domingo, 4 de janeiro de 2015

Fronteira

Não acho que se deva ter saudades das antigas fronteiras. Sem a mais leve das nostalgias, atravessei hoje uma fronteira terrestre portuguesa e, nesse instante, recordei a taquicardia pateta que nos invadia quando, num passado felizmente já distante, os carros eram sujeitos ao escrutínio inquisitivo das figuras policiescas que, com ar de caso, pretendiam saber o que trazíamos do estrangeiro, fosse isso "melocotones", "torrón de Alicante" ou uma simples garrafa de Coca-Cola (sim, é verdade!, Salazar não permitia que se importasse Coca-Cola, para quem não saiba).

Um dia dos anos 60, regressei a Portugal integrado num grupo que estava sob a benévola liderança de um simpático amigo, com grande experiência de travessia de várias fronteiras europeias. A prática de muitas viagens tinha-lhe ensinado engenhosos truques. Recordo aqui dois deles, que testemunhei.

Na travessia de Andorra para Espanha, esse amigo preparou a mala do carro por forma a dar a impressão de estar a abarrotar de objetos de uso comum. Por detrás de tudo aquilo, escondiam-se as coisas "proibidas", com as quais os guardas fronteiriças costumavam implicar. Mas o truque essencial, que ele havia treinado para não falhar, era colocar um penico de plástico por forma a que, logo que se abrisse a mala do carro, esse objeto caísse no chão. Era um penico com ar de usado (trazido expressamente de Portugal) e a finalidade era provocar no guarda um subliminar processo de rejeição, quase de nojo, que o desestimulasse de prosseguir a vistoria. Sou testemunha de que, nessa vez em que assisti, o truque funcionou perfeitamente.

Uns dias depois, em Espanha, chegados perto da nossa fronteira, estacionámos por mais de meia hora, a cerca de um quilómetro de Portugal, sem um aparente propósito. O meu amigo mantinha um sorriso misterioso, quando perguntado por que perdíamos tempo. Minutos depois, chegados à parte portuguesa da fronteira, enquanto alguém tratava dos passaportes, assisti à conversa entre esse amigo e o homem da alfândega:

- Deve ter ser muito cansativo estar aqui o dia todo nesta tarefa! Ainda lhe falta muito tempo de trabalho?

- Não, não! De facto, vou sair de serviço dentro de três a quatro minutos.

- Ainda bem! Desejo-lhe um bom descanso. O que pretende ver, no carro? 

- Nada. Não é necessário abrir nada. Podem seguir. Boa noite!

Foi só nesse momento que percebi por que razão tínhamos "feito horas" antes da fronteira. O meu amigo sabia dos turnos dos funcionários das alfândegas e, com uma precisão suíça, conseguia sempre chegar uns instantes antes deles abandonarem o posto, num momento em que a respetiva paciência já se tinha esgotado e estavam mais inclinados a ir para casa do que a vasculhar o carro de um simpático cidadão que, além do mais, se preocupava com o seu cansaço.

Há umas horas, ao olhar os edifícios decrépitos da velha alfândega de Vila Verde da Raia, com vidros destruídos e pixagens nas paredes, senti como estamos bem distantes desse pobre e triste tempo. Ainda bem!

12 comentários:

Portugalredecouvertes disse...


Sr. Embaixador
enquanto levavam os passaportes, nós cá fora a pensar "será que nos devolvem os ditos?"
tive o conjunto de revistas que trazia superiormente fiscalizadas em busca de algumas imagens ousadas que poderiam chocar ou talvez proporcionar visões "paradisíacas", mas que no meu caso eram sempre só com assuntos na moda dos adolescentes da época!
Falta falar do regresso e da chegada à fronteira francesa, onde todo o conteúdo da mala do carro mais ou menos "folclórico" e carregado das saudades, que incluía as roupas de uma longa viagem, mas também o presunto, chouriças, filhoses, couves galegas, ou algum vinhinho da terra, etc. era espalhado por balcões ou não raramente pelo chão tendo em conta a quantidade de carros que se amontoavam, numa frenética busca essencialmente das garrafas de vinho do porto e/ou aguardente que à chegada seriam distribuídas aos amigos e aos familiares, mas que na dita fronteira, levavam uma taxa monetária de acordo com o olho contabilístico do senhor douanier!

mas não será motivo para deixar em situação de desleixo as estruturas que já não servem para os mesmos propósitos!
bom domingo
Angela

Zuricher disse...

