domingo, 15 de fevereiro de 2015

Escutas e escrivães


Nos últimos dias, o mundo mediático foi-se divertindo com a transcrição de uma escuta de uma conversa entre Paulo Portas e Abel Pinheiro. (Há anos, para a história política portuguesa, já ficara célebre uma transcrição, que ninguém contestou, de uma conversa de Abel Pinheiro sobre o então ministro Telmo Correia, mas que não vem aqui para o caso). O zeloso e cultivado ouvinte e escriba, que passou a conversa a papel, confundiu, por exemplo, a cidade de "Kiel" com a palavra "aquilo". Esta e outras sonoridades similares, mal transcritas, acabaram por gerar por aí uma imensa confusão política, no chamado "caso dos submarinos".
 
Embora não tenha a ver com escutas, mas também com interceção de comunicações, lembrei-me de um caso ocorrido num julgamento, há já alguns anos, numa antiga colónia portuguesa.
 
Um dos presos desse processo era de nacionalidade portuguesa. Antes do julgamento, numa visita à cadeia do nosso representante consular, o homem disse estranhar que, nos autos da acusação, quando surgia referido o seu nome, se seguia sempre a expressão "também conhecido como o Bibi". Ora se ele nunca fora conhecido por Bibi, se nunca ninguém o tratara por esse diminutivo, por que diabo o acusador público insistia naquela estranha alcunha?
 
O assunto foi esquecido por algum tempo. Um dia, o diplomata português teve acesso ao processo e resolveu o mistério. Dele faziam parte várias mensagens de telex (alguns leitores já nem saberão o que isso é), algumas das quais eram assinadas pelo nosso homem. No mundo dos telex, em especial em comunicações sem grande formalidade, havia um hábito internacional de terminar o texto das mensagens com a despedida "By by", para dar conta do fim do contacto. Muitas vezes usava-se o o "i" em lugar do "y" e as palavra surgia junta "bibi". Era o que o acusado fazia nos seus contactos. O nosso "Bibi" (outro houve mais tarde, mais famoso e mais sinistro, mas num processo doméstico) terá sido condenado e, porventura, com sólidas razões. Só que não precisava de ter passado à história judicial daquele Estado africano com esse carinhoso apodo.    

2 comentários:

Anónimo disse...

As escutas mostram apenas a sobrevivência de um Portugal dos pequeninos que nos faz lembrar que não andamos longe do universo da RDA retratado em A Vida dos Outros. Salazar continua a estar no meio de nós. A ser verdade o descrito a semana passada sobre galhofas em privado de magistrados sobre a prisão de Sócrates a conclusão é de que definitivamente Portugal é uma Sícilia pastosa onde quem tem poder abusa dele despudoradamente. Deus, ou o seu substituto legal nos valham pois os fachos andam entre nós.

Anónimo disse...

Se bem me lembro, nessa escuta, Abel Pinheiro dizia que Telmo Correia "assina qualquer m... que se lhe ponha à frente". Ou não era assim, Senhor Embaixador? O Senhor lembra-se de cada uma! Alguns amigos seus também disseram coisas lindas nas escutas. Gosta de robalos?