domingo, 30 de novembro de 2014

Socialistas

António Costa venceu, da forma esmagadora que já se presumia, o congresso do PS. A sombra da tragédia que envolve José Sócrates pairou por algum tempo sobre o conclave socialista, mas Costa foi capaz de mobilizar as hostes e de dar um sentido de forte unidade política ao seu partido. Os "seguristas" terão sido respeitados, os "socratistas" não terão sido excluídos e só Francisco Assis terá visto o seu individualismo desenquadrado da nova liderança. O discurso de encerramento de António Costa foi uma lufada de esperança, pelo que é agora de presumir que o PS exerça, neste ano que o separa das eleições legislativas, uma oposição determinada e efetiva à maioria "sortante", como dizem os franceses. Este congresso acabou por correr muito melhor para o PS do que, à partida, se poderia esperar.

À porta do conclave ficaram dois nomes: Sócrates e Seguro.

O futuro de José Sócrates não passa pelo PS, mas o contrário não é necessariamente verdade. Se Sócrates estiver inocente e impoluto, como espero e desejo, essa será uma sua grande vitória pessoal e sairá pela porta grande, com tudo o que isso representará para o prestígio da nossa Justiça. Se acaso se viesse a provar que, no exercício de funções de Estado, Sócrates tinha cometido algum delito grave, esse já seria então um problema do qual o PS não sairia incólume. Para já, e porque o reino do "achismo" só aos especuladores interessa, aguardemos. Quanto ao juízo que os socialistas fazem do trabalho de Sócrates à frente dos governos, só posso esperar que haja seriedade, isto é, destaque público para o muito que foi feito de bom e uma reflexão serena e modesta sobre os aspectos negativos que haja a apontar. O resto é "espuma"...

António José Seguro, cujo comportamento durante a campanha interna no PS não me eximi de criticar, é uma figura de bem, cujo recato atual configura uma atitude de grande dignidade, à altura daquilo que, com grande sentido de Estado e de serviço público, executou durante os cerca de três anos do seu mandato. O PS deve a Seguro a construção, num tempo inigualavelmente difícil, de um património de ideias e propostas que, sem a menor dúvida, também estarão no centro do programa de António Costa. E fica igualmente devedor de um ato de abertura democrática do partido que permitiu o sopro de legitimidade de que António Costa é hoje beneficiário. António José Seguro pode não ter o élan mobilizador de Costa, mas é um homem respeitável que também integra a história do socialistas.

Este é o primeiro dia de um PS renovado que se espera possa estar à altura daquilo de que muita gente no país hoje espera.

António

Como o tempo passa! Há precisamente 40 anos, António Antunes - que assina simplesmente António - publicava no "Expresso" o seu primeiro cartoon. Ao longo destas décadas, o mais genial e talentoso cartoonista português fez um imenso retrato a cores do país e do mundo. Um e outro premiaram fartamente a sua obra, que hoje é conhecida por toda a parte.

Ao António, membro da nossa tertúlia da "mesa dois", deixo aqui um forte abraço de amizade e de parabéns. E resisto à quase obrigatória tentação de reproduzir aqui um dos seus desenhos - embora hesite muito quanto aos que prefiro, dentre uma obra tão rica - colocando o seu retrato, onde se destaca o permanente sorriso, mas de onde se não ouve a voz inconfundivelmente rouca, que, pelas noites do Procópio, nos traz a graça do seu humor e fina ironia.

sábado, 29 de novembro de 2014

O governador civil (3)

Estava-se em julho de 1969. Havia sido convidado pelo meu tio, Humberto Cardoso de Carvalho, para o acompanhar num passeio turístico com a família pelo sul de França. Colocava-se, porém, um obstáculo: eu estava em "idade militar", pelo que havia uma certa dificuldade em ser-me concedido um passaporte, necessitando de uma credibilitação prévia. Como o meu tio conhecia bem o governador civil, Torcato de Magalhães, fomos ambos por ele recebidos e o assunto resolveu-se, sem grandes dificuldades.

Fez-se a viagem. Passados dois meses, o país entrava em ebulição política com a preparação das primeiras "eleições" legislativas (à época, o regime não admitia outras e mesmo estas mereciam fortes aspas) da era Marcelo Caetano. Salazar caíra da cadeira em agosto do ano anterior, Caetano herdara-lhe o lugar, menos de dois meses depois. Durante as férias, o meu tio, que havia sido seduzido pela "abertura" política que então se anunciava aos quatro ventos, tinha-me dito que aceitara liderar a lista "marcelista" de deputados pelo distrito.

As hostes oposicionistas locais, pelo seu lado, não estavam paradas. Congregadas em torno da Comissão Democrática Eleitoral (CDE), pediram uma audiência ao governador civil para lhe fazerem a entrega formal da sua lista dos candidatos a deputados pelo distrito. Solene mas cordial, Torcato de Magalhães recebeu uma manhã três responsáveis oposicionistas: Otílio de Figueiredo, Délio Machado e... eu. Ao ver-me entrar, senti que os seus olhos se arregalaram um pouco. Então aquele miúdo (eu tinha 21 anos) que, dois meses antes, lhe fora apresentado pelo agora líder politico local do regime, integrava o núcleo duro dos próceres do "reviralho"?

Acabada a cena, Torcato de Magalhães telefonou de imediato ao meu tio que, com toda a naturalidade, lhe respondeu que já sabia da minha opção e que "o rapaz tem todo o direito de ter as suas ideias". O governador civil deve ter ficado um pouco confundido. 

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O governador civil (2)

Esta é uma história que faz parte da mitologia de Vila Real e, ainda há semanas, a ela se referiu no Facebook o meu amigo Carlos Leite, um vilarealense "exilado" no refastelo do sol da Grécia.

Nos anos 50 do século passado, o Governo civil de Vila Real era chefiado pelo coronel Augusto Sequeira, um grande homem de bem a que me ligaram laços de amizade e grande simpatia, e a cuja comemoração do centenário de vida tive mesmo o privilégio de assistir. Era um "craveirista", um próximo de Craveiro Lopes, o presidente pouco cómodo de quem Salazar acabaria por se desfazer em 1958, optando por essa figura de antologia anedótica que se chamou Américo Tomaz.

Augusto Sequeira recebia nesse dia, em Vila Real, o então ministro do Interior, Trigo de Negreiros, um homem originário de Mirandela que também viria a cair politicamente em 1958. Passeavam-se os dois pelas ruas da cidade, numa tarde seca de inverno, aproximando-se a certa altura da Pastelaria Gomes, então (e ainda um pouco agora) o eixo social do burgo. À chegada à esquina no edifício, preparando-se para entrar no café, o valpacense Sequeira comentou alto, para Trigo de Negreiros, com a cumplicidade regional que os unia:

- Está um frio tipicamente transmontano!

Antes que Negreiros pudesse retorquir, a um gandulo de samarra que se encostava à esquina, fumando uma perisca, e quase sem os olhar, saiu esta frase que ficou nos anais locais:

- Transmontano o c...o ! Está mas é um frio f...o !

A doutrina divide-se sobre a sequência do episódio. As versões mais reviralhistas dão conta do rapaz ter sido encaminhado por um cívico para a esquadra da PSP, ali perto, por baixo do Governo civil. Leituras benévolas dão incidente por findo com uma repreensão risonha feita ao atrevido pelas figuras políticas. 

Uma coisa não mudou: passei há pouco pela esquina da Gomes e, embora não ousando a mesma ênfase lexical, sou levado a concluir que o famoso anónimo dos anos 50 do século passado continua a ter a sua razão...

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O governador civil

No tempo "da outra senhora", o lugar de governador civil, em especial na província, era um posto de alguma importância. Os ministros viajavam pouco, Lisboa podia ficar longe e competia aos governadores informar sobre a realidade local e representar localmente o governo. Porque os autarcas eram nomeados pelo partido único, cabia aos governadores - homens da estrita confiança do governo - um papel decisivo na seleção dos presidentes dos municípios e suas vereações. Daí a importância objetiva desses chefes dos distritos, que alguns relativizavam com maior ou menor simpatia, que a outros enfatuava o porte.

Em Vila Real, recordo-me das caras de vários governadores do Estado Novo. Deles me ficou a imagem de que se passeavam pelas ruas com alguma pompa, acompanhados de figuras, figurantes ou mesmo figurões locais, ungidos da vaidade de serem vistos a fazer parte do serralho do poder. O "senhor governador" era, sem exceção, o centro dessa coreografia, revelando o seu ascendente por um pormenor que, para mim, foi sempre significativo: se, durante o passeio, para sublinhar um argumento, ele decidia travar o passo, logo o rebanho à volta suspendia a marcha e atentava nas importantes palavras que sua excelência entendia relevar. E, ao seu estugar do andamento, todos os outros o seguiam. Se Roland Barthes passasse então em frente à Gomes ou na rua Central, retiraria dali um capítulo para os seus estudos de semiologia. No mínimo, dedicaria uma das suas "Mitologias" a essas curiosas figuras que compunham a teatralidade político-social da ditadura.

