segunda-feira, 31 de março de 2014

Coisas de casal

Tinhamos convidado o casal para jantar. Ele era bastante mais velho do que ela, mas ambos eram muitos divertidos. Tinham feito um simpático jantar quando chegámos àquele posto diplomático, que nos permitiu conhecer, numa só ocasião, uma imensidão de gente interessante. Tinham uma moradia deslumbrante e recordarei para sempre as dezenas de convidados à volta de uma piscina interior iluminada, com uma vista magnífica sobre a cidade. Eram gente desafogada na vida, ambos profissionais com carreiras estabilizadas, cada um vindo de anteriores casamentos.

Para o jantar de retribuição que organizámos convidámos alguns amigos que sabíamos comuns e outros que com eles eram compatíveis. Mas a ocasião era em honra desse casal. Por isso, não foi sem alguma insatisfação que, na antevéspera, recebemos a indicação de que ele viria sozinho ao jantar. Mas, como há muito aprendi, "o que não tem remédio remediado está".

À hora do jantar, o convidado de honra não aparecia. Não era o estilo habitual dele, homem rigoroso, educado e muito atento a pormenores. Chegou, finalmente, com mais de meia hora de atraso.

- Então, já sei que a sua mulher não pôde vir, lancei eu para início de conversa, quando o fui receber à porta.

- Pois é! Aliás, é precisamente por causa dela que chego atrasado, pelo que lhe peço desculpa.

E, antes que eu lhe dissesse que isso não tinha a menor importância, "deixou cair", em tom de nota lateral, secundária:

- É que me atrasei a assinar os papéis de divórcio, papeladas, você sabe como é...

Não sei, mas imagino. 

domingo, 30 de março de 2014

Os encontros da política

Ontem, passei grande parte do dia em "trabalhos" de uma estimável Confraria de enófilos e gastrónomos. Como sempre acontece nestas ocasiões, na mesa onde abanquei fiz conhecimento com pessoas que nunca antes tinha cruzado. A conversa foi solta, como não podia deixar de ser, mas teve a saudável caraterística de fugirmos, com naturalidade, às temáticas potencialmente mais conflituais: não se falou de política. 

Evitar abordar temas de política e de religião - noutros meios acrescentar-se-ia à lista a saúde, questões de dinheiro e opinar sobre pessoas ausentes - é um ato de bom senso a qualquer mesa, quando na presença de gente que não conhecemos ou conhecemos menos bem. Há pessoas mais sensíveis face às suas convicções e uma ocasião pode ficar estragada se não soubermos preservar o respeito estrito pelo que os outros pensam. Já assisti a cenas bem desagradáveis neste domínio e, em duas ou três ocasiões, eu próprio cometi erros de que me arrependo.

Outras ocasiões, contudo, convocam precisamente a identificação social da opinião politica. Imediatamente após o 25 de abril, cruzei, numa rua de Vila Real, um colega de liceu que já não via há muitos anos. Demos fortes abraços, lembrámos algumas histórias antigas e perguntámos por conhecidos comuns. Foi uma daquelas conversas típicas destes reencontros, que têm substância para os primeiros 10 a 15 minutos, mas que se esgotam depois rapidamente, por falta de temas, devido ao facto dos mundos de cada um terem quase sempre limitados pontos de contacto.

Convém lembrar que se viviam, por esses dias, tempos ideológicos muito intensos. Muitos portugueses tinham despertado subitamente para a coisa política, assumindo-se face ao vasto leque de opções partidárias que a Revolução abrira. Esse meu amigo não escondeu a sua curiosidade sobre o lugar ideológico onde eu "estaria" e perguntou:

- Olha lá! E nas políticas, por onde andas? Mais às esquerdas ou mais às direitas?

Achei divertida a "fórmula" utilizada, tendo respondido com a verdade. De facto, logo concluímos que não andávamos pelas mesmas lateralizações ideológicas. Mas continuámos bons amigos.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Tua

Há poucas horas, ao passar pelas obras da barragem na foz do rio Tua, que tanta controvérsia provocaram há cerca de dois anos, lembrei-me de um episódio comigo ocorrido em São Petersburgo, em Julho de 2012, aquando da reunião do Comité do Património Mundial encarregado de discutir a compatibilidade do prosseguimento daquela obra com o estatuto de "património mundial" do Alto Douro Vinhateiro. 

A mim, como embaixador junto da UNESCO, cabia-me defender naquela reunião, com base nas instruções recebidas, a continuidade da construção da barragem. Para tal, muni-me de todos os elementos técnicos disponíveis, tendo solicitado à empresa proprietária da barragem que enviasse à reunião um especialista qualificado, que me pudesse apoiar nas "alegações", durante o longo debate que então teve lugar. Era importante podermos ser totalmente transparentes sobre os trabalhos a executar.

Na altura em que a questão começou a ser discutida, pedi a esse técnico para se sentar a meu lado. Ao longo das minhas intervenções, solicitei-lhe esclarecimentos que me permitissem responder a questões colocadas, algumas delas de elevada tecnicidade. O ambiente era tenso, nada estava adquirido à partida, a posição de algumas entidades da UNESCO, bem como de certas delegações nacionais, por mais de uma vez ameaçou levar o sentido final da decisão para áreas distintas daquelas que eu tinha a obrigação de preservar. 

É nessas ocasiões negociais que o bom humor nos ajuda a "dessetressar". A certo ponto, uma das questões suscitadas prendia-se com o impacto visual da barragem. As alternativas não eram muitas, para além da possível modulação da cor da barragem. Foi então que, com um ar sério, e como se quisesse jogar essa hipótese no terreno negocial, me voltei para o qualificado técnico que me acompanhava e perguntei:

- Diga-me uma coisa, senhor engenheiro: e se avançássemos com a hipótese da barragem ser em vidro grosso, transparente, com a possibilidade de se verem os peixes?

O engenheiro achou que eu tinha ensandecido, arregalou os olhos, temeroso que a minha "loucura" se transformasse em proposta, e balbuciou:

- Em vidro, senhor embaixador?! Isso não pode ser! O vidro não aguenta a pressão da água, a barragem tem de ser em cimento!

Lá expliquei que não falava a sério... Com a graça, diminuí a tensão que nos atravessava e continuei a "batalha", que acabou por "sorrir às nossas cores", como se diz na bola.

A verdade mutável

Quantas pessoas, ao ouvirem ontem o ministro da Presidência afirmar que "não haverá reduções adicionais do rendimento dos reformados em Portugal", acreditaram, por um segundo, que isso pudesse corresponder à realidade? 

A palavra do Estado está hoje gasta, como nunca esteve, em Portugal. Ninguém, com um mínimo de bom senso, concede o menor crédito a uma garantia dada pelo primeiro-ministro ou por qualquer ministro, porque o justificativo da urgência financeira tem as costas largas para os transformar, dia após dia, em seguidores fiéis de Pimenta Machado, o antigo presidente do Vitória de Guimarães, que consagrou a expressão "o que é verdade hoje pode ser mentira amanhã".

Não sei se este governo se dá conta de quanto isso prejudica a imagem de seriedade do Estado, que lhe cumpre gerir. Podemos imaginar que isso lhe importe pouco, porquanto tem dado mostras de que a integridade da palavra pública não lhe interessa muito. Mas os efeitos deste comportamento, a prazo, são altamente danosos na relação de confiança que é essencial existir entre o Estado e os cidadãos. Hoje, todos nos "defendemos" do Estado, que sentimos ocupado por pessoas que detestam a máquina pública e, por essa razão, não têm o menor pejo em contribuir para o seu desprestígio.

Se pensarmos bem, chegou-se ao cúmulo de uma relação contratual entre dois privados, tutelada pela lei e gerida pela força dos tribunais, ser hoje bem mais sólida do que a relação que o Estado, suposto defensor do interesse comum, mantém com os seus cidadãos. Se há um objetivo que uma qualquer alternativa política deve impor a si mesma será tentar restituir aos cidadãos um mínimo de seriedade, de respeito pela palavra dada, enfim, de ética pública.

