sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O presidente

2015 será o último ano de Cavaco Silva como presidente da República. Não julgo que venhamos a ter quaisquer surpresas no tocante ao seu comportamento institucional, nestes meses que dele nos restam em Belém. A sua mensagem de ano novo assim o indica.

Todos os presidentes da República inaugurada com a Constituição de 1976 encaminharam os seus segundos mandatos na tentativa de deixarem uma marca própria. Independentemente das suas agendas políticas pessoais, do esquiço de auto-retrato para a História que todos procuraram deixar pendurado nas paredes de Belém, cada um, a seu modo, contribuiu claramente para a estabilização do regime e para o reforço da matriz funcional do cargo, deste semi-presidencialismo atípico que os nossos constituintes desenharam, com uma ambiguidade muito à portuguesa.

Cavaco Silva terminará a sua década de uma forma muito diferente. O seu segundo mandato foi uma incrível sucessão de "trapalhadas" - e estou a ser diplomaticamente eufemista ao escrever isto. Poder-se-á dizer que não foi ajudado pela crise financeira, mas o que o país já reteve, para sempre, é que o chefe de Estado teoricamente mais bem preparado para transmitir segurança a uma sociedade em quebra de confiança económica demonstrou, muito simplesmente, uma flagrante incapacidade para ser útil a Portugal. 

Quero com isto dizer uma coisa muito clara: a meu ver, Aníbal Cavaco Silva, pelo modo como geriu a função presidencial, pela maneira como se deixou enlear no que, agora iniludivelmente, se evidencia como uma subserviência à maioria que governa o país, deu sólidos argumentos a quantos entendem, como há semanas Pedro Bacelar de Vasconcelos defendeu, que, de futuro, deverá ser revista a Constituição por forma a ser o parlamento a escolher o chefe de Estado, como hoje acontece na Grécia, em Itália ou mesmo na Alemanha. Com efeito, Cavaco Silva, com o seu comportamento enquanto Presidente, mostrou que pode não fazer sentido continuar a eleger alguém por sufrágio direto, quando essa personalidade, em lugar de utilizar essa forte legitimidade para se colocar acima das forças políticas e representar o sentimento profundo do país, se torna num instrumento dócil das maiorias de turno, preocupado apenas em garantir uma saída airosa para o seu pé-de-página na História pátria. Embora defensor do sistema atual, creio que haveria vantagem em que o assunto fosse abertamente discutido, quanto mais não seja para evitar que o exemplo do atual presidente venha a contaminar a imagem futura da função presidencial.

Um dia, ao tempo em que era primeiro-ministro, Cavaco Silva teve a deselegância institucional de dizer que era preciso "ajudar o dr. Mário Soares a acabar o seu mandato (presidencial) com dignidade". Com sincera pena, como cidadão que acredita que o prestígio das instituições e dos seus titulares é um bem público precioso, temo que Cavaco Silva tenha arruinado já as hipóteses de ver aplicada a frase a si próprio.

29 comentários:

Jose Martins disse...

Senhor Embaixador,
Cavaco Silva é um "mofo" dentro da política nacional.
Este cavalheiro, em que eu apostei em 1987 de quando passou por Banguecoque, foi uma autêntica decepção.
Não passou de um oportunista, político, que acaba como PR cheio de rabos de palha.
Foi o homem errado em todos os postos, governativos, que ocupou.
Saudações de Banguecoque

Anónimo disse...

Excelente post.
O actual condómino mostrou ser apenas representante da maioria que o elegeu. É pouco. Esperemos que não regresse Sampaio...

patricio branco disse...

o presidente mais cinzento, sem graça, mole, sectário, com jogos escondidos mas que se vão revelando ao longo dos anos, aqueles princípios morais que ele prega, devemos ser amiguinhos, entendermo- nos, etc, são ridiculoso, um pr não está ali para isso.
a forma de eleição pelo parlamento seria tambem perigosa, a não ser que fossem necessários 2/3 ou 3/4 dos votos dos deputados para eleger. para não se ficar dependente duma maioria partidária, a do 1ro ministro.
mas o verdadeiro segredo está nas personalidades de quem exerce, uma coisa é cavaco, outra é sampaio

JS disse...

