quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Ainda o "Charlie Hebdo"

No post anterior, falei da genialidade do "Charlie Hebdo", acrescentando: "nem sempre concordando com a crueldade crítica que utilizava". Com efeito, como se nota pela capa que acima reproduzo, o jornal ia (vai) frequentemente muito para além do que parece ser razoável, nomeadamente em termos de crítica das religiões - área a que sou completamente alheio, porque não faço parte de nenhuma "freguesia". Porém, tenho consciência de que as confissões religiosas fazem parte da sensibilidade íntima das pessoas, pelo que sempre entendi que deve ser mantida alguma contenção no tratamento deste tipo de matérias, reconhecendo embora que tudo isto se situa numa zona cinzenta muito difusa e de difícil tipificação. 

Neste domínio, tenho a sensação de que os católicos costumam ser bastante mais tolerantes, embora me recorde da polémica criada pelo "cartoon" do meu amigo António, quando colocou um preservativo no nariz do papa, ou mesmo de Herman José, quando retratou a raínha santa Isabel. No primeiro caso, houve protestos e um processo, mas creio que tudo ficou por aí, no segundo, o humorista foi afastado da RTP.

Outros casos são bastante mais complexos. O politicamente correto prevalecente não permite que disto se fale muito, mas a realidade é que é notório que, nas últimas décadas, a pressão social pune muito mais, entre nós, o tratamento livre dos temas judaicos do quem ouse atentar contra temáticas islâmicas. O trauma do extermínio judeu pelos nazis criou um formidável policiamento social, no tocante ao anti-semitismo, que é muito superior à consciência no combate à islamofobia. E é óbvio que o mundo islâmico se deu conta disto e não aprecia esta desigualdade de tratamento. Essa é também a dificuldade que se pressente em algum islamismo moderado, o qual, condenando com sinceridade barbáries como a de ontem, não pode deixar de refletir algum mal-estar que, no seu seio, é suscitado pela forma como a sua simbologia é tratada no humor e na caricatura.

A grande e essencial diferença entre as sociedades livres e as sociedades totalitárias é que, nas primeiras, há o primado da lei: quem se sente ofendido queixa-se à Justiça e esta, se acaso entender que os limites da liberdade de expressão foram ultrapassados, lá estará para punir, se for esse o caso. O mundo totalitário, que está instalado na cabeça dos "jihadistas" do "Estado islâmico" ou dos assassinos franceses dos jornalistas do "Charlie Hebdo" carateriza-se por não reconhecer a Justiça democrática e decide fazer "justiça" pelas próprias mãos, à luz da leitura extremada da sua doutrina religiosa. Não há compromisso possível nesta matéria e a liberdade deve ser defendida a todo o preço.

Esta não é uma questão fácil de tratar e menos fácil se torna num tempo traumático como o que vivemos. Mas temos a obrigação de ser honestos connosco mesmos e não metermos a cabeça na areia. Eu não meto.

10 comentários:

Antonio Cristovao disse...

Muito bem; o desafio se levado a peito vai fazer a diferença:
1 na UE somos uma sociedade bem tolerante, desejada por muitos mais milhões de pessoas do que os que cá tem a sorte de viver.
Ajuda para realçar este caminho que se fortaleça a regra básica e sagrada que cada um tem o direito de ter o credo que quer ou nenhum. Falta acrescentar algum limite as práticas de certos credos que podem ferir as nossas leis?
2 a iniciação de praticas religiosas pelas crianças sem entendimento (abaixo dos 14 ?16?) deve ser restringido, proibido ou regulado?

Eduardo Saraiva disse...

Subscrevo. Considero que o mundo ocidental deve fazer uma reflexão sobre o que está a acontecer.

Joaquim Moura disse...

Será que eu li bem? Pergunta o António Cristovão: "a iniciação de praticas religiosas pelas crianças sem entendimento (abaixo dos 14 ?16?) deve ser restringido, proibido ou regulado?"
Será que o António Cristovão conhece o artigo 41º da Constituição da República, que estebelece que a liberdade religiosa e de culto é inviolável?
E diz, o Sr. António, que é tolerante. Olha se não fosse!
Pelos vistos é fundamentelista da tolerância para os que pensam como ele.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Chico

Gosto de desafios; pelo-me por um bom debate; adoro polemizar. É.para mim a demonstração de que a Liberdade e a Democracia são incontornáveis.

O grande problema no caso vertente - , além do sangue derramado, o que é crime - é a atitude que se deve tomar perante as religiões e o dinheiro, que sendo o dono disto tudo, é igualmente o padrinho daquelas.

Tenho escrito (e não poucas vezes) que fui católico mas, curei-me; e não é charge nem cartoon do Chalie Hebdo. Por isso respeito-as todas, ou quase.

A única que tem como obrigação a guerra (santa?) não constante do Islão, mas explicada e ditada pelo profeta: «Está escrito segundo a autoridade de Abu Huraira que Maomé disse: ‘Aquele que morreu mas não lutou no caminho de Alá nem expressou alguma determinação por lutar, morreu como morrem os hipócritas» (Sahih Muslim 2:4696) (Com a ajuda à produção da Wikipédia...)

