quarta-feira, 30 de abril de 2014

O "número"

As negociações sobre os fundos europeus acabam sempre naquilo que se convencionou designar como o "envelope nacional", isto é, o montante que, no final do dia, vai corresponder a cada país, a "fatia" do orçamento que cada Estado pode reivindicar como "ganho" na batalha diplomática que, todos os sete anos, tem lugar no seio da União. O "número" final é um dado essencial para se convencer a opinião pública de que se "ganhou a guerra": é comparado aos valores obtidos noutros orçamentos plurianuais anteriores, segundo especiosos critérios que cada governo adota para se vangloriar da qualidade da sua negociação, procurando os melhores argumentos para contrariar as prováveis críticas das oposições. Tanto se pode medir o "envelope" com os anteriores, em termos absolutos, como, quando dá jeito, se pode usar como medida os impactos que essas ajudas terão sobre o PIB. E, sem exceção, nas derradeiras semanas, deixam-se cair para a comunicação social "terríveis" expetativas para, no final, "derrotá-las" com fragor, numa luzida vitória virtual... A Comissão e a presidência de turno, que fecha a negociação, estão quase sempre dispostas a ajudar os Estados a "maquilhar" os menos bons resultados, com a atribuição de ajudas "laterais" que dificultam a contabilidade dos analistas, bem como pela introdução de "facilidades" casuísticas que magnificam alguns números. O essencial é que cada Estado possa regressar "a casa" com uma "vitória"! Um bom exemplo desta criativa coreografia foi a negociação há um ano levada a cabo pelo atual governo português, cuja "jonglerie" argumentativa, somada a uma descuidada leitura da oposição, disfarçou um resultado que não passou de sofrível.

Um dia, contarei por aqui a minha versão daquilo que foi a negociação das "perspetivas financeiras", para o período entre 2000 e 2006, na qual tive algumas responsabilidades, quando no governo. Hoje, vou um pouco mais atrás para referir um episódio que ocorreu durante a fixação do chamado "pacote Delors II", o segundo quadro financeiro de que Portugal beneficiou. Foi-me contado há pouco, por uma testemunha presencial, num jantar em Paris.

As negociações iam longas, nessa última noite de Bruxelas. O dia fora complicado, os tais "envelopes" nacionais subiam ou desciam, na boataria dos corredores, de acordo com a capacidade negocial dos Estados e com a evolução da boa vontade da Comissão, cujo poder era, à época, decisivo. A certo passo, foi decidido fazer uma pausa nas negociações, "para consultas". As delegações desceram a escada em caracol do edifício do Berlaymont (onde na altura funcionava o Conselho de ministros e hoje tem sede a Comissão), recolhendo às respetivas "salas". A expetativa mantinha-se grande. O "número" do "envelope" português mantinha ainda várias versões, umas mais simpáticas que outras. De repente, entrou na nossa sala (é sempre mais do que uma sala mas diz-se "a sala") um funcionário português, um técnico geralmente muito bem informado. A indicação que trazia suspendeu todas as conversas: "Os espanhóis já têm um "número". É "x" ". A ser verdadeira, era muito importante essa referência, porque isso nos ajudava a medir melhor o que estavam a preparar para nós como proposta. Alguém, mais cético, inquiriu como é que o funcionário tinha sabido. A resposta ficou nos anais: "Foi um contínuo que andava pela sala espanhola a servir cafés que ouviu o "número". É português..."

terça-feira, 29 de abril de 2014

Blogómetro

Nunca percebi bem o que valem estas estatísticas, mas para alguma coisa devem servir. Há dias, chamaram a minha atenção para a posição do "Duas ou três coisas" no "Blogómetro", que mede a leitura dos blogues portugueses.

Passei por lá ontem. E que vi eu? Este "pobre" blogue pessoal a ser mais consultado que "vedetas" da blogosfera tais como "5 dias", "Corta-fitas", "Estado Sentido", "Mesa Marcada", "Abrupto", "Aspirina B", "De Rerum Natura", "Portugal dos Pequeninos", "Da Literatura" e coisas assim. Mas, claro, bem abaixo desses "papas" que continuam a ser "Blasfémias", "Aventar", "31 da Armada", "Jugular" e "Delito de Opinião".

Esta coisa da leitura do que escrevemos vale tanto como os "spreads": varia com os humores dos mercados. Mas lá que sabe bem ter a certeza de que não estamos a falar "p'ró boneco", lá isso sabe! Por isso, e uma vez mais, muito obrigado a quem nos procura.

As praxes das jotas

Leio que o CDS, motivado pelo escandaloso caso ocorrido em Braga, estaria disponível para agravar o enquadramento legislativo das "praxes", indo agora bastante mais longe do que aquilo que, com o PSD, acordara há meses, depois do sórdido episódio do Meco.

Porém, a bancada laranja, que tão pressurosa se mostrou na submissão a referendo (!) da questão da co-adoção, parece recuar agora em colocar um travão mais nos desmandos dessa canalha que se delicia, numa vingança travestida de "acolhimento" dos novos alunos, em atos de humilhação e rebaixamento, em muitos casos sob o olhar, no mínimo complacente, das autoridades académicas.

Por que é que isto acontece, por que razão a maioria se divide neste tema? Ora, ora! Porque há duas ou três eleições à vista, porque as "jotas" (e o CDS, na matéria, ainda vai nos tempos do "táxi") temem perder votos nesse mercado estudantil, cada vez mais embrulhado de luto. E os socialistas, por onde andam neste tema? Firmes na condenação dessas práticas, ecoando aquilo que a Europa avançada já determinou a propósito dessa encapada reacionarice? Pois isso! 

Seria interessante, de facto, ver o nosso parlamento tomar uma posição, frontal e clara, que, de uma vez por todos, pusesse com dono as famigeradas "praxes". Talvez sugerindo que, em sua substituição, os estudantes aproveitassem o tempo para estudar. E, de passagem, que proibissem a obscena "sponsorização" das "queimas das fitas" pelas empresas de bebidas alcoólicas, que atulham os serviços de urgência hospitalares de comas alcoólicos. Há um défice de coragem e um superávite de interesses.

Geografias



A tentação de afirmar que tudo mudou com o 25 de abril é muito forte no que toca à política externa. Da ditadura obsoleta, politicamente isolada, sustentáculo de uma presença colonial perdida historicamente no tempo, emergiu, de um dia para o outro, uma súbita esperança democrática e de libertação, feita de alegria florida nas ruas. Uma esperança em que, contudo, alguns no mundo não deixaram de vislumbrar certos riscos.

O facto de não ter surgido, na convulsão política pós-Revolução, uma séria proposta no sentido de Portugal abandonar a NATO revelou a consciência subliminar de que o país tinha condicionantes geopolíticas a que não podia escapar. A geografia prevaleceu, mas também mudou: umas vezes mudou ela própria e nós com ela, outras vezes fomos sujeitos involuntários dessa mudança.

Mudou no plano físico, com o fim das fronteiras e com os acessos a tornarem-nos menos periféricos, num choque de modernidade que foi uma fantástica revolução silenciosa. Mudou fortemente no plano político, com a integração europeia a determinar um quadro de responsabilidades que nos veio a tornar parceiros de um projeto mais vasto, eticamente sustentado, com uma coerência que incorporámos na nossa própria matriz de afirmação. Mudou com a recuperação da plena normalidade com a nossa vizinhança imediata, com a descoberta de uma vocação mediterrânica que levou à fixação de um interessante laço com um mundo islâmico, que passou a ver em nós um interlocutor atento. E mudou também com muitos outros mundos, de que o fim da ditadura e do colonialismo nos aproximou.

Uma nova geografia "de afetos" conduziu ao gradual estabelecimento de um quadro institucional prioritário com Estados que falam a nossa língua e com os quais tentamos reconduzir-nos a uma cooperação equitativa, depois daquilo que foi uma longa e traumática relação colonial. E alterou também o nosso posicionamento no quadro multilateral, onde nos foram abertas oportunidades para o exercício de cargos e para a execução de acções internacionais relevantes, tal como "exportar segurança", com intervençoes de mérito em operações de paz, através das nossas Forças Armadas.

