quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Notas parisienses

1. Nunca fui um leitor regular do "Charlie Hebdo", mas reconheço a genialidade do seu traço e, embora nem sempre concordando com a crueldade crítica que utilizava, quero afirmar que felizes são os países onde pode publicar-se um jornal deste tipo. Em Portugal, um "Charlie Hebdo" não seria aniquilado pelas balas do terrorismo, mas por uma imensidão de processos judiciais e perseguições de outra ordem. Ter um "Charlie Hebdo", como ter um "Canard Enchainé" ou um "Private Eye" no Reino Unido, glorifica um país em matéria de liberdade de imprensa. Ver desaparecer Wolinski (cuja "especialidade" nem sequer eram, a meu ver, os cartoons políticos) é assistir à saída de cena de alguém que faz parte da memória da minha geração. Hoje é um dia triste.

2. Como o meu colega e sucessor em Paris, José Filipe Moraes Cabral, há horas sublinhou nas televisões, o corajoso papel assumido pela França (e praticamente por mais ninguém) na luta anti-terrorista no Sahel, bem como a sua aberta cooperação no combate ao "Estado Islâmico", expõe mais o país a retaliações desta natureza. É o preço da responsabilidade demonstrada por um grande Estado. Qualquer que seja a avaliação que se faça da política interna de Hollande, há que elogiar o seu forte empenhamento em matéria de segurança, demonstrado à escala global, não obstante as fortes condicionantes orçamentais que o país atualmente sofre.  

3. A França é um país que tem anterior experiência de atentados terroristas com origem no islamismo radical, embora nenhum deles com esta expressão quantitativa em matéria de vítimas. Porém, no passado, a esmagadora maioria dos atentados que ocorreram em França foi cometida por cidadãos estrangeiros. Ao que tudo indica, o atentado de ontem terá sido levado a cabo por franceses, nascidos no seu solo, filhos de imigrantes. Tal como o Reino Unido experimentou em 2005, a sociedade francesa gerou já, dentro de si, os germes da violência radical islâmica, aliás percetível no elevado número de "jihadistas" gauleses (soa mal, não soa?) que estão já nas fileiras do "Estado Islâmico". Combater decididamente essa deriva é um imperativo, desconstruir as razões desta apetência para o radicalismo limite é uma necessidade.

4. O Islão é uma religião que sofre hoje uma forte diabolização (é irónico chamar o diabo a esta questão), um pouco por todo o lado, embora as pessoas tendam a esquecer que os cidadãos muçulmanos são, nos dias que correm, as principais vítimas das suas expressões mais sectárias. Da Indonésia ao Paquistão, do Quénia à Síria ou ao Iraque, muitos milhares de muçulmanos perderam ou perdem, dia após dia, a vida em atentados bem mais mortíferos que o que ontem abalou a França. Por essa razão, continua a ser estranho que as comunidades islâmicas moderadas não ergam mais a sua voz contra este tipo de facínoras que agem invocando os princípios corânicos. O que vemos é uma distanciação mole, um "não, mas", de quem parece intimidado e temeroso, embora longe de ser deliberado cúmplice. As figuras responsáveis entre esses muçulmanos, que são uma esmagadora maioria, talvez não se estejam a dar conta que, com a sua tibieza, se arriscam, um destes dias, a ficar na linha da frente de uma guerra religiosa que os não poupará. Curiosamente, na Europa, as comunidades muçulmanas reagem face ao radicais no seu seio como as monarquias do Golfo fizeram quanto ao Al Qeda. Ora a pusilanimidade só leva à tragédia, como a história prova.   

5. Contrariamente aos apelos exteriores que se ouviram, a sensação que tenho é de que a moldura legislativa francesa, para o combate à violência sectária e ao radicalismo que chega ao terrorismo, é já suficientemente sólida. Além disso, a França dispõe de uma rede de "intelligence" muito eficaz, que sempre poderá ser melhorada, mas que, tal como em qualquer outro país, não pode garantir nunca, em absoluto, uma prevenção total contra atos terroristas. O terrorismo dispõe da iniciativa e da capacidade de gerar surpresa. Pode-se limitar estatisticamente o desenvolvimento das suas redes, mas é impossível prevenir, em absoluto, que um atentado ocorra. 