Sr. Embaixador, parece-me que está a confundir fronteiras com alfândegas. Os procedimentos de fiscalização de bens - actividade alfandegária e não de controlo fronteiriço - foram abolidos entre Portugal e Espanha em 1986 quando ambos países aderiram à CEE. Não foram, no entando, abolidos os controlos de fronteira que só o viriam a ser com a entrada em vigor do Acordo de Schengen. Nas fronteiras de Andorra com Espanha e França continua a haver controlos fronteiriço e alfandegário. Do lado de França não sei como são mas do lado Espanhol os controlos alfandegários são extremamente minuciosos.

Anónimo disse...

à atenção de Portugal e dos actuais e futuros governantes:

"Greek expulsion from the euro would demolish EMU’s contagion firewall
Should EMU leaders choose to cut off liquidity support for the Greek banking system they might find that their contagion defences are a fiction"

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Zuricher. Não faço confusão nenhuma. Sei distinguir um controlo de passaportes de um controlo alfandegário. O conceito de fronteira que usei é genérico: é apenas algo que nos limita a circulação, ao cruzar de uma soberania para outra.

Anónimo disse...

No comboio passavam várias vezes. Os emigrantes que não compravam bilhete com beliche avisavam "que eles já vinham". O truque era vestir o sobretudo para resguardo da noite mal dormida. No forro do casaco (na altura "maxi") ferviam as notas de francos; grandes como lençóis coloridos... prontas para saltarem para as mãos sôfregas dos nossos compatriotas "arribados" a Paris e que viviam entre os caminhos das faculdades e os cinemas de sessão contínua. Felizmente estão todos de bem com a vida na nossa Pátria...

Anónimo disse...

Infelizmente estamos a caminho de fazer desmoronar um dos assets da construção europeia que era precisamente o da abolição das fronteiras. Com a subida do Ukip, o temor dos conservadores e até o receio do labour quanto à imigração, é muito provável que o princípio da liberdade de circulação de pessoas venha a ser fortemente cerceado. A Europa irá cada vez mais fechar-se sobre si própria e perder toda a projecção, relevo e competitividade que ainda pudesse aspirar. Barroso diz numa entrevista derradeira ao Financial Times que Khol e Miterrand não eram afinal tão bons como ainda os pintam. Mas do cinzentão não se viu ainda uma ideia de rasgo, um golpe de asa ou um vislumbre de visão. Dos medíocres libera nos domine.

Isabel Seixas disse...

Como me revejo neste post, conhecia além da realidade que descreve os roteiros do contrabando...

Iamos a salto ao bacalau, ao aceite de oliva, às bolachas napolitana, à orelha e pé de porco, aos chinelos, aos caramelos de leite, ao chocolate nestlé às bolachas príncipe, aos flãs, ao melocoton ...

domingos disse...

O tratamento que se recebia nas fronteiras e alfandegas, durante o Estado Novo, tinha explicações oficiais que são conhecidas. Creio, todavia, que do ponto de vista da segurança e do protecionismo económico pretendido essas revistas às bagagens, e muitas vezes às próprias pessoas eram praticamente irrelevantes. Mas produziam um efeito subliminar que o Poder conhecia bem: intimidar a cidadania, criar o temor pela Autoridade, em suma, cultivar o respeitinho...

Anónimo disse...

TGV que não saiu do papel custou 153 milhões de euros

Anónimo disse...

É desagradável, agora que o Dr. Durão Barroso saiu de cena, estar a lembrar os compromissos que assumiu com a Espanha a respeito do traçado do TGV, que levou a novos e caros estudos. O que lá vai lá vai!

Anónimo disse...

Fins de 60.
Viagem de férias grandes em auto stop pelas europas.
No regresso a mochila com muitas roupas, sem máquina, ao de cima.
Os meninos trazem coisas?
Assim passaram as preciosidades helvéticas e andorrenhas bem aconchegadas nos fundos...

Guilherme.

Manuel Silva disse...

Ao Anónimo das 13:28:
O «post» não versa esse assunto.
Mas se quer lembranças antigas, aqui as tem.
Durão Barroso regou com champanhe na Figueira da Foz o acordo com Espanha de construção de 5 linhas, tendo como ministra das finanças Manuela Ferreira Leite.
Depois os seguintes continuaram o deboche do novo-riquismo.
E comprou 2 submarinos que deram 30 milhões de bónus a um restrito grupo de pessoas.
Portanto, nunca se deve atirar pedras a telhados alheios quando se tem os nossos também de vidro.
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