Diplomacia irónica

A discussão ia tensa, naquela reunião na União Europeia, nos anos 90. O embaixador belga, colocado em minoria numa questão que considerava essencial, reagiu com firmeza:

- Tant que la Belgique soit la Belgique, on n'acceptera pas ça!

O sorriso com que aquele seu colega, de um país vizinho, useiro da mesma língua, ouviu a frase, prenunciava uma resposta à altura. E ela veio, mordaz, jogando implicitamente com a conflitualidade interna belga, que ciclicamente ameaça a unidade do país:

- Alors, c'est pas grave, ça va pas prendre beaucoup de temps...

quinta-feira, 27 de março de 2014

A notação das agências

Há pouco, enquanto redigia um texto para um jornal, lembrei-me de uma história, que tinha esquecida na minha memória. Ela aí vai.

Estávamos em julho de 2011. O novo governo português havia tomado posse há cerca de duas semanas. O "memorando de entendimento" com a "troika" estava no início do seu processo de implementação. As agências de notação, reagindo ao anúncio das primeiras medidas, haviam, umas após as outras, e para surpresa de muitos, levado a cabo um "downgrading" de Portugal.

Um dia, na minha qualidade de embaixador em Paris, "puxei da pena" e decidi publicar no mais importante diário económico francês, o "Les Echos", um artigo (leia aqui a versão original e aqui a tradução) em que contestava as agências e procurava, entre outras coisas, sublinhar o que me parecia ser a contradição entre o início do processo de ajustamento e a sua decisão de, nesse momento, baixar a classificação do país, precisamente na véspera de uma ida aos mercados para "reciclar" a nossa dívida. Era uma época algo angustiante, em que eu ia dizendo mais ou menos o mesmo a todas as televisões e rádios a que conseguia fazer chegar a voz oficial portuguesa em França. Sem pedir quaisquer instruções a Lisboa, diga-se.

Num desses dias, fui desafiado a debater numa importante rádio e televisão noticiosa - já não sei se foi a BFM ou a LCI - com um representante da "Standards & Poor's". Por um instante, hesitei em aceitar o convite, dada a dúvida de estar à altura da tecnicidade do debate. Mas aceitei o risco, porque temia que a "falta de comparência" deixasse o homem da agência sem contraditório. O debate acabou por ser sereno e civilizado. A certo passo, confrontado por mim com a questão do facto de Portugal estar a cumprir precisamente aquilo que a comunidade internacional lhe pedira e a estranha atitude das agências de notação, o meu interlocutor foi muito claro: "É evidente que nós achamos positivo que Portugal esteja a corresponder, desde a primeira hora, àquilo que o memorando exige. Mas não nos compete avaliar a vossa vontade política e mesmo os eventuais efeitos, a prazo, da "receita" que vai ser aplicada ao longo dos próximos três anos. Nós avaliamos as consequências imediatas das medidas que agora vão ser postas em prática na vossa economia. E essas medidas, indo ou não no caminho certo, têm agora um efeito recessivo, porque contraem o mercado interno e afetam o crescimento económico. Esse é o mercado que avaliamos".

A partir desse dia, passei a perceber melhor as agências de notação e a fazer uma leitura um pouco mais sofisticada dos seus "humores".

quarta-feira, 26 de março de 2014

A diplomacia do Brasil

O "Público" insere hoje um artigo de Adriana Erthal Abdnur sobre a política externa brasileira, que julgo deveria merecer alguma reflexão. Nesse texto, é sublinhado que o Brasil se afasta cada vez mais de uma agenda "ocidental", de que o caso mais recente é a sua rejeição das sanções à Rússia, por virtude da intervenção na Crimeia. Essa posição, na perspetiva da articulista, culminaria uma deriva "sulista" que, cada vez mais, marca a agenda do Itamaraty.

Há muitos anos que reflito sobre isto e digo aos meus amigos brasileiros que eles estão a cumular dois obstáculos à sua mais do que justa reivindicação para acederem a um lugar de membro permanente do Conselho de Segurança da ONU.

O primeiro obstáculo vem dos países do Norte. O alargamento do CSNU a novos países do Sul (consideremos "do Sul" a China e a Rússia) só poderá ter lugar se e quando tal inclusão se fizer de molde a não desequilibrar o atual sentido tendencial de voto no seio do Conselho. Para ser mais claro: só entrará para o CSNU um país do Sul que, no limite, dê garantias sólidas de que manterá uma orientação pelo menos neutral face à conjugação "ocidental" de interesses representada pelos EUA, Reino Unido e França. É injusto? É, mas é assim. Ora, a "excessiva" coreografia da diplomacia brasileira, que já deu sinais "negativos" quanto à questão nuclear no Irão e agora se indicia crítica na sensível questão ucraniana, funciona em claro desfavor das ambições do Brasil.

Mas o Brasil tem também "amigos de Peniche" nos restantes membros do Conselho. Rússia e China estão muito pouco interessados em deixar de ser os únicos a "representar" o Sul neste âmbito, com tudo o que significa de influência junto do "grupo dos 77" - para simplificar, os antigos "países não alinhados". Moscovo pode ter ficado grata com o gesto de Brasília, mas isso nem sequer lhe garante a boa vontade de Pequim. Talvez antes pelo contrário.

Não obstante o esforço voluntarista feito na elevação da sua voz diplomática um pouco por todo o mundo, o trabalho notável na Organização Mundial de Comércio e outras agências multilaterais, a sua constante atenção às operações de paz da ONU, o seu cuidado com as diversas agendas regionais (América do Sul, mas também Médio Oriente e outras), creio que o Brasil tem hoje à sua frente alguns obstáculos sérios nesse seu objetivo de ganhar a consagração institucional suprema à escala global. 

Um amigo diplomata brasileiro, muito crítico da atual linha política, dizia-me, já há anos, que o Brasil mantinha uma "diplomacia adolescente" - pela sua excessiva ambição, pela sua frequente precipitação, pela ânsia de pretender "ir a todas". Ele era capaz de ter alguma razão, embora eu considere que a "juventude" não é nada que se não cure com o tempo.

E, já agora, uma nota de sentido egoísta: Portugal tem tudo a ganhar e nada a perder com uma "subida" do Brasil na escala global das nações. Um dia posso explicar isto com mais pormenor, mas parece-me uma evidência.

Um debate europeu?

Em tese, percebe-se a ideia há dias adiantada pelo presidente da República no sentido da campanha para o Parlamento europeu dever ser aproveitada para um debate sereno sobre os caminhos futuros da Europa. Num mundo ideal, assim seria. Mas o chefe do Estado não desconhecerá que a temática europeia, em muitos aspetos, faz já hoje parte da política "interna" e que há uma imbricação quase inevitável entre aquilo que é do debate europeu e aquilo que releva da nossa política nacional. Eu diria mesmo mais: nunca como hoje as duas coisas estiveram tão ligadas e, entre nós, o processo de ajustamento ajudou a "meter tudo no mesmo saco". Se acaso os partidos da oposição à atual maioria se resignassem a seguir o conselho do presidente, estariam a desperdiçar um ensejo para contestar, precisamente, o que tem sido a atitude (e reparem que eu não digo "a política") dessa mesma maioria no terreno europeu, com consequências de grande monta no plano das políticas públicas internas. Ora isto é impensável, pelo que a campanha para as eleições europeias não pode senão ser um capítulo mais da luta política interna, tentando dar ao eleitorado uma primeira perspetiva daquilo que terá de ser decidido em 2015. Ou mesmo antes desse ano, se o chefe de Estado quiser entender dever tirar ilações, também elas extensivas mas porventura clarificadoras, daquilo que se vai passar no dia 25 de maio. O país do pós-troika ficaria bem melhor servido se os nossos credores externos pudessem beneficiar, desde já, de uma clarificação, que se torna urgente, do nosso quadro político. Para ser mais claro: deveria haver eleições legislativas tão cedo quanto possível. Recorde-se que o argumento da importância do cumprimento da legislatura foi quebrado pelo próprio presidente em julho do ano passado, quando estimulou a patética "semana do consenso", com a ideia de eleições antecipadas em meados deste ano. Se os resultados de 25 de maio mostrarem que há uma inversão clara na vontade dos portugueses, a atitude mais saudável seria a convocação de eleições legislativas. Digo eu, não sei!, como se diz na minha terra.

terça-feira, 25 de março de 2014

"Ni-ni"

A maioria dos observadores das eleições municipais francesas coloca o bom resultado obtido pelo Front National como o mais preocupante sinal do estado de espírito do eleitorado.