6. O ato terrorista de ontem vai deixar marcas na política francesa. Mais do que para Hollande, é para o primeiro-ministro Manuel Valls que os olhares da França se voltarão nos próximos dias. Valls, que foi presidente de um município onde a convivência multicultural era uma das grandes questões (tendo, aliás, sido sucedido no cargo por um luso-descendente), mostrou, como ministro do Interior, um perfil securitário contrastante com o discurso mais contemporizador que o PSF costumava assumir nestes temas. A França vai-lhe exigir, não palavras, mas resultados concretos no esclarecimento rápido deste caso. De toda a forma, será sempre a direita política, da mais democrática à mais radical, quem irá ganhar com este episódio. Há uma grande inquietação em toda a França, uma preocupação evidente pela crescente afirmação comunitarista do islamismo, que induz tensões surdas na sociedade e, com alguma naturalidade, cria reflexos anti-imigração. Daqui a um discurso racista e xenófobo é um curto passo que muitos franceses já deram. Se, em termos de eleições legislativas ou presidenciais futuras, isso vier a ter uma expressão flagrante e maioritária, ficará mais evidente que o problema deixou já de ser só francês.

14 comentários:

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Chico

Magníficas notas de um magnífico comentário - que subscrevo integralmente. Muitos parabéns!

Com o horrível morticínio contra o Chatlie Hebdo assassinaram também a França dos gauleses irredutíveis, da tomada da Bastilha e da divisão ESQUERDA DIREITA.

É um crime abominável - mas que fica na História da França e do Mundo como um dos piores pesadelos na realidade que não no sono...

Conheci e acamaradei com o Wolinsky e dele tenho muitos exemplares autografados; por isso me inclino perante a sua memória. Mas não apenas perante ele: diante de todos os cidadãos assassinados, perante a Liberdade, a Democracia e a República covardemente executadas.

Pode ser que estejamos no início de uma nova cruzada (que contra senso...) que de acordo com Amim Maloouf parecem ser "As Cruzadas vistas pelos Árabes". Nem pensar.

Hoje não se vai a Jerusalém para matar muçulmanos; hoje são os muçulmanos (que estão entre nós TODOS, que vivem connosco) que matam os cristãos que os acolheram. É morder a mão que lhes dá a comida.

Com todas as medidas de prevenção e de segurança nunca estamos protegidos de sofrer um crime como este - desumano e duro.

Oxalá as coisas não se compliquem até se chegar ao point of no return; oxalá não se complique mais o Mundo - que já está muito complicado. Demasiado.

Abç

Luís Lavoura disse...

a crescente afirmação comunitarista do islamismo

O judaismo sempre teve uma enorme afirmação comunitarista. Também nos devemos preocupar com ela?

Luís Lavoura disse...

Em Portugal, um "Charlie Hebdo" seria aniquilado por uma imensidão de processos judiciais

Ah pois. É a liberdade de imprensa à portuguesa.

Luís Lavoura disse...

o corajoso papel assumido pela França (e praticamente por mais ninguém) na luta anti-terrorista no Sahel

Quer Você dizer, o papel assumido pela França no combate ao desejo de autonomia do povo tuaregue e na defesa intransigente das fronteiras artificiais de um Estado colonial como o Mali?

Anónimo disse...

Vale a pena, em todo o caso lembrar, quando se comenta a dimensao liberdade de expressao, que o titulo Charlie-Hebdo foi a solucao encontrada pela direccao/redacao do Hara Kiri quando foi proibido de publicacao pelas autoridades francesas ( acho que no tempo de Pompidou)...


JRyder

Anónimo disse...

Portugal tem que ser mais duro que a França no combate ao Islão terrorista, pois a intenção deles é tomar Portugal como território de Ala.

Anónimo disse...

"Ter um "Charlie Hebdo"... glorifica um país em matéria de liberdade de imprensa."

Sei que estamos todos chocados, e por isso talvez esta não seja a altura ideal para suscitar certas questões, mas ainda assim arrisco: de que forma o exercicio da ofensa deliberada ao direito do outro às suas crenças, se insere no conceito de "liberdade de imprensa"? Não estaremos perante um "fundamentalismo" de sinal contrário ?

MRocha

Anónimo disse...

É isto mesmo. Não estou nada optimista.
JPGarcia

Anónimo disse...

Bom Post!
a)Claustros

São disse...

