terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Os embaixadores

 

Era uma vilória pequena, a uma grande distância de Lisboa. O dia estava muito quente. O embaixador, de passagem, decidira beber uma cerveja num snack-bar local. A sala tinha bastante gente, pelo que optou por uma mesa mais isolada, distante da porta, onde o ar condicionado parecia funcionar de forma mais eficaz. E entreteve-se a ler um jornal que encontrou por ali.

Uma exclamação fê-lo levantar os olhos: "Ó embaixador!". Tentou perceber quem o chamava, mas não viu ninguém dirigir-se-lhe. Pelo contrário, alguns dos circunstantes viraram-se para um cavalheiro que acabava de entrar, cuja cara não era muito percetível, com a luz da rua a recortá-lo por detrás. Viu-o cumprimentar, à passagem, vários dos presentes e sentar-se a uma das mesas. Era um homem alto, já bastante entrado na casa dos 70.

Um dos seus companheiros de mesa pediu para o balcão: "Ó Pinto! Traz aqui um café para o sr. embaixador. Em chávena fria, como ele gosta". Notava-se que o recém-chegado gozava de prestígio local. O silêncio e a atenção que envolviam as palavras com que se dirigia a quem o rodeava confirmavam isso mesmo.

O embaixador visitante estava cada vez mais curioso. Quem seria aquele seu colega? Conhecia bem a carreira e, muito em especial, sabia quem eram os que tinham ocupado postos de embaixador. Nenhum correspondia àquela figura.

Procurou fixar melhor a cara do novo cliente e, poucos instantes depois, fez-se-lhe luz: era de facto um diplomata, uma boa dezena de anos mais velho do que ele. Recordava-se vagamente que ele havia sido vítima de uma intriga e de uma perseguição por parte da hierarquia, pelo que acabara por nunca lhe ser atribuída a chefia de uma embaixada. Conhecia-o de vista, desde há décadas, mas não se recordava de, alguma vez, ter trocado com ele qualquer palavra. Estava reformado, há já uns bons anos.

A insistência com que fixava a mesa acabou por não passar desapercebida e o antigo colega cruzou com ele, de súbito, um brevíssimo olhar, que logo desviou. Reconhecera-o, pela certa, e pareceu ter ficado preocupado. Um cumprimento de outro cliente "Boa tarde, senhor embaixador!" foi recebido com um esgar inquieto pelo homem, que terá entendido que, naquela sala, estava alguém que sabia que o seu estatuto profissional não era exatamente aquele que a vilória tinha consagrado, provavelmente desde há vários anos.

A situação estava a começar a tornar-se algo pesada. O  embaixador, logo que pôde, pagou a cerveja e caminhou em direção à porta. À passagem pela mesa em que o seu velho colega de carreira estava sentado, lançou, alto, com um sorriso simpático: "Boa tarde, embaixador! Tive muito gosto em vê-lo!". E saiu. Satisfeito.  

3 comentários:

Correia da Silva disse...


Bela historieta, e belíssima obra de Toulouse-Lautrec.

Emerson Novais Lopes disse...

Perfeito! Sempre me agradam essas histórias em que pequenas doses de elegância e magnanimidade brilham como pequenas luzes frente às escuras mazelas do cotidiano.

patricio branco disse...

uma boa e simpatica historia, um conto curto. até poderia ser desenvolvido.
literatura, pois, mas também historia exemplar, um bom colega o da cerveja, respeitoso da velha situação por ali existente.