Não considero irrelevante esse facto, mas acho muito mais perigosa a deriva que se está a verificar no seio da direita democrática, representada pela UMP, que expressamente rejeita respeitar a "regra republicana" de aconselhar o voto, nos círculos onde os seus candidatos não possam ser eleitos, no candidato da área democrática que melhor colocado estiver para derrotar o representante da extrema-direita. 

A direita francesa confirma assim que passou definitivamente a não respeitar uma regra não escrita da política democrática desse país, que vigorou desde o fim da ocupação nazi e que, pela primeira vez, foi posta em causa pela liderança da UMP, titulada por Jean-François Copé, nas eleições legislativas de 2012. Para a direita, passa a valer uma linha já conhecida por "ni-ni" ("ni Front National, ni "front republicain" "). E não deixa de ser significativo que Copé seja agora seguido nesta orientação pelo antigo PM François Fillon, que, em 2012, usou uma formulação menos "neutral". Ao colocar-se numa equidistância entre a esquerda e a extrema-direita, como que equiparando-as em dignidade política, os conservadores franceses demonstram estarem crescentemente reféns de um eleitorado cujo "mainstream" se deslocou bastante para a direita. E isto não é uma boa notícia.

Termino lembrando duas coisas: que a esquerda apelou, em 2003, ao voto maciço no candidato da direita às eleições presidenciais, com vista a derrotar Jean-Marie Le Pen, e que também, no próximo domingo, a mesma esquerda apelou já a que o seu eleitorado vote nos candidatos da UMP, sempre que essa seja a forma de afastar candidatos do Front National. 

Impostos

A doutora Teodora Cardoso sugeriu a possibilidade de vir a ser criada uma nova imposição fiscal, desta vez sobre os levantamentos bancários, como fator estimulador da poupança. Soma-se assim à ideia de Vitor Bento sobre o assunto, embora este apenas limitasse o imposto aos levantamentos no Multibanco.

E que tal um imposto sobre a circulação de pessoas físicas, a cobrar por cada vez que saiamos à rua? Ou um selo anual de circulação? Que tal um concurso de ideias sobre novos impostos possíveis? Com a atribuição de automóveis aos mais criativos?

Em tempo: a "caricatura" da proposta da doutora Teodora Cardoso que acima fiz simplifica demasiado a substância daquilo que, de facto, foi por ela sugerido. Mea culpa.

Nação rebelde

Ao final da tarde de ontem, numa sala pejada, José Manuel Félix Ribeiro lançou o seu livro "Portugal - a economia de uma Nação Rebelde". Jorge Sampaio fez a apresentação.

Foi bonito que a data de 24 de março tenha sido escolhida para este lançamento. Trata-se de um dia que diz muito a uma certa geração portuguesa que lutou contra a ditadura. Em 1962, foi a tentativa de comemoração desse "dia internacional do estudante" que lançou as bases para a "crise" que incendiou a universidade portuguesa, sendo líder da RIA (Reunião Inter-Associações) Jorge Sampaio. Anos mais tarde, em 1969, José Manuel Félix Ribeiro seria uma das figuras mais em evidência nas lutas académicas de então. Foi bom vê-los juntos, numa sala onde estavam muitas caras comuns a ambos os tempos.

O livro é excelente, com leituras inovadoras sobre a inserção internacional de Portugal, dissecando sem meias palavras a situação que vivemos e lançando perspetivas, por vezes ousadas, sobre as saídas que o país deve escolher. 

segunda-feira, 24 de março de 2014

José Sócrates na TV

Só há pouco vi a entrevista feita a José Sócrates por José Rodrigues dos Santos, que altera de forma muito substancial o modelo plácido e de mero "compère" que vinha sendo utilizado pela sua parceira habitual de programa - modelo esse, aliás, similar àquele que é utilizado para os espaços de intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa, de Marques Mendes, de Morais Sarmento, de António Vitorino, de Manuela Fereira Leite, de Augusto Santos Silva, de Francisco Louçã ou de Bagão Felix.

Acho que a RTP merece ser felicitada pela introdução do contraditório na conversa, que a torna muito mais animada, mais viva, mas também mais exigente para o entrevistado e interessante para o espetador. É claro que alguns dirão que aquele espaço não é, em rigor, um espaço de entrevista, mas um mero contraponto para um comentário político, pelo que a fixação da agenda discursiva é da responsabilidade essencial do titular do programa. Pode ser que assim seja, mas acho que todos têm a ganhar muito mais com o prosseguimento deste modelo. Desde logo, o jornalismo, que está praticamente ausente dos outros momentos de comentário. E, depois, o próprio José Sócrates, que é estimulado a prestações mais afirmativas e menos complacentes com a sua "narrativa", o que lhe oferece uma oportunidade para mostrar o seu espírito combativo.

Resta-me uma dúvida: como vão passar as ser as "conversas" com Morais Sarmento, que a RTP "inventou" para equilibrar politicamente a contestada presença de Sócrates? E será que os outros interlocutores televisivos de políticos "na reserva" vão aprender com a excelente lição dada por Rodrigues dos Santos?

Em tempo: tinha-me "esquecido" que, neste país de "prós e contras", o tema Sócrates é um catalizador de comentários contrastantes, como o Acordo Ortográfico, as touradas ou a República.

Gastronomia

O leitor deste blogue não deve fazer ideia do que é a Agavi, mas é pena. Trata-se de uma interessante associação empresarial sem fins lucrativos, criada no Porto, destinada à promoção da gastronomia e vinhos, produtos regionais e biodiversidade. Desde a fundação da Agavi, em outubro de 2010, que integro o seu Conselho Superior, presidido pelo Doutor Daniel Serrão. Reuniremos no próximo dia 27 a sua assembleia geral.

Nesta jornada nortenha em prol das atividades do gosto, irei, dois dias depois, estar presente como "confrade de mérito", no "capítulo da Primavera" da Confraria dos Enófilos e Gastrónomos de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Carrazeda de Ansiães, cuja exigente "agenda de trabalhos" acabo de receber, subscrita pelo respetivo "Diretório de Notáveis".

Em contraponto com o post anterior, fica feita a prova de que o trabalho não é incompatível com atividades cuja dimensão lúdica se cruza com a promoção de valores de manifesto interesse cultural.

Responsabilidades

Há dias, ao aceitar mais um desafio profissional, que me obrigará a mais algumas (e, desta vez, mais longínquas) viagens, a acrescer às várias que já teria de fazer por virtude dos compromissos que tenho assumidos para os próximos anos, dei comigo a pensar que, de facto, esta minha atípica "reforma" está a ser bem mais movimentada do que alguma vez poderia pensar. Alguém sabe onde se vendem horas?  

domingo, 23 de março de 2014

Adolfo Suárez (1932-2014)

Morreu Adolfo Suárez. A Espanha ficou a dever-lhe uma importante fatia da sabedoria com que foi pilotada a transição do franquismo para a democracia. Como muitos personagens "de charneira", Suárez nunca se tornaria numa figura consensual no seu país. O seu mandato não foi pacífico, alguma direita e setores militares contribuíram para o fim do seu período como "presidente del gobierno", parte substancial da esquerda nunca o apreciou, não obstante ter sido ele quem correu o risco, então apreciável, de decidir legalizar o Partido Comunista, colocando assim termo a um tabu que dividia as "duas Espanhas". Por mim, recordarei sempre a postura de quem não cedeu, naqueles segundos dramáticos da "tejerada", à berraria do golpismo: a sua atitude de apoio a Gutierrez Mellado, com risco da própria vida, desenharam-lhe um lugar na História da Espanha democrática.

