sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Ó Zé!

Então isso fazia-se-nos?! Ainda há dias recebi os teus "seasons greetings", essa maravilhosa fórmula anglo-saxónica que nos permite ultrapassar as peculiaridades religiosas dos correspondentes, e - diz-me agora a Fernanda - resolveste baldar-te a 2015? Eu sei que o ano não se apresenta radioso, mas não precisavas de exagerar! Contava ver-te em fevereiro, aperaltado com o smoking de regra, no jantar anual do grande Joseph Crabtree - logo este ano, em que vamos testar novas mesas e vitualhas diferentes! - nessa nossa ritual romagem londrina. Não vai ser assim, o destino não quis. Foi aliás em Londres que te conheci, nos idos de 90, numa das festas magníficas que fazias no teu apartamento, ali perto de Victoria Station. Eu tinha acabado de chegar e lembro-me bem de me comentares, com o jeito irónico que era o teu, que, ao longo dos anos, "lá pela embaixada, tenho visto de tudo". Não elaboraste sobre o que tinhas visto, mas também não era preciso. O facto é que passaste a ver-me por lá a mim, que nos tornámos amigos e montámos a operação que levou o Nuno Brederode Santos ao CPE, para uma memorável palestra sobre o "cavaquistão" de então, tendo nós os três terminado a noite no bar do Brown's (o Nuno nunca se "tratou" mal, como sabes!), que é célebre pelos scones do meio da tarde mas que, nesse serão, o foi por alguns muitos maltes que nos amaciaram a frigidez da noite. Meu caro Zé Laranjo, não te vamos ver mais, não me vais voltar a dar aquele abraço grande, com a gargalhada galhofeira que era a tua imagem de marca. Deixo um beijo à Xica, minha companheira de mesa no jantar de 2014, também de coragem e de força. E tu, meu malandro, deixas imensas saudades aos teus amigos, mas, conhecendo-te, irias proibir-nos o pecado da melancolia. So long, Zé! 

4 comentários:

Isabel Seixas disse...

Bonito o seu post


"É hora de partir, meus irmãos, minhas irmãs
Eu já devolvi as chaves da minha porta
E desisto de qualquer direito à minha casa.
Fomos vizinhos durante muito tempo
E recebi mais do que pude dar.
Agora vai raiando o dia
E a lâmpada que iluminava o meu canto escuro
Apagou-se.
Veio a intimação e estou pronto para a minha jornada.
Não indaguem sobre o que levo comigo.

Sigo de mãos vazias e o coração confiante."

Rabindranath Tagore

ARD disse...

Conheci o Zé em jovem, antes do exílio londrino, nos anos 60.
Estas partdas começam a ser inquietantes.

Manuel Augusto Araújo disse...

Foi um choque perder assim um amigo que vinha dos liceus, da Pró-Associação dos Liceus, Jovens , cheios de sangue na guelra, acreditando noutras vidas para lá do cinzento chumbo desses anos. Grandes e pequenas lutas que sempre enfrentámos sem perder o sentido de humor, atrapalhando aqueles que selavam tudo com seriedades definitivas.
A abrir a ano, um telefonema de Londres da Fernanda. Nem queria acreditar.Fiquei mudo de estupefacção! É sempre duro, muito duro perder um amigo de tantos anos, mesmo conhecendo alguns pormenores da doença, mas na nossa idade ir ao médico garante sempre um brinde. Até sempre Zé. Por ti beberei um copo em memória dos muitos que partilhamos.

Anónimo disse...

Sim, a perda do Ze deixou-nos a tos "sem jeito", andamos atordoados.

Recordamos, telefonamos uns aos outros (e somos muitos). Vamos juntar-nos em Londres para o jantar anual do grande J. Crabtree e em pe ouviremos o secretario ler o seu nome. De Portugal e de Paris (pelo menos) virao scholars e amigos dar forca a Xica e ao Frederick, os Laranjos que o Ze tornou scholars,levando-os ao jantar anual em anos consecutivos.

Ainda nao me sentei com calma a beber aquela bebida ao Ze. Depois de matutar 'qual, qual?' decidi: Vodka Absolut com tonica - a marca da ultima vodka que a Xica e o Ze me ofereceram em casa deles ha pouco tempo. A proposito: Alo Estocolmo, um dia vou visitar...Promessa e promessa.

Francisco, como dizes, cheia de saudades tento evitar o pecado da melancolia!

Ate sempre

Fernanda