Porque me lembrei disto agora? Porque passei, há minutos, junto a um desvio para a aldeia de Moura Morta, entre Castro Daire e Lamego, e recordei-me que havia uma figura dessa aldeia que vinha com frequência a Vila Real e que, pela sua pose e ar majestático era conhecida na cidade, jocosamente, como o "governador civil de Moura Morta". Mas não tinha o exclusivo do apodo: um comerciante de Lordelo, às portas de Vila Real, aliás homem simpático e agradável, possuidor de uma "bela figura" e andar pausado, foi também, durante anos, conhecido como o "governador civil" de Lordelo. De certo modo, estas designações acabavam por ser um implícito reconhecimento do prestígio do cargo.

Com a chegada da democracia, os governadores civis deixaram de ter alguma "graça" - e que me perdoem alguns bons amigos que exerceram esse cargo. Com os autarcas a serem as figuras centrais do jogo político local, esses representantes do poder central foram sendo limitados nos seus poderes. O governo que aí anda decidiu mesmo acabar com eles. Não sou nostálgico, mas a entrada de um governador civil da "outra senhora" na Gomes era um espetáculo!

"Com amizade"


Há pouco, o Cante Alentejano foi considerado pela UNESCO como "património mundial". Aqui deixo uma história alentejana, e não só.

No auge dos tempos revolucionários de 1975, o Alentejo vivia sob as movimentações da Reforma Agrária, com a ocupação das propriedades rurais e o ataque aos respetivos detentores - os "grandes agrários", tidos como historicamente responsáveis por graves injustiças sociais e económicas, autorizadas e protegidas pela lei e pela repressão policial, durante a recém-abolida ditadura. "A terra a quem a trabalha" era o lema que dava corpo a um movimento tendente a forçar uma reversão de poder, onde o Partido Comunista Português teve grande influência, nele se destacando a criação das UCP's (Unidades Coletivas de Produção), estruturas emblemáticas no novo modelo produtivo em expansão nas grandes propriedades. A realidade agrária alentejana iria ter impactos muito fortes nos equilíbrios da governação do país, podendo considerar-se que, durante vários anos, marcou fortemente a evolução da política interna portuguesa, muito embora o saldo final de toda essa turbulência tenha ficado muito longe dos objetivos revolucionários originais.
 
Com a Reforma Agrária a marcar então, quase quotidianamente, a agenda política nacional, passava-se, na televisão portuguesa, um fenómeno bizarro, quase marginal mas que, visto à distância, não deixa de ter alguma curiosidade. Sobrevindo do tempo anterior ao 25 de abril, mantinha-se na grelha de emissão da RTP o programa "TV Rural", dirigido pelo engº Sousa Veloso, uma figura sorridente e cordial, que anos de presença regular no écran haviam transformado num visitante virtual da casa de todos os portugueses. E de que falavam os programas de Veloso? Da "outra" vida rural, da "lavoura", de experiências agrícolas e de práticas de produção tidas por exemplares. Enquanto no Alentejo arrancavam as campanhas mobilizadoras para a viabilização produtiva das UCP's ou das novas cooperativas, Sousa Veloso mostrava-nos, impávido aos ventos da Revolução, a glória da pêra-rocha do oeste, a safra desse ano dos melões de Almeirim, os resultados do combate ao míldio nas uvas do Dão ou as novas técnicas usadas no azeite da terra quente transmontana. Nem uma palavra sobre o Alentejo!
 
Sousa Veloso morreu hoje, aos 88 anos. Era um homem simpático, sorridente, que se despedia sempre dos espetadores "com amizade". Hoje, despedimo-nos nós dele.

Alemanha


Ontem, durante a manhã, intervim num debate na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, organizado pelo respetivo Instituto Europeu. Um parêntesis para fazer notar o notável trabalho que, desde há vários anos, Eduardo Paz Ferreira tem vindo a desenvolver com sua equipa do Instituto. Muito lhe devemos por ter aí criado um espaço ímpar de reflexão sobre a Europa e os nossos desafios - e desencantos - no seu seio.

O tema ontem foi a Alemanha e a Europa que a Alemanha pretende. Tentei "perceber" Berlim, interroguei-me sobre se há uma bem definida estratégia alemã para a Europa ou se a Alemanha vive ainda numa relativa "navegação à vista", fruto da falta de estabilidade do próprio processo europeu, sob pressão da crise. Fui pela última hipótese. Referi que o conceito das "duas Alemanhas" já não é apenas o das que antecederam a queda do muro: para o projeto europeu, houve uma Alemanha ao tempo em que havia muro (solidária, pró-federal) e há hoje uma outra Alemanha no cenário pós-unificação (seria a unificação alemã o verdadeiro objetivo por detrás do "europeísmo" alemão?), em especial pós-alargamento, marcada por algum dirigismo paternal/autoritário e pela indisponibilidade de "pagar" a Europa. Discorri sobre o alargamento e sua génese, bem como o seu efeito sobre o equilíbrio interno europeu. Discuti a atual unipolaridade do poder europeu - o diretório hoje é apenas a Alemanha - e o sentimento de desconfiança/hostilidade que Berlim suscita (embora cada europeu tenha "a sua Alemanha", em função da experiência histórica diferenciada de cada um), por virtude da sua cada vez mais obstinada "rightousness" face aos "pecadores" da periferia. Perguntei-me até onde a Alemanha poderá querer forçar a introdução de um modelo institucional europeu de direção centralizada e em que medida isso não poderia criar a ideia de que as ordens constitucionais ficarão hierarquizadas (o que diz o tribunal de Karlsruhe é já hoje mais respeitado do que o que estatui o nosso tribunal constitucional - até pelo nosso governo). E, naturalmente, questionei se esse caminho não levará a uma perda de legitimidade dos poderes nacionais cuja representação no poder central europeu se sente progressivamente debilitada. Fui de opinião de que a "grande coligação" no poder em Berlim acaba por ter um efeito nefasto na diversidade do debate político interno na Alemanha, sendo a classe política alemã claramente culpada de uma falta de pedagogia sobre a opinião pública doméstica, que pudesse sublinhar as vantagens (únicas na Europa) que o país retira do projeto europeu. Falei dos efeitos da "décrochage" de poder formal com a França e dos malefícios, cada vez mais evidentes, do Tratado de Lisboa. Idem sobre a escassez de visão estratégica da Alemanha na questão ucraniana, onde, a meu ver, se deixou levar pela agenda primária anti-russa da Europa na vizinhança direta de Moscovo, promotora da posição irresponsável que a União Europeia tomou face ao poder em Kiev, que acabou por facilitar a deriva autoritária de Putin. Comecei e terminei com uma mensagem de fé nas virtualidades da democracia alemã, de que estou plenamente convicto.

O video da minha intervenção pode ser visto aqui.

A imprensa e o processo Sócrates

Vai ser muito interessante - melhor, já está a ser - seguir o comportamento dos diversos meios de comunicação social no acompanhamento do processo de José Sócrates. 

Alguns jornais foram beneficiados por informação privilegiada no dia da detenção do antigo primeiro-ministro, oriunda da investigação, com o objetivo de credibilizar as teses da acusação. A similitude daquilo que foi publicado pelo "Sol" e pelo "Correio da Manhã" revela bem essa origem comum. A SIC e, ao que me lembro, a TVI tiveram apenas direito ao "leak" da chegada de Sócrates ao aeroporto, aliás mal aproveitado. De certo modo, houve alguma naturalidade na escolha dos jornais privilegiados: o "Correio da Manhã" é o órgão que maior atenção dedica às questões criminais e a jornalista do "Sol" tem um histórico assinalável nesse domínio.

Fica claro que, tomada que foi a decisão de deter o antigo primeiro-ministro e atenta a expectável repercussão política e social que esse ato sempre provocaria, os acusadores sentiram necessidade de publicitar, simultaneamente, os fundamentos em que assenta o processo, como forma de rodear a decisão de alguma legitimidade. Assim, e contrariamente a outros casos em que o jornalismo de investigação teve um papel fundamental, desta vez os jornais e as televisões começaram por operar exclusivamente com base naquilo que os "deep throat" da polícia ou da magistratura lhes transmitiram. Não sendo profissionalmente "glorioso", sempre é melhor que nada. E, de passagem, também não vale a pena sermos ingénuos ao ponto de pensar que o "inquérito" que a Procuradoria-Geral da República vai lançar para tentar "descobrir" os responsáveis pelas "quebras do segredo de justiça" terá alguma consequência. É como se tentássemos olhar para as nossas próprias costas...

O tema promete não esmorecer nos próximos tempos. Aliás, o surgimento da carta de José Sócrates, que parece denunciar a sua intenção de intervir ativamente por via mediática, numa forma pouco vulgar de "defesa" pública, acaba por tornar-se muito interessante para a imprensa, que agora passará a aguardar os "próximos capítulos". A comunicação social vai ser sujeita a um constante teste sobre o rigor da suas análises, sobre a sua maior ou menor disposição para resistir aos "fait-divers", sobre a sua capacidade de identificar factos concretos e de saber separá-los de meras suposições. Esperam-se dias movimentados na frente jornalística, agora que um novo "nicho" temático se abriu.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

"Crónica das minhas teclas"


Logo à tarde, pelas 18.30 horas, no Palácio da Independência, no largo  de S. Domingos, em Lisboa, vou apresentar o livro de Henrique Antunes Ferreira, "Crónica das minhas teclas", que também prefaciei.