Patrões

Este fim-de-semana trouxe a novidade de uma carta de antigos presidentes da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP) em que é contestada a adesão do atual titular do cargo ao "manifesto" sobre a reestruturação da dívida pública portuguesa.

Este dissídio entre "patrões dos patrões" é uma novidade, mas não é uma surpresa. Com efeito, já se suspeitava que a linha seguida por António Saraiva, com origens muito diferentes das de todos os seus predecessores, não fazia a unanimidade destes, nomeadamente pelo seu comportamento no quadro da concertação social ao longo dos últimos anos. O "manifesto" deve ter sido a gota de água que fez transbordar o copo.

Quaisquer que venham a ser as consequências deste conflito para o movimento patronal - e não é de excluir que isto possa prenunciar uma qualquer "revolta" interna -, trata-se de algo bastante curioso, num meio pouco dado à exibição de clivagens.  

sábado, 22 de março de 2014

Metanoia

Hoje e amanhã estarei presente numa reunião da Metanoia - movimento católico de profissionais, convidado para proferir hoje uma conferência sobre o tema "A Europa dos cidadãos: passado, presente e futuro", intervindo amanhã num debate conduzido por Maria Flor Pedroso e Jorge Wemans. 

Olhar o mundo

Tive um grande gosto de ser hoje o primeiro convidado da nova fase do programa "Olhar o mundo", da RTP, desta vez a cargo de António Mateus. 

A questão russo-ucraniana e as reações ocidentais suscitadas, as eleições presidenciais na Guiné-Bissau e a possível entrada da Guiné Equatorial na CPLP foram os principais temas abordados. Ainda houve tempo para curtos apontamentos sobre as ameaças às liberdades na Turquia, a profunda crise na Venezuela, os equilíbrios nas eleições municipais francesas, a crise diplomática entre os países do Golfo, o agravamento da situação interna na Líbia, o modo como a política externa americana afeta a imagem do presidente Obama, a evolução recente do processo político em Moçambique e até a tragédia do avião malaio.

Ver o programa aqui.

Debate sobre a Europa

Foi uma conversa interessante aquela que ontem tive na Antena 1, lado-a-lado com o economista João Ferreira do Amaral, sobre os temas que ocuparam o último Conselho Europeu.

Pode ouvir o programa aqui.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Periscópio

"É Periscópio!" dizia o jovem da mesa ao lado, pelo telefone, ao amigo, pretendendo identificar o bar onde arrulha, com uma pequena, desde há minutos.

Logo levou, da nossa mesa, um berro corretor: "Procópio!" A educação do "jeunisme" atual nem o levou a agradecer. Mas lá corrigiu, ao amigo: "Parece que é Procópio!"

Parece?! Quem lhe atasse um arado!

Em tempo: se se apressarem ainda o apanham por aqui...

Ainda o "manifesto"

Já aqui disse o que pensava sobre o "manifesto" que propõe a reestruturação da dívida pública portuguesa. É um documento corajoso, deve ser refletido, embora eu me interrogue sobre a sua oportunidade.

Dito isto, achei menos bem o surgimento de outras 74 personalidades estrangeiras em apoio ao documento. Para quê? Para mostrar que também "lá fora" há quem tenha ideias idênticas? Isso era natural. Estou certo que os opositores ao "manifesto", se assim o quisessem, poderiam agregar a opinião de outros tantos "sábios", dizendo precisamente o contrário. Os economistas são como os advogados: há opiniões para todos os gostos.

A importância do "manifesto" era precisamente ser um documento português, reunindo personalidades de valia incontestada, por forma a ser visto "lá fora", pelos nossos credores, como traduzindo uma opinião qualificada nacional, de largo espetro, a qual, dada a expectável evolução da situação política interna, poderá vir a ter consequências na atitude de um futuro governo face ao problema. Querer concitar apoios externos declaratórios para o texto parece-me transparecer uma falta de confiança menos digna da coragem que o ato original revelou. Não havia necessidade...

quinta-feira, 20 de março de 2014

Pacto para o investimento

Transcrevo, de seguida, o texto "Pacto para o investimento", que hoje publico na revista "Sábado", que me pediu, como a várias outras pessoas, uma "ideia" para o país:

"Já não é tempo de milagres. A vida dos portugueses só pode melhorar se o país puder criar mais riqueza. Limitado o endividamento, circunscritos os fundos comunitários, apenas uma injeção de investimento produtivo pode funcionar. Para tal, há fatores que não dependem de nós, porque derivam do quadro externo em que nos interessa manter integrados. Outros decorrem da eventual coragem dos agentes políticos em levar à prática o interesse coletivo, ousando afrontar os poderes das corporações, dos lóbis e da rua. 

A capacidade de rutura da classe política portuguesa é reconhecidamente escassa. O conúbio entre alguma representação institucional e certos interesses, do parlamento às autarquias, apresenta aos potenciais investidores um país que, não obstante fantásticos avanços, tem vastas zonas de atraso comportamental.

É urgente gerar entre nós um pacto social para relançar o investimento produtivo, desenhar-lhe rapidamente os contornos – na burocracia, na justiça, na estabilidade fiscal, no apoio à qualificação, no combate à corrupção e ao “arranjismo”. A sociedade civil, que teve coragem para pôr termo ao tabu da dívida, tem de ser capaz de forçar um choque de realismo, apresentando às forças partidárias uma agenda para a modernidade da sociedade e da economia. Para além dos “suspeitos habituais”, há que envolver nela os bancos, as universidades e a comunicação social. Quem tem coragem para avançar?"

Herman José

Herman José fez 60 anos. Todos lhe devemos algumas das nossas melhores gargalhadas. A vida deste país seria muito mais triste sem ele. E isso não é coisa pouca. É uma figura tão genial que até lhe perdoamos alguns registos de facilidade, bem como um anseio quase obsessivo da consensualidade, que às vezes desgostam. Mas Herman José é muito mais do que isso. E, até agora, é insuperável. Parabéns, Herman, vai ver que é agradável ser sexagenário, palavra que, contudo, começa bem mas acaba mal...

quarta-feira, 19 de março de 2014

Lembrança

Ontem, numa esplanada na Foz, no Porto, lembrei-me de uma frase do meu pai. "Exilado" em Vila Real desde 1946, viveu por lá uma vida bem feliz, por mais de seis décadas. Mas nunca o abandonou a saudade do mar, da foz do rio Lima que o viu crescer, dessa Viana do Castelo que para ele funcionou como eterna âncora afetiva. "Gostava de acordar todas as manhãs numa casa com vista para o mar", dizia-nos, às vezes, embora soubéssemos que a ele, já transmontano de coração, far-lhe-ia muito mais falta a imagem do Marão ao fundo.

Li há pouco que hoje é dia do pai. 

E depois da "troika"

Diz-se, às vezes, que, no nosso país, há conversa a mais e realizações a menos. Talvez seja verdade mas, pelo que me toca, saio sempre mais enriquecido desses exercícios intelectuais, particularmente se neles for possível ouvir atores responsáveis pelas políticas ou observadores atentos da realidade.

Tenho pena de não me ser possível assistir ao debate que, por esta hora, envolve Manuela Ferreira Leite, Bagão Felix, Teixeira dos Santos e Vitor Gaspar, no quadro da excelente iniciativa promovida pelo ISCTE sobre as políticas públicas, olhando já para o período depois do ajustamento. Deve ser curioso...

Hoje à tarde, serei um dos protagonistas de um outro debate. Com Diogo Feio, Pedro Silva Pereira e Paulo Rangel, estarei num painel em que a política europeia será abordada. Tenho esperança que possamos sair um pouco da "espuma dos dias" e ir mais além do mero confronto pré-eleitoral.