Numa dimensão mais humana, a partir do 25 de abril, foi possível estabelecer um modelo de enquadramento democrático da nossa diáspora, garantindo-lhe um papel na vida política interna e procurando torná-la um actor da nossa dimensão externa. E, mais tarde, convertemo-nos em receptores de imigrantes, sendo hoje reconhecido positivamente o modo como acolhemos as "muitas e desvairadas gentes" que nos enchem as ruas de diversidade.

Fomos pelo mundo, mas nunca saímos do Atlântico, porque ele é a constante que nos sobredetermina. Muito para além do ridículo seguidismo das Lages, em 2003, ele continua a ser um quadro estruturante para a preservação dos nossos interesses estratégicos. Sem abandonar o investimento no projeto europeu em que nos empenhámos, sem descurar a CPLP e várias outras dimensões, temos todo o interesse, enquanto país, em saber recolocar-nos no centro da nova relação transatlântica que se desenha. Isso será feito quando voltarmos a ter uma política externa, à altura das nossas múltiplas geografias  depois do patético interlúdio de silêncio internacional que estamos a atravessar. Não tardará muito.


(Artigo que hoje publico no "Diário Económico")

O sorriso do Álvaro

São tantos os mortos! Passam os dias e não passa quase um dia sem que não sejamos surpreendidos pela morte de alguém que conhecemos. Um amigo dizia-me que, num mesmo dia, fora a três missas celebrando a morte (ou a passagem do sétimo dia da morte) de alguém. Isto está a ficar pela hora da morte, podia dizer-se, se tivesse graça.

Ontem, olhava as notícias da desaparição de Vasco Graça Moura quando uma cara risonha, na fotografia de um jornal, chamou a minha atenção. Era um homem de riso aberto, franco, por detrás do qual pressenti as gargalhadas que esse mesmo sorriso sempre coroava. Era o Álvaro Garcia de Zúñiga. Tinha sido enterrado nessa tarde.

Conhecemo-nos em São Paulo, há já uns bons anos. Era uruguaio, mas o mundo era a sua terra de adoção. Com a Teresa, com o registo mais sereno da Teresa, o Álvaro fazia um par curioso, ele mais histriónico e agitado, de quem busca sempre o mundo, como se ele sempre lhe fugisse. Ela num rodopio de projetos, sempre a caminho de. Encontrámo-nos depois por aí, em alguns sítios do acaso, quase sempre sem nunca termos combinado nada. A última vez, lembro-me, foi em Paris, onde ele e a Teresa nos convidaram para um debate, creio que num convento próximo da Gare du Nord.

O Álvaro era encenador, escritor, músico. Era um homem cheio de ideias, culto, criativo. Com o seu eterno sorriso e o seu português pedido de empréstimo, ele para quem as línguas eram um instrumento de cuja mistura fazia nascer as coisas, transmitia sempre uma boa onda, com a Teresa a seu lado, no seu sorriso giocôndico, procuradamente sereno. Agora, a terra fugiu debaixo dos pés à Teresa, como alguém dela me dizia, há poucas horas. Onde? Num velório, claro!

O nosso abraço sentido, Teresa.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

"Primeiro de maio vermelho"


                     Foto de uma parede na praça da Alegria, em Lisboa (27.4.14)

Hoje, vistas as coisas à distância, tudo nos parece ridículo, mas, há 40 anos, a ameaça feita pelo MRPP (Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado) de fazer um "1º de maio vermelho", com alguma possível violência à mistura, assustou o Movimento das Forças Armadas (MFA). Alvo crescente da repressão policial, o MRPP fora já responsável, nos meses antes de Abril, por algumas ações de rua, dedicadas à luta contra a guerra colonial, com confrontos relativamente fortes.

O anúncio dessa movimentação no Dia do Trabalhador havia sido feito ainda antes do 25 de Abril, mas todos estávamos conscientes que os "eme-erres" haviam interpretado o golpe militar como um mero rearranjo de "forças da burguesia", sem qualquer impacto nos "interesses profundos das classes trabalhadoras". E o facto de insistirem em organizar uma forte movimentação no dia 1 de Maio, não obstante ter entretanto ocorrido o movimento democrático do 25 de Abril, não sossegava alguns militares.

Não cabe aqui, por ora, fazer o historial do MRPP, um grupo criado em 1970 e com uma génese diferente da dos restantes movimentos que, em Portugal, se reclamavam do maoísmo. Muito ativo no meio académico, com particular expressão em Lisboa, dispunha de uma simpatia clara em sectores da imprensa, bem como em algumas estruturas sindicais de serviços. Conhecido por um grafismo colorido, que se espalhava por folhetos, jornais clandestinos e por muitas paredes, o MRPP era, visivelmente, a principal força política que não saudara a Revolução.

A circunstância de ter o Partido Comunista Português como um alvo prioritário da sua ação, antes e após o 25 de abril, levaria algumas forças bem mais conservadoras a ver o MRPP com alguma simpatia tática, que ficou bem patente nos primeiros anos da Revolução de abril. A posterior evolução política de alguns antigos membros do MRPP viria a provar que essa aliança tinha também algo de potencialmente estratégico. 

Mas voltemos ao 1º de Maio de 1974. O ambiente de confiança que o 25 de abril criara no país poderia ser afetado, na perspetiva de alguns dos militares por ele responsáveis, se acaso o MRPP viesse a promover algumas ações violentas. A confiança pública na Revolução e a própria estabilidade que o país pretendia projetar externamente poderiam ficar em causa se viessem a ocorrer incidentes graves. Que fazer, então? Talvez  seja difícil de acreditar nos dias de hoje - depois do que efetivamente se passou em Portugal, no dia 1º de maio de 1974 - mas uma ideia inicial, que chegou a ser pensada em meios militares, foi tentar encontrar uma maneira de evitar que os portugueses saíssem de casa nesse dia... 

Com o objetivo de tentar discutir a utilização da RTP com esse objetivo, um determinado setor do MFA convocou uma reunião para a Escola Prática de Administração Militar (EPAM), no dia 27 de Abril. Nela reuniu um impressionante grupo de intelectuais, num "brainstorming" chefiado pelo capitão Teófilo Bento, que interinamente chefiava a televisão, com António Reis e eu próprio a acolitá-lo. Pela sala espalhavam-se figuras como Luís de Sttau Monteiro, Mário Castrim, Luis Francisco Rebelo, Álvaro Guerra, Manuel Jorge Veloso, Manuel Ferreira, Adelino Gomes, Orlando da Costa e creio que cerca de duas dezenas mais de figuras cimeiras da nossa vida cultural e jornalística (ficarei muito grato a quem puder ajudar a completar esta lista).

O debate foi longo, as propostas choveram sobre o modo como a televisão podia vir a ser utilizada para "trabalhar" os primeiros tempos da Revolução. Porém, a ideia de a tornar um instrumento para evitar a saída às ruas no 1º de maio foi, ao que me lembro, rapidamente abandonada. Era, de facto, uma mera questão de bom senso...

Para a história, convém apenas notar: o MRPP lá comemorou, a partir do Rossio, o seu "1º de maio vermelho". Com muitos slogans e sem violência. E o 1º de maio de 1974 acabou, para todo o Portugal, por ser uma coisa bem diferente, como todos recordam.