Carnaval

 
Aquele jovem empresário, homem de "boas" famílias, era um deslumbrado: muito dado "ao social", adorava as colunas da então "Olá" e o ensejo a estar presente em ocasiões oficiais. Um dia, conseguiu um convite para ir "ao café", num jantar de Estado na Ajuda, uma espécie de "terminação" para aqueles a quem não saía a "sorte grande" de obterem um lugar à mesa da refeição.

Deu-se então conta de que não tinha nenhuma condecoração com que pudesse alindar a vistosa casaca que alugou para a ocasião. Achou que isso lhe dava um ar de "pelintra". E teve uma ideia: havia lá por casa uma condecoração elevada, que, em tempos, um presidente da República dera ao seu pai. Decidiu-se a usá-la. Ficava-lhe "a matar"!

Já nos corredores do palácio, teve o azar de dar de caras com o chefe do Protocolo de Estado, homem sabedor das grandes honrarias cerimoniais, pessoa conhecida da sua família. Num segundo, lembrou-se logo de que o diplomata, seguramente, não iria acreditar que ele pudesse ser o possuidor daquela comenda. Num acesso de prudência, o nosso homem entendeu então que seria melhor "abrir o jogo" e confessar que trouxera uma condecoração "da família", mas que não lhe pertencia.

O chefe do Protocolo, olhou-o, severo, e retoquiu simplesmente: "Não faz mal! Assim como assim, já falta pouco tempo para o Carnaval..."

terça-feira, 25 de novembro de 2014

O Tribunal


Eu era miúdo, mas lembro-me como se fosse hoje. Todas as manhãs, numa camioneta de caixa aberta com longos bancos, chegavam os operários que tinham a seu cargo as obras do novo Tribunal de Vila Real. À época, era uma forma vulgar de transporte de trabalhadores. Porém, havia algo de diferente: quatro homens fardados ocupavam os cantos da caixa da viatura. Os operários eram os presos da cadeia da cidade.

A direção desses presos, a organização e planificação do seu trabalho, passou por alguns meses a ser assegurada por um homem que também estava naquela prisão, acusado, creio, que de uma qualquer fraude. A sua preparação académica dava-lhe um estatuto diferente, pelo que me recordo que se movimentava na obra com muito maior à vontade que os restantes presos. Era uma pessoa de Viana do Castelo, que aí tinha sido antigo colega de escola primária do meu pai. Durante os meses em que permaneceu em Vila Real, o meu pai fez questão de o visitar, com alguma regularidade. Ouvi-o então dizer: "Antes de tudo é um amigo, para além dos erros que possa ter cometido na vida". Neste dia em que, se fosse vivo, o meu pai completaria 104 anos, recordei-me desta sua lição.

"As curvas do mundo"

No âmbito da série "Falemos dos outros", organizada por Fátima Pinheiro, tem lugar nesta terça-feira, pelas 21.30 horas, na Casa-Museu Medeiros e Almeida, na rua Barata Salgueiro, próximo da Cinemateca Nacional e da Sociedade Nacional de Belas Artes, um debate entre mim e Jaime Nogueira Pinto sobre o críptico tema "As curvas do mundo".

A avaliar pelo que a Fátima adianta no seu blogue, a conversa promete. Senão, leiam:

"Vou perguntar-lhes pelas curvas de Portugal e do mundo. Estas semanas foram um shot delas. E para shot, shot e meio. Eles são pessoas para isso e muito mais. Acham normal que, em véspera de eleições, cada dia da semana seja um dia em que se descobre mais "uma falha" desta governança? Que os bandidos estão todos deste lado, e os xerifes, de botim a luzir (nada melhor que um par de sapatos bem tratados, nisso concordo), sejam todos uns inocentes e heróis? E que o justos paguem tudo? Ou que um roseiral seja um paraíso de odores "incênsicos", ao passo que um laranjal, apenas um titanic de interesses manhosos e cretinos finalmente a afundar-se de vez?"

Reputação

Portugal é um país frágil. Tem uma história antiga, existe no imaginário internacional como um país simpático, de gente cordial e modesta, que o mundo se habituou a encontrar espalhada por esse mesmo mundo, como se isso fosse a sua sina. A glória do seu império passado sublinha hoje ainda mais a modéstia desta nação que, há séculos, segue como a mais pobre de toda a Europa ocidental. Às vezes, nuns assomos, consegue concitar alguma atenção: é uma revolução quase sem sangue, é uma exposição universal conseguida, é um escritor que ganha um Nobel e outro que desassossega as consciências, é a boa coreografia de uma presidência europeia ou de uma performance internacional, é o ser a pátria de um desportista ou de um treinador de nomeada, é o seu sol agradável, é a canção nacional que rima connosco. Esses e outros arroubos, prestigiantes, rapidamente são abafados pelo regresso ao retrato que, aparentemente, nos define: um país que declinou sem remissão desde a perda do Brasil, incapaz de sustentar o sucesso, com defeitos comportamentais endémicos.

A Europa trouxe um dia um sopro de esperança a este país frágil, recém-orfão das suas colónias. Pareceu que tudo ia mudar, da paisagem às mentalidades. Na frase que melhor nos define, os portugueses pensaram, em uníssono: "agora é que é!". Não foi. Nessa maratona de obstáculos, ficámos para trás e, à primeira borrasca, revelou-se a nossa impreparação para as exigências da prova. 
 
Teve de vir a "troika" dos credores, com a qual um governo de saída mal negociou. Com ela, vieram as exigências do ajustamento, perante as quais um outro governo, mais subserviente, se ajoelhou. O país humilhou-se, a dívida aumentou, o governo fez peito para a foto sincrónica do défice, ajudado pela emigração e pelo desenrascanço das empresas. Os mercados, que não são parvos, rapidamente perceberam que se tratava apenas de uma cosmética leve, que as estruturas e as mentalidades não tinham mudado, que nada de fundo estava resolvido, que Portugal era basicamente o mesmo, de Soares a Cavaco, de Sócrates a Passos. Nem é necessário recorrer ao dito escatológico de Brito Camacho.
 
Graças a Draghi, o país estava assim em precário sossego financeiro. Um dia, numa hecatombe anunciada, cai o grupo financeiro mais estruturante do sistema, num novelo de fraudes. De seguida, a gloriosa empresa nacional de telecomunicações, metida em cavalarias baixas com emergentes em crise, cai em maus lençóis. Surge uma rede criminosa de corrupção, em que parece estarem envolvidas altas figuras da administração. Na sequência, um ministro cai. Nem uma semana era passada e é detido um antigo primeiro-ministro, acusado de várias malfeitorias. 
 
Se, apesar do efeito reputacional destes eventos, o país não se afundar perante o mundo, só uma conclusão é legítimo tirar: já não somos nós que nos sustentamos perante o mundo, é apenas a nossa irrelevância no jogo global que nem sequer nos permite sermos sujeitos da nossa própria crise. Porventura, é melhor assim.
 
Artigo que hoje publico no "Diário Económico"

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Serviço público

Foto de António Manuel Pinto da Silva
De um aeroporto europeu, aqui fica um aviso à navegação: não confiem totalmente nos "cartões" de embarque eletrónicos nos vossos iPhones. Não é que eles não funcionem, o problema é que, se acaso a bateria do aparelho se esgota, podemos arriscar-nos a ficar completamente ilegais no meio de uma aerogare, sem conseguir provar como ali chegámos e, claro, sem possibilidade de embarcar. Já se tinham lembrado disso? Sei do que falo...

"Uma Alemanha Europeia ou uma Europa Alemã"

 
"Nos anos cinquenta do século passado, o grande escritor alemão Thomas Mann falava do dilema que se colocaria à Alemanha: ser uma Alemanha Europeia ou criar uma Europa Alemã. Sessenta anos depois, a Alemanha impôs à União Europeia uma política de austeridade com resultados económicos profundamente negativos e que ameaçam prolongar-se por décadas. Ao mesmo tempo, a chanceler e o governo alemão não hesitam em criticar opções de política interna dos Estados, como ficou patente com o comentário sobre o número de licenciados portugueses. É tempo de fazer um balanço: temos uma Alemanha Europeia ou uma Europa Alemã? "
 
Este é o texto introdutório de um debate que, no dia 26 de novembro, a partir das 9.30 horas, no auditório da Faculdade de Direito de Lisboa, irá ter lugar.
 
Integro o primeiro painel, com o José Loureiro dos Santos, Reinhard Naumann e António Menezes Cordeiro. No segundo painel, intervirão Francisco Louçã, Ricardo Cabral, Pedro Brás Teixeira e Eduardo Paz Ferreira. 

A Voz de Trás-os-Montes

 
É uma excelente notícia o regresso de "A Voz de Trás-os-Montes", o semanário vilarealense que esteve sem se publicar por cerca de três meses.
 
A suspensão da publicação da VTM tinha levado o "Notícias de Vila Real" a passar de quinzenário a semanário. A concorrência entre os dois jornais pode assim, se bem gerida, transformar-se numa importante mais-valia para a cidade.
 