Em tempo: foi um debate sereno, muito construtivo, em que cada um de nós teve oportunidade de colocar o essencial da sua experiência. As divergências não foram muitas, embora não tivesse sido unânime a leitura das virtualidades do processo de ajustamento e do modo como o governo atuou e atua no quadro europeu. No essencial, porém, verificou-se uma grande consonância no reconhecimento da necessidade de uma postura interventiva portuguesa no palco europeu, bem como na importância de serem escolhidos como titulares da nossa representação a esse nível personalidades qualificadas. Todos lembrámos Medeiros Ferreira, o homem que criou os 3D da Revolução de abril (Democratizar, Descolonizar, Desenvolver). Só que agora os 3D são outros: Défice, Dívida e Desemprego...

terça-feira, 18 de março de 2014

José Medeiros Ferreira (1942-2014)

Foi-se o José Medeiros Ferreira! Vi-o, pela última vez, numa homenagem que a Casa dos Açores lhe prestou. Na intervenção com que encerrou a ocasião, pairava já um tom de despedida. Mas naquilo que disse esteve a mesma indómita coragem com que lhe víramos afrontar a terrível doença.

Tinhamos previsto fazer, dentro de algum tempo, um "mano-a-mano", numa conferência a dois, sobre "Portugal no Mundo". Seria a reedição de um idêntico exercício que ambos havíamos levado a cabo, a convite da Assembleia da República, sobre "A imagem de Portugal no mundo".

José Medeiros Ferreira, um açoreano que o acaso da vida quis que nascesse na Madeira (uma ironia com que ele brincava), foi uma grande figura da nossa democracia e da intelectualidade portuguesa. Perseguido e expulso da universidade na crise de 62, exilou-se em Genebra, onde fez parte do grupo oposicionista que publicou a revista "Polémica". Para o Congresso Republicano de Aveiro, em 1973, enviou uma "tese" em que prenunciava o modelo de revolta que, meses depois, viria a derrubar a ditadura. Ao lado de António Barreto, viria a juntar-se ao PS, depois de ser obrigado a fazer alguns meses de serviço militar... na famosa 5ª divisão.

Deputado, secretário de Estado e ministro dos Negócios Estrangeiros, viria a revelar-se com um pensamento estratégico de muito rara qualidade entre nós. Foi pela sua mão, num governo de Mário Soares, que Portugal pediu a adesão às Comunidades Europeias. A figura de Sá Carneiro seduziu-o e viria a ligar-se à sua Aliança Democrática, no pequeno grupo dos "Reformadores", uma vez mais com António Barreto, num percurso comum que não se manteria quando decidiu apoiar Ramalho Eanes, na aventura do PRD.

Seria de novo pela mão do PS que iria regressar ao parlamento, onde o cruzei como presidente da comissão de Assuntos Europeus, nos anos que passei no governo. Nunca mais regressaria a um executivo, embora eu pense que o país perdeu bastante com isso, ao não aproveitar o seu grande talento político. Porém, Medeiros Ferreira, que era uma voz que teimava ser independente e livre, tinha uma autonomia de pensamento que era, não raramente, algo incómoda para a máquina partidária.

Medeiros Ferreira foi um historiador de grande mérito, dedicado à História contemporânea e, muito em particular, ao papel dos militares. Professor universitário e comentador político, teve uma forte exposição pública nos últimos anos, nas televisões, nos jornais e na blogosfera, onde era autor de apontamentos de grande argúcia e frontalidade. Era um benfiquista afirmado e deve ter morrido contente por ver o seu clube prestes a regressar aos títulos.

Um dia, tive com o Zé Medeiros uma forte divergência. Com o tempo, soubemos ultrapassá-la, com mútuo garbo. Considerava-me um seu amigo e um seu grande admirador. Vai-nos fazer muita falta na tertúlia do Procópio, para onde nos trazia belas tiradas, que nos animavam as conversas e as ideias. À Maria Emília, deixo um sentido abraço.

Irrelevância

Há dias, ao atentar no discurso de um dirigente político português sobre a Europa, dei comigo a pensar que o atual quadro decisório europeu configura um terreno de crescente dificuldade para a expressão dos interesses próprios do nosso país. Nada que seja uma novidade, mas, durante alguns anos, tentei concordar com quantos não achavam isto importante. Hoje estou mais preocupado.

Os vários interesses nacionais que se projetam em Bruxelas comportam, entre si, uma margem significativa de divergências, por vezes de conflito, que cabe à União tentar conciliar nas suas deliberações. Desde a criação da máquina comunitária europeia, os Estados mais populosos tiveram, com toda a naturalidade democrática, um peso maior nas decisões. Quando Portugal entrou para as Comunidades, o seu voto à mesa do Conselho de Ministros valia precisamente metade do poder decisório alemão. Para a Comissão, a Alemanha podia indicar dois comissários e Portugal apenas um. No Parlamento europeu, o número de eleitos alemães era quatro vezes o nosso.

Era uma relação desequilibrada? Era, mas era gerível. Muitas decisões nos Conselhos de ministros eram então tomadas por unanimidade, a Comissão Europeia vivia uma cultura de “proteção” dos interesses dos países mais pequenos e mais pobres, o âmbito das temáticas em que a Europa intervinha era bem menor e o Parlamento estava longe de possuir os poderes de que hoje dispõe. Além disso, a Europa comunitária de então era um “clube de ricos” com escassos “pobres” para contentar. Eram dias felizes.

Desde então tudo mudou. Dos “doze” de 1986, passámos agora a 28, com um quadro de interesses médios muito mais diverso. A utilização das votações por maioria, com o abandono progressivo da unanimidade, passou de exceção a regra. Com o modelo do Tratado de Lisboa, a Comissão perdeu poderes para o Conselho de ministros, onde o peso demográfico de cada Estado é a matriz central do processo decisório. Os 22 deputados portugueses são hoje uma gota de água no seio dos 736 membros do PE. E serão ainda menos, a partir de Maio.

Portugal tem hoje de operar numa União onde o padrão médio de interesses se afasta progressivamente dos seus e fá-lo com meios de afirmação de poder decisório cada vez mais reduzidos, em termos relativos. Esta é uma questão da maior sensibilidade, porque toca de perto a questão da legitimidade dos dirigentes nacionais perante os respetivos eleitores.

Quando um cidadão alemão ou francês vota para eleger os seus deputados nacionais, está indiretamente a escolher governantes que, à partida, têm garantida uma forte capacidade de intervenção nos Conselhos de ministros da União, porque se acolhem sob o chapéu de países com força institucional própria. Um eleitor português ou grego vai acabar por tomar consciência, um destes dias, de que está a escolher dirigentes que pesam muito pouco, mesmo em assuntos que lhes dizem diretamente respeito, e aos quais pouco mais resta do que a coreografia verbal à entrada ou saída das reuniões europeias, onde o sentido das decisões já está tomado, com ou sem a sua presença. Será por isso é que alguns já lá nem vão?

Artigo que hoje publico no "Diário Económico"

segunda-feira, 17 de março de 2014

Ainda o 16 de março

Há cinco anos, contei por aqui esta historieta, passada em 16 de março de 1974. Valeu-me, à época, comentários menos complacentes de algumas leitoras, como ainda se poderá ler nos comentários então publicados. Porque a idade, aumentando, diminuiu ainda mais o meu tropismo para o "politicamente correto", aqui reproduzo o episódio com quatro décadas, com um imenso abraço àquele que o titula e que, creio, não terá apetência para agora o relembrar. Aqui vai.

O António era um conquistador “nato” ou, como ele dizia, com graça e referindo-se às suas tendências esquerdistas, menos “Nato” e mais “Pacto de Varsóvia”.

Conheci-o em Paris, nos anos 60, onde estudava sociologia e levava uma bela vida, hospedado da cidade universitária, com um cheque mensal enviado pelo pai, um militar da Marinha que a Revolução havia de alcandorar na hierarquia. Vestia-se sempre impecavelmente, tinha um MGB GT que era a inveja de muitos, abancava com nocturna regularidade na barra do Gambrinus, onde espalhava a sua imensa simpatia e charme.

É claro que o facto de ser casado lhe limitava, naturalmente, o espaço de manobra para as aventuras, pelo que necessitava de montar alguns estratagemas para as levar a cabo. O que quase sempre conseguia.

