quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Emergentes

Luis Moita, que dirige o Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma, lançou-nos o desafio de responder à questão: "Faz sentido falar-se de potências emergentes?". Debatemos hoje esta questão, estimulados por intervenções dos professores brasileiros Mônica Hirst e Reginaldo Nasser.
 
Para além do debate em torno do próprio conceito de "emergente" (que é um termo de quem "vê" o mundo do norte, quando há outras visões, como o mapa mostra), analisámos o comportamento desses atores no cenário internacional, avaliando da sua vocação para serem "revisionistas" da ordem global ou apenas desejarem partilhar, legitimando e democratizando, essa mesma ordem.

Com o Brasil como eixo natural do debate, afloraram-se os modelos de agregação dos emergentes. Falámos de outras estruturas de representação (como o G20, os BRICS, o IBAS) e das resistências à mudança dos defensores do "status quo" e, muito em particular, da antiga ambição de entrada como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU do G4 (Brasil, Índia, Japão, Alemanha), a que se opõe o "Coffee Club" (mais tarde formalizado como "Uniting for Consensus"), iniciado pela Itália, Paquistão, México e Egito, em 1998.
 
(Não me ocorreu contar, mas acho deliciosa a clássica tirada do embaixador italiano Paolo Fulci, ao criar o "coffee club", comentando a ambição da Alemanha e do Japão de ingressar no Conselho de Segurança: "After all, Italians also lost World War II".)
 
O Brasil e sua política externa foi objeto de análise detalhada neste encontro, tendo os professores brasileiros referido que o país atravessa um tempo de retração da anterior ambição de projeção na ordem externa, que alguns vão ao ponto de qualificar como prenúncio de declínio da posição internacional do país.
 
Devo dizer que, em todo o debate, fui responsável pela introdução do seu ponto mais polémico: a minha perspetiva de que o Brasil, em 2010, cometeu um erro estratégico grave ao ter avançado, lado a lado com a Turquia, com uma proposta de mediação da questão nuclear com o Irão. Os EUA e o terceto europeu (Reino Unido, França e Alemanha) "puxaram o tapete" à iniciativa. Os professores brasileiros não estiveram de acordo comigo e defenderam a legitimidade da iniciativa turco-brasileira, na perspetiva de que não pode haver espaços de regulação de diferendos exclusivamente reservados aos países ocidentais, tanto mais que o resultado final da negociação que acabou por feita não se afasta muito da que surgiu naquela iniciativa.
 
Sem pôr em causa a racionalidade desta linha de pensamento, posso contudo perceber que, tratando-se de uma questão ligada ao poder atómico, três Estados possuidores da arma nuclear (embora acompanhados de outro que a não tem, mas que completa os poder fácticos dentro da União Europeia) considerem que lhes cabe a eles tentar regular um problema com um outro Estado que ameaça a segurança global nesse domínio. E que não apreciem iniciativas que com eles não hajam sido coordenadas (embora, neste caso, a existência de uma controversa carta de Obama a Lula possa justificar algum "misunderstanding"). Porém, a minha questão essencial nem sequer era essa. O que pretendi afirmar foi que a boa vontade ocidental, essencial para o Brasil poder alimentar esperanças de poder ascender ao Conselho de Segurança da ONU, poderá ter ficado fragilizada pelo facto da iniciativa ter conferido ao país, subitamente, uma imagem de um poder algo "imprevisível" no seu comportamento internacional. E isso não favorece os interesses de Brasília. Esta é, desde há muito, a minha opinião e, por isso, vale o que vale.

4 comentários:

Manuel do Edmundo-Filho disse...

Como mostra o mapa, há, de facto outros pontos de vista. A nós, politicamente, cabe-nos ver o mundo do nosso ponto de vista. Pela mesma e simples razão de que só conseguimos olhá-lo com os nossos próprios olhos. Foi, aliás, o que fizeram os professores brasileiros. Nada de estranho. Só uma certa esquerda, no Ocidente, é que insiste em “ver” o mundo de todos os pontos de vista, menos do nosso… E o caso do dr. Luís Moita é dos mais paradigmáticos (juntamente com o sociólogo Boaventura Sousa Santos). Têm uma invejável capacidade de empatia com todos os pontos de vistas, desde que sejam… anti-ocidentais!

Estou inteiramente de acordo com a leitura que fez da iniciativa do Brasil. O Brasil não pode pedir o nosso apoio (do Ocidente) e ao mesmo tempo ter iniciativas que suscitam dúvidas quanto ao seu posicionamento estratégico.

pedro mendes disse...

Caro Embaixador,

antes de mais permita-me dizer-lhe que sigo avidamente o duas ou três coisas e que muito aprecio o que o sr. embaixador aqui escreve.

Muito apreciei a sua iniciativa de iniciar este blog quando ainda fazia parte do corpo diplomático, e muito aprecio agora as histórias e estórias que nos conta e o conhecimento que nos transmite sobre, essencialmente mas não só, o mundo das relações internacionais.

Posto isto, uma pequena provocação ao Sr. embaixador:

A sua posição em relação à investida Turco-Brasileira na mediação da questão do nuclear Iraniano não está do lado dos defensores do "Status Quo" e dos que "resistem à mudança"?

Agora uma microscópica dissertação:

Não precisarão as relações internacionais, tendo em vista a obtenção de melhores "resultados", de iniciativas como as da Turquia e do Brasil, mesmo que segundadas pelas "grandes potências"?

Por exemplo: Não poderíamos ter tido melhores resultados na questão Ucraniana se das negociações fizessem parte países como a Roménia, a Hungria, ou até a Polónia (aqui com algumas reservas, tendo em conta as relações russo-polacas)?

E aqui não estou a falar de usar atores regionais ou parceiros estratégicos como simples peões nas negociações, caso contrário esta minha visão poderia ser interpretada como uma espécie de recuo até à guerra fria. Estou a falar de atores de facto nas negociações, atores que na maior parte dos casos partilham uma visão das relações internacionais idêntica à dos seus parceiros com maior relevo no panorama internacional, mas que podem de certa forma transmitir um sentimento mais amigável (ou menos crispado pelo menos) à negociação, eliminando assim à partida uma potencial barreira à obtenção de bons resultados.

Fica aqui um pequeno pensamento que espero possa trazer uma visão diferente sobre esta questão.

Pedro Mendes

Anónimo disse...

Pois o Brasil emergente....mensalão, Lava-jacto...etc...etc..

Mônica disse...

Francisco.
Eu adoro quando escreve sobre o Brasil. Nos estamos no meio de uma guerra esquisita. Nossa cidade de santo Antonio do amparo é muito pequena mas aqui parece que estamos na capital. Ha ladroes de banco por mais de três vezes, Há ladroes roubando senhoras idosas depois de receber o salario. Ha tráficos e mortes por causa de drogas. E a educação de baixíssima qualidade.
Nao sei onde iremos parar? Ate a natureza esta triste. Estes dias está chovendo graças a Deus mas ficamos muitos meses com um calor e um sol. Toda a natureza esta descontrolada.
com carinho Monica