No próximo fim de semana, quando por lá for para as comemorações do "Primeiro de dezembro", logo verei como "param as hostes" jornalísticas na capital de Trás-os-Montes.

domingo, 23 de novembro de 2014

O pingo de solda

Na minha infância, o meu pai contava uma história que, na minha família, ficou conhecida como "o pingo de solda".

Uma senhora queixara-se à polícia de que dois trabalhadores, que tinham ido fazer um trabalho elétrico a sua casa, se tinham envolvido numa acesa disputa, com agressões e insultos mútuos, diante dos seus filhos muito jovens. A cena fora tão violenta e a linguagem tão desbragada e vernácula que a senhora entendeu por bem chamar a polícia. (Estamos a falar de outros tempos, em que estas coisas escandalizavam). E os operários foram levados para a esquadra.

Lá chegados, os visados estiveram muito longe de confirmar a versão da senhora. E um deles explicou, cândido: "As coisas não se passaram assim. O que ocorreu é que o meu colega, o Alberto, que estava no alto de uma escada que eu segurava, soldava uns fios. Inadvertidamente, sem a menor intenção, deixou escapar da máquina com que trabalhava um pingo de solda, incandescente, que me caiu no pescoço. Confesso que isso me incomodou um pouco! Daí que eu tivesse exclamado: "Ó Alberto! Vê lá se, para a outra vez, tens mais cuidado! Nada mais!" ".

O grau de plausibilidade da cena era mais do que evidente.

Lembrei-me disto ontem, ao ler no "Expresso" a justificação dada por Ricardo Salgado para o facto de ter recebido do empresário José Guilherme uma "oferta" de 14 milhões de euros (isso mesmo!). 

A história é interessante. Salgado revela ter dado a Guilherme "alguns conselhos pessoais sobre a evolução da economia em geral e dos mercados para onde pretendia alargar a sua atividade". Perante uma intenção de Guilherme de investir num determinado país, Salgado tê-lo-á dissuadido e aconselhado outro mercado, onde o empresário acabaria por ter "enorme sucesso". Guilherme, naquilo que Salgado descreve como uma "demonstração aliás muito caraterística do seu caráter grato e generoso", quis "manifestar o seu reconhecimento pela ajuda" prestada pelo banqueiro. E resolveu oferece-lhe a quantia de 14 milhões de euros, mas só após "reiterada insistência", a que Salgado se viu constrangido a vergar-se. Depois, como naturalmente pode acontecer nestas coisas de dinheiro, Salgado esqueceu-se da "prenda" numa conta no Panamá, não a declarando no IRS, mas isso é apenas um pormenor despiciendo.

Esta cena tem uma plausibilidade idêntica à da história do pingo de solda. A similitude é que quer os operários quer o banqueiro tiveram de prestar declarações à polícia. A diferença é que, se bem me lembro, na história do pingo de solda os operários acabavam presos.

O Camilo

Há quase quatro décadas, o Alfredo Magalhães Coelho e eu resolvemos elaborar, para distribuição entre os amigos, uns guias de restaurantes, de um tamanho de bolso, com indicações sobre preços, pratos mais típicos mas, igualmente, com dias de encerramento, telefones, facilidades de parqueamento e até indicações sobre os melhores acessos. Saíram vários números (lembro-me, pelo menos, de termos publicado os do Minho, Trás-os-Montes, Alentejo e Algarve). Os exemplares muito limitados, algumas escassas dezenas, e cada zona tinha a sua cor de papel. Os guias, escritos em 1987/88, no meu primeiro computador, foram um imenso sucesso e muita gente continuou a fotocopiá-los por alguns anos (o que é perigoso, porque este tipo de indicações é rapidamente "perecível" com o tempo).

Ajudava-nos nesta tarefa o Camilo, um funcionário simpatiquísimo da primeira estrutura do MNE para os assuntos europeus, um ás da reprografia, que foi a alma logística da operação. Ele era o nosso "editor"! Voltámos a cruzar-nos várias vezes durante a minha relativamente longa passagem pelo palácio da Cova da Moura, nos anos 90. Entretanto, havia-o perdido de vista, há muito. Acabam de me informar que morreu hoje. Deixo um abraço sentido à Família desse amigo, que comigo também fez parte da equipa pioneira, criada na avenida Visconde Valmor, que "arrancou" com a presença de Portugal nas instituições comunitárias, no dia 1 de janeiro de 1986.

O PS e José Sócrates

Contrariamente à esmagadora maioria dos observadores, não tenho a perspetiva de que a detenção e o processo contra José Sócrates acabe necessariamente por vir prejudicar, a médio prazo, as possibilidades eleitorais do Partido Socialista em 2015. Explico porquê.

O político José Sócrates, por muito que isso custe aos seus amigos e apoiantes, terá terminado ontem. Independentemente da evolução do seu processo judicial, e a menos que uma reviravolta inesperada venha a acontecer, as suas hipóteses de regressar à cena política terão ficado definitivamente encerradas. Ninguém conseguiria recuperar politicamente depois do que ontem sucedeu.

Mas é importante recordar que, há algumas semanas, a importância política do antigo primeiro-ministro era ainda considerável. Se acaso o "terramoto" de ontem não tivesse ocorrido, tudo indicava que a imagem de José Sócrates iria permanecer e talvez acentuar a sua presença no centro do debate político que aí vem. Ora isso, em princípio, já não virá a acontecer.

Com efeito, parece-me que a atual maioria vai forçosamente ter de se refrear, a partir de agora, nomeadamente em termos parlamentares, na frequência das referências políticas a José Sócrates, que seriam vistas como uma agressão de desforço face a alguém que está hoje fragilizado por um processo judicial. É que ser-lhe-ia muito difícil jogar na dualidade discursiva entre um Sócrates político e um Sócrates réu, sem que isso afetasse a necessária contenção que lhe compete, em especial como poder, face ao processo em curso na justiça.

Por outro lado, em face da nova situação que envolve José Sócrates e a expectável retração nas menções a seu respeito por parte da atual maioria, mobilizadoras do ambiente anti-Sócrates que pré-existia à sua tragédia pessoal, o novo PS será menos apelado a vir defender publicamente a sua herança política, como o vinha mais recentemente a fazer, numa atitude de grande coerência e ética política, mas que, a prazo, poderia acarretar-lhe algum custo eleitoral. Isto pode parecer um tanto cruel, mas é uma realidade insofismável.

Haveria, porém, um único cenário em que tudo o que deixei dito deixaria de ter qualquer sentido: se acaso se viesse entretanto a densificar a plausibilidade das acusações feitas a José Sócrates terem algo a ver com a sua conduta enquanto primeiro-ministro. Nesse hipotético caso, que francamente não espero e naturalmente não desejo, o PS não deixaria de se ver necessariamente arrastado para uma "partilha" de responsabilidades, com inevitáveis consequências políticas.

sábado, 22 de novembro de 2014

A fuga

Alguns mostram-se escandalizados pelo modo algo teatral como José Sócrates foi detido, com oportuno aviso prévio à comunicação social.

Não concordo com esta interpretação e até percebo a lógica policial: a sua detenção no aeroporto deve-se ao facto de haver um evidente risco de fuga para o estrangeiro, a partir do momento da sua entrada no país...

As contradições do desejo

Desejo sinceramente que José Sócrates possa demonstrar que está inocente e que as acusações que sobre ele impendem não tenham solidez.

Desejo sinceramente que a Justiça portuguesa, para que os cidadãos nela possam confiar, tenha detido José Sócrates com base num processo consistente e incontroverso.

A tragédia dos jornais

É em dias como este, em que a notícia que faz a manchete chega num momento que já não permite mudar sequer a primeira página (com uma exceção jubilosa), que se espelha a tragédia da imprensa escrita. Os jornais de hoje (com a capa da tal exceção jubilosa) já são jornais de ontem. Mesmo o "Expresso", que, nas suas quatro décadas de existência, tantas vezes viveu das "caixas" como a que agora lhe teria dado a glória, surgirá, no seu saco, a cheirar à vésperas.
 
Hoje vai ser o dia de glória das televisões, do fim das folgas dos comentadores, da análise dos especialistas, das palavras medidas ao milímetro dos políticos mais responsáveis, das proclamações de fé no trabalho da justiça ("à política o que é da política, à justiça o que é da justiça", dirá algum mais inspirado), do cinismo de uns, da tática de outros, da alegria de muitos, da tristeza de outros tantos. Assim vamos.  

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Do tempo (1)

 
Quem é que acredita que se pode estar à mesa de almoço quase três horas e meia, numa conversa com um amigo com quem já não falava "ao vivo" há vários anos, sem qualquer agenda (há "almoços grátis"!), apenas trocando opiniões (em muitos casos, bem diferentes), recordando histórias e debatendo ideias, sem que o telefone, nem por uma só vez, nos interrompesse, sem nos tivéssemos lembrado de ver mensagens, e-mails, facebook ou twitter? Foi o que me aconteceu hoje, num restaurante, num dia em que o sol de Lisboa deu um ar da sua graça, em que os filetes de peixe galo e o cabrito estiveram à altura, em que procurei reconciliar-me com o Meandro (que, pode ser que esteja enganado!, já não é bem o que era, este "next best" do agora estratosférico "Vale Meão"). Sabe-me bem gozar este tempo de inverno ma non troppo, espairecer a angústia política, tentar acreditar que o dia de manhã vai valer a pena.  