Naquele mês de Março de 1974, ambos estávamos a prestar serviço como oficiais milicianos na EPAM (Escola Prática de Administração Militar), na Alameda das Linhas de Torres, no Lumiar. Um dia, o António pediu a minha ajuda para uma “operação”: telefonar à mulher dele, a meio da manhã, informando-a de que, inesperadamente, tinha ocorrido uma emergência e que ele fora enviado, com outros colegas, para um “exercício militar”, pelo que estaria incomunicável durante 48 horas. Devia acrescentar que era apenas um treino, pelo que não havia qualquer razão para ela se preocupar. Na lógica de uma velha (ainda que contestável, eu sei!) solidariedade masculina, prontifiquei-me a fazer a chamada telefónica.

O plano do António era arrancar cedo para a Ericeira, acompanhado de uma bela pequena, impante no seu MGB. Havia já assegurado, antecipadamente, uma folga no serviço, para que tudo corresse sem falhas. No seu caminho para a Ericeira, passou na Alameda das Linhas de Torres e do que se lembrou? De ir atestar o depósito de gasolina na unidade militar, onde o preço era muito mais barato. Esse era um dos privilégios que ninguém deixava de utilizar.

À chegada à EPAM, um complexo situado onde hoje é uma universidade, o António estranhou ao ver que os grandes portões de entrada estavam fechados, contrariamente ao que era habitual. Buzinou, aparecendo pela guarita a cabeça do sargento-de-guarda, o qual, reconhecendo-o, deixou entrar o MGB.

Só que a vida tem destas surpresas: estávamos precisamente no dia 16 de Março, as tropas fiéis ao general Spínola tinham-se amotinado na noite anterior nas Caldas da Rainha e a EPAM, como todas as unidades militares, estava, desde há horas, de rigorosa prevenção. Como era de regra nestes casos, todos os militares ficavam obrigatoriamente retidos em serviço.

O António já não foi autorizado a abandonar a unidade, recordo-me da sua fúria e do imenso gozo com que alguns de nós, conhecedores do “esquema” que acabara de se esboroar, vimos a pobre e bela amiga do António a ter de sair da EPAM, a pé, com um saco na mão, em busca de um táxi ou de um autocarro.

Por mim, livrei-me de ter de dizer uma mentira à mulher do António. Ele tinha agora um álibi imbatível.

domingo, 16 de março de 2014

Financial Times

Creio que nunca, neste blogue, foi publicado um texto em inglês. Mas, desta vez, decido abrir uma exceção. O "Financial Times", um dos melhores jornais do mundo, famoso pela sua infuência nos mercados e na elite das elites, inseriu, no seu número deste fim de semana, um artigo que, muito provavelmente, fará mais pela promoção dos vinhos portugueses no mundo que muitos "roadshows" que por aí se organizam.

A figura central do texto é João de Vallera, o embaixador português junto da corte de St. James. Ler o que sobre a sua ação surge no artigo é, para um velho amigo, um imenso orgulho e, para a sua profissão, que tão maltratada tem sido, uma saudável "vingança":

João de Vallera, Portuguese ambassador to the UK, and a confirmed enophile. Belgrave Square is one of London’s smartest addresses, giving its name to Belgravia, the rich kernel of one of the world’s richest cities. It is not the natural milieu of scruffy wine writers but, thanks to João de Vallera, the current, unusually wine-minded Portuguese ambassador to the Court of St James’s, we have all been trotting along to number 12 Belgrave Square on a regular basis. The Portuguese embassy is the handsome three-storey stucco mansion on the square’s northwestern corner (the Spanish ambassador lives on the southwestern corner) and so far, this year alone, it has been the setting for a Wine Society event showcasing the wines of Luis Pato; a Baga Friends celebration of the characteristic grape of the northern wine region of Bairrada; the 10th Wines of Portugal Awards dinner; and a presentation of the exciting table wines that the Douro Valley, home of port, is producing.

Tim Stanley-Clarke, wine trade veteran and UK representative of the Symington port family, says: “I would put João top of the vinous Richter scale of the Portuguese ambassadors I have known over the past 30 years. He really loves wine and knows quite a lot about it.”

Danny Cameron, the chairman of the association of Portuguese wine importers in the UK, is another fan. “He has a great sense of humour and a great sense of humanity. And, above all, he loves good wine. Whenever I have a meeting or telephone call with him, it’s never completely about the next event, or whatever else, because he always slips in a comment about something he has tasted recently, or wants to discuss a particular vintage of something.”

As I settled in to my seat next to de Vallera at the awards dinner in the frescoed dining room recently, he said with some pride that the room had recently housed a catwalk. “There are three areas I take a personal interest in,” he confided. “Fashion and textiles, tourism, and wine. And I am particularly keen on combining the last two.” He was then able to quote the number of hotel rooms occupied by Brits in Portugal last year and, almost, the number of glasses of wine they had drunk. But it is not as though wine is a particularly important export from Portugal. The ambassador reeled off statistics about the country’s exports of machinery, oil, vehicles – all more vital to the fragile Portuguese economy than fermented grape juice.

However, his heart is clearly in wine. According to several independent reports, he even keeps a cutting from this newspaper in his breast pocket, which showed that my average red wine scores are higher for Portuguese wine than for any other country’s. One of my informants adds: “It is really funny because it always takes him some time to find the photocopy among all the little papers he carries with him – but he shows it to literally hundreds of people.”

Portuguese wine producer Dirk van der Niepoort describes the ambassador as “very special, intelligent and really wants to do things for Portugal. He does a lot more than is his duty.” This is his third year in London and this will be his last post, after Dublin (1998-2000), Berlin (2002-2006) and Washington (2007-2010). In Berlin, de Vallera is proud of having converted the sommelier at one of the city’s top restaurants to Portuguese wines, so that by the time he left there were 14 Douro wines on the list. He also religiously attended the Prowein wine trade fair in Düsseldorf. In Washington, he famously shipped the Douro red Quinta do Vale Meão 2004, disguised as olive oil, that was the first Portuguese table wine to feature in the Wine Spectator magazine’s top 100. He was determined that arcane US prohibitions on moving alcohol from New York to the nation’s capital would not rob him of an opportunity to show off this new Portuguese achievement.

De Vallera earned his ambassadorial status after toiling 16 hours a day at the Maastricht negotiations in Brussels. “Then, as a young diplomat, I was very interested to witness the revolution in Portuguese wine, to see all these new, young winemakers emerging. You used to have to search for good Portuguese wine but now it’s difficult to find a bad one. And even the inexpensive ones are good,” he says delightedly.

He has a particular fondness for the Douro because his maternal grandfather had a port wine quinta there, in the Távora side-valley, the grapes being sold to Barros. He and his family spent every summer there. He was born in Angola, now the second most important export market for Portuguese wine after France, which imports huge quantities of basic port. The youngest of five and seriously threatened by liver disease, he was shipped back to his grandmother in Lisbon at the age of two and hardly saw his parents again until he was six.

As an attendee of the recent New Douro tasting in the embassy, I was struck by the unusual warmth of the atmosphere. So often, a tasting for the wine trade can feel rather impersonal and routine. There are various settings, often used by a range of exhibitors, which have all the charm of the National Exhibition Centre. But in the Portuguese embassy we really felt, rightly, as though we had been invited into someone’s home. The wines were truly exciting, not least because most of the reds were the products of the exceptional 2011 vintage in the Douro Valley. On these pages I have previously written that if you have reason to celebrate the year 2011, you might consider investing in 2011 vintage port. But the quantities made were very small and most of it has been squirrelled away in private collections by now. I would urge you to think seriously about the 2011 Douro red table wines too.

João de Vallera was very much in evidence at this Douro tasting, sauntering between the two handsome reception rooms with a smile framed by his neat, white naval beard, glass in hand and, often, with his beloved Olympus EPM2 round his neck. He even – and this is surely way beyond the call of diplomatic duty – emptied my spittoon.

Poema


Sou da geração errada, 
com licença, vou embora. 
E se a porta for fechada, 
ficamos todos cá fora.

Todos fora, com certeza, 
mas assim mesmo leais. 
Com menos lugares a mesa
as contas ficam normais.


