domingo, 1 de fevereiro de 2015

Grécia - Europa


Devo confessar que foi muito divertido para um antigo profissional de relações internacionais poder apreciar a coreografia da conferência de imprensa do presidente europeu do Eurogrupo com o novo ministro grego das Finanças. Ambos sabiam que a "body language" seria medida ao milímetro pelos observadores. E ninguém ficou desiludido.
 
O holandês, com os caracolinhos de um "pãozinho sem sal" de político "by the book", percebeu que estava numa peça com um "script" que não podia controlar, pelo que, num tom um pouco embaraçado, limitou-se a dizer (lendo-as) as "deixas" que trazia alinhadas de casa. Nada de novo e nada de surpreendente: a UE limita-se a dizer o óbvio da cartilha bruxelense e a deixar que sejam os gregos a ir a jogo e apresentar as novidades. Ai dele se, perante Berlim, cometesse algum erro, ousando um improviso que pudesse vir a ter leituras ínvias. Mais holandês do que socialista (a "Internacional Socialista" é, historicamente, um albergue espanhol, onde cabe sempre mais um), o jovem Dijsselbloem (só soletrar isto divide a Europa!) mostra uma ousadia de movimentos de um moinho do seu país e deve sofrer imenso ao ter de confrontar-se com estes "bárbaros", que põem em causa a ortodoxia do "consenso de Bruxelas".  
 
O histriónico ministro helénico, Varoufakis (quem quiser seguir-lhe o blogue, em inglês, clique aqui), que sente ser uma estrela na nova companhia, tem consciência de estar no seu momento Andy Warhol, com o mundo a tentar ler o seu sorriso desdenhoso, sabendo o incómodo que provoca nos interlocutores com a ousadia da sua leitura heterodoxa da questão financeira. Intelectualmente sobranceiro, num estilo físico típico de um filme de ação de Hollywood, está no seu papel de dizer à Europa "lá de cima" que o problema é agora dela. Se bem interpreto a sua atitude - e os dias que aí vêm mostrar-nos-ão melhor se entre ele e Tsipras as coisas se coordenarão sempre à perfeição -, quer fazer crer que estudou todas as hipóteses e cenários e que tem resposta para os próximos capítulos, quaisquer que eles venham a ser. Logo veremos, porque a realidade prova, em regra, ser muito mais imaginativa que os homens.
 
Aconteça o que vier a acontecer, aqueles minutos da conferência de imprensa ficarão para a história de uma certa Europa.

4 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

E este texto Senhor Embaixador, ficará nos anais do seu blogue. Finamente observado. Esperar é o corolário de prever . Sabe-se com efeito que a fissuração está inscrita na lógica das coisas, e portanto é certo que, cedo ou tarde, o outro será ameaçado por ela.

Enquanto o mundo for liso, sem ter onde agarrar, sem fissura a penetrar, o estrategista mantêm-se recuado, e espera a ocasião. Resta a saber quem tem mais tempo para esperar!

Os argumentos gregos são fortes: Voilà um país que aplicou muito simplesmente o programa da Troika, definido pelos economistas liberais, isto é aqueles que querem que o mercado se substitua às escolhas políticas da democracia, ou dito doutra maneira: que põem o mercado acima da democracia.

Programa que tinha como objectivo de fazer repartir o crescimento reduzindo os funcionários, os salários, as pensões e reformas, privatizando a economia, suposta permitir aos "investidores" de se "substituir" ao Estado. Os resultados estao patentes brutos de verdade.

As medidas drásticas de austeridade impostas aos Gregos acompanharam-se duma explosão de suicídios, assassinatos e duma deterioração da saúde pública. O objectivo garantido pelos espertos da Troika, não somente fracassou, mas deu resultados inversos aos que tinham "vendido" aos Gregos.

Os tecnocratas engravatados terão muita dificuldade a negar o balanço da Troika;

Antonio Cristovao disse...

A ver vamos se não termina como o PREC aqui.A mim parece-me que já vi um filme com um guião parecido com este. Não conto o final para manter o suspense ou obrigar aos mais novos a pesquisarem no google.

Bmonteiro disse...

Absolutamente.
A ver vamos, mas qto ao grego, a pedir um trabalho de Hércules.
Veremos.

Tiago Saraiva disse...

A juntar aos pormenores que acentuam o contraste entre as duas figuras, vejo tambem ali um certo embaraco por parte do holandes que aldrabou o seu cv face ao grego que tem uma carreira academica internacional brilhante. E dificil manter o discurso dos serios europeus do norte contra os malandros do sul nestas circunstancias.