quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Leon Brittan (1939-2015)


Posso correr o risco de estar a ser injusto, mas tenho a sensação de que Leon Brittan, o antigo comissário europeu que agora faleceu, não tinha um especial apreço por Portugal. Digo-o com a convicção de quem com ele lidou diretamente durante alguns anos, em especial no tempo em que dirigiu a Política Comercial da União Europeia. Nunca o vi demonstrar simpatia pelos interesses específicos do nosso país, num tempo em que o desmantelamento pautal da UE, quer no quadro da Organização Mundial de Comércio quer nos acordos bi-regionais ou com países terceiros, se fez muito à custa dos Estados membros cuja produção tinha um grau de sofisticação tecnológica que ficava aquém da média europeia.

Visitei-o uma primeira vez, logo em fins de 1995, acompanhando Jaime Gama. A corrente claramente não passou entre o então ministro português dos Negócios Estrangeiros e Brittan, que era um poderoso vice-presidente da Comissão, ao tempo sob a frágil liderança de Jacques Santer. Gama expôs-lhe as dificuldades de Portugal, com um tecido industrial em curso de reconversão, em poder praticar cedências no tocante à "oferta" comunitária nas negociações comerciais. Brittan não deu sinais de ter ficado minimamente sensibilizado. Era essa, aliás, a impressão dominante na direção-geral dos Assuntos Europeus onde eu, até então, fora subdiretor-geral.

Brittan tinha um estilo snobe, um sorriso que era um meio esgar e que facilmente podia ser lido como cínico. Sabia-se que fazia o que muito bem lhe apetecia no âmbito da Comissão, e isso mesmo tinha ficado claro para nós durante um anterior encontro com Santer, que manifestamente o não controlava e deixava disso nota. Liberal até à medula, achava que a salvação da indústria e dos serviços da Europa se faria pelos ganhos de mercado exterior dos seus setores mais avançados, com os restantes a terem de suportar o facto de estarem condenados a desaparecer. Quando lhe falávamos das falências que entretanto se sucediam em Portugal, em setores produtivos ainda com uma dimensão apreciável de mão-de-obra e sem esperanças de reconversão por qualificação, percebia-se que isso lhe era praticamente indiferente. 

Sir Leon Brittan, que havia sido "knighted" pela soberana britânica antes de ingressar na Comissão Europeia, foi uma figura com certo destaque na política interna britânica, onde havia sido ministro do Interior e teve um importante cargo no "Treasury". Era uma personalidade brilhante, de uma inteligência rápida, embora com uns modos arrogantes e "untuosos" que não éramos os únicos a considerar supinamente irritantes.

Guardo dele ainda duas outras recordações pouco agradáveis. 

A primeira, um segundo encontro, no seu gabinete, em Bruxelas, quando manifestamente se mostrou enfadado com algumas outras nossas pretensões, já não recordo em que área. Deu a certo passo um grande suspiro. Irritado, levantei-me e, caminhando para a porta, lancei-lhe: "You look very tired! I'll be back when you'll feel better". Arregalou os olhos, balbuciou umas coisas e eu saí, de cara fechada. Dois dias depois, o seu chefe de gabinete telefonou-me para Lisboa, anunciando umas ligeiras concessões, quase "microscópicas". 

A segunda vez foi em Singapura, durante a reunião de lançamento da OMC, em 1996. Pedimos-lhe um encontro, eu e o Fernando Freire de Sousa, secretário de Estado do Ministério da Economia, à margem da reunião preparatória da UE. Foi difícil mobilizá-lo para a ocasião. Transmitimos-lhe a nossa reação negativa face a um inesperado ajuste à lista de "oferta", que excedia o mandato que antes tinhamos acordado em Bruxelas. Eram mais concessões, sempre à nossa custa. Leu o "non-paper" que lhe entregámos, olhou para as "posições pautais" nele inseridas e exclamou: "Oh! Your textiles, again!". Ouviu então uma ou duas coisas de que não gostou. Transmitimos à presidência da UE a nossa posição e o mandato acabou por não "evoluir" muito em nosso desfavor. Mas não por cedência de Brittan, suponho.

Ao longo dos mais de cinco anos em que tive responsabilidades de governo na área dos Assuntos Europeus, Leon Brittan foi talvez o comissário, dentre algumas dezenas com que lidei, com quem senti mais dificuldades de entendimento.

Um dia contei aqui uma história passada num encontro entre António Guterres e Jacques Chirac. Hoje revelo que o comissário europeu referido nesse episódio era Leon Brittan. Que descanse em paz!   

5 comentários:

Anónimo disse...

Não é fácil negociar!
João Vieira

Luís Lavoura disse...

o desmantelamento pautal da UE fez[-se] muito à custa dos Estados membros cuja produção tinha um grau de sofisticação tecnológica que ficava aquém da média europeia

Claro. E nem podia ser de outra forma. E seria bom que isso fosse dito com todas as letras mais vezes.

A negociação do comércio à moda da UE é assim: permitimos que os países pobres possam exportar têxteis para a Europa em troca de a Europa poder exportar automóveis para esses países. Escamoteando que quem é beneficiado com isso é a indústria automóvel alemã e quem é prejudicado é a indústria têxtil portuguesa. E que os portugueses que trabalham na indústria têxtil não podem facilmente reconverter-se para ir trabalhar na indústria automóvel alemã.

Anónimo disse...

e a indústria têxtil portuguêsa ficou parada não fez nada e desapareceu, não foi? Como a agricultura desapareceu completamente, era muito melhor antes, agora é uma tragédia; como a pesca era fantástica e agora não vale nada etc etc Haverá pachorra para tanto velho do Restelo e tanta verdade afirmada que não corresponde ao que hoje já está?

João Vieira

Anónimo disse...

Boa noite.

Por aqui os obituarios estao acirrados. No Guardian, Julia Langdon lembra 'In a debate on capital punishment, when he put all the arguments against hanging them and then voted in favour of it, he was criticised by one of his predecessors in the post, Roy Jenkins, for having made what Jenkins described as the worst speech he had ever heard from a home secretary'. Isto apos a bomba no hotel em Brighton durante a conferencia Tory.Pergunto-me se Chirac, ao fazer o tal comentario se referia a este episodio.

No "Independent" Dennis Kavanagh diz: "Thatcher once glanced at a television screen when he was speaking and remarked to an aid: "Isn't he unattractive?". Suponho que foi apos o "Westland affair". Finalmente no Independent: "There were six Jews in the Cabinet and Harold Macmillan quipped that it contained more Estonians than Etonians."

Nem tudo e negativo na imprensa local. Ha muitos tributos de varias vertentes politicas e estou longe de ter lido tudo, claro. RIP.

Bom fim de semana

Saudades de Londres.

F,Crabtree

Anónimo disse...

Era um homem estranho e estranha foi a sua negação de que tivesse recebido do Deputado conservador Geoffrey Dickens uma pasta com informações sobre uma rede pedófila à mais alta escala.

É que Brittan posteriormente afirmou que tinha encaminhado a pasta para os funcionários competentes... mas dela não ficou rasto e ninguém a encontra.

Um fim de vida triste.