Luis Castro Mendes

Casa da Sorte

 
"Eu não sou daqueles que fustiga o engenheiro Sócrates a dizer que ele é culpado por tudo o que se passa em Portugal. Acho essa ideia absolutamente caricata e ridícula. A principal culpa pelo que se passa em Portugal são fatores externos". (...). "Foi um primeiro-ministro com visão em várias áreas. Ele era vários deuses ao mesmo tempo, depois caiu em desgraça e passou a ser culpado de tudo. Isso é caricato. Ele foi um primeiro-ministro com várias qualidades, um chefe de governo com autoridade e capaz de impor a disciplina no seio do seu governo".

Quem disse isto, hoje, numa grande entrevista ao "Público"? Quando é que "anda a roda"?

sábado, 15 de março de 2014

Novo Rumo

A conferência "Um Novo Rumo para a Europa", que hoje me coube organizar em Lisboa, não foi o momento unanimista que alguns poderiam esperar. Era essa precisamente a ideia. Ao escolher alguns dos seus intervenientes, tínhamos a clara consciência de que, dentre as pessoas convidadas, unidas pelo desconforto perante a prática política da atual maioria, não existia uma total consonância de pontos de vista.

Isso foi patente, em especial, na questão do "manifesto" sobre a dívida pública. Diria que, sobre o tema, por ali ficaram claras três posições: os que defendem e subscrevem a iniciativa, os que estando de acordo no essencial com o diagonóstico contestam a sua oportunidade e os que abertamente discordam do texto. No termo das várias horas de debate, testemunhado por várias centenas de pessoas, perguntei-me a mim mesmo quantas forças políticas portuguesas teriam a abertura suficiente para acolher um exercício com esta diversidade opinativa sobre um tema tão central da nossa vida política. E, também por isso, dei-me por satisfeito pelo facto de ter tido oportunidade de coordená-lo.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Crispação

Não deixa de ser preocupante e sintomática a polémica criada em torno do "manifesto" sobre a reestruturação da dívida pública portuguesa, apresentado por mais de 70 figuras da nossa vida pública.

Por um lado, estimulada pelo desagrado da reação oficial, desencadeou-se uma onda de acusações aos subscritores do documento, tidos por irresponsáveis e quase anti-patriotas. Setores da blogosfera e comentadores mediáticos na área do poder lançaram ataques de inusitada violência, onde, no fundo, transparecia este sentimento: o "manifesto" é um texto da esquerda a que, por oportunismo, ressabiamento ou "naiveté", certa direita se juntou, acabando por ser "compagnon de route" de uma iniciativa que, sem o afirmar expressamente, contesta a filosofia do modelo de ajustamento seguido. E isto é quase crime!

No outra banda, na margem esquerda, a atitude não foi menos ridícula. A menor crítica ao "manifesto" foi vista como uma ignorante negação da realidade, uma colagem culposa às posições oficiais, com os polícias ideológicos do costume a instaurarem um "rigoroso inquérito" a quem se afastasse da racionalidade da iniciativa. As menores dúvidas quanto à oportunidade da apresentação do texto, qualquer que fosse a opinião expressa sobre o seu conteúdo, foram tratadas com desprezo, qualificados os seus titulares de "direitistas" e, em alguns dos comentários, de "proto-fascistas". Também por aqui, o "patriotismo" só teve uma cor. Embora outra.

Que diabo de país em que nos transformámos, que já não consegue discutir nada com um mínimo de serenidade! E, pior que tudo, de seriedade.

Postura

Ao longo dos últimos três anos, os portugueses têm vindo a aprender algumas coisas sobre a personalidade do dr. Pedro Passos Coelho.

A sua recente decisão pessoal de fazer regressar Miguel Relvas à ribalta política, a claro contra-ciclo do sentimento maioritário do país, bem como o desafio ontem feito ao presidente da República, com a re-apresentação ao parlamento do projeto legislativo de aumento das prestações para a ADSE, revelam estarmos perante uma pessoa que tem uma incontrolável pulsão para a vertigem do risco, um sentimento que explora, com frequência, os limites do seu poder, coisa que, pelos vistos, é tolerada no seio da sua família partidária, por muito que nela possa incomodar alguns. Outros factos, já ocorridos no passado, parece confirmarem plenamente esse perfil, onde se vislumbram traços que combinam uma atitude provocatória, de uma arrogância quase adolescente, com uma espécie de tentativa de emulação virtual do "sá-carneirismo". 

A questão que me coloco é de natureza política. É a interrogação sobre a compatibilidade entre este recorrente modelo desafiante, que parece comportar na sua matriz um certo deslumbre do poder, com a sua posição de principal responsável executivo por uma das situações mais delicadas da História contemporânea do país. Para ser mais claro: será que o dr. Passos Coelho, nas graves decisões externas que comprometem o país e o seu futuro, assume também este mesmo perfil decisório?  

Futebol português

Aos meus amigos de afeição lampiónica e andrade, deixo aqui um muito sincero abraço de parabéns pelas duas excelentes vitórias, que muito prestigiam o futebol português no plano internacional.

quinta-feira, 13 de março de 2014

José Policarpo

Em 1978, um grupo de cidadãos de diferentes cores políticas e oriundas de setores muito variados decidiu tomar uma iniciativa com o objetivo de reforçar a visibilidade das Nações Unidas no seio da sociedade portuguesa.

Por razões políticas, Portugal apenas em 1955 foi admitido na organização, isto é, cerca de dez anos após a sua criação. Quase de imediato, a política colonial do governo de Lisboa conduziu o país a uma crescente confrontação com diversas instâncias da ONU, que levaria mesmo à sua marginalização em algumas das suas agências especializadas. Na minha juventude, as Nações Unidas eram apresentadas como um "inimigo", uma instância em que Portugal era sistematicamente "atacado" e na qual a nossa diplomacia desenvolvia uma tenaz defesa das posições "ultramarinas" portuguesas. Com uma imprensa censurada, a imagem da ONU que a ditadura expunha tinha um tom sempre negativo, com a ação no seu seio dos países do "terceiro mundo", que apoiavam os "terroristas" que atacavam as nossas "possessões", a ser diariamente diabolizada.

O 25 de abril mudou a perceção de Portugal no plano externo, mas a imagem das Nações Unidas, das suas virtualidades, do fantástico trabalho dos seus diferentes órgãos e agências, ficou ainda longe de ser reconhecido entre nós. Creio que em inícios de 1978, fui contactado para fazer parte do grupo fundador de uma estrutura tendente à promoção da ONU em Portugal. Recordo que tivemos várias reuniões no escritório das Nações Unidas em Lisboa, no edifício Imaviz, tendo eu próprio sido o autor dos estatutos da ACNUP (Associação de Cooperação com as Nações Unidas em Portugal). Tendo partido para o estrangeiro em 1979, desliguei-me entretanto da associação.

Pus-me agora a pensar em pessoas que tinham estado entre os fundadores da ACNUP. Nomes como António Costa Lobo, Carlos Eurico da Costa, João Palmeiro e Rui Machete ocorreram à minha memória. E lembrei-me também que, entre nós, havia uma figura religiosa, um padre que tinha então a seu cargo o setor da comunicação do Patriarcado. Chamava-se José Policarpo.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Demissões manifestas

Armando Sevinate Pinto e Vitor Martins, dois consultores do presidente da República, deixaram os lugares que ocupavam, por terem sido subscritores do "manifesto" que apela à reestruturação da dívida portuguesa.

Deixo aqui um forte abraço a ambos, pessoas por quem tenho um grande respeito intelectual e uma estima pessoal que vem de há muitos anos. Independentemente da posição que ontem aqui expressei sobre a oportunidade do "manifesto", trata-se de um texto cuja leitura vivamente recomendo.

Álvaro Salema

Se fosse vivo, Álvaro Salema faria 100 anos na data de hoje. Já dele falei aqui um dia, tendo também anotado o que Jorge Amado escreveu, aquando da sua morte, em 1991.

António Valdemar fez hoje sair no "Público" um excelente artigo sobre Álvaro Salema, que faz justiça a essa figura maior da cultura portuguesa, insuficientemente conhecida das novas gerações. Aqui deixo o link.

Haverá alguma universidade que se disponha a comemorar este centenário?

