terça-feira, 31 de março de 2015

É tão fácil!


De há uns meses para cá, tenho dado por mim a pensar que, em toda esta azáfama que por aí anda, a propósito das eleições presidenciais, há uma estranha confusão: nunca foi tão fácil escolher um presidente!

Os últimos dez anos terão instruído os portugueses quanto ao perfil para o futuro inquilino de Belém. Depois desta última década, a maioria dos votantes poderá ter já definido o “retrato robot” de um futuro chefe de Estado. Os leitores, maliciosos, perguntarão: pela negativa? Talvez, mas aprende-se às vezes mais com os erros do que com alguns exemplos.

Pertenço a um tempo que, em democracia, elegeu Ramalho Eanes com o encargo de vestir “à paisana” a chefia do Estado, depois de 50 anos de variadas fardas. E o país deve-lhe isso. Só votei no general “by default”, nunca lhe perdoei o PRD, mas reconheço o perfil ético que projeta.

Mário Soares, de quem comecei por não ser entusiasta, acabou por ser a minha alegria na política. Presidente com governos adversos, soube gerir magistralmente as tensões e proteger o regime, prestigiou o nome de Portugal, identificando-se pelo mundo como o verdadeiro presidente de abril. Olhando para os que hoje o detestam, fico ainda mais satisfeito em tê-lo ajudado a eleger.

Sou bastante suspeito em relação a Jorge Sampaio. Não sendo da sua geração etária, sinto-me da sua geração política, revejo-me nele como raramente me aconteceu com uma qualquer outra figura da nossa vida cívica, felicito-me por pertencer a um país que teve a sabedoria de lhe entregar os destinos da presidência por uma década.

Depois de Sampaio, transcorreram já dez anos. Anos que acabam por ser úteis, porque, em democracia, desde que saibamos aprender, todas as lições têm a sua importância, não obstante o seu preço.

O que queremos num futuro presidente, homem ou mulher?

Desde logo, queremos ver nele atitude e sentido democráticos, independência, respeito pelos partidos, uma observância inteligente da Constituição da República, não como um manual de instruções de um eletrodoméstico, mas como um permanente referencial cívico, uma agenda de valores, a moldura maior de um projeto de esperança. O presidente, respaldado na legitimidade unipessoal única do voto direto, tem de ser visto como uma espécie de “provedor” do povo. Como se dizia noutro tempo e noutro contexto, os portugueses merecem ter em Belém “um amigo”.

Um futuro presidente tem de ser alguém que nos orgulhemos de ter como imagem do país, pela sua cultura, pela estatura que nos eleva “lá fora”, pelo respeito que atrai para o nome de Portugal.

Quer-se também um presidente que, em todas as situações, seja a imagem da transparência, da lisura de processos, a ética feita pessoa – e assim reconhecida pelos outros. Alguém que não somatize ódios e frustrações, que não “jogue” para as escassas linhas que deixará na História, que não viva para “ter razão” mas que consiga efetivamente ser útil ao país e aos portugueses.

Um nome para reunir essas qualidades? Isso é um detalhe. O importante é consensualizar o perfil. Portugal não se pode dar ao luxo institucional de voltar a ter uma década como aquela que passou.       

(texto de um artigo que hoje publico no "Diário Económico")           

15 comentários:

Anónimo disse...

Discordo. A invocação do referencial "ético" traz muita coisa atrás e permite facilmente instrumentalizações. Eanes descambou num inútil PRD, Alegre numa divisão fratricida do PS que abriu alegremente alas, com passadeira vermelha, ao atual ocupante de Belém. Neto traz consigo o discurso "anti-sistema" que não leva a lado nenhum. Num país em transe, obse a caça ás bruxas passou a ser moeda corrente, Deus e o Emvaixador Seixas da Costa nos livrem dos cansidatos "que vêm salvar isto" e que, como Jesus Cristo, nada sabem de finanças.

Pedro Barbosa Pinto disse...

"... seja a imagem da transparência, da lisura de processos, a ética feita pessoa – e assim reconhecida pelos outros..."

Diria que é uma boa fotografia do único candidato até à data, que por um acaso até milita no Seu partido e a quem o Sr. Embaixador (ainda que educadamente ao contrário de outros camaradas Seus) se apressou a atirar pedras!

"Que não somatize ódios e frustrações, que não jogue etç, etç" não são mais que blá, blá, blás que encaixam em todos e/ou em ninguém, conforme seja mais conveniente!

Anónimo disse...

Bem melhor este texto, do que aquele há tempos truncado por um jornal.

Anónimo disse...

tirar a vírgula a mais no "bem melhor este texto, que aquele". recolei e enviei sem reparar.

Anónimo disse...

É só procurar na esquerda (é obrigatório!)um perfil, adaptado ao nosso país do tipo Frank Underwood da série "House of Cards", sósias por aí não faltam........

Anónimo disse...