O sorriso

 
Não conheço a senhora ministra da Administração Interna, nunca lhe ouvi a voz. Para além do currículo, que parece impecável, e a admiração pelo facto de ser uma mulher no mundo duro das polícias, o que é que terá levado ao seu tão "soft landing" no mundo político, com a esquerda a baixar a guarda e uma nuvem de benevolência geral a cair sobre ela?
 
Acho que foi o sorriso. Não é um sorriso qualquer. É um sorriso leve, quase sofrido, sereno e digno. Um sorriso bonito de uma mulher de 60 anos. Terá sido isso? 

Duquesa de Alba

Se se quiser homenagear a Duquesa de Alba, que agora morreu - embora eu desconheça qualquer razão particular que justifique essa homenagem -, então façamo-lo publicando uma foto antiga dela que, por um instante, nos faça esquecer a figura em que as sucessivas operações estéticas a converteram e que - confessem as pessoas ou não - induziam em todos, desde há vários anos, um sorriso sarcástico, sempre que fazia as suas patéticas aparições em público. Sejamos sérios!

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Subsídios a ex-políticos

Não fazendo naturalmente parte dos beneficiados, nem me lembrando de ninguém amigo que esteja nessas condições, devo dizer - e sei que isto não é mesmo nada popular - que estou perfeitamente de acordo com a medida hoje aprovada na Assembleia da República, relativa à reposição dos subsídios a ex-políticos, a serem concedidos sob determinadas condições.
 
E fico chocado que, tanto no PS como no PSD, haja quem ache que "não é oportuno" repor esta medida. É com reações destas, medrosas e demagógicas, é pagando mal aos deputados e aos ministros que, progressivamente, vamos aviltando a condição dos eleitos e dos servidores da causa pública, criando pasto para o ambiente da sua diabolização, gerando progressivamente um terreno cívico em que os melhores se afastam da política, fartos de serem agredidos no dia a dia, sujeitos a um escrutínio que às vezes raia o miserabilismo, que alguma comunicação social faz gala em agravar.

Não alinho minimamente na vaga de opinião segundo a qual a palavra "políticos" deve ter um sentido negativo e que os políticos portugueses são piores que os outros. Não acho que "são todos iguais", que são "um bando de gatunos a viver à nossa custa", uma "cambada de inúteis".
 
Este discurso - fácil, demagógico e populista - é que põe em causa a democracia, não é a compensação dada a cidadãos que passaram anos da sua vida ao serviço da causa pública, muitos deles perdendo anos nas suas profissões, em muitos casos podendo nelas ter uma vida bem mais confortável.

Destinos

Há uns anos, quando era embaixador em França, o meu amigo Jean Barbosa, presidente da Associação Católica dos Portugueses de Roubaix, convidou-me para uma festa de aniversário daquela simpática instituição. 

Ao atravessar um bairro que levava às instalações da associação, notei que o meu motorista estava um pouco nervoso. Olhando o ambiente circundante, logo percebi: estávamos numa zona socialmente degradada, rodeados de "gardiens des murs", de gente desocupada encostada às paredes, com grupos a bloquear parte das ruas, num ambiente que não induzia a menor segurança, naquele tipo de áreas suburbanas onde, de um momento para o outro, se sente que pode acontecer qualquer coisa de desagradável.  

Roubaix é uma das zonas de França com maior desemprego, fruto do encerramento de várias indústrias. As comunidades de origem estrangeira que têm culturas contrastantes com a sociedade francesa tradicional, o que não é o caso da portuguesa, estão aí muito presentes. Não por acaso, o Front National tem por essa zona uma elevada expressão. Alguém então referiu que a comunidade muçulmana estava por ali em crescendo e que, um tanto surpreendentemente, alguns luso-descendentes não deixavam de ser sensíveis ao seu proselitismo. Lembrei-me disso ontem, ao ser divulgado que um dos fanáticos islamistas que aparece no vídeo do Estado Islâmico a proceder a uma decapitação é precisamente um luso-descendente de Roubaix.

"... e viva Portugal! "

Foi assim que Carlos do Carmo terminou ontem o seu agradecimento público, ao receber o "Grammy" latino, no Estados Unidos. Por cá, o galardão foi recebido por alguns com sobranceiro desdém (não é nessa pessoa que estou a pensar, palavra!), numa reação por onde perpassou um sectarismo político pouco disfarçado.

Carlos do Carmo é um homem de esquerda. Nunca o escondeu. Não sei, porém, se os mais trauliteiros e "talassas" amantes do fado alguma vez já lhe agradeceram aquilo que ele, no auge da Revolução de abril, fez pela nossa canção. 

O ambiente radical da época levou alguma gente a identificar o fado com a ditadura e a ver, nas letras melancólicas e no "choradinho" da lua a rimar com a rua, um Portugal que era necessário arquivar definitivamente no passado. Na altura, o "nacional-cançonetismo" foi na enxurrada (a democracia trouxe, entretanto, o "pimba" e não ficámos a ganhar) e tudo o que não fosse baladismo contestatário e com "mensagem" estava fora do tom. O fado passou então as passas do Algarve, ridicularizado por uns, acusado por outros. Era qualificado como a canção do SNI, um saudosismo patético acompanhado à guitarra, um bolor musical do Estado Novo. Eu, que sempre gostei daqueles fados de fazer chorar as pedras da calçada, com letras simplórias, machistas e bem popularuchas, vi-me à época "gozado" por amigos que me olhavam com piedade, sem perceberem como é que eu compatibilizava o meu esquerdismo como o gosto pelo "Não venhas tarde" do Carlos Ramos. Como diz um amigo meu, bem "reaça", nessa altura só se salvava o "Nem às paredes confesso", porque parecia evocar os interrogatórios da PIDE, então muito no "l'air du temps"...

E foi então gente como Carlos do Carmo, foram pessoas como José Carlos Ary dos Santos, ambos tributários de uma forte imagem de esquerda, quem acabou por dar "legitimidade" política ao fado, que ajudou a tirá-lo do gueto em que o extremismo revolucionário o tinha procurado acantonar. Só um cantor e um poeta de esquerda o poderiam ter feito. É claro que o fado, cedo ou tarde, viria aí de novo, mas Carlos do Carmo é "culpado" por lhe ter dado a mão quando ele passou pelas ruas da amargura...

Convém lembrar isto neste momento, importa saudar Carlos do Carmo, o seu fantástico percurso, a grande dignidade da sua carreira. Como ele disse sobre o país que tão bem representa... e viva Carlos do Carmo!

O escândalo "Michelin"

Toda a imprensa se apressou a comemorar o facto do "Guide Michelin" ter selecionado, pela primeira vez, 14 restaurantes portugueses, como dignos de usufruírem as suas badaladas estrelas.

Com "duas estrelas" continuam dois restaurantes do Algarve - "Ocean" e "Vila Joya" - e passa agora a integrar o grupo o lisboeta "Belcanto", de José Avilez.

Com uma estrela continuam figuram 11 restaurantes: "Casa da Calçada" (Amarante), "Eleven" (Lisboa), "Feitoria" (Lisboa), "Fortaleza do Guincho" (Cascais),  "Henrique Leis" (Almancil), "Il Gallo d'Oro" (Madeira), "L'And Vineyards" (Montemor-o-Novo), "São Gabriel" que recupera estrela perdida (Algarve), "Willie's" (Algarve), "Yeatman" (Gaia) e, este ano, o "Pedro Lemos" (Porto).

Conhecendo quase todos, acho que é um ato mínimo de justiça e um reconhecimento mais do que adequado à crescente qualidade dos chefes que operam no nosso país. Mas esse reconhecimento fica à porta do que seria devido.

Há um escândalo - e meço a palavra - que urge notar e que as autoridades turísticas portuguesas deveriam empenhar-se em denunciar: nenhum dos inspetores que o "Guide Michelin" enviou aos nossos restaurantes é de nacionalidade portuguesa, sendo que a esmagadora maioria são espanhóis. O "guia dos pneus", com bem o qualifica o grande José Quitério, cuja edição ibérica é sempre - repito, sempre - lançada numa cidade espanhola, continua a seguir esta inaceitável discriminação, que desprotege a cozinha portuguesa e a deixa "nas mãos" de avaliadores que se regulam por critérios muito próprios e largamente tributária da cultura gastronómica para além do Caia.

Ninguém põe em causa a grande qualidade da restauração espanhola, mas alguém acha normal que Portugal tenha apenas 14 restaurantes "estrelados" (e nenhum com três estrelas) e a Espanha bem mais do que decuplique esse número, com 169 ?! São 8 restaurantes com 3 estrelas, 18 restaurantes com 2 estrelas e 143 com uma estrela. E, no tocante aos "Bib Gourmand" (restaurantes com boa cozinha a preço moderado), justifica-se que haja apenas 33 restaurantes portugueses para 229 (!) espanhóis? Acho inaceitável que, ano após ano, esta situação discriminatória se prolongue, sem uma reação da nossa parte.  