"... creio que haveria vantagem em que o assunto fosse abertamente discutido ..."
Sem dúvida.

As Leis Eleitorais não são, não podem ser, vacas sagradas. Sobretudo quando na prática demonstraram a sua inépcia ....
Será que estão a privilegiar alguns em detrimento do todo nacional?.

Anónimo disse...

É difícil escrever uma análise tão enviesada como esta. É obra!
Cavaco Silva conseguiu manter as condições para o governo cumprir o mandato para que foi eleito. As maiorias esgotam-se no final dos mandatos e as sondagens não são um indicador de mudança de atitude. Foi o primeiro presidente que cumpriu a obrigação de apoiar institucionalmente o governo e que não fez campanha activa contra ele como fez Mário Soares e Jorge Sampaio de uma forma escandalosa e ilegítima. Além disso não traíu o eleitorado que o elegeu alinhando com a cultura dominante do bota abaixismo.
João Vieira

ECD disse...

Questão muito oportuna. Muito embora as muitas nuances, perigos vários e não possa ser arrumada simplesmente na categoria preta ou na branca, uma questão que deve ser colocada e puxada para a ordem do dia do debate político*



*Mudar a forma de eleição do PR é mudar a natureza do regime - não é preciso ter lido Maurice Duverger para chegar a esta conclusão!

Manuel disse...

A pior das surpresas é que estas atitudes (nem são posições políticas) deste personagem, já não são surpresa! Lamentável.
Ficará como um simples acidente histórico, num país com mais de 800 anos.
ManBS

Anónimo disse...

Neste novo ano o que mais me alegra é que é o ano de "descavacar"
Descavaquemos felizes!
Bom Ano de 2015

Francisco Clamote disse...

Certíssimo.

Anónimo disse...

Ainda está por esclarecer porque Sampaio demitiu Santana.

Silva.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Silva. Se não percebeu a razão pirque Sampaio demitiu Santana, então não percebeu nada!

Anónimo disse...

Cavaco foi, de longe, o pior PR desde o 25 de Abril! Cavaco comportou-se, perante este miserável governo, como se fosse um Ministro sem Pasta de Passos Coelho. Uma criatura servil deste Governo de Destruição Nacional (do ponto de vista Social e Económico) – o mais devastador governo desde há 40 anos! Uma criatura Lamentável, Cavaco! Naturalmente, há sempre um João Vieira que aprecia alguém como este Cavaco. O discurso de Fim de Ano do PR é, acima de tudo, uma provocação. Inqualificável como PM, agora um PR lastimável. É do pior que alguma vez assumiu o Poder. Alguém que teria sido, sem qualquer duvida, um cinzento ministro de Salazar, tivesse ele, Cavaco, vivido nessa época, que seguramente (Salazar) também o desprezaria. Um criterioso “incumpridor” da Constituição, que ele destesta, basta ver o aval que foi dando aos ataques que o famigerado governo que protege foi dando à Constituição da República, que era suposto defender. Abrirei uma garrafa do melhor espumante no dia em que esta criatura deixar Belém e vou fazê-lo à porta do Palácio Presidencial, com ele a abandoná-lo de vez e para todo o sempre!
Fernando Sequeira

opjj disse...

Dr. Seixas da Costa, por esta amostra vejo aqui muitos ódios. O homem não governa.Só falta dizer que ele foi o culpado de 3 bancarrotas.Gerir um país deixado falido é obra.QQ Presidente não podia fazer muito, a não ser deixar continuar o regabofe.
Cumps.

Anónimo disse...

Comentário correcto de João Vieira, em contra corrente aos Lojistas habituais.



Antonio Cristovao disse...

