terça-feira, 17 de março de 2015

O terraço de Varufakis


A Europa vive um momento raro de teatro. Confrontada com o corpo estranho que é o novo governo grego, que desde o início lhe contesta a filosofia orientadora, foi a cara de Dijsselbloem, o ministro holandês que preside ao Eurogrupo, a que melhor refletiu, desde o início, aquele misto de perplexidade e arrogância que foi a reação do “statu quo” comunitário. O jogo facial não terminou, porém, por ali. Entre o semblante fechado de Schauble e o ar jovial, latino do Norte, de Juncker, a Europa tentou descobrir a melhor forma de flexibilizar uma Grécia desengravatada, que lhe provocava a coreografia consuetudinária. A Europa não quer perder, sabe que não pode ser vista a perder, mas tem consciência de que o sentido de responsabilidade impõe que mostre um mínimo de abertura.

Quer Bruxelas quer Atenas começaram por navegar à vista. Os gregos colocaram em cima da mesa um conjunto de ideias, racionalmente coerentes, mas completamente à revelia da ortodoxia dominante. Não era difícil prever que a resposta institucional fosse, em absoluto, negativa. A Comissão, com anos de experiência em adocicar Estados recalcitrantes, lançou, talvez cedo demais, uma espécie de boia semântica, que pudesse salvar as duas faces que se confrontavam. Os alemães, sujeitos a uma barragem mediática sem precedentes por parte das novas autoridades gregas, forçaram a recusa do gesto. A sua opinião pública, com os títulos da imprensa a ressoarem diariamente as provocações helénicas, não compreenderia. Nem a senhora Merkel ousou fazer de “good cop”. Para Berlim, a Grécia terá de “morder o pó”, como se dizia nos “westerns”…

Numa tática antiga, as instituições procuraram – e não admiraria que viessem a procurar de novo – explorar uma possível dualidade interna grega, entre um primeiro-ministro que parecia politicamente mais abordável e um ministro das Finanças que dava ares de caminhar em glória aos ombros de si próprio, como se as derrotas o fortalecessem. Por um momento, chegou a parecer que ambos diziam coisas algo diferentes, mas o tropismo da política interna acabou por também reempolgar Tsipras.

A Europa tem do seu lado o tempo, a Grécia tem a pressa, que lhe limita as opções. Bruxelas percebeu que era importante atenuar a estratégia confrontacional grega. Deu-lhe, num papel, as “instituições”, em lugar da “troika”. Em contrapartida, obrigou-a a aceitar a ida a Atenas dos seus técnicos. Os gregos avançaram generalidades, Bruxelas recupera agora a mão e quer coisas concretas, calendários, quantificações. Atenas dá sinais de que parece esperar que, na iminência de uma situação de catástrofe, a Europa conclua que pode ser politicamente mais barato um compromisso.

Pelo meio de tudo isto, Varufakis posou, de senhora ao lado, para o “Paris Match”, num terraço à vista da Acrópole, Santorini fresco no copo. Numa conferência, fez um “dedo de honra” aos alemães. Se esta tática grega funcionar, modestamente, reverei tudo o que quatro décadas de diplomacia me ensinaram. E com grande gosto, confesso.

(Artigo que hoje publico no "Diário Económico")

11 comentários:

Anónimo disse...

'to bite the dust'significa morrer( ou no caso de objetos deixar de funcionar), espero que a Grecia
consiga dar 'uns tiros' nos banksters.

Portugalredecouvertes disse...


Aqui está o senhor Embaixador a descobrir as "carecas" das instituições!

Anónimo disse...

A União Europeia transformou-se numa reprodução do sistema das castas como na Índia. No topo da pirâmide, temos os Brâmanes, isto é os alemães. E hoje, os gregos são os Intocáveis.
Mao disse que, para tomar a cidade, era necessario tomar primeiro as áreas rurais que a cercam.
Grécia, Portugal, Espanha e Itália são as áreas rurais da União Europeia. E elas podem muito bem tornar-se o ponto de partida de um vasto movimento progressista que se espalhara por toda a Europa.
C.Falcao

Anónimo disse...

Ele já negou o dedo de honra. Foi montagem.
António

Majo disse...

~
~ ~ Os alemães ridicularizaram a Grécia ao máximo.

~ ~ ''Uma burlesca comédia grega que entrará nos anais da história da União Europeia."
~ ~ 'Ipsis verbis.'

~ ~ Saudações cordiais. ~ ~
~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Anónimo disse...

O que parece estar ausente de todos os comentários que leio sobre este assunto é o essencial desta liturgia mediática de dar o dito pelo não dito e ainda assim sair em ombros:
OS GREGOS SÃO UNS GRANDES NEGOCIADORES.
Essa é que é essa, diria o Zé Povinho.

O que estamos a assistir nestes quase 2 meses de conversas é a uma grande negociação por parte da GR ( com alguma ajuda da COM, que quer reganhar o seu papel moderador entre EM, o único que lhe dá o peso político que conta, se tivermos presente que estamos a falar de uma Instituição sem legitimidade democrática).
O que vemos todos os dias é a GR a garantir o aumento do seu "leverage" negocial naquela que é a negociação mais importante da história do país na UE.

A GR vai ceder, pois vai.Alguma coisa terá de ceder.
A UE não aceitará tudo o que a GR quer. Pois não. Nem seria possível.
Mas isso já ambos sabiam.

E quando dois negociadores sabem ao que vâo,acertar a linguagem é por vezes o mais importante, mais ainda do que garantir os avanços substanciais que no fim permitem dizer a ambos que a UE é que ganhou com esta acordo.