Forum das Políticas Públicas


Um Novo Rumo para a Europa

Programas

"New Pact for Europe"

New Pact for Europe

Stakeholders Meeting

Fundação Calouste Gulbenkian

Quinta, 13 mar 2014  |  10:00


Auditório 3

Programa10:00 | Sessão de abertura

Artur Santos Silva
Maria João Rodrigues

10:30 | Discussão sobre as opções estratégicas do projeto
Intervenções | Viriato Soromenho-Marques | Vítor Martins | João Ferreira do Amaral

Moderador | Francisco Seixas da Costa

11:25 | Debate

12:40 | Encerramento

Ver uma síntese possível do debate aqui

João Sobral Costa

Então, João?! Não esperaste pelos 40 anos de abril? Agora que estávamos a semanas de lembrar esses dias históricos no Rádio Clube Português, onde, como oficial da Força Aérea, representaste o MFA, e onde te conheci e ficámos para sempre amigos?! 

Cruzámo-nos imenso nessas semanas da esperança, em que eu tive um período de "aviador" honorário, a ajudar o Zé Manel Costa Neves no gabinete de Galvão de Melo, na Junta de Salvação Nacional. No PREC, seguiste por caminhos mais radicais que os meus, numa deriva de generosidade, pela qual pagarias um preço. Perdemo-nos de vista por algum tempo. Em 1982, em Luanda, reeencontrámo-nos na "receiving line" do 10 de junho. Surpreendidos e alegres, caímos nos braços um do outro e, desde esse dia, passámos a juntar-nos à volta dos teus fabulosos cozinhados, em belos anos de intenso convívio, que guardo para sempre. A vossa casa em Luanda foi, para mim, um ensejo único para conhecer gente muito diversa e interessante, da cultura à política, que, com os teus celebrados petiscos e boa conversa, conseguia atenuar muita da acrimónia que (então ainda mais) tingia as relações com Portugal. Nunca esquecerei também um almoço que ambos por lá organizámos, em minha casa, com o Otelo, em que vocês os dois se engalfinharam numa infindável discussão sobre a autoria do famigerado "documento do COPCON". A vida não te seria sempre fácil por aquelas terras. Recordo a tarde em que te fomos "buscar", já no aeroporto, quando a perfídia de um Torquemada local, com escrita por cá muito louvada, te quis "pôr com dono" da empresa estatal onde ele perseguia portugueses. Já pelo nosso país, aproximámos ideias, em conversas longas pelas noites da tua casa da Luz, contigo sempre a defender, com unhas e dentes, os teus amigos, "right or wrong" (e alguns, desculpa lá!, bem "wrong"). Ser teu amigo era um seguro perpétuo de afetividade! Na última década, comigo outra vez por fora, voltámos a perder-nos, quase que apenas falávamos pelos Natais. Recordo bem a nossa última conversa telefónica, depois da morte do Zé Guilherme, contigo a notar que eu não vos tinha esquecido na lista das amizades essenciais que trouxemos de Luanda, que havia assinalado neste blogue.

Foste-te agora embora, no 11 de março, tu que eras um homem do 25 de abril, que também passaste tempos complexos no 25 de novembro - como há pouco notei ao João Soares, ao Vasco Lourenço e ao Zé Manel Costa Neves, na conversa à tua volta, na capela onde também jaz o Frei Luís de Souza. E à Élia, que a tua morte nos fez ali reencontrar. Tu, sempre um bom gigante, com um coração de ouro, derretido pela tua mãe Isabelinha (que por cá ainda fica, nos seus belos 99 anos) e pela Alzira, mulher feita coragem. À tua volta, na noite de ontem, montámos uma conversa da qual procurámos isentar a tristeza comum, porque sabíamos que não apreciarias ser a razão de um ambiente demasiado melancólico, porque tu tinhas a alegria dos homens sãos e de bem. Falámos muito e tu estavas por ali. Mas não ouvíamos a tua voz forte, as tuas discussões encapeladas, as tuas homéricas teimosias. Estavas ali, mas faltavas-nos. 

Adeus, João.

A dívida

Pensar pela própria cabeça tem um preço. Mas eu estou disposto a pagá-lo.

Há semanas, publiquei num jornal económico um artigo que alguns amigos, que muito respeito, consideraram inconveniente. Nele falava da sensível questão da reestruturação da dívida, procurando tocar nesse quase "tabu". Em síntese, eu dizia isto: "A menos que um perdão parcial venha a ser admitido, associado a uma renegociação de taxas e maturidades, Portugal ficará esmagado por um peso financeiro incomportável. E os primeiros a não beneficiarem dessa situação seriam os nossos credores externos, que não tirariam vantagens de uma economia asfixiada. Eles sabem isso bem. É, contudo, desejável que o assunto só surja à discussão num quadro europeu bastante mais sereno e estável. Mas deixemo-nos de ilusões: cedo ou tarde ele emergirá, dependendo o “timing” do modo como os mercados vierem a ler o grau de abertura do BCE para apoiar as economias europeias sujeitas a uma maior pressão". 

Ontem surgiu na praça um "manifesto", assinado por muitas personalidades respeitáveis e de grande relevo, que propõe a abertura de uma reflexão sobre a reestruturação da dívida pública portuguesa. A iniciativa é do meu amigo João Cravinho, uma pessoa por quem tenho uma imensa estima e grande consideração política. 

Ora bem: eu não concordo com a oportunidade da divulgação do "manifesto". Porquê? Porque apesar de, no essencial, o meu artigo assentar nos exatos pressupostos subjacentes a esse corajoso e bem construído texto, a questão do "timing" continua para mim a ser relevante. De facto, continuo a pensar que é "desejável que o assunto só surja à discussão num quadro europeu bastante mais sereno e estável". E esse tempo, no meu entender, ainda não chegou. Pelo que temo que o peso conjugado das personalidades envolvidas possa vir a ter consequências negativas para a imagem externa do país, por colocar prematuramente a questão no terreno.

Tenho este "azar" de, por vezes, "remar contra a maré". Não o faço por gosto, mas apenas porque é o que penso. E eu, certo ou errado, só digo o que penso.

Em tempo: veja-se o que sobre isto diz Pedro Santos Guerreiro

terça-feira, 11 de março de 2014

11 de março

Faço parte de uma tertúlia de antigos militares - profissionais e milicianos - que têm como caraterística (quase) comum terem estado "implicados" no 25 de abril. Como a data vai celebrar 40 anos, já se pode presumir a idade média dos convivas... Reunimo-nos "quando o rei faz anos", em almoçaradas de geometria variável e - vale a pena notar! - sem uma necessária identidade de pontos de vista políticos. No que me toca, estou a recuperar de quase uma década de abstinência forçada a esses encontros.

Ontem, tivémos mais uma "sessão de trabalho", desta vez à volta de uma lampreia, de que alguns, menos dados ao ciclóstomo, se "desenfiaram". Muitas histórias, menos sobre o passado e mais sobre o presente a que temos direito, com boa disposição e camaradagem, sendo anotadas as habituais faltas à chamada na "parada". A vida separou-nos e as agendas nem sempre são fáceis de conjugar. Mas é sempre um gosto encontrar esses amigos.

A meio do almoço, perguntei a um dos organizadores - um general que foi meu superior hierárquico, há quatro décadas - se era propositado o facto do repasto não ter lugar no dia 11 de março, uma data bem significativa (mas também bem divisiva) desse ano "quente" de 1975. Ninguém se tinha lembrado disso! Olhámos em volta e demos conta que, precisamente, um terço dos presentes tinha tomado assento, na noite desse dia marcante, naquela que foi a mais famosa Assembleia da história do Movimento das Forças Armadas. Incluindo o autor destas linhas.

Os acontecimentos de 11 de março foram interpretados, à época, como um salto em frente no processo revolucionário. Na realidade, vistas as coisas em perspetiva, o seu saldo acabou por se revelar uma vitória pírrica para o MFA, que, a partir dessa data, agravou as suas divisões internas, a caminho de um beco com traumática saída.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Contenção

Devo confessar que estou espantado com a "contenção" israelita nos dias que correm. A experiência ensinou-me que, quando a atenção do mundo