segunda-feira, 13 de abril de 2015

Memorabilia diplomatica (XXV) - Ártico


Dormir num saco-cama, assente numa placa de esferovite diretamente pousada sobre o gelo, numa tenda militar, bem a norte do Círculo Polar Ártico, com uma temperatura exterior de cerca de 25º negativos, é uma experiência para a qual se exige uma certa coragem. A verdade é que a tenda tinha no centro uma espécie de aquecedor, com uma chaminé que saía pelo tecto. E, no seu interior, valha a verdade, a temperatura estava bem acima dos números de fora. Mesmo assim...

Estávamos num campo de treino da NATO, organizado pelas tropas norueguesas, em 1980. O dia fora longo e eu partilhava o espaço com dois colegas, um belga e um turco. Chegados à nossa tenda, enfiei-me logo no meu saco-cama, saquei de uma lanterna de bolso, que prudentemente levara comigo, e pus-me a ler o "Herald Tribune", nesse dia trazido de Oslo. Acompanhava-me uma pequena garrafa metálica com um belo whisky de malte, em cuja tampa, com esmero, coloquei algum gelo que raspei do chão. As recomendações NATO tinham sido estritas - nada de alcool! -, mas achei que uma pequena excepção podia ser admissível para o civil inverterado que eu era. E nem a proximidade do Pólo Norte tinha o condão de me afastar de alguns comezinhos prazeres mais cosmopolitas...

Notei que o meu amigo belga adormeceu logo e estranhei ver o turco a tentar fazê-lo fora do saco-cama. Disse-me que estava com calor e que ficaria bem assim...

Acabadas a minha dose de whisky e a leitura, adormeci também. Acordei, creio que cerca de uma hora depois, alertado pelo belga. O nosso colega turco, imprudente, ao ter-se deixado dormir fora do saco-cama, estava agora enregelado, sentia-se mal e não conseguia aquecer, nem sequer aproximando-se do aquecedor.

Que se podia fazer? Sair da tenda, à procura de ajuda, na gélida e ventosa noite ártica, era quase suicida. Adiantei uma ideia: porque não bebia o nosso amigo turco um bom trago do meu whisky? Seguramente que isso poderia ter um efeito-choque, ajudando à sua recuperação. O belga concordou que era uma boa sugestão. E é aí que o turco nos surpreende: "não posso beber álcool. Sou muçulmano". E continuava a tremer de frio.

Com diplomacia e poder argumentatório - estávamos entre diplomatas - tentámos convencê-lo de que os ditames religiosos, com toda a certeza, eram passíveis de uma pontual derrogação quando estava em causa a salvação de uma vida. O whisky podia assim ser considerado, no caso vertente, como um mero medicamento - "embora bem mais saboroso do que é habitual", lembro-me de ter pensado.
 
O turco, já um pouco em pânico, acabou por concordar em seguir a opção que lhe era oferecida: bebeu uma boa dose do meu velho malte e até repetiu... E lá aqueceu, como previsto, conseguindo dormir.

Pergunto-me, até hoje, se a minha leitura das regras religiosas muçulmanas esteve ou não correta. E será que me posso considerar culpado se acaso o meu amigo turco, por via da minha sugestão, mudou de hábitos de vida?
 
(Reedição de historietas da diplomacia por aqui já publicadas)

6 comentários:

Portugalredecouvertes disse...

acho que fez bem porque em geral as religiões também "castigam" o suicídio!
então castigo por castigo...

Luís Lavoura disse...

Eu diria que beber álcool em tais temperaturas é perigoso. É que o álcool aquece primeiro, mas passadas uma ou duas horas faz arrefecer fortemento o corpo...

Anónimo disse...

Bem pior se o turco quando chegar ao inferno disser que a culpa é sua, e da sua diplomática argumentação...

Fernando Frazão disse...

Cerca de vinte anos atrás fui passar férias a Agadir. Tendo noção das regras muni-me de duas garrafas de Glenfidich na Free Shop em Lisboa.
No voo de Casablanca para Agadir fiquei sentado ao lado de um marroquino. Quando veio o serviço a bordo eu pedi uma lata de soda e ele pediu uma de coca cola.
Dei um golo generoso, peguei na garrafa que estava aos meus pés e enchi a lata com o whisky.
Passado algum tempo o árabe perguntou-me se podia beber um pouco.
Respondi que sim e enchi-lhe a lata.
Agradeceu-me e eu perguntei de imediato se ele era muçulmano e se não era suposto não beber álcool.
Resposta imediata:
Sim, mas nós pecamos muito(!) e disse-me mais, se numa discoteca ou bar em Agadir estiver um grupo sentado à volta de uma mesa com um bule e chávenas, o mais provável era que lá dentro não estivesse chá...
Fiquei com um amigo e ainda hoje (mais de vinte anos depois) trocamos postais nos aniversários.

patricio branco disse...

verdade então que aquece e conforta nas noites frias...

Bartolomeu disse...

Já não bastava ao turco carregar o estigma do genocídio do povo arménio, ainda lhe acrescentou mais essa culpa.