Mas vamos aos factos.
A verdade é que a GR garantiu uma extensão do empréstimo por 4 meses, sem mais. Não uma extensão do programa ( esse está num limbo) mas do empréstimo.
A verdade é que o léxico politicamente insustentável para o actual Governo GR (como programa de ajustamento, troika, terceiro resgate, etc, etc)despareceu do texto apresentado pelo MF GR.
As medidas aí propostas são tão vagas como alguns discursos, podem ser uma coisa e o seu contrário.

Revejam o que o Siryza prometeu aos eleitores antes de ter sido eleito e verão, que com mais ou menos criatividade, pode-se encaixar os ganhos negociais obtidos até agora no prometido.

Não há programa, não há números para cumprir, não há metas quantificadas, não há resgate, a troika foi embora. E o dinheiro veio para Atenas.

Eh pá, digam lá que os GR não sabem negociar?

Anónimo disse...

O Governo grego tem de passar a ser realista. Precisa de dinheiro para viver e pagar as dívidas, tem de aceitar as indicações da UE.

Um dos actuais problemas da UE é que a Grécia nunca deveria ter entrado no EURO, pois não cumpria de facto os critérios da moeda única. Por razões políticas e de interesses foi admitida e hoje a Europa está a pagar esse erro.

Joaquim de Freitas disse...

Senhor Embaixador : Acha que a diplomacia ainda existe nas relações internacionais? Quando a primeira potência mundial espiona os seus aliados e amigos no mundo inteiro, destabiliza com a sua política exterior largas regiões do mundo, e dá o triste espectáculo dum volte-face espectacular na Síria, apelando a negociar com aquele que ontem queria destruir, quando fornecia dinheiro e armas às legiões islamistas que devastam o Médio Oriente?

Quando a primeira potência económica da UE , a Alemanha, aproveita a oportunidade que lhe concederam os vários tratados europeus , fazendo cair as barreiras de protecção, para penetrar com as suas empresas os mercados interiores de cada um dos países desestruturados pelos tratados e de ai se instalar imperialmente.

Basta observar os movimentos, compras de empresas e de concessões, tolerado em nome duma gestão comum em "bom pai de família" e dos ajustamentos -compensações ou reformas contra salvação. Estamos longe desse quadro idílico !

O problema não é a Grécia, que não pesa grande coisa economicamente.

Vi há instantes o "clip" da televisão alemã sobre a entrevista do Paris-Match, objecto do seu "post". Delirante. A Alemanha tal como a conhecemos no passado. Arrogante, insultuosa, injusta, aquela precisamente que restará na história da Europa. Os qualificativos são os mesmos da mitologia : "gregos mentirosos" ou "trafulhas, preguiçosos", etc.
Na politologia chama-se "hubris" como muito bem sabe, uma palavra grega que significa "injúria", a "arrogância", o "desprezo" .

Somos "Germânicos" , somos a primeira potência europeia, a quarta do mundo, temos triliões de dólares e toneladas de ouro, perdemos duas guerras mas quase que as ganhamos (!), não temos medo de ninguém. Assim fala o clip !

Não. Não, Yanis não tem o direito de comer um peixe grelhado e beber um copo de vinho branco de Santorin face à Acrópole, e de ter uma linda mulher e de a mostrar!

O facto é que enquanto os Alemães lidavam com um governo à bota deles , estava tudo muito bem. Agora é preciso discutir com Syrisa, cuja vitória não significa nada de outro que a recusa pura e simples do modelo económico e social proposto pela UE .

Anónimo disse...

O desafio insultuoso pode não ser a mais eficaz ferramenta diplomática. Mas a subserviência melada e a espera de recompensa ao cãozinho bem comportado, que tanto combati - penso poder dizer combatemos - é a mais ineficaz. Porque quem a pratica deixa de existir.
Fernando Neves

Anónimo disse...

""- Daqui a uma semana acaba tudo.
- Não tem planos?
- Nada. Fico na reserva da República. Sabe o que é um reservista? É o tipo que chamam à última hora quando não há pessoas suficientes para agitar as águas.
- Proponho-lhe algo mais gratificante.
- E melhor pago? Isso também conta. O meu nível de vida vai ser reduzido.
- O que lhe proponho é legal e simples. Quando deixar de ser Primeiro-Ministro contrato-o como advogado para defender os interesses da empresa.
- Adorava aceitar a proposta, mas não sou advogado.
- Todos os parlamentares podem ser. Demora exactamente três semanas, basta-lhe prestar juramento.
- E defendo quem? O quê?
- As emendas que lhe sugerir para levar à Assembleia.
- Não é clientela.
- Explico de outra maneira. Como advogado parlamentar não pode apresentar emendas em nome dos seus clientes. Mas pode fazê-lo a favor dos meus. Intervém por conta da empresa que age em nome dos clientes. É muito simples.
- É legal?
- Evidentemente. É por agirem com absoluta legalidade que muitos parlamentares são também advogados. Quando explicam as escusas para intervir em comissões às quais pertencem, provam a sua honestidade.
- A menos que peçam a colegas para agirem em seu nome.
- Ou apresentem conselhos de agências como a minha. Tudo isso permite apagar as ligações entre um projecto-lei e o deputado que o defende. Não existe nenhum conflito de interesses aparente entre as partes.
- Conhecia a prática mas nunca pensei nessas subtilezas.
- Se aceitar a minha proposta contrato-o como advogado com o salário de um Primeiro Ministro." - este é um exemplo (retirado do episódio 6) de um dos excelentes diálogos que podemos seguir em Os Influentes." via blog>> Delito de Opinião

Anónimo disse...

Concordo inteiramente com Fernando Neves.
JPGarcia