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Bazar Diplomático

 
É uma tradição anualmente renovada. A Associação das Famílias dos Diplomatas Portugueses promove, com as missões diplomáticas estrangeiras em Lisboa, mais um bazar de Natal, com fins beneficentes.
 
Na sexta-feira dia 21 e no sábado dia 22, no edifício do Centro de Congressos de Lisboa (antiga FIL), à Junqueira (tem estacionamento), em Lisboa, entre as 11 e as 19 horas, pode encontrar produtos nacionais (continente e ilhas) e internacionais a preços muito acessíveis. Esta é uma excelente oportunidade para antecipar as compras de Natal e, ao mesmo tempo, contribuir para uma tarefa muito meritória. Ah! e há uma zona gourmet! No meu caso, também costumo vir carregado de sacos...

Tive uma amiga que foi jornalista

Tive uma amiga que foi jornalista. Tinha nome e mundo, as portas abertas, a graça do verbo ágil, a questão felina e inventiva, mas sempre cordial. Cresceu na sua carreira, em notoriedade e também na escrita. Nunca escondeu onde o seu coração pertencia, na vida como na opção cívica. Em ambas, cultou os seus heróis, viveu deles as saudades, por eles enlevou-se em entusiasmos, caiu em alguns "trompe l'oeil". Na profissão, o viés parecia equilibrado pelo desejo de compreender o outro, de se colocar na sua pele, de sempre o respeitar. E, assim, também foi respeitada. Um dia - terá data? - mudou. Crispou o verbo, acidulou o comentário, verrinou a crítica. Encandeou-se então com fogos fátuos, perdeu-se pelo facciosismo, tornou-se pena oficiosa da obsessão. Para tal, patriotou a sua escrita ao absurdo, lateralizou o olhar, deixou de ver, de vez, a paisagem do mundo. Hoje, essa amiga que tive e que foi jornalista está reduzida a mera observadora, contemplativa deslumbrada, não do sol, mas da lua, cujo brilho, como se sabe, é emprestado. E, mesmo esse, antes do eclipse que aí virá. 

terça-feira, 18 de novembro de 2014

"Não merecíamos ganhar!"

Tenho o "vício" de ser rigoroso a ver futebol. Já me ia saindo caro. Um dia, numa bancada de Alvalade, acabado o jogo, disse, alto: "Não merecíamos ganhar!". De "lampião" a expressões que se pretendiam ofensivas da minha família, levei então de tudo um pouco em cima. Só a alegria coletiva da vitória leonina - que eu partilhava, caramba! - me salvou. Ou, como me dizia um transmontano ao lado de quem tinha visto o jogo, "safaste-te por um fio de levar uma boa carga de porrada". E era verdade.
 
Hoje, no remanso do lar, a utilização da mesma expressão apenas foi recebida com um olhar patrioticamente severo. Nada mais.

Leonor Xavier


A Leonor escreve com a alma e a alma dela é feita de uma imensa alegria na aventura da vida. O seu "Passageiro Clandestino" é como que um diário de um período durante o qual a Leonor passou a ter consigo a doença. Essa mesma. Mas este não é um livro melancólico, "doentio". Longe disso! É uma obra cheia de vida, de graça, da aprendizagem de saber olhar os outros de uma outra forma, com pequenas e deliciosas notas de um quotidiano que se tornou novo, porque passou a ser diferente, talvez apenas um pouco mais urgente. Quem conhece a Leonor não se surpreende com o que ela própria decidiu: "Mais do que nunca, uso e abuso da palavra e do conceito de descoberta". E fá-lo com a deliciosa escrita a que sempre nos habituou, cultivada sem ser chata, inventiva sem ser pretensiosa, solta sem cair na vulgaridade. Este é um livro do qual não se sai triste.
 
No dia 24 de novembro, pelas 18.30 horas, no jardim do Teatro de S. Luis, os amigos da Leonor - o livro também é dedicado "a todas e a todos que me querem bem" - vão estar no lançamento. Vão ser ser muitos, estou certo. Nessa data, por razões profissionais, estarei no estrangeiro. Mas irei dar um beijo à Leonor uns dias mais tarde, no "jantar da Dois", do "Procópio". E então beberemos também um copo pelo Raul que, lá onde estiver, estará a ordenar-nos o seu "façam favor de ser felizes!".  

Snob


O mais jornalístico bar de Lisboa, o "Snob", fez ontem 50 anos. Numa cidade onde este tipo de espaços tende a desaparecer ou a descaraterizar-se, é obra!
 
O "Snob" não é o meu bar - eu sou de outra "freguesia", do "Procópio". O seu bife pode não ser melhor do que o do "Café de S. Bento", mas não deixa de ter a sua graça passar ao fim da noite por esse lugar "cosy", ligeiramente decadente, onde se arrulha, se conspira ou, muito simplesmente se bebem uns copos. Dele já desapareceu o cheiro a fritos que, durante décadas, a D. Maria não conseguia evitar que saísse da cozinha e que nos acompanhava bem para além da saída. O "Snob" é como aqueles amigos que não vemos com frequência, mas que ficamos sempre contentes por reencontrar e que, nem por isso, deixam de nos ser íntimos. 
 
Deixo aqui um abraço ao Dr. Albino, alma da casa, portista dos quatro costados.

"Crónicas das minhas teclas"

Vou ter o gosto de apresentar o livro de Henrique Antunes Ferreira, "Crónica das minhas teclas", no dia 26 de novembro, no Palácio da Independência, no largo de S. Domingos em Lisboa, pelas 18.30 horas.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Gold

Há pouco, na vizinhança ocasional de uma esplanada em Paris, ajudei um jovem casal chinês a traduzir o menu para inglês. Quando se deram conta de que era português, em lugar de falarem de Fernando Pessoa ou Ronaldo, tomaram de imediato a iniciativa de mencionar a existência dos "golden visa" no nosso país. Confesso que não tive coragem de os atualizar face aos últimos desenvolvimentos do mecanismo entre nós.

Good morning, Vietnam!

Há segundos, como se pode verificar na consulta dos países visitantes deste blogue, na coluna da direita, houve um visitante do Vietnam (país nº 83).

Gostava muito de saudar esse longínquo leitor, lançando-lhe um fraternal "Good morning, Vietnam!"

No sebo

Era um sebo (nós por cá, em Portugal, chamamos-lhes alfarrabistas) muito conhecido em S. Paulo, ali perto do largo de S. Francisco, junto à universidade. O jovem estudante percorria as várias prateleiras, com o olhar curioso de quem descobria o seu novo mundo académico através daquelas relíquias do passado. Embora novato, tinha já a cultura de quem sabia ao que andava. Num certo momento, tomou nas mãos um livro de Aureliano Leite. Sentiu, de súbito, que acabara de descortinar uma obra bastante rara. Aureliano Leite era uma figura muito respeitada, um famoso advogado e político, com estudos sobre a história contemporânea que faziam escola.

Terá sido a coreografia do seu entusiasmo que, a curta distância, chamou a atenção de dois cavalheiros, que claramente se mostraram atentos ao volume que o estudante tinha entre mãos. Um deles, com ar seco, autoritário, como que ordenou:

- Me dê esse livro! estendendo a mão para o volume que o jovem descortinara nas estantes.

A grande diferença de idades quebrou, mas apenas por segundos, a determinação do jovem em querer guardar para si a obra que descobrira. Mas resistiu. Firme, embora sem saber o que dizer, fechou o livro junto ao peito, cioso do seu direito de adquiri-lo.

A voz do cavalheiro subiu de registo e assumiu mesmo um tom agreste:

- Seu muleque! Você não sabe o que tem entre mãos! Nem conhece o autor dessa obra! Me dê esse livro, já!

O momento anunciou-se tenso. Um pouco intimidado, o estudante ousou ainda colocar as suas razões:

- Sei muito bem o que é este livro, é um estudo histórico da "revolução de 32". É escrito por Aureliano Leite. que participou na Revolução e que esteve exilado por causa dela. É um advogado de grande mérito e é amigo de meu Pai, acrescentou, como derradeiro argumento para credibilizar o seu empenhamento.

O cavalheiro, frio, continuava impenetrável:

- Me dê esse livro!

O seu braço continuava estendido, intimidatório, reclamando a obra. O jovem olhou o dono do sebo e este, num discreto assentimento da cabeça, aconselhou-o a entregar o livro. Contrariado, mas sentindo-se impotente para travar o ambiente que rapidamente deslizava para o seu desapossessamento da obra, passou o volume para as mãos do cavalheiro. Intimamente, sentiu uma imensa revolta, mas resignou-se então a perder o livro, que os últimos minutos tinham tornado ainda mais precioso aos seus olhos.

A cara pesada do cavalheiro distendeu-se um pouco, no momento em que, finalmente, tomou posse do volume:

- Então seu pai conhece Aureliano Leite? Como se chama seu pai? E você? 

O jovem, no limite da humilhação, cedeu e declinou o seu nome e do seu progenitor.