(Adaptação de um post publicado neste blogue em 27 de abril de 2010)

domingo, 27 de abril de 2014

Vasco Graça Moura (1942-2014)

Vasco Graça Moura, que hoje desaparece, foi uma figura maior da cultura portuguesa, um brilhante obreiro da nossa língua, uma personalidade que nunca fugiu ao confronto das ideias - ele que as tinha fortes e bem estruturadas. Havia em Graça Moura uma curiosa dualidade, que ele sustentava, parecia-me, com algum prazer. Por um lado, o poeta, o tradutor, o ensaísta e o romancista (esta é a minha ordem pessoal desses seus méritos criadores), o espírito com laivos de genialidade de um intelectual sensível, possuidor de uma cultura quase renascentista, do melhor que Portugal produziu nas últimas décadas. Mas, no outro lado do espelho, havia o actor cívico (escrevo "actor" com "c", em homenagem ao opositor do Acordo Ortográfico que VGM foi), comprometido, usuário brilhante de uma escrita polémica, onde ressoava um quase caceteirismo cívico, muito ao gosto novecentista. Se VGM era um príncipe da escrita e na cultura, era também, num assumido contraste, um ferrabraz na política, embora, falado pessoalmente, estivesse sempre muito distante da ferocidade adjectivada dos seus artigos. O homem que esteve com Sá Carneiro e dele se afastou (e que dele se mantinha bem crítico) era, contudo, o mais improvável turiferário de uma figura como Cavaco Silva, depois de ter arrastado a asa a esse ridículo projeto de moralismo político que deu pelo nome de PRD. Ora se  havia coisa que, de VGM, ressaltava à distância esse era o seu desprezo profundo pela mediocridade, pela pusilanimidade, pelo oportunismo, pelo Portugal mesquinho dos que não conseguem deixar de ser bem "pequeninos". Como é que, dentro de si, ele compatibilizava os olhares, críticos ou complacentes, sobre tudo isto? Talvez nunca o venhamos a saber. Embora tivesse falado muitas vezes com VGM, estava muito longe de o conhecer bem. Muita coisa nos separava politicamente e outras opções, noutros domínios, não contribuíam para nos aproximar, pelo que sempre tivemos uma relação pessoal marcada apenas por uma educada cordialidade. Mas tinha por ele um grande respeito e uma forte consideração intelectual. Há semanas, dei aqui conta de um seu excelente ensaio "A identidade cultural europeia". Esta minha última homenagem a VGM é uma sugestão para que o leiam, porque nele está o essencial da sua visão para Portugal e para esta aventura continental a que o destino nos impele. Porque Vasco Graça Moura era, essencialmente, um patriota português e isso não se improvisa: sente-se e sofre-se.

Carta a um amigo

Pois é, meu caro, não estamos de acordo. E nem o facto de ambos termos andado de cravo ao peito na sexta-feira passada, sob o sol dessa bela festa que foi a comemoração dos 40 anos de abril, nos coloca necessariamente lado-a-lado, acabado que foi esse dia 25.

Percebo a tua revolta, entendo que já não possas mais ver "essa gente", concordo em que eles foram bem mais longe do que a decência democrática deveria permitir, que já deveria ter havido, há muito, eleições legislativas para retificar a legitimidade política que já se pressentiu que perderam. Estou contigo em considerar que este governo foi uma das mais nefastas ocorrências da nossa vida desde o 25 de abril, por todas as razões que ambos bem sabemos e que o povo português continua a pagar na pele. Concedo, com facilidade, que quem tem competência constitucional  para tal, já há muito deveria ter tomado a decisão de "pôr fim a isto", de uma vez por todas.

Mas, vais-me desculpar, "eles" - e quem os sustenta por "lá" - estão no poder porque o povo português assim o quis. E a isso chama-se democracia. Eu sei que vais arguir que isso é "democracia formal", mas esse é também sinónimo de democracia. Mas "eles" também "lá" estão porque tu e os teus amigos - o Partido Comunista Português e o Bloco de Esquerda, assim, com todas as letras, para que fique bem sublinhado o que vocês procuram fazer esquecer - votaram, bem ao lado da direita, para derrubar o governo socialista. É verdade, meu caro, tu e Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã, estiveram de mão dada com Passos Coelho e com Paulo Portas para afastar José Sócrates. Não gostavam dele? Claro que estavam no pleníssimo direito democrático de derrubar o seu governo. Mas agora, desculpa lá!, gostam mais "destes"? É que convém que o povo português nunca esqueça o que se passou em 2011: foi o voto da "esquerda da esquerda", de que tu fazes parte, quem abriu as portas a esta direita que está no poder. Foi o voto dessa "esquerda da esquerda", ávida pela possibilidade de vir a ter uns deputados mais em S. Bento (não se sabe bem para que efeito útil), que estendeu uma passadeira vermelha (ironicamente, "vermelha") a quem se propunha ir (e foi!) "além da troika". Estão satisfeitos?

Nas últimas semanas, vi-te entusiasmado a ecoar algumas proclamações ameaçadoras de derrube da ordem constitucional, da necessidade de um "outro caminho", para "pôr com dono" este governo, que tem trazido a divisão e a maior incomodidade de sempre à política portuguesa em democracia. Vi-te ao lado dos que pensam que "eles" têm de sair, "a bem ou a mal". Nestas comemorações de abril, por entre cravos, vozes iradas e corações quentes, vislumbrei-te em aplausos aos apelos à revolta, a um "novo 25 de abril".

Tem juízo, pá! Esta ordem constitucional, com todos os muitos defeitos que tem (e que ela própria tem forma de corrigir), foi aquela que resultou da luta pela qual eu e muitos outros arriscámos a nossa liberdade no dia 25 de abril de 1974. Por causa dela, há agora um papelinhos brancos, nos quais podes colocar uma cruz no sítio certo (ia dizer "no sítio seguro", mas temi outras interpretações), que deves dobrar em quatro e meter numa caixa, nuns determinados dias. O primeiro é dentro de cerca de um mês, o segundo, infelizmente, deve ter de esperar mais uns tempos. Queres um conselho: vota bem! Vota em quem tenha uma possibilidade real de mudar a vida aos portugueses, não em quantos apenas servirão para aumentar os decibéis do protesto, mas não irão ter o menor papel na decisão dos caminhos do futuro. És livre, claro, de votar em quem quer fazer sair Portugal do euro e até da União Europeia, o que somaria mais empobrecimento àquele que os portugueses já têm - e que só defendem esta insensatez pela confortável certeza de que nunca ascenderão ao poder para a poder executar.

Até lá, podes e deves, se assim o entenderes, continuar ir para a rua clamar o teu desagrado, ser solidário com quem sofre as políticas oficiais, fazer as greves que bem entenderes, expressar-te livremente como quiseres, em tudo quanto for sítio possível. Mas hoje a Revolução, meu caro, já não está na ponta de uma G3, está no boletim de voto. Ou, como se dizia em 1975, "o voto é a arma do povo". O resto é nostalgia serôdia e falta de espírito democrático. Sei que não deverás ter gostado muito de ler esta carta, mas escrevi-a no usufruto das minhas "mais amplas liberdades", para utilizar uma expressão que talvez seja cara à tua memória de abril. 

Recebe um abraço, apesar de tudo, solidário. E viva o 25 de abril, sempre!

sábado, 26 de abril de 2014

Um tempo preciosista

Placa ontem inaugurada na antiga EPAM

A questão tinha surgido ainda antes do 25 de abril. Em reuniões de milicianos ocorridas em vários locais de Lisboa, alguns de nós, politicamente mais radicais, alimentávamos dúvidas sobre se o "movimento dos capitães", que então se desenhava e sentíamos cada vez mais próximo da ação, comportava os "mínimos" ideológicos que então considerávamos indispensáveis: uma orientação socializante e, muito em especial, uma atitude inequívoca face ao fim da guerra colonial.

A implicação de alguns de nós no golpe foi, assim, condicionada e até, em alguns casos, reticente. Temíamos estar a dar aso e colaboração a uma qualquer "quartelada", com um resultado político duvidoso, que acabasse por se afastar das nossas ideias.

Na noite do 25 de abril, a intervenção de Spínola na televisão não nos sossegou, talvez antes pelo contrário. A mim, a leitura do programa do Movimento das Forças Armadas deixou-me algo alarmado. É que as ambiguidades sobre o processo político subsequente, sobre a questão colonial e mesmo sobre a PIDE/DGS eram mais do que muitas. Mal imaginávamos nós - mas devíamos ter imaginado, claro! - que esse texto fora produto de laboriosos compromissos e que era o denominador comum possível.

Lembro-me que, logo no dia 26, quando o novo comandante da unidade, coronel Marcelino Marques, se apresentou aos oficiais, eu tomei a palavra, em nome de um grupo de milicianos, para inquirir sobre o verdadeiro sentido da expressão, contida no programa do MFA, onde se falava de uma "política ultramarina conducente à paz", muito longe da disposição para encetar negociações com os movimentos emancipalistas africanos, que reputávamos essencial.