A vida democrática deve ser mesmo assim. Uns dizem cobras e lagartos outros dizem que a estabilidade que apesar dos arautos de que vamos chumbar a revisão..vamos ter segundo resgate..vamos sair condicionados..não vamos... o presidente a comer bolo rei manteve a serenidade e leva a legislatura até ao fim; que visto pelo outro lado é um erro irresponsável e penoso! Mas dizer que se deve "prestigiar as instituições" com as declarações do do pai da democracia e as arruaças dos "democratas" cada vez que PR sai a rua é um pouco forte.

Anónimo disse...

Notas soltas ao correr da "pena": Cavaco Silva é o principal responsável pelo estado a que o pais chegou. Nada previu, nada fez e nada resolveu. Disse que nunca tinha dúvidas e raramente se enganava. Simboliza o regime em que vivemos mais do que qualquer outro político, por ter sido ministro das finanças durante um ano, PM durante dez e PR durante nove - e ainda não acabou, pois terá mais quinze meses para fazer asneiras (ou deixar fazer). Não usou ou usou mal os poderes que tinha. A crise começou em 2008 e o PR está em Belém desde 2006. O país está muito, mas muito, pior desde que chegou a PR. Vamos pagar bem caro estes anos de cavaquismo. Dos fracos não reza a História, a não ser pelas más razões.
JPGarcia

Anónimo disse...

Quando falamos em Presidente pensamos em Mário Soares, este não passa de "o cavaco".
MCarmoMarcos

p c disse...

BES

SÓCRATES

ESTADO DE (IN)JUSTIÇA


https://www.youtube.com/watch?v=Zs5tqFuVSh8

Anónimo disse...

Boa noite,
o professor Cavaco Silva desta vez teve o cuidado de na sua mensagem de ano novo dizer cidadãos e não cidadões, como é hábito. O sr. professor desta vez estudou bem a lição!
Fernanda

António Santos Carvalhinha Carvalhinha disse...

Comentário. Este Ricardo Salgado Têm A justiça; E O Cavaco Silva A Protegelo;
Clica Abaixo Para Veres Que Na (GUARDA); Com Tanta Corrupção As Nuvens Cada Vez Estam Mais Escuras Em Portugal. Prenderam José Socrates Por Ser Tabalhador E Criar Empregos Os Malandros PSD E Jornalistas;Que Vergonha.
Os Meus Desejo Para 2015 Que O Jornalismo Noticia-se Estes Meus Comentários Para Reduzir A Pobreza Infantil; A Redução Das Reformas Milionárias Criadas por Gravidade Na Função Pública; Para Aumentarmos As Mínimas Miseráveis Para Reduzirmos A Pobreza Adulta E Infantil.
Os Meus Desejos Para 2015 é Criarmos Um Této Máximo Em Todas as Reformas Publicas De 1.500€; Proibir Todos Os Reformados Com Reforma De 1.500€ De Roubar o Emprego Aos Jovens E Pessoas Desempregadas; Para Reduzirmos A Pobreza Infantil E Adulta; As Desigualdades; A Corrupção É Que Cria A Pobreza Infantil E Adulta.E Uma Reforma Só Para Cada Pessoa. As Guerras É a Ganância Do Capitalismo.A Justiça a Prisão que Têm Portugal é A Caça Ao Dinheiro;Defendendo os Ladrões Ainda.
São Os Desejos De António Carvalhinha.https://www.facebook.com/video.php?v=424214484332534&set=vb.188129594607692&type=2&theater.

assuncao.doc disse...

Haja pachorra! Só num país atrasado como o nosso esta abencerragem prosperaria. Salve genro Montez! A. Assunção

Anónimo disse...