O cavalheiro colocou então o livro sobre uma mesa, puxou de uma caneta e começou a escrever algo numa das suas páginas iniciais. Ao fundo, o jovem viu no rosto do livreiro desenhar-se um leve sorriso. Não entendia a cena, ou melhor, só percebeu o que tinha acontecido quando o cavalheiro, sem uma palavra, lhe entregou o livro de volta. Abriu-o e leu: "Ao jovem Eros Grau, de um velho amigo de seu Pai, com a estima de Aureliano Leite".

Este episódio foi-me contado há minutos, na Brasserie Lipp, aqui em Paris, pelo meu amigo Eros Roberto Grau, eminente jurista brasileiro, professor catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, juíz aposentado do Supremo Tribunal Federal do Brasil. E membro da Academia Paulista de Letras, título que Aureliano Leite, desaparecido em 1976, também possuiu. Diz-me o Eros que, por vezes, ainda cruza o olhar, em espaços da Academia, com o autor do livro, que ainda hoje guarda com carinho. Esse, porém, é apenas o lado borgiano desse meu grande amigo gaúcho. O que não é pouco.

domingo, 16 de novembro de 2014

A "esquerda da esquerda"

Eduardo Ferro Rodrigues, na sua entrevista de hoje ao "Público" disse uma frase que é muito mais do que uma simples declaração: "Nós não sabemos o que vai acontecer à esquerda entre aspas - digo sempre entre aspas porque não acho que haja forças mais à esquerda que o PS".

Esta frase é significativa de uma ideia muito clara: as forças que, em Portugal, se situam à esquerda do PS, por muito que estejam convencidas da justeza das suas posições e estas mereçam ser respeitadas no diálogo político, não configuram, nos seus projetos, modelos que verdadeiramente possam corporizar uma política de esquerda para Portugal. 

Sem pretender minimamente sugerir-me como intérprete daquilo que Ferro Rodrigues possa ter querido dizer, parece-me evidente que apenas o PS pode hoje apresentar-se como a força política que consegue, simultaneamente, assumir as grandes bandeiras do pensamento progressista contemporâneo, respeitando em pleno o quadro político-institucional, interno e externo, onde elas sejam exequíveis e - o que é muito importante e a "esquerda da esquerda" esquece muitas vezes - passíveis de compatibilidade com o espetro político alargado de sensibilidades da sociedade portuguesa atual. Quero com isto dizer, de forma muito clara, que qualquer política portadora dos valores de esquerda, dos modelos de solidariedade social e de ética de cidadania, que são o património orgulhoso de quem se considera "de esquerda", tem forçosamente de se colocar num patamar de aceitabilidade democrática por parte de quantos não partilham esses valores e que, por essa razão, dão, com toda a legitimidade, o seu voto a outras formações políticas - mais à direita ou mais à esquerda. 

Ora olhando-se para os programas da "esquerda da esquerda", a tal "esquerda entre aspas" de que fala Ferro Rodrigues, fica claro que uma sua eventual execução significaria um processo de violentação política e económica de outros setores da sociedade portuguesa (inclusivé dos que votam PS), em alguns pontos dificilmente conciliável com o sistema democrático e, em todo o caso, sempre indutor de graves tensões, que poriam em risco o próprio regime.

Por essa razão, não por qualquer sectarismo mas por um meridiano realismo, o PS surge em Portugal como a única força de esquerda com condições de ser portadora de um projeto político-económico exequível, moderado e suscetível de funcionar como polarizador de um compromisso nacional que conjugue os valores da liberdade e de uma visão solidária do paìs.

Digo hoje isto com o à vontade de quem já pensou de forma diferente. E naturalmente, não pretendo, com o que escrevi, convencer quem acha que "essa coisa de esquerda e direita" são categorias políticas ultrapassadas, atitude que, não por acaso, é assumida, sempre e sem exceção, por quem se situa mais ou menos à direita.

Abuso de poder

Tenho o dr. Luís Marques Mendes por uma pessoa de bem. O antigo ministro e líder do PSD é uma personalidade que fez o seu caminho político ao longo de vários anos, com mérito e inteligência. E, que eu saiba, sem "casos". O seu modelo de crónica televisiva, aos sábados na SIC, podendo não ter a graça "marota" de Marcelo Rebelo de Sousa, tem, contudo, uma regular cumplicidade com o poder que faz com que nos traga algumas novidades e a antecipação de notícias do mundo político. Podemos questionar se será legítimo que alguém que é pago para comentar o quotidiano possa ter acesso, antes do cidadão em geral, a notícias sobre o curso da governação. Mas isso é um problema que não é dele. Essa é uma questão ética do poder político que, até ver, vamos tendo.

Dito isto, há uma questão que me parece um pouco mais complicada.

Há meses, o nome do dr. Marques Mendes surgiu envolvido com uma empresa relacionada com umas "trapalhadas", relacionadas com uma ONG que causou problemas ao primeiro-ministro. Vimos então o dr. Marques Mendes usar o seu espaço televisivo para afastar as suspeitas, aliás menores e residuais, que sobre si impendiam. Não foi uma coisa óbvia e "bonita". Mas passou, pronto! 

Ontem, depois das novas "trapalhadas" dos "vistos gold", o dr. Marques Mendes aproveitou uma vez mais o seu espaço televisivo para se justificar pessoalmente, face a notícias que pareciam envolvê-lo com alguns dos acusados.

Não me parece bem! Por que diabo uma pessoa, que por uma circunstância do acaso, tem um programa de larga audiência televisiva, tem o ensejo de explicar as suas razões perante o país e um qualquer outro cidadão, nesse ou em qualquer outro processo, não tem o acesso aos mesmos meios? Trata-se ou não de uma discriminação positiva, que funciona em objetivo privilégio do dr. Marques Mendes? 

Tratando-se de uma pessoa que, repito, tenho por uma pessoa de bem, o dr. Marques Mendes seguramente concordará comigo em como o seu procedimento neste caso, bem como no que anteriormente referi, configura um abuso de poder mediático, que afeta a equidade da nossa justiça.


sábado, 15 de novembro de 2014

O 1º de Dezembro

A Associação dos Antigos Alunos do Liceu Camilo Castelo Branco, de Vila Real, e no âmbito das comemorações do “1º de Dezembro”, vai promover, em Vila Real, um debate sobre a "Importância Histórica do Dia da Restauração na Identidade Nacional".
                             
O debate será moderado pelo Reitor da UTAD, Fontainhas Fernandes e conta com o professor Adriano Moreira, o general Loureiro dos Santos, o professor Joaquim Silveira Sérgio, o professor António Barreto, o professor Eurico Figueiredo e o "dono" deste blogue.

O evento terá lugar no dia 29 de Novembro, no Grande auditório do Teatro de Vila Real.

O XX Congresso

Será talvez uma reação geracional, mas olhando, na manhã de ontem, para um grande cartaz de rua que anuncia o XX Congresso do Partido Socialista, em acentuados tons de vermelho, fiquei com a sensação de que o ou os autores do "outdoor" não foram insensíveis à marca histórica que a expressão  "XX Congresso" tem ainda hoje.

Com efeito, o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética foi um dos momentos decisivos para a evolução da URSS e é um indiscutível marco na História universal. Nele foi feito um decisivo corte "epistemológico" com o passado estalinista. Foi nessa histórica reunião que Nikita Krutchev pronunciou o seu famoso discurso (tido por "secreto", até extratos serem conhecidos quatro meses depois, aparentemente por uma indiscrição dos "camaradas" italianos), onde fez um elenco das barbaridades cometida pelo "pai dos povos". Até então, Stalin era o "guia e farol da humanidade" para o mundo comunista internacional e, naturalmente, para o sempre ortodoxo Partido Comunista Português. Não foi sem uma penosa evolução doutrinária que o mundo comunista se adaptou aos novos tempos. Foi dessa tensão que nasceu o cisma sino-soviético, que deu origem à proliferação dos movimentos maoístas que vieram, a partir de então, a considerar "revisionista" a linha comunista do PCUS. 

António Costa avança para o XX Congresso do PS. Nenhuma rutura essencial se espera, nenhum drama ou denúncia de passado, recente ou mais longínquo, deverá surgir deste encontro. O seu discurso não será "secreto". Definitivamente, este é "outro" XX Congresso. Mas ninguém me convence que não houve "mãozinha" da memória na construção do cartaz!

Em tempo: afinal, não fui só eu a notar!

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Uma carta

Há pouco recebi uma carta diferente, definitiva. De um amigo, estrangeiro, que está a morrer, do outro lado do Atlântico e que decidiu, dessa forma, despedir-se dos seus amigos. Não é uma carta triste, salvo para os que a receberam. Saúda a existência que teve, as amizades que nela fez, a magnífica família de que está rodeado, o modo sereno como se preparou para o momento que aí vem. Lembra as boas coisas que se tinham atravessado na sua vida, os projetos que conseguiu concretizar, os ideais que manteve. E, sempre, as pessoas, que estiveram no centro de tudo por que viveu. Nunca me foi tão difícil responder a uma carta, mas talvez nunca o tenha feito de uma forma tão sincera, porque quem a vai ainda poder ler merece a verdade da nossa amizade. Sei que nunca teria a coragem de escrever uma carta como a que recebi, mas, por mais paradoxal que isso pareça, invejo muito a fantástica força deste amigo que nunca mais verei.  