Esse terá sido o primeiro de vários momentos de alguma conflitualidade que eu haveria de titular, durante o tempo que se iria seguir, descontente com o caráter "recuado" da prática política do MFA. Poucas semanas após o golpe militar, no discurso que proferi, durante o juramento de bandeira dos cadetes, fiz uma forte crítica ao comportamento do MFA perante uma greve na TAP, numa implícita denúncia da recente detenção de dois colegas. Alguns jornais ressaltaram essa minha voz dissidente. Por virtude dessa tomada de posição, fui chamado ao Estado-Maior do Exército, onde me foi sugerida uma mudança de unidade, porque a minha continuidade na EPAM começava a tornar-se incómoda. Essa saída acabaria por acontecer, uns dias depois, quando me dissociei de uma punição dada a um soldado-cadete, já não sei bem porquê. Por isso, lá para o fim de maio ou início de junho de 1974, acabei por ser "empurrado" para a Comissão de extinção da ex-PIDE/DGS e LP. Só ontem, dia 25 de abril de 2014, regressei à EPAM.

Hoje, olhando para trás, confesso que não posso deixar de sorrir. Ou melhor, de rir um pouco de mim mesmo nesse tempo. 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

As figuras de abril

Nunca se apreciaram excessivamente entre si, mas Melo Antunes e Mário Soares são, sem a menor dúvida, as duas personalidades que, para mim, melhor representam a liberdade que o 25 de abril nos trouxe.

O herói


Quando abrimos a porta, o "Ramos" dormitava numa sala de instrução, cabeça sobre a mesa, barba por fazer. Horas antes, tinha sido detido. Ele era o oficial de dia e, não estando no segredo do golpe, sendo imprevisível a sua reacção e não havendo tempo para operações de recrutamento por convicção, foi essa a decisão que os responsáveis pela tomada da unidade militar assumiram como a melhor, até para sua própria defesa, se algo corresse mal.

O "Ramos" era um tenente miliciano que decidira integrar a carreira profissional, uma facilidade a que o corpo militar recorria com cada vez mais frequência. Era um homem jovial, um pouco “militarão”, mas boa pessoa, com excelente relação com todos nós. Nada indicava que pudesse ser hostil à nova situação. Ora as coisas começavam a serenar, a unidade estava sob total controlo, Marcello Caetano estava cercado no Carmo, não havia razão para lhe prolongar o sofrimento. Foi solto.

De início ficou um pouco confuso, mas foi-lhe explicado o que acontecera, as razões da sua detenção e que, naturalmente, se contava com ele, dali em diante. Ficou outro. Foi tomar um banho e juntou-se-nos, com uma alegria genuína.

Perdi-o de vista durante o dia mas, ao final da tarde, venho a encontrá-lo na RTP, objectivo estratégico que a nossa unidade ocupara nessa noite. Tinha sido, entretanto, encarregado da segurança da entrada dos estúdios de televisão, com um grupo de soldados cadetes.

Quando se aproximou a hora da chegada à RTP da Junta de Salvação Nacional, para fazer a sua proclamação ao país, o "Ramos" montou aquela que viria a ser a guarda de honra para a chegada de Spínola, Costa Gomes e os outros membros do novo poder. Por curiosidade, confesso, para poder estar presente nessa ocasião com laivos de histórica, juntei-me a ele na entrada da RTP, onde, à época, havia uma bomba de gasolina. Como eu era aspirante e ele tenente, fiquei sob o seu episódico comando, para o exercício de protocolo militar que se iria seguir.

O grupo de cinco ou seis soldados cadetes que compunham a “tropa” do "Ramos", que passei a “subcomandar”, estava num estado de cansaço que não augurava uma grande dignidade ao momento que se iria seguir. Bom conhecedor da poda militar, o "Ramos" relembrou a todos a forma de proceder na cerimónia de apresentação de armas.

Todos os soldados tinham G-3. Eu, porém, ainda hoje estou para saber porquê, tinha andado todo o dia com uma metralhadora FBP (na qual eu tinha “forçado”, por lapso, um carregador de balas errado, creio que de uma Vigneron, o que, mesmo que fosse preciso, me teria impedido de dar um único tiro durante todo o 25 de Abril...), arma que exigia um gestual protocolar diferente. Mas que lá aprendi, graças ao "Ramos".

Chegado o grande momento, o "Ramos" afina a guarda de honra à Junta. Do primeiro carro, que me recordo de ser acinzentado, saiu Spínola, grave como sempre. O "Ramos", com garbo, deu as vozes de comando necessárias e lá fizemos a melhor “apresentação de armas” que nos foi possível organizar.

Spínola perfilou-se face ao "Ramos", fez continência, fixou o monóculo e olhou-o, por um imenso instante. O resto dos membros da Junta pararam, um pouco atrás, expectantes do momento. Spínola lançou então, para o perfiladíssimo "Ramos", sempre em continência:

- "Eu não o conheço da Guiné, nosso tenente?".

O "Ramos" só conseguiu balbuciar, esmagado de comoção:

- "Meu general, efectivamente tive a honra de servir com V. Exa. na Guiné".

Spínola grunhiu algo, do tipo "logo vi!", e afastou-se, de capote e pingalim, rampa acima, a caminho dos estúdios.

Aí, o "Ramos" virou-se para mim, impante:

- "Estás a ver, pá, ele reconheceu-me, lembra-se de mim. Este gajo sempre foi o meu herói!".

E continuou a sê-lo, a partir daí. Para o "Ramos", claro.

O comandante (historieta que dedico ao António)

António Alves Martins

As ordens, nessa manhã de há precisamente 40 anos, tinham sido claras: os portões da unidade ficavam fechados e ninguém entrava sem uma autorização, dada caso a caso. A surpresa foi, assim, muito grande quando vimos o comandante da unidade, em passo lento mas firme, arrastando o corpo pesado, a subir a ladeira que levava à parada onde nos encontrávamos. O sargento de guarda ao portão ter-se-á amedrontado com a aparição da sua figura e, perante um berro hierárquico, lá o teria deixado entrar.

Ao ver surgir o comandante, o capitão do quadro que assumira as funções de oficial de dia, desde as primeiras horas do golpe, ficou lívido.

- Ora bolas! E agora, o que é que fazemos? - voltando-se para o António Alves Martins e para mim, que o acompanhávamos na parada.

Não deixava de ter a sua graça: nós, meros aspirantes a oficial miliciano, a aconselhar um profissional que era o responsável máximo de uma unidade militar amotinada.

Entretanto, o comandante ia-se aproximando, tínhamos poucos segundos para reagir.

- Prenda-o de imediato, mal ele chegar ao pé de nós - disse-lhe eu, em tom baixo, delegando comodamente a minha coragem.

Ainda era muito cedo, nesse dia 25 de Abril, não fazíamos a mais leve ideia de como estava a situação pelo país, não sabíamos mesmo se não seríamos das poucas unidades amotinadas.

- Você está doido, então eu ia lá prender o homem!. Pela disposição do capitão, eu e o António percebemos que as coisas não iam ser nada fáceis.

O comandante aproximou-se de nós e estacou, aí a dois metros. Trocámos as continências da praxe, com o António, dado que tinha a boina displicentemente no ombro, a fazer um mero aceno com a cabeça.

- O que é que você está aí a fazer de oficial de dia?, lançou o comandante, em voz bem alta, ao vê-lo com a braçadeira encarnada da função. Não era o "Ramos" que estava de serviço? E o que é que andam os cadetes a fazer pela parada? Porque é que a instrução ainda não começou?.

Eram aí oito e meia da manhã e, desde as oito, os soldados cadetes deveriam, em condições normais, estar a ter aulas. O capitão, sempre ladeado por nós os dois, estava, manifestamente, sem saber o que fazer, com o quarteto já sob os olhares gerais.

- Ó meu comandante, é que houve uma revolução…, titubeou o capitão, em tom baixo, como que a desculpar-se. Não explicou que o oficial de dia, que ele substituíra, havia sido detido nessa madrugada e estava fechado numa sala.

O comandante, sempre ignorando-nos olimpicamente, olhou o capitão nos olhos e atirou-lhe, com voz forte e bem audível à volta:

- Qual revolução, qual carapuça! Você está-se é a meter numa alhada que ainda lhe vai arruinar a carreira! Ouça bem o que lhe digo!.

