terça-feira, 10 de março de 2015

Memorabilia Diplomatica (II) - O cozinheiro "iraniano"

Eu estava na Noruega, em 1979. Era, episodicamente, "encarregado de negócios", na ausência em férias do embaixador. A revolução no Irão acabara de acontecer. O Xá tinha saído do país, Khomeini tinha regressado do seu exílio parisiense. Em Oslo, o meu colega iraniano, uma figura muito ativa e agradável dos circuitos diplomáticos locais, desapareceu da circulação, de um dia para o outro. Pelas notícias, íamos seguindo a agitação no Irão, com grande curiosidade.

Um dia, na nossa embaixada, fui avisado de que um cidadão português, residente em Oslo, queria falar comigo. Os nossos compatriotas não excediam então as duas centenas, por todo o território norueguês. Apareceu-me um tipo gorducho, algo afogueado, a apresentar um problema. Desde há anos que era cozinheiro da Embaixada iraniana. De um dia para o outro, todos os iranianos da Embaixada, residência e chancelaria, se tinham ido embora. Ele estava sozinho, há duas semanas, sem saber o que fazer, quase sem dinheiro. Tinha a intenção de procurar um novo emprego. Mas não sabia o que havia que fazer com a chave da residência, de que era o único ocupante. E fez-me uma inesperada sugestão: podia eu ficar com a chave da Embaixada, dando-a, mais tarde, aos futuros novos colegas iranianos?

A ideia era bizarríssima. A embaixada iraniana era, e é, um imponente edifício quase em frente à nossa residência, em Drammensveien, em Oslo. Tive o bom senso denem sequer transmitir o assunto para conhecimento de Lisboa. Os telegramas com historietas, subscritos pelos substitutos dos chefes de missão são, no anedotário do MNE, motivo regular de gozo dos colegas. E a história de um cozinheiro português a "entregar-me" a Embaixada do Irão iria fazer o gáudio dos claustros das Necessidades, por muito tempo. Assim, optei por entrar em contacto com o serviço do protocolo do Ministério dos estrangeiros norueguês, com quem aconselhei o cozinheiro a falar. Nunca soube se o fez.

O que eu soube, poucos dias mais tarde, é que uma nova e mais ortodoxa equipa diplomática iraniana chegou, finalmente, a Oslo. O cozinheiro português terá sido de imediato despedido. O menu tinha mudado no Irão.

(Reedição de historietas da diplomacia por aqui já publicadas)

9 comentários:

Correia da Silva disse...


Bem me parecia....
E não sou psicanalista !!!!!!






Bartolomeu disse...

E fêz muito bem em não "telegramar" para Lisboa. Se o tivesse feito, provávelmente passaria a ser identificado pelos seus pares, como "porteiro", ou "porta-chaves" na melhor das hipoteses, como S. Pedro, por deter a posse da chave do céu iraniano. Mas deixe-me dizer-lhe que se estivesse no seu lugar, averiguaria a competência do cozinheiro tuga e se o homem apresentasse competência comprovada, abriria um restaurante em parceria com ele. Assim, quem sabe, perdeu-se um génio da cozinha e um bom negócio que prestigiaria e promoveria a gastronomia lusa num país que nos poderia provir um aumento da cota de visitantes turistas. De qualquer modo, seria uma decisão que cabe perfeitamente nas competências de um embaixador destacado no estrangeiro. Bom... pensando melhor, talvez não... aquele pessoal dos claustros iria certamente retirar daí motivos sobejos para a tasquinhice. Na... fez bem, fez bem, o tuga que se desenrascasse, olhe, se fosse como alguns marmejos que temos por aí em cargos públicos, tratava mas era de vender imediatamente o imóvel e de colocar o guito num off-shore. Era que nem ginjas!

ignatz disse...

se em vez de contactar os noruegueses tivesse contactado com os iranianos talvez o chef ainda estivesse ao serviço da embaixada do irão.

Francisco Seixas da Costa disse...

Ó ignatz: não havia iranianos, não percebeu?

Francisco Seixas da Costa disse...

Ó Bartolomeu: os diplomatas em posto não podem entrar em "negócios". O seu estatuto assim os impede.

Bartolomeu disse...

Não podem, ó Francisco...?!
Mas... não podem mesmo... em negócios, sejam eles de que espécie for?
(querem ver que estou convencido de que vivo em Potugal, um país europeu, que faz parte do planeta Terra e, na volta, estou mazé em Marte, ou Júpiter, ou cois co valha?!)

ignatz disse...

"Ó ignatz: não havia iranianos, não percebeu?"
não havia em oslo, mas se telefonasse para o irão talvez atendessem apesar de andarem em período revolucionário. cá para mim não telefonou para não chatear o chefe e poupar umas coroas.

Francisco Seixas da Costa disse...

O ignatz e o Nobel do ridículo: o encarregado de negócios de Portugao em Oslo a telefonar para Teerão (tem aí a lista? Para quem) a pedir indicações como o cozinheiro da sua embaixada na Noruega podia manter o emprego.

Anónimo disse...

O Bartolomeu e o Ignatz dariam ótimos diplomatas. Pensem nisso, meus senhores!