Ora é esta dicotomia ensanguentada é que para mim é motivo de preocupação: combater por Alá, enfim, "admito" ainda que com muitas reticências.

Quando se luta - luta-se contra um inimigo. Já o escrevia Sun Tzu na sua Arte da Guerra. Com o seu carácter sentencioso, Sun Tzu forja a figura de um general cujas qualidades são o segredo, a dissimulação e a surpresa.

Aqui é que está o busílis. Esta referência, aliás notável, escrita no século IV a C, vem justificando, por exemplo, a guerra da guerrilha sob o comando de Nguyen Giap, Mao Zedong e, veja-se, até Napoleão...

Daí que diga que na dicotomia que afirmei acima se pode perguntar onde está o inimigo? Está entre nós, convive connosco, come o que nós comemos, tem a mesma nacionalidade, mas, tem a jihad.

Ou seja: é segredo, a dissimulação e a surpresa.. Por conseguinte - como combate-lo? Não sei responder (ou sei mas tão medonho que não o quero expressar aqui) Deixo a tarefa aos estrategas (tegos?), se é que eles a sabem.

Abç

LuisGil disse...

Concordo que não nos devemos alhear de quaisquer perturbações no planeta e muito menos, as de um vizinho tão próximo, no qual temos uma forte ligação de emigração há muitas décadas e com ele, pertencemos e partilhamos, politicas convergentes em Comunidade. Há quem queira "meter a cabeça na areia" sobre este facto ocorrido em Paris, mas também, quem esqueça que vários cartoonistas portugueses foram julgados e posteriormente sentenciados entre 2007/2009 pela justiça e muito recentemente, uma expressão de arte foi considerada "rebeldia" pelo maior magistrado da nação! Não podemos (todos os portugueses) ter (ou parecer) duas bitolas ou hipócritas e nunca esquecermos no tempo, o nosso tempo dos "crayons de coleurs" anteriores a 74! Nada justifica qualquer barbárie, muito menos a quem na proporcionalidade só tenha um lápis/caneta para se defender.

Isabel Seixas disse...

Subscrevo.


"A religião convenceu efetivamente as pessoas que existe um homem invisível que vive no céu e que vê tudo o que fazemos a cada minuto do dia.
E o homem invisível tem uma lista especial de dez coisas que não quer que façamos.E se fizermos alguma dessas coisas, ele tem um lugar especial , repleto de fogo e fumo e calor e abrasamento e dor,para onde nos manda viver e sofrer e arder e sufocar e gritar e chorar para todo o sempre, até ao fim dos tempos...

Mas ele ama-nos! "

George Carlin

Luís Lavoura disse...

quem se sente ofendido queixa-se à Justiça e esta, se acaso entender que os limites da liberdade de expressão foram ultrapassados

Quer dizer, deixa-se ao critério altamente falível de um juiz - o qual também tem as suas próprias convicções, frequentemente bem pouco recomendáveis - o saber quando é que há liberdade de expressão.

Felizmente nos últimos tempos os juízes portugueses têm exibido alguma evolução cultural e começam a chumbar com frequência as queixas que lhes são apresentadas. Mas há vinte anos não era assim, e a liberdade de expressão em Portugal era bem pouca.

Luís Lavoura disse...

a pressão social pune muito mais, entre nós, o tratamento livre dos temas judaicos do quem ouse atentar contra temáticas islâmicas

Pois. E Você mesmo ontem caiu nesse erro, ao acusar os muçulmanos de cair no "comunitarismo", quando são principalmente os judeus quem tem uma tradição comunitarista.

Já agora, o sr embaixador pode, à sua vontade, ir comprar carne num qualquer talho halal de Lisboa, ou comer num qualquer restaurante halal, sem que ninguém lhe pergunte se é muçulmano. É bem mais difícil encontrar quem lhe forneça carne kosher.

patricio branco disse...

definitivamente, gozar com maomé ou o corão é muito arriscado, está mais que visto, mas existe a liberdade de imprensa, felizmente, e quem quer pode continuar a caricaturá-los, tal como são caricaturadas as divindades ou símbolos cristãos.
o que aconteceu foi terrorismo e crime que deve evidentemente ser levado à justiça.
mas existem tambem sensibilidades que não gostam de provocações irrespeitosas ou sacrílegas, algumas dessas sensibilidades perigosamente extremistas, como se viu.
não será que um jornal ou um jornalista deverá e medir as implicações e fazer um calculo prévio da relação preços/benefícios do que vai publicar?

Anónimo disse...

"quem se sente ofendido queixa-se à Justiça e esta, se acaso entender que os limites da liberdade de expressão foram ultrapassados"?!

E se ofendido não tiver dinheiro para pagar o processo, come e cala-se ? Quer dizer que ofender é um direito da liberdade de expressão ? Não estaremos a cair numa nova espécie de fundamentalismo ?

MRocha