O momento começava a ser de impasse. O comandante olhava já em redor, num ar de desafio, consciente de que recuperara algum terreno, mas também sem soluções óbvias para retomar a autoridade. Não havia mais militares do quadro à vista, alguns tinham ido para a missão externa que a unidade tivera a seu cargo, outros ter-se-ão prudentemente esgueirado, para evitar a incomodidade deste confronto com o comando legal. O capitão quase que empalidecia de crescente angústia.

É então que o António, com o ar blasé de quem já estava a perder paciência, lança um providencial:

- Ó meu capitão, vamos lá acabar com isto!.

O comandante olhou então finalmente para o António e para mim, dois meros aspirantes, com uma fácies de extremo desprezo, como se só então tivesse acordado para a nossa presença em cena.

Aproveitei a boleia da indisciplina, aberta pelo António, e fiz das tripas coração:

- Ó meu coronel, e se fôssemos andando para o seu gabinete?.

O coronel olhou-me, com uma raiva incontida:

- Coronel? Então já não sou comandante?.

A crescente nervoseira deu-me um rasgo, com uma ponta de sádica ironia:

- Não, não é, ainda não percebeu? E a conversa já vai muito longa, não acha, meu capitão?.

Mas o capitão continuava abúlico. O impasse ameaçava prosseguir.

- Então você deixa-se comandar por dois aspirantes?! - lançou o coronel, numa desesperada tentativa de puxar pelo orgulho do pobre oficial.

Mas o vento já tinha claramente mudado e achei que tinha de aproveitar a minha inesperada onda de coragem, até porque, no fundo, já pouco tinha a perder:

- O meu coronel quer fazer o favor de nos acompanhar até ao seu gabinete? É que, se não for a bem, tem que ir a mal e era muito mais simpático que tudo isto se passasse sem chatices.

Confesso que me espantei com a minha própria firmeza mas, pronto!, o que disse estava dito. O António sorria, deliciado. O capitão não reagiu, para meu sossego. O coronel entendeu então, talvez pela primeira vez, a irreversibilidade da situação. A sua voz baixou para um limiar de resignada humilhação:

- Então eu estou preso, é isso?, disse, num tom muito menos arrogante.

- Mais ou menos. Vamos andando, então - cortei, rápido, dando o capitão por adquirido, mas sem fazer a mais pequena ideia se ele queria ou não prender o coronel.

Nesse segundo, dei-me conta que, se tudo acabasse por correr mal, o meu futuro iria ser complicado. E lá fomos para o gabinete do comando. Duas horas depois, mandámos um carro levar o coronel de volta a casa.

Só o voltei a ver, anos mais tarde, ao entrar no Café Nicola. Recordo o olhar gélido que me lançou, com porte ainda altivo, barriga saliente, muito na reserva. Já com toda a liberdade, pedi uma bica.

A cabine


A cabine no dia 25.4.14

Estava-se nas primeiras horas do dia 25 de Abril de 1974. Todo o pessoal que dormia no quartel tinha sido acordado e mandado formar no escuro da parada. De megafone na mão, o capitão que liderava a revolta, anunciou que a unidade ia integrar um movimento militar que tinha como finalidade “acabar com a ditadura”, competindo-lhe atacar um determinado objectivo. 

Os soldados, quase todos ensonados, alguns ainda a despistar a hipótese de se tratar de um mero exercício, ouviram em silêncio as palavras do capitão: quem quisesse alinhar que fosse buscar a sua arma, os restantes podiam voltar para a cama. 

Mas já ninguém conseguiria dormir. Ouviram-se alguns comentários e apartes mais entusiastas, de milicianos com tarimba das lutas do associativismo universitário, alguns dos quais já previamente contactados, para o que viria a ser uma das primeiras operações militares que o Movimento das Forças Armadas iria efectuar nessa madrugada.

O pessoal foi mandado destroçar e, em pequenos grupos, regressou, cochichando, às camaratas, em busca da arma ou do travesseiro para a vigília. 

Foi então que um soldado, discretamente, se aproximou da cabina telefónica que existia num canto da parada. Abriu a porta e, nessa altura, alguém, mais atento, atirou-lhe um berro: 

- Eh! pá, o que é que vais fazer?.

O rapaz olhou, meio apalermado, largou a porta da cabina já entreaberta e disse, com toda a candura, que só queria avisar a família, não fossem ficar em cuidados quando ouvissem as notícias. 

- Nem as penses! Pira-te daí!, ouviu logo. 

Desapareceu de imediato, rumo à camarata. Alguém entrou na cabina e arrancou o fio do telefone. 

Como se faria hoje uma revolução, na era dos telemóveis?

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Retratos do 24 de abril (4)


Miguel Portas

Há dois anos, a 24 de abril de 2012, desapareceu Miguel Portas. Conhecia-o pela leitura do que ele escrevia, por alguns programas de televisão e por correspondência por email que trocámos, vai para dez anos. Um dia, quis falar comigo pessoalmente sobre a Europa (como já referi aqui). Queria conhecer a minha perspetiva sobre o papel efetivo que Portugal poderia desempenhar nesse contexto.

Tivémos um longo e agradável almoço, rodeados por muitos olhos do MNE que prescrutavam, no espaço da "Tasca da Armada", ali em Alcântara, nesse tempo de "chumbo" de 2003, a conversa entre um embaixador então muito pouco ortodoxo e um conhecido deputado do Bloco de Esquerda. Depois, a vida de cada um trocou-nos as voltas. Nunca mais nos voltámos a encontrar, embora trocássemos breves mensagens.

Miguel Portas deixou natural saudade em quantos o conheceram bem, mas igualmente em outros que, como eu, apenas apreciávamos, à distância, a sua figura de homem livre, nada sectário, ansioso da vida que, por um azar, lhe iria fugir breve.

Nesta data, deixo o nosso abraço sentido à Helena e ao Paulo.

Retratos do 24 de abril (3)


O regresso das praxes?

A tragédia ontem ocorrida em Braga, envolvendo vários estudantes, que resultou em três mortos e diversos feridos, decorreu final de atos de praxes ditas académicas. 

Depois do Meco e de tantos outros incidentes que levaram à morte, à incapacitação e a repetidas violências e humilhações sobre estudantes, só a cobardia das autoridades, públicas e universitárias, justifica que se deixe prolongar este medievalismo. Por aqui, ainda continuamos no 24 de abril.

EPAM

Amanhã, dia 25 de abril, pelas 11.30, terá lugar a cerimónia de afixação de uma lápide no edifício da antiga Escola Prática de Administração Militar, na avenida das Linhas de Torres, 179, ao Lumiar, onde hoje funciona o Instituto Superior de Educação e Ciências (ISEC). 

Trata-se de assinalar, nestes 40 anos do 25 de abril, aquela que foi a primeira unidade militar a sair para a rua nessa data, sob a chefia do capitão (hoje coronel) Teófilo Bento, que também vai estar na ocasião. É uma pena que figuras importantes nessa movimentação da EPAM, como Manuel Geraldes ou António Reis, ausentes no estrangeiro, não possam estar conosco. Foi a sua determinação e a sua liderança, nomeadamente na condução da operação de tomada das instalações da RTP, nessa madrugada, que contribuiu para o sucesso da operação.

Serão muito bem vindos nesta celebração todos quantos andaram pela EPAM e pelas subsequentes "guerras" na RTP, depois dessa data. Quatro décadas passadas, seria uma alegria reencontrá-los.

O meu dia 24 de abril

O meu dia começou cedo. Ido de Santo António de Cavaleiros, onde vivia desde que casara, poucos meses antes, entrei de carro na Escola Prática de Administração Militar (EPAM) onde, às 9 horas iniciei a primeira aula de "Acção Psicológica" aos ensonados soldados-cadete. Às 11 horas, recolhi à biblioteca que orientava (além de "oficial de Ação Psicológica" da unidade, era coordenador do próprio curso de formação de oficiais milicianos nessa especialidade, bibliotecário e também diretor do jornal da unidade, "O Intendente"). Foi aí que fui procurado pelo António Reis.