O novo ouro

 
A questão dos "vistos gold" foi sempre vista com alguma suspeição pela opinião pública portuguesa. De facto, "comprar" a livre circulação pelo espaço Schengen por uns milhares de euros, quase sempre aplicados em áreas não produtivas, nunca foi uma operação muito popular entre nós. Verdade seja que outros países europeus procedem de forma idêntica e, tratando-se de um modelo que abrange a generalidade da zona europeia de livre circulação, a sua legalidade e até a sua legitimidade político-económica estavam, e continuam a estar, garantidas. Por isso, num tempo em que tentar trazer dinheiro a todo o custo para Portugal tem sido a palavra de ordem, este passou a ser um "negócio" como qualquer outro, apenas coreografado, de forma insólita, por algum "teatro" triunfalista que o envolveu.

Os acontecimentos de ontem enterraram definitivamente, entre nós, a bondade do modelo dos "vistos gold". Por muito que o sistema passe a estar mais blindado - "casa roubada"... - aposto que nunca mais veremos os políticos a incensá-lo, e só em imagens de arquivo veremos o dr. Paulo Portas em agitadas mãozadas com figuras tiradas dos álbuns das "Raças Humanas" - e quem disser que isto é xenofobia pode ir dando uma volta. A continuarem, os "vistos gold" vão rarear, pelo que presumo que os anúncios imobiliários em chinês, em que o meu bairro é fértil, com o tempo, vão perder os acentos.

Resta o processo de corrupção que, a confirmar-se, é da maior gravidade, tanto mais que nele surgem acusadas de envolvimento figuras da alta administração do Estado. Só não desejo que os eventuais culpados sejam "exemplarmente" punidos porque aprendi que a exemplaridade na Justiça é um conceito populista. Quem for culpado deve pagar, plenamente, por aquilo que fez, mas na medida exata que a lei prevê e não magnificada para gáudio mediático ou susto público. Não posso senão crer que aqueles que ontem foram indiciados como corruptos, ou cúmplices de outros crimes conexos, o foram por sólidas e sustentadas razões, isentas de qualquer competição entre corporações, sem o que o opróbrio público a que foram sujeitos seria de uma imperdoável crueldade. A honra das pessoas é o seu bem mais precioso e a nódoa na sua imagem, que a comunicação social sempre potencia, é hoje um labéu praticamente irrecuperável. Por essa razão me chocou muito ver, ontem, um canal de televisão que faz do crime & ofícios correlativos o seu "fond de commerce", anunciar em parangonas "gordas" que um determinado ministro havia sido "detido" para, minutos depois, corrigir para "investigado", como se a diferença dos conceitos fosse um mero detalhe. Isto tem um nome, mas não é jornalismo!

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Juncker

 
Não é uma boa notícia a fragilização do novo presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, logo no início das suas funções. A natural polémica, que tudo indica que se vai prolongar por algum tempo, não ajuda à criação de um ambiente de reforço da autoridade da nova Comissão, elemento da maior importância para um desejável retoque no equilíbrio interinstitucional de poderes para o qual o programa de Juncker parecia apontar.

Dito isto, "à quelque chose malheur est bon". Se desta crise puder nascer uma nova vontade política, assumida a nível europeu, para se caminhar para uma aproximação - já não serei tão otimista para falar de harmonização - dos regimes fiscais dos diferentes Estados, isso seriam muito boas notícias para a Europa. Logo veremos.

Timor-Leste e as Necessidades

Por regra e por experiência, confio no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Uma prática e uma reflexão caldeadas ao longo de muitos anos, uma consciência atenta daquilo que é o interesse nacional na ordem externa e um sentido da oportunidade e da medida, que muitas vezes falta à chamada classe política, sempre ajudou a que as relações de Portugal com o mundo tivessem, no corpo profissional que são os diplomatas, excelentes intérpretes. Costumo mesmo ironizar, dizendo que, em Portugal, à frequente falta de uma política externa, a nossa posição internacional vive de uma diplomacia reiterada.

Mas a resultante de ação diplomática dentro do MNE não nasce de geração espontânea. Ela só surge depois do isolamento daqueles (e daquelas) que "fervem em pouca água" e têm posições quase militantes, bem como dos cultores obsessivo do imobilismo, dos convictos de que "o tempo tudo cura" e de que o melhor é não fazer nada. Arredado o peso de influência destas duas "escolas", está criado o espaço de afirmação para as posições serenas, ponderadas e com sentido de equilíbrio. Quando a "diplomacia da canhoeira" (ou, no outro extremo, o tropismo "pró-causas") e o atentismo bovino conseguem ser neutralizados, o "output" do MNE é geralmente de grande qualidade. São muitos anos de claustros do convento de Nossa Senhora das Necessidades que mo ensinaram.

Espero, assim, que os diplomatas portugueses, neste difícil momento que atravessam as nossas relações com Timor-Leste, possam dar provas de estar à altura do dever de aconselhamento aos titulares dos cargos políticos dentro da Casa, municiando-os com sugestões sobre os passos a seguir, sobre os contactos a efetuar, sobre as atitudes a assumir. É que urge garantir uma unidade na expressão das posições do Estado português face às autoridades timorenses. Como sempre acontece quando se percebe que alguma fragilidade afeta a "mão" das Necessidades, surgem por aí governantes de áreas sectoriais a permitir-se mandar "bocas", agitando o estado dos seus dossiês técnicos específicos e os seus projetos para eles, esquecendo que só se implantaram e progrediram porque houve um quadro político geral que foi desenhado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros. E que, se esse quadro geral for "por água abaixo", o mesmo destino terão os seus "brinquedos".

A minha preocupação perante esta situação só é atenuada pelo facto dos timorenses nos conhecerem "de gingeira". Não é impunemente que se foi colónia deste atípico país europeu. No fundo, por mais que conjunturalmente se agitem, os novos Estados saídos da nossa aventura imperial "leem-nos" melhor que ninguém, conhecem os calendários de vitalidade política de quem por aqui está no conjuntural poder, percebem as nossas dificuldades, estão bem cientes das nossas qualidades e dos nossos defeitos. Aliás, cada um deles, à sua maneira, herdou umas e mas também os outros. Isso mesmo ajuda a explicar alguma coisa do que aconteceu em Timor, mas também nos permite ter esperança em que as feridas irão sarar. Mas todos temos de ajudar, não cometendo asneiras precipitadas e, sobretudo, evitando a empolgação mediática. Dos dois lados.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Fazer o bem sem olhar a quem

Vejam o que acabo de receber no meu mail. São frequentes ofertas destas, desinteressadas, altruístas... Que diabo de reserva me leva a não correr já para a Costa do Marfim, como dizia o João da Ega ao Palma Cavalão, "a recolher o bago"?

Assalam Alaikum,
Dearest One, I am Mrs Chandni Ali from Kuwait but now undergoing medical treatment in Ivory Coast .
I am married to late Dr.Aasif Ali, who worked with Oil Company in Ivory Coast for Eleven years before he died in the year 2010, after a brief illness that lasted for few days.
We were married for Eighteen years without a child. After the death of my lovely husband i vowed to use our wealth for the down trodden and the less privileged in our society.
Recently, My private Doctor and others told me that i may not last for the next seven months due to cancer problem, though what disturbs me most is low BP. Haven known my condition i decided to donate all my wealth to the less privileged and charity work.
When my late husband was alive we kept the sum of $2.800 000 USD. Which i promised Allah to be use for Charity works. Having known my condition now i decided to give out this fund to an individual or Organisation that have the fear of Allah who will use it the way i instructed.
Beloved one, Send me your Full contacts so that i will donate this fund to your care as soon as you promise to keep my vow to Allah.
1. Your Names......................................................
2. Address..................................................................
3. Phone Number........................................................
As soon as you send me all these information's i will give you the contact where the fund is being kept here in Ivory Coast and all the papers that prove it.
Allah bless you,
Mrs Chandni Ali.


Há muitos anos que este tipo de emails circula pela internet. Quase sempre é uma "fortuna" africana que é "posta à disposição" dos destinatários. No primeiro ou no segundo contacto, é solicitado um número de conta bancária e a vigarice começa por aí, às vezes por um adiantamento que é solicitado. Achei graça a esta tentativa, porque traz uma componente islâmica que não é habitual.

Restos de uma conversa

- Os teus textos são, cada vez mais, um problema para mim. Concordo com imensas coisas que neles dizes mas, de súbito, em alguns deles, deparo com algo que me abertamente me desagrada. É estranho porque, no passado, as coisas não eram assim. O que escrevias era mais facilmente aceite, no seu todo. E olha que não sou a primeira pessoa a notar isto! Fazes de propósito?

- Faço e não faço. Até posso perceber que te sintas assim, ao ler o que vou escrevendo. A questão é que, com o tempo, optei por ser mais transparente, de não procurar ser consensual a todo o custo. É que, na vida, nem tudo é a-preto-e-branco. Há sempre aspetos das coisas que não "rimam" com o resto. Por isso, digo o que penso, doa a quem doer - e já vi que dói a alguns amigos, como tu. Mas quero fugir àquela frase do Sérgio Godinho: "estar de bem com os outros e de mal contigo". É só isso.