdade. Como escreve o "Labasiaifos" : Isto de ser anónimo é um espectáculo! Dá inteligência e conhecimentos de história! ".

Meu Pai foi obrigado a emigrar por causa da sua implicação no MUD. No dia do desfile da Vitória, do alto da varanda da minha casa, em Guimarães, gritava : " Falta uma! Falta uma! Uma bandeira claro está! Uma bandeira que representasse os 22 milhões de mortos, o sacrifício supremo duma Nação, talvez ultrapassado pela China que, ela, tinha começado a sofrer em 1937, as atrocidades dos Japoneses.

Senhor Embaixador Obrigado. Obrigado de escrever assim tão claramente o que foi a política da avestruz dos aliados após o fim da guerra, que não puseram realmente a "pressão" nos regimes fascistas como o nosso, para mudar de vida. A democracia podia esperar!

Na realidade, Senhor Embaixador, os "aliados" não mudaram !

Foi um erro, e - sabemo-lo desde Talleyrand- os erros na política são piores que os crimes.
Neste 9 de Maio celebra-se a vitória contra a Alemanha nazi. O circulo de amigos que se chama o "Ocidente" cometeu uma falta estando ausente da comemoração de Moscovo. Um insulto do Ocidente aos milhoes de mortos soviéticos.Queriam isolar Putin ! Como se Putin estivesse isolado, quando a China, a Índia, e numerosos países da América Latina estavam presentes. Nada mais que 50% da população do mundo e 40% da economia. Putin isolado? Absurdo.
Mas o simbolismo político é ainda mais importante.
A China pagou dum preço humano extremamente pesado um conflito que, para ela, começou em 1937 com a invasão dos Japoneses. Pelo menos 20 milhões de mortos! As atrocidades cometidas pelos japoneses foram abomináveis. Os contingentes indianos e chineses nesta comemoração atestam também o seu combate contra os cruéis Japoneses.
A Rússia pagou a segunda factura : 22 milhões de mortos !
A atitude dos Estados Unidos e da Europa, a sua cobardia, consolidou a nova separação do mundo em dois. Simbolizou a oposição dum "antigo mundo", o do atlântico , ao novo mundo que emerge à volta da Ásia. Voltamos ao mundo dos blocos.
Neste 9 de Maio verificou-se neste desfile de Moscovo, a ruptura entre estes dois mundos. E tudo isso por causa do seguidismo das democracias sociais europeias à política da América.
E quando se sabe que por trás desta ausência em Moscovo está o facto que Putin se opôs aos planos dos nazis de Kiev que, autores dum golpe de Estado queriam arrancar toda a Ucrânia para o campo da NATO ....
O 9 de Maio de 2015, será uma data negra na historia da Europa.

Reaça disse...

Os aliados fizeram bem em apoiar o Salazar "orgulhosamente só"

É que como era certo que os comunistas já contavam com o "no cu da galinha", já havia nas nossas terrinhas o inventário dos melhores cavalos e das melhores casas e quintais.

E nas cidades já estavam destinadas as fabriquetas a novos administradores.

Vá lá que após 30 anos (1974) ainda apareceram uns tantos comunistas com vontade de pôr uns tantos alentejanos a criar calos no cabo da enxada.

Anónimo disse...

Ser anónimo nesta altura é com sê-lo nos tempos da outra senhora, sr.freitas !.....a hHistória vai-se repetir como prenuncia e escreve !

Joaquim de Freitas disse...

Ao anónimo das 21:34 : Por isso mesmo é mais que tempo de assumir-mos o que cremos, pensamos e esperamos do futuro. De dizer que não tememos as consequências do combate. Os "outros" só esperam que os receemos, para ocupar o espaço, o nosso espaço.