Um parêntesis para explicar que o António Reis, hoje um consagrado historiador e professor universitário, era o contacto privilegiado dos milicianos da unidade com os oficiais do quadro, para o conjunto de movimentações político-militares que, desde há meses, acompanhávamos. Conhecia o António dos tempos da luta da oposição democrática, onde ele tinha tido um papel destacado, nomeadamente como candidato oposicionista por Santarém. Para surpresa de muitos de nós, em especial para meu grande espanto, António Reis surgira, meses antes, integrado na especialidade de Ação Psicológica, que eu orientava. A máquina das informações militares, na sua articulação com a PIDE (que, nessa altura, já era designada por DGS), tinha algumas lacunas e só semanas mais tarde, já muito próximo da data da Revolução, mandara "reclassificá-lo", devendo regressar a Mafra, onde iria ser Atirador de Infantaria. Esta determinação tinha sido por nós sonegada ao comando da unidade, através de cumplicidades burocráticas internas, pelo que não viria a ter qualquer efeito prático até ao 25 de abril. O António pôde, assim, assumir o importante papel que desempenhou nesse dia.

Regressemos à biblioteca. Com um ar conspirativo, nesse final de manhã, o António pediu-me para reunir alguns oficiais milicianos já previamente "apalavrados". Juntámo-nos na sala e ele informou que o golpe militar estava previsto para essa noite. Ficámos tensos, confrontados com a gravidade da informação recebida. Só mais tarde iríamos saber o que de cada um de nós se esperava. Aos pedidos de detalhes que colocámos, nomeadamente no tocante à dimensão da ação militar (o fracasso da tentativa de golpe de 16 de março ainda estava muito "fresco"), o António adiantou explicações naturalmente vagas.

Depois, só me recordo da tarde, já após a saída da unidade. Encontrei-me com António Franco, hoje embaixador aposentado, que tinha feito a especialidade de Ação Psicológica comigo, mas que fora requisitado pelo MNE. Tomámos um café no snack-bar "2000", ao Campo Pequeno, e revelei-lhe a iminência do golpe. Não havia nenhuma razão especial par eu cometer essa indiscrição, mas esse gesto (que hoje posso ver como algo irresponsável) foi espontâneo, face a um amigo em que eu confiava em absoluto.

Dei a informação também ao meu pai, que estava de visita a Lisboa. Democrata dos sete-costados, o meu pai alimentava uma desconfiança persistente sobre a capacidade dos militares derrubarem o regime que ele sempre detestara. Recordo-me o comentário depreciativo que ele fez sobre "a tropa", à saída do hotel "Suíço Atlântico", onde fomos juntar-nos com um tio meu, então deputado do regime... Acabámos todos a jantar em casa de outros familiares, nos Olivais. Foi uma ocasião estranha: se a operação militar que iria decorrer, horas depois, tivesse sucesso, o futuro desse meu tio - um grande amigo de todos nós, a começar por mim - iria sofrer uma grande mudança. À mesa, apenas eu, o meu pai e a minha mulher estávamos a par dessa forte possibilidade, pelo que a conversa, para nós os três, não deixou de ter sempre isso como pano de fundo.

Acabado o jantar, deixei os meus pais na Feira das Indústrias, à Junqueira, onde havia uma exposição de antiguidades. Pretextei algo para regressar a casa. À saída da exposição, ao deparar com o Bentley que transportara o presidente da República para a inauguração do evento, o meu pai disse para a minha mãe uma frase enigmática, que ela lembraria até ao fim da vida: "Se uma coisa que o nosso filho hoja me disse vier a acontecer, a partir de amanhã o Américo Tomaz não volta a entrar neste carro". E mais não adiantou. O dia 24 de abril de 1974 estava a terminar. 

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Brasil

Ontem jantei com um empresário brasileiro, de passagem pela Europa. Hoje à tarde, participei num grupo de estudos sobre as relações Portugal-Brasil, de que faço parte, no âmbito do Instituto de Defesa Nacional. Acabo de ler as notícias sobre os graves incidentes que tiveram lugar em Copacabana, com um potencial de (novo) efeito-dominó que não deve ser descurado.

O Brasil vive um momento complexo. Devo confessar que, quando deixei o posto diplomático naquele país, em fins de 2008, estava longe de pensar que, meia dúzia de anos depois, a situação interna do país iria evoluir como evoluiu. A meu ver, o Brasil é vítima do seu sucesso recente, isto é, um presente menos brilhante é agora comparado com a vaga de esperança que se tinha criado, alimentada pelo bem-estar crescente registado nas últimas décadas, responsável por um forte movimento de ascensão social, agora muito longe da vitalidade de outrora. Por outro lado, a ideologia algo libertária que o "petismo" gerou no comportamento das classes mais pobres, de questionamento da autoridade (como natural libertação de um país que se emancipava do colete de forças do autoritarismo histórico - político e social) e de exigência crescente de direitos, acaba por ser menos compatível com o "petismo II", titulado por Dilma Roussef, que, além de não ter o carisma do seu antecessor, se defronta com uma economia que marcha a taxas de crescimento muito mais baixas que a generalidade dos seus vizinhos. Se a isto somarmos uma classe política pouco propensa a abandonar hábitos comportamentais chocantes, do fausto material a desvios patrimonialistas, muito mais chocantes para quem vive no lado negro da sociedade, perceber-se-á melhor o escândalo que suscitam os gastos em iniciativas como a "Copa". Lula ensinou os brasileiros a serem cada vez mais exigentes com o Estado e Dilma Roussef está a sofrer os efeitos do êxito dessa pedagogia.

Discriminação

Ao tempo da ditadura, as proclamações anti-fascistas de feição mais radical conclamavam, muitas vezes, à revolta dos "soldados e marinheiros", tidos como "o povo em armas", aliados "objetivos" do proletariado. 

A chegada do 25 de abril não atenuou o tom dessas proclamações, antes pelo contrário. Muitos dos movimentos de extrema-esquerda ganharam, a partir dessa data, uma ainda maior visibilidade nos meios de comunicação social, nomeadamemente nos seus apelos ao fim da guerra, à recusa do embarque para as colónias e até à deserção. As paredes do país ecoaram também essas palavras de ordem.

Após outubro de 1974, trabalhei no Estado-Maior General das Forças Armadas, numa repartição que se dedicava à análise e acompanhamento da atividade dos diversos grupos políticos. Um dos nossos colaboradores, que tinha a seu cargo tarefas administrativas, era um cabo da Força Aérea, com menos de 20 anos. A ele lhe cabia arquivar toda a parafernália de comunicados que iam surgindo, depois de lidos e analisados.

Um dia, ao receber uma dessas proclamações radicais, em cujo título se apelava uma vez mais à revolta dos "soldados e marinheiros", o rapaz não se conteve e, numa afirmação de orgulho do ramo militar a que pertencia, perguntou-me:

-  Ó meu aspirante. Porque é que estes tipos só falam dos "soldados e marinheiros", do Exército e da Marinha? Porque é que nunca dizem nada sobre os "aviadores", sobre a Força Aérea? Também somos gente, não?!

Nem sei bem o que lhe respondi... 

Retratos do 24 de abril (2)

http://www.youtube.com/watch?v=cPkEeYEC_BY

O lapso de Pacheco

José Pacheco Pereira é um historiador de mérito do movimento operário português. Além disso, é um celebrado observador da nossa vida política, qualidade em que se tem revelado um prolixo articulista e comentador. Oriundo da extrema-esquerda maoísta, transitou pela chamada "esquerda liberal" antes de aportar, sem surpresa, ao regaço do PSD. Por aí se manteve, sempre num registo algo inconfortado. Conheci-o nos tempos em que passou pelo Parlamento europeu. Nos últimos anos, tendo-se afastado da linha da atual liderança do seu partido, enveredou por uma linha fortemente crítica da maioria no poder. Servido por uma indiscutível inteligência, tem sido de uma bela eficácia na desmontagem do poder que temos. Para alguma esquerda, depois de ter sido um ódio de estimação, tornou-se hoje numa coqueluche: faz, por vezes, o trabalho de crítica que ela própria parece não ser capaz de fazer, com a credibilidade muito original de quem vem "do outro lado". Faz parte dos "novos camaradas", uma raça política que dá imenso jeito e é politicamente barata.

