segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Grécia


Durante alguns anos, passei na Grécia uma semana durante o verão. Georgios Papandreou, ao tempo que era ministro dos Negócios Estrangeiros, começou a reunir anualmente à sua volta um grupo de mais de duas dezenas de amigos, sob a égide da Fundação com o nome do seu pai, Andreas Papandreou, para debates sobre temáticas internacionais. De manhã ao final da tarde, com os dias a culminarem com uma palestra de um convidado especial, abordavam-se as grandes questões políticas globais. Por lá passaram, noutros anos, Bill Clinton, Amartya Sen, Richard Holbrook, Fernando Henrique Cardoso, Yossi Beilin, Ségolène Royal, etc. E também Jaime Gama e António Guterres. Aprendi muito nessas reuniões em que, por regra, me cabia introduzir os assuntos europeus. São os chamados Symi Simposium.

Num desses anos, em Corfu, um dos convidados americanos de Georgios foi um simpático economista americano. Brilhante, divertido, inventivo e muito cordial, Joe era professor universitário com vasta obra publicada e, por coincidência, ambos vivíamos então em Nova Iorque. Esse facto fez com que nos aproximássemos e, no regresso por Atenas, com as respetivas mulheres, organizámos um simpático jantar a quatro, em que combinámos ver-nos mais tarde em Manhattan. Assim viria a acontecer. 

Passaram uns tempos. Uma manhã, recebi uma chamada telefónica de Georgios Papandreau, de Atenas, inquirindo: "Já deste os parabéns ao Joe?". Eu devia estar distraído. Horas antes, a Academia Sueca anunciara que o Prémio Nobel da Economia fora atribuído ao Joe, a Joseph Stiglitz.

Tempos mais tarde, lançou o "The Globalization and its descontents" e telefonou a convidar-me para um jantar volante comemorativo, na residência da sogra, no Upper West Side (eu morava no lado contrário da ilha), uma mulher muito interessante, que estivera ligada à publicação da obra. Semanas depois, quando Jorge Sampaio, então presidente da República, visitou Nova Iorque, tivemo-lo a jantar em casa, numa noite de conversa muito animada.

Desde que saí de Nova Iorque, nunca mais encontrei Joseph Siglitz. Como não vejo Georgios Papandreou,desde há já quatro anos, quando estivemos juntos em Paris. Georgios é, nos dias de hoje, uma figura muito pouco popular na Grécia. Não conseguiu sequer ser eleito para o parlamento, no passado dia 25. Há uma semana, nos bastidores do "Prós e Contras", quando revelei aos três convidados gregos que era seu amigo, a reação não foi das mais entusiásticas, bem pelo contrário. Mas eu tenho por hábito não deixar que o infortúnio dos amigos afete a amizade e, por isso, Georgios Papandreou faz parte integrante da "minha" Grécia. Onde, um dia, conheci Joseph Stiglitz.

Há dias, Siglitz pronunciou-se sobre a situação grega e a Europa. Constatou, por exemplo, que o euro, criado como um factor de unidade europeia, acabou por provocar assimetrias como nunca antes se observara, considerando a Alemanha, e não a Grécia, a grande ameaça atual à coesão da União Europeia: "A Grécia fez alguns erros, mas a Europa fez erros bem maiores. Quando esta crise começou o rácio da dívida grega face ao PNB era de 110%. Agora é cerca de 170%. O medicamento que lhe deram foi venenoso. Levou a que a dívida subisse e a economia baixasse", acrescentando: "As políticas que a Europa impôs na Grécia simplesmente não funcionaram e isso é também verdade para a Espanha e para outros países". Podemos presumir em quais ele estava a pensar

6 comentários:

Isabel Seixas disse...

(...) tenho por hábito não deixar que o infortúnio dos amigos afete a amizade(...)

Pelo contrário essa é a prova dos nove da amizade...
Faz muito bem sr. Embaixador, admiro-o muito por isso.

São disse...

Faço minhas as palavras de Isabel Seixas.

Quanto ao descalabro da União Europeia e correndo o risco de dizer disparate, não seria boa solução ser a Alemanha a sair em vez da Grécia ou qualquer outro país?

Boa semana .

Joaquim de Freitas disse...

Após ter destilado o famoso veneno, a Troïka tem uma reputação tão reles, que , segundo o Handelsblatt , baseado em fontes fidedignas de Bruxelas, mesmo Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão europeia desejaria suprimi-la. Para os gregos "c'est chose faite" ! Não querem negociar nada com ela.

Não é só Stiglitz que critica a política económica da UE. Paul Krugman, outro economista e prémio Nobel de Economia, é muito severo, quando escreve : " se o euro sobrevive, será ao preço dum desemprego elevado e dum enorme sofrimento, particularmente nos países em crise". A obstinação dos dirigentes europeus na ignorância das lições do passado é criminosa.

Quanto ao plano de "relance" de Draghi, " é uma pistola à água contra um rinoceronte que ataca".

Antonio Cristovao disse...

Não é o sitio melhor para este comentarios, mas quem tem a culpa do que se faz nos paises é de Bruxelas?
e do que se passa na Finlandia, Holanda, Dinamarca tambem? ou é só em Portugal e Grecia?

Anónimo disse...

Estava certamente a pensar na Alemanha, na Finlândia, na Holanda e em Portugal - os quatro pilares da zona euro.
JPGarcia

Anónimo disse...

http://www.project-syndicate.org/commentary/greece-eurozone-austerity-reform-by-joseph-e--stiglitz-2015-02