terça-feira, 24 de março de 2015

Herberto Helder


Durante anos, achei Herberto Helder um poeta críptico. Um dia, li-o com mais atenção e fiquei fascinado com a sua escrita. Entre nós, há muito pouca gente como ele a dominar o uso certo das palavras, sem excessivos rebuscamentos, sem essa obsessão, tão comum, da "trouvaille" estilística arrebicada que esconde, atrás de um "barroco" tido por criativo, uma mera falta de ideias originais.
 
Sempre me perguntei como é que Herberto Helder "alimentava" a sua escrita, passando os dias, ao que sabe, numa obstinada reclusão. De onde lhe vinha a vida que enchia a sua poesia? Mas eu já desisti de tentar entender os poetas. Só os leio e cada vez com mais prazer.
 
Herberto Helder morreu agora.

8 comentários:

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Caro Chico

Só agora e por ti soube da morte do meu Amigo e genial Poeta Herberto Helder. Aqui em Goa fiquei tristíssimo e só posso acrescentar: obrigado Herberto pelo que me deste, obrigado Francisco pela informação dolorosa.

Abç

Anónimo disse...

Nasci na freguesia do Monte como Herberto Hélder. Ele terá tido um "Monte" no seu auge, quando as famílias subiam a encosta do Funchal; pelos ares mais frescos e saudáveis. Tempo de turismo e de vapores "antes, durante e depois da Grande Guerra"... Só provou a terra. Alimentou-se (talvez) das entranhas das rochas que rasgaram as nossas vidas por esse mar longe, que nos leva para fora. A mente na ilha faz-se muitas vezes doente... Ele abalou. Foi-se com a "levadia" de Setembro... Há poucos poetas nascidos na Madeira. Herberto Hélder vale por tantas ausências que fazem a nossa presença!

Anónimo disse...

Apoio inteiramente as suas palavras.
Os escrivães deviam, por vezes, saber interpretar e explicar melhor os escritores. Entram em escritas labirínticas que só afastam leitores.

Bartolomeu disse...

Rosália de Castro, nascida em Santiago de Compostela um século antes de Herberto Helder nascer em Lisboa, escreveu o seguinte poema, comparando o coração das pessoas e o caminho que percorrem durante uma vida:
Son los corazones de algunas criaturas
como los caminos muy transitados,
donde las pisadas de los que ahora llegan
borran las pisadas de los que pasaron.

Anónimo disse...

Em honra de Rosalía e de Herberto, comamos uns pimentos de Padrón, terra de Rosalía.Mesmo que nos saia um daqueles muito picantes...

Bartolomeu disse...

Nos últimos tempos, têem-nos saídos os pimentos mais que picantes. Tão picantes que até mesmo os poetas, senhores de uma arte capaz de cortar o picante aos pimentos, se calaram, ou... perderam a acutilância nas rimas.

¿Qué cantan los poetas andaluces de ahora?
¿Qué miran los poetas andaluces de ahora?
¿Qué sienten los poetas andaluces de ahora?

Cantan con voz de hombre, ¿pero dónde están los hombres?
con ojos de hombre miran, ¿pero dónde los hombres?
con pecho de hombre sienten, ¿pero dónde los hombres?

Cantan, y cuando cantan parece que están solos.
Miran, y cuando miran parece que están solos.
Sienten, y cuando sienten parecen que están solos.

¿Es que ya Andalucía se ha quedado sin nadie?
¿Es que acaso en los montes andaluces no hay nadie?
¿Que en los mares y campos andaluces no hay nadie?

¿No habrá ya quien responda a la voz del poeta?
¿Quién mire al corazón sin muros del poeta?
¿Tantas cosas han muerto que no hay más que el poeta?

Cantad alto. Oireis que oyen otros oídos.
Mirad alto. Veréis que miran otros ojos.
Latid alto. Sabréis que palpita otra sangre.

No es más hondo el poeta en su oscuro subsuelo.
encerrado. Su canto asciende a más profundo
cuando, abierto en el aire, ya es de todos los hombres.

Gostaria de escutar agora, a poesia de Manuel Alegre. ou de Ary dos Santos e de Natália Correia.

Anónimo disse...

Acompanha-me, desde há uns anos, um poema do Herberto Hélder.O único que sei de cor e que me levou tempo a compreender. Não prescindo dele. Aquelas barbas brancas estão dentro do poema.
Curiosamente, sou o fiel depositário de um texto anti-Herberto (onde andas autor?). Coisas da noite.

Anónimo disse...

Um poeta que se entende muito bem, nos tempos actuais:


«Se o ouro é mau caminho,
Antes tu venhas a ser
O pobre mais pobrezinho
De quantos pobres houver.»

Augusto Gil (1873-1929). Canção da mãe.