Por ocasião destes 40 anos do 25 de abril, e como colecionador reconhecido da iconografia da Revolução, Pacheco Pereira foi encarregado pela Assembleia da República de organizar uma exposição sobre cartazes políticos. Dizem-me que é uma boa mostra. De passagem, incumbiram-no ou incumbiu-se de criar um painel onde colocou 200 e poucas personalidades que, no seu entender, marcaram politicamente estes 40 anos. 

Pacheco fez a seleção que o seu critério pessoal ditou. 200 pessoas é muita gente, mas é seguramente menos do que seria desejável. Devem falhar, com toda a certeza, algumas pessoas. Mas por lá estão, naturalmente, Carmelinda Pereira e Cabral Fernandes, figuras ímpares do trotskismo luso, que abalaram politicamente estes últimos quatro decénios. Alguns incontornáveis ícones de abril, como Etelvina Lopes de Almeida ou Amândio de Azevedo, não escaparam à memória seletiva de Pacheco. Expoentes resgatados em boa hora ao opróbrio do anonimato como Mariano Pires (não me diga que não sabe quem é?) ou Manuel Cabanas, por aí se consagraram no paredão da glória. E, claro, como não podia deixar de ser, por lá estão, com indiscutível espaço, Soares, Eanes, Sá Carneiro, Freitas, Kaúlza, Spínola, Otelo, Guterres, Gama e tutti quanti.

Estão todos? Não. Neste seu rigoroso critério de probo historiador, Pacheco "esqueceu" Jorge Sampaio, que "apenas" foi presidente desta República durante 10 dos seus 40 anos, líder do movimento estudantil de 1962 que abriu o caminho à última década da revolta contra a ditadura, presente desde então em todas as lutas contra o Estado Novo.

Lapsos qualquer um tem, não é?

PS - e agora, algumas semanas passadas, o lapso foi corrigido: Jorge Sampaio integra 50 nomes complementares.

O atentado

O 25 de abril e o período que se lhe seguiu foram férteis em histórias, algumas verdadeiras, outras mirabolantes. Quem viveu essa época lembra-se, com certeza, do episódio do caixão cheio de armas, que fez as delícias das fórmulas mais imaginativas sobre o 28 de setembro. O tal "caixão", num carro funerário, terá aparecido, segundo as versões, em diversas barreiras de estrada, umas vezes em Alverca, outras vezes na calçada de Carriche, outra vez nos "Quatro Caminhos". Nunca fui muito dado a fantasias revolucionárias e, iconoclasta como sou, sempre duvidei destas histórias "demasiado boas".

No auge do "Verão quente" de 1975, uma das historietas que corriam nos meios do MFA prendia-se com a hipótese de um atentado ao primeiro-ministro Vasco Gonçalves, que teria sido gorado pela "vigilância revolucionária". Segundo se contava, e os meios gonçalvistas pintavam com pormenores, um grupo "reacionário" teria tomado conta de um apartamento na calçada da Estrela, de onde pretendia atingir, com uma espingarda de mira telescópica, o gabinete de Vasco Gonçalves, com vista a assassiná-lo. Este potencial atentado teria sido evitado por uma oportuna denúncia.

Como disse, sou pouco dado a teorias conspirativas e levei a historieta à conta de uma fantasia do grupo que borboletava em torno de Vasco Gonçalves, feito da "esquerda militar", de muitos militantes ou "compagnons de route" do PCP e de uns "operacionais" gonçalvistas, alguns dos quais foram e são meus amigos.

Passaram muitos anos. Um dia, no Brasil, fui convidado por um cidadão português para almoçar. A conversa levou ao "Verão quente". O meu interlocutor sabia bem que eu tinha estado envolvido nesses tempos militares. A ele, eu conhecia-o, de nome e de fama, como uma pessoa corajosa, ferozmente anticomunista, ativista na luta clandestina contra o MFA, em 1975.

A certo ponto da conversa, revelou-me: tinha-se voluntariado, nesse "tempo da brasa", para liquidar Vasco Gonçalves. Era conhecido como um especialista de armas, de caça e de guerra, e, por essa razão, fora escolhido para a "operação" pelos seus companheiros de ideologia. Contou-me pormenores, descreveu-me os passos que tinham sido dados para montar a operação, falou-me da casa na calçada da Estrela que deveria ser utilizada para o atentado e, sem que agora me lembre bem dos detalhes, deu-me conta de uma "infiltração" no seu grupo político que levou à denúncia do complot, que assim se gorou.

Tomei boa nota e, pelos dados que me forneceu, fiquei com total confiança no relato que me fez. Vasco Gonçalves não foi objeto de nenhum atentado, mas que ele esteve planeado disso não tenho a menor dúvida.

terça-feira, 22 de abril de 2014

CENSURA

De hoje, até ao final do dia 25 de abril, todos os comentários reacionários ou depreciativos da Revolução que forem enviados a este blogue serão liminarmente censurados. Só se aceitarão louvores e elogios sinceros à data libertadora.

É só para ver se quem assim pensa gosta que lhe calem a voz. Era isso que acontecia até há 40 anos.

Depois do dia 25 de abril, voltaremos a aceitar aqui todas as opiniões, mesmo as mais retrógradas. Esta é a nossa diferença...

Retatos do 24 de abril (1)


O MFA e a NATO

Ontem, durante a intervenção que fiz no Congresso "A Revolução de Abril", contei uma pequena história ocorrida em agosto de 1974.

Eu era adjunto da Junta de Salvação Nacional. Pelo gabinete que partilhava com o então major (hoje general) Costa Neves, chefe de gabinete do membro da Junta, general Galvão de Melo, passavam muitos quadros superiores do MFA, vários elementos da sua Comissão Coordenadora, alguns membros militares do Conselho de Estado que então funcionava junto do presidente da República, general António de Spínola. Eram dias intensos, marcados pela emergência das primeiras grandes conflitualidades que atravessaram o MFA, com as diversas correntes militares a tomarem posições e a medirem forças, que haveriam de se tornar bem contrastantes no 28 de setembro.

Num desses dias desse primeiro "Verão quente", sentado à minha secretária, constatei que a questão da presença de Portugal na NATO era objeto de uma troca de impressões entre o José Manuel Costa Neves e outro elemento da "comissão coordenadora" do MFA, também da Força Aérea. Comentavam que um outro colega, do mesmo ramo militar, fora de opinião que a continuidade da presença de Portugal na NATO deveria merecer uma análise por parte da "coordenadora". Esse militar, pertencente a esse órgão, tinha anunciado a sua intenção de suscitar a questão numa próxima reunião. Ambos os meus interlocutores estavam preocupados com o impacto que tal iniciativa pudesse vir a ter. Perguntaram a minha opinião e eu dei-lhes toda a razão, elencando um conjunto de motivos pelos quais considerava, não apenas inoportuna mas mesmo altamente perigosa a abertura de uma discussão do tema, à luz dos nossos interesses estratégicos e da imagem que a Revolução portuguesa procurava projetar no exterior.

"Tu é que podias falar com ele", disse-me a certo passo o José Manuel Costa Neves. "Explica-lhe isso mesmo que agora nos disseste. Pode ser que o convenças!" 

Fiquei um pouco perplexo. De certo modo, era um atrevimento um aspirante a oficial miliciano, como eu era à época, ir arguir junto de um oficial superior, com fortes responsabilidades político-militares, as implicações geoestratégicas que entendia que uma questão daquela delicadeza poderia ter. Mas voluntariei-me para a tarefa.

O ambiente no seio do MFA era então muito diverso do que se pode imaginar. Eu, como muitos outros milicianos que por ali andavam, tinha grande à-vontade e tratava por tu grande parte dessas figuras cimeiras da Revolução que, acredite-se ou não, alimentavam um ambiente de grande simplicidade e camaradagem, de uma imensa informalidade, bem distante da rigidez dos quartéis de onde vínhamos. E assim se planeou uma conversa entre mim e esse oficial superior, logo para o dia seguinte. Recordo-me que ela teve lugar no gabinete que pertencia ao coronel Franco Charais, membro da "comissão coordenadora" do Exército, que estava ausente de Lisboa nesse dia. Recordo-me bem do local porque eu próprio viria a ocupar esse mesmo belo gabinete, revestido a azulejos, como subdiretor-geral das Comunidades Europeias, precisamente 20 anos mais tarde.