Todo este absurdo horror é perturbante.

A mim choca-se o fanatismo destes assassinos, mas talvez me choque ainda mais o facto de ocidentais alinharem por uma ausência de valores total e , segundo a imprensa, abandonarem as fileiras não por causa das barbaridades praticadas, mas sim porque não existe rede para telemóveis e afins.

E porquê o silêncio total sobre a Arábia Saudita, com as suas práticas brutais e machismo ?!

Paz a quem partiu !

Gostei muito de quanto escreveu.

As minhas saudações

Anónimo disse...

Um magnífico escrito. De subscrever por inteiro.
Um abraço.
onésimo

Anónimo disse...

Eles e os pais deviam regressar às suas terras, pois lá é que é bom. Agora, procurarem a França, para melhor qualidade de vida e depois fazerem estas tragédias...Valha-lhes o alá deles... e deixem os outros em paz!

JM disse...

Excelente texto, com o qual concordo.

A cegueira com que o mundo ocidental se recusa a acreditar que, de facto, existe uma guerra de civilizações em curso é inquietante. Não é uma guerra económica, não é de emigração,nem é religiosa. É de civilização.

A cada um destes eventos a primeira coisa que ouvimos dizer é que o Islão não é isto, que o Islão é paz. Ora, citando o comediante Bill Maher, "Islam is not a religion of peace. It's a religion of pieces."

Qualquer incursão mais ou menos demorada no Youtube permite verificar que o Islão do Norte de África e Médio Oriente (retiro o restante mundo islâmico que, de facto, é moderado) tem como mantra espiritual três aspectos (i) destruição do mundo ocidental, em particular de EUA e Inglaterra e (ii) imposição da agenda islâmica (radical), com a sharia, nestes países e (iii) para uma franja significativa dos islâmicos residentes no mundo ocidental, o Corão sobrepõe-se às respectivas constituições e é, de facto, o verdadeiro orientador da sua conduta.

Em relação a isto, o Ocidente tem cometido alguns erros que têm custado caro, a saber:
1) Destruição de governos e estados seculares (ou religiosamente moderados) nos países do médio oriente (vide Iraque, Egipto, Líbia, Síria, etc...) com apoio forte a grupos extremistas que, mais tarde, se voltam contra nós. Alguém ainda se lembra das "primaveras árabes"?;
2) Continuar a tolerar a Israel uma conduta imprópria e continuar a ignorar os direitos dos palestinianos. Este facto contribui para uma radicalização dos palestinianos moderados e cria capital de queixa para o restante mundo islâmico;
3) O ocidente descura a segurança dos seus cidadão e actua com tibieza face a casos de combatentes já identificados. Em França já estão identificados algumas centenas de combatentes do EI, porque razão mantêm a cidadania francesa? E os portugueses que lá estão, porque mantêm a cidadania? Porque é que lhes é permitido voltar ao seu país? Porque não são impedidos de entrar? As pessoas que fizeram este ataque já estavam identificadas e sabia-se que tinham estado na Síria a combater pelo EI. Então porque razão os deixaram entrar em território francês? É inacreditável esta permissividade.
4) A resposta do estado Francês deveria ser brutal, demonstrando a inaceitabilidade destes ataques. Defendo que o estado Francês deveria fazer um comunicado: Os atacantes têm 24h para se entregar (ou serem entregues) às autoridades francesas. No final do prazo, caso tal não aconteça, começam os bombardeamentos a Raqqa. Se os radicais querem ser um Estado e até têm capital, devem começar a sofrer as consequências das suas opções.

É duro? É. Mas qual é a alternativa, ficarmos como cordeiros à espera da próxima vez?

Antonio Cristovao disse...

O islão é uma religião que sofre.. no entanto todos identificam os atentados de terroristas barbaros com um credo (islão).E até têm a noção que daqui a ver a turba a fazer manifestações xenofobas e racistas antireligiosas é um passo.
Quando alguem queria inplicar os europeus com criminosos que decidiram invadir e provocar a morte a milhares de iraquianos baseados em mentiras todos achamos desproporcionado. E será que somos com honestidade capaz separar o que deve ser separado? é que os paquistaneses, indianos afegãos(islamitas)...sofrem com estes terroristas dezenas de vezes mais que nós; devem ter asco de ver escrito que os culpados são o islão; e têm razão de sentir asco?