Concordo com o comentário precedente.
Nem imagino o que teriam sido os últimos anos se não tivéssemos tido na Presidência alguém que leu até não poder mais, inquiriu e procurou saber sobre tudo o que julgava poder ajudar o país a sair desta crise, preparou-se para todos os encontros até à saciedade, "sabia de Finanças" e tratava o Presidente da COM por Zé Manel.
Eu não quero imaginar, mas também sei que muitos nem imaginam.

As suas suficiências são de todos conhecidas, mas têm de ser vistas como um mal menor no contexto dos seus mandatos.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Pedro Barbosa Pinto. Duas coisas. Primeiro, Henrique Neto não encaixa no perfil, se é isso que quis sugerir. Não tenho tempo para entrar nessa discussão, mas é o que penso. Segundo, vejo que consegui distorcer o que escrevi a propósito de HN e que ficou nos antípodas daquilo que outros disseram. Mas, em definitivo, a discussão sobre o futuro candidato não passa por HN. É uma evidência para quem tenha um mínimo de realismo.

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Senhor Embaixador

Tenho a solução :

http://www.casarealportuguesa.org/

Uma Santa Páscoa para si e toda a sua família

Bartolomeu disse...

Acho-lhe piada Sr. Seixas, por ver que insiste na ideia surrealista de que o próximo PR, porque será eleito pelo voto direto, terá por missão ou por inspiração divina, de assumir a beátifica auréola de "provedor ou, amigo do povo". Permita-me uma pergunta direta e pessoal: em que galáxia é que o Senhor habita?
Oiça, oiça, oiça. O Presidente da República que vier a ser eleito, para que o seja, terá de ser apoiado (está a seguir o meu raciocínio?) antes e durante a campanha eleitoral. E esse apoio, político, financeiro, de organizações mais ou menos secretas, de associações mais ou menos secretas, impedilo-hão de, depois de ser eleito - nem que o homem tenha uns tomates negros e rijos como basalto - poder ser provedor e amiguinho do povozinho. Isso são conversinhas da treta, caro Seixas, são conversinhas de Alice no país das maravilhas. portanto, fique-se com esta; o artolas que chegar a ser eleito para Belém, vai fazer aquilo que lhe for permitido fazer, pelo governo, pelo Constitucional, pela política internacional e pelo raio que o parta. Opovozinho, aquela cambada de palermoides que colocar a cruzinha no boletim de voto à frente do seu nome e da sua fotografia, vão continuar a "bater com eles numa laje" e a clamar aos 4 ventos que elegeram mais um sacana para viajar e usufruir de mordomias à custa da nossa miséria e do nosso trabalho. O que, na realidade e vistas as coisas com olhos de ver, é a pura realidade.

Francisco Seixas da Costa disse...

Excelente proposta, José Tomaz de Mello Breyner. O a figura em causa vai a votos ou está à espera de um golpe de Estado para o pôr no poder? Esclareça-nos, por favor.

Anónimo disse...

Porque não um referendo sobre Monarquia Contitucional /República ?

Quem tem medo ?...

opjj disse...

V.Exª, faz-me lembrar o velho ditado " quem ama, feio lhe parece bonito"
Recordatória.
1º O tempo que vivi pior foi quando MSoares foi 1º ministro.Hoje as pessoas não aceitam cortes mais suaves.
2º- Quais as memórias que o país retém de Jorge Sampaio,onde estão as obras?
SAMPAIO tinha um escritório de advogados, de lá saíu para a Câmara de Lisboa e desta para + de 10 anos de presidente.
Ele sabia que não voltava a advogacia, mas continuou a pagar para a caxa dos advogados" creio que hoje falida" e em Janeiro do ano que acabou o mandato pediu a pensãozinha de 2000€.O pobre Cavaco todos lhe caiem em cima pq optou pelas pensões, para as quais trabalhou efectivamente.
Moral da história,por estas e por outras, nunca bati palmas a ninguém e só tenho os cartões obrigatórios.
Quando afastou Santana Lopes preencheu a 1ª página de um jornal a negro, dizendo tudo o que há de pior dum ser humano.Tb não concordo com estado de Sócrates.Isto chocou-me e choca-me.Há muita gente que trata melhor os cãezinhos do que as pessoas.
Cumps.

Francisco Seixas da Costa disse...

Ao Anónimo das 16.40. Pode publicamente contar com a minha assinatura cívica para um referendo sobre Monarquia ou República. De uma vez por todas! Para ver se se calam os saudosos das coroas. Já não se podem aturar...

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Senhor Embaixador

Infelizmente a nossa Constituição tem tiques ditatoriais e não permite sequer que se referende o regime.

Mas a solução que preconizo, ao contrário do que fizeram os Republicanos em 1910, passa sempre por um referendo e nunca por um golpe de estado.

Mas infelizmente a Republica tem medo de ser referendada

Anónimo disse...

E Sr. Embaixador a dar-lhe outra vez.

Acha que nos 10M de portugueses só há candidatos dos partidos com viabilidade para representar o País??

Há muita gente por aí, que é bem mais capaz do que Santana, Marcelo, Rio, Guterres, Vitorino, Carvalho da Silva,.... e que nunca esteve ligado à política.

Fartos destas caras estão os portugueses bem fartos.