Já não me lembro bem de pormenores da conversa, mas ela terá espelhado o contraste entre um miliciano moderado e realista (eu que, então, estava longe de ser uma coisa ou outra, no plano político-militar...), que desenvolveu uma teoria favorável a equilíbrios geopolíticos que considerava importante preservar, perante um oficial que era membro da um órgão de grande influência e visibilidade política, que defendia uma postura de insensato radicalismo, próxima daquelas que só alguma extrema-esquerda proclamava pelas ruas e paredes do país. Uma das "peças" do meu argumentário terá sido decisiva para frear o fulgor extremado do militar: ele iria ficar praticamente isolado no seio da "coordenadora" e, a partir dessa sua tomada de posição, deixaria de ter a menor audição futura. Para além do facto dele ir atuar "sem rede", porque a sondagem que tínhamos feito, no âmbito da "coordenadora" do MFA na Força Aérea, era amplamente desfavorável à sua posição. Para o que agora interessa, o nosso homem nunca chegou a suscitar a questão e eu tinha feito o que me tinha sido solicitado, que, neste caso, coincidia precisamente com o que eu pensava.

Uma nota final. Esse militar, depois dessa deriva radical que ainda duraria alguns meses, viria a reverter por completo a sua atitude política e, após 1975, surgiria ligado, de uma forma quase limite, a algumas ações muito "complicadas", tendo desaparecido totalmente de cena.

O 25 de abril e a política externa


Texto que serviu de base à intervenção que ontem fiz, durante o painel "Portugal no Mundo", durante o Congresso "A Revolução de Abril", promovida pelo Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa:

A tentação de afirmar que tudo mudou com o 25 de abril é muito forte no que toca à política externa. E isso tem uma explicação fácil: é que, contrariamente à lenta maturação de outras mudanças que ocorreram na sequência da Revolução, no plano internacional, quase de um dia para o outro, a imagem de Portugal sofreu uma forte alteração, passámos a ser olhados de uma forma diametralmente oposta à véspera. Da ditadura obsoleta, politicamente isolada, sustentáculo de uma presença colonial perdida historicamente no tempo, emergiu uma súbita esperança democrática e de libertação, feita de alegria florida nas ruas. 

Até o surgimento das forças armadas a titular uma revolta democrática, apenas meio ano depois do Chile, constituiu uma novidade simpática e promissora.Vieram depois algumas dúvidas, o Ocidente tremeu com o curso político em Lisboa mas, para o bem e para o mal, visto das várias perspetivas, Portugal nunca mais foi igual sob olhar do mundo.

Como a Ucrânia nos prova nos dias de hoje, tal como Cuba o atestou nas últimas décadas, um país não pode fugir à sua geografia e tem de acomodar as suas ambições ao contexto em que está inserido. Assim aconteceu com o Portugal depois de abril. 

Eu costumo afirmar que o facto de não ter surgido, na convulsão política pós-Revolução, uma séria proposta no sentido de Portugal abandonar a NATO representa como que a consciência subliminar de que o país tinha condicionantes geopolíticas a que não podia escapar. Se a leitura que Moscovo fazia deste equilíbrio marcou ou não a atitude do PCP, com Angola à mistura nesse contexto, essa é uma questão que fica para os historiadores. Os factos, porém, são incontroversos: aquela que era a principal âncora geopolítica do país desde o pós-guerra não foi posta seriamente em causa, não obstante alguns apelos radicais surgidos aqui ou ali. 

Quero com isto dizer que a nossa geografia prevaleceu. Mas essa geografia também mudou. Umas vezes mudou ela própria e nós mudámos com ela, outras vezes mudou porque nós próprios fomos sujeitos dessa mudança.

A nossa geografia mudou no plano físico, com o fim das fronteiras e com os acessos rodoviários e aéreos a tornarem-nos menos periféricos. O choque de modernidade que isso teve num país até então isolado, fora das rotas de vizinhança do centro do continente, foi uma aventura silenciosa de que já ninguém tem verdadeira consciência.

A nossa geografia mudou fortemente no plano político, com a integração europeia a determinar um quadro de responsabilidades que nos alargou os horizontes e nos tornou parceiros de um projeto mais vasto, eticamente sustentado e com uma coerência global que incorporámos na nossa própria matriz de afirmação externa.

Mas mudou também na nossa atitude no quadro multilateral, "ajudados" pela aventura voluntarista por Timor, que determinou uma postura mais ativa sobre direitos humanos. E, noutra dimensão, criou-nos uma dinâmica própria em matéria de cooperação para o desenvolvimento. Por tudo isto chegámos, por três vezes e não por acaso, ao Conselho de Segurança da ONU, organizámos duas cimeiras Europa-África, temos um Alto Comissário para os Refugiados, tivémos a liderança da Aliança para as Civilizações, criámos as condições para que um português chegasse à chefia da Comissão Europeia.

E, também no campo multilateral, soubémos exportar segurança, com intervençoes de grande mérito tituladas pelas nossas Forças Armadas envolvidas em operações de paz. Essa nossa nova "geografia de segurança", que vai para além da NATO, se apoia na Europa e tem decorrências na luta anti-terrorista, é um terreno da maior importância, um teste ao nosso sentido de responsabilidade internacional

A nossa geografia mudou também no plano humano, ao ter sido possível, a partir do 25 de abril, estabelecer um modelo de enquadramento democrático da nossa diáspora, garantindo-lhe um papel na vida política interna e procurando tomá-la um ator da nossa dimensão externa. E, mais tarde, de país emissor de fluxos migratórios, tornámo-nos recetores de imigrantes, convertemo-nos num "melting-pot" onde a Europa de leste veio encontrar as muitas Áfricas, a que se somou o Brasil mais a China. Embora alguns não saibam, isto também é política externa e devo confessar que tenho um imenso orgulho em que o Portugal de hoje seja considerado positivamente lá fora, pelo modo como acolhe os mundos que estão do outro lado desta casa, do largo de S. Domingos ao Martim Moniz e à Mouraria.

A nossa geografia também mudou muito no tocante ao nosso relacionamento bilateral externo. Mudou com a normalidade com a vizinhança imediata, de Espanha a Marrocos, com a descoberta de uma vocação mediterrânica que levou à fixação de um interessante laço com um mundo islâmico que vê em nós um interlocutor atento.

Mas essa nova geografia, que também pode ser considerada 'de afetos" conduziu, desde logo, ao estabelecimento de um quadro institucional prioritário com Estados que falam a nossa língua e com os quais tentamos reconduzir a uma cooperação aquilo que foi uma longa e traumática relação colonial. Mas, igualmente, reforçámos o nosso relacionamento com Estados e regiões com os quais vivíamos a uma distância criada pela ditadura e pelo colonialismo, do centro e leste europeus à África e bastante mais além. Foi essa nova postura que nos conduziu à normalidade do relacionamento com a China, mas também com a Indonésia e com a Índia.

Mas, como disse no início, nunca saímos do Atlântico, embora apenas na retórica tenhamos uma política nacional para esse espaço. Talvez por isso, porque o Atlântico é uma constante muito forte que nos sobredetermina, foi por aí que surgiram alguns patéticos seguidismos, que devemos tomar à conta de meros episódios sem grande significado. Mas este é um quadro que mantemos como estruturante para a preservação dos nossos interesses estratégicos. E tudo indica - mas assumo que esta é uma perspetiva pessoal - que, sem abandonar o investimento fundamental no projeto europeu em que nos empenhámos, sem descurar a CPLP e outras dimensões que derivam de laços muito particulares, como é o caso dos que nos prendem à América Latina, temos todo o interesse, como país, em saber recolocar-nos, com sentido das proporções, no centro da nova relação transatlântica que se desenha.

Termino com uma banalidade, reafirmando que, graças ao 25 de abril, somos hoje um país "orgulhosamente acompanhado". Por isso, quando um dia voltarmos a ter uma política externa, depois do interlúdio de silêncio internacional que estamos a atravessar, Portugal pode e deve, com realismo e medida ambição, continuar a aproveitar as portas que, também para o mundo, abril nos abriu.