Oh Anónimo das 17. 49,
Nem o Vieira, nem você percebem uma coisa elementar: o Cavaco, noutro país, como, por exemplo, os EUA, Israel e uns tantos europeus, já teria sido obrigado a demitir-se por ocasião do caso BPN - que ele Cavaco/PR tão mal explicou, mas que se sabe, sem sombra de dúvida, que recebeu “inside information” daquele Banco de criminosos, onde estavam seus antigos governantes, como o Dias (Dias Loureiro – seu ex-Conselheiro de Estado!!) e, sobretudo, o repulsivo Oliveira (e Costa), hoje com pulseira eletrónica em casa!
Cavaco é uma figura patética, menor politicamente, medíocre, incapaz de compreender o papel que representa há mais de 9 anos como PR e que ali está, em Belém, para apoiar este Desastre, representado pelo Governo de Passos. E para se deixar subjugar ás políticas que a Alemanha nos impõe.
Achar que este tipo de críticas é do Avental, ou Lojistas, é coisa de gente obtusa de extrema-direita. Tenho desprezo por Cavaco, mas não uso avental – a não ser para cozinhar uma boa boa perdiz, pr exemplo!
Fernando Sequeira

Anónimo disse...

Como foi possível? Este povo tem o que merece! Ganhou 5 eleições, essa é que é. "Não há ninguém mais sério do que eu". Será que devolveu as chorudas mais valias de favor, do BPN, que o povo está a pagar? Isso sim, era seriedade!E a história ridícula das escutas.
Gosto muito da fotografia da família, tirada no dia da tomada de posse, a subirem a rampa de acesso ao Palácio. Que maravilha. Está na minha mesa de cabeceira, Sr. João Vieira. Enfim, foi e ainda está ser, uma coisa como deve ser! Um grande pesadelo!

Anónimo disse...

Confesso que tenho dificuldade em acompanhar o seu raciocínio. Afinal se o actual ocupante foi froxo e não exerceu os seus poderes com plenitude, a soluçao é enfraquecer mais ainda esta função e retirar-lhe a legitimidade do sufrágio universal? Pensava que o óbvio seria escolher melhor o próximo presidente!
JGR

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro JGR. Esquece que eu escrevi que estava de acordo com o atual modelo de escolha do PR. O que eu acho importante é que, a pretexto das próximas eleições presidenciais, se abra um debate através do qual fique claro que o modo como ACS exerceu a presidência acabou por enfraquecer o cargo. Quem achar que um PR deve ser aquilo que ACS foi deve, para ser coerente, votar na eleição futura do PR na AR. Quem, pelo contrário, considerar, como eu considero, que a eleição em sufrágio universal confere ao titular do cargo uma importante função legitimadora do próprio sistema político, com o exercício de uma responsabilidade democrática muito especial, deve escolher, como próximo PR, uma figura ativa e que se assuma, na campanha, como disposta a exercer a plenitude dos poderes que a Constituição lhe atribui. Nada mais

Anónimo disse...

Anonimo das 12.39, entao o q ACS fez ao anterior governo foi o q? Colaboração??
Opjj, ACS foi ministro finanças em 1979-80, tendo se demitido. Foi PM 10 anos, em 5 deles com maioria absoluta. Teve condições irrepetidas para governar, com os famosos fundos europeus. É PR desde 2006, tornando se o politico ptg ha mais anos no activo. Nao o desculpe! Para mim, foi uma desilusao como PR, pois considerava o o Homem certo, o homem do leme. Falhou em quase toda a linha. "Jovens, demonstrem a vossa indignação" ou algo parecido, disse ACS ha 3 anos, em relação ao anterior governo. Demonstrou tibieza e falta de principios. Nao deixa saudades.

Anónimo disse...

a contrapor ao ami François Hollande, esse grande socialista...né ?

Anónimo disse...

A foto é favorecida, deve ser dos juniores do Portimonense - o Pai de François que o ature - já temos cá um e ainda é pior

EGR disse...

Senhor Embaixador : perdoe--me a vaidade mas continuo firme numa convicção há muito enraizada em mim: Cavaco Silva é politicamente um mito inventado por uma certa direita portuguesa e que contaminou alguns outros sectores.
Hoje, enquanto cidadão,sinto, apesar de tudo,tristeza por ter na Presidencia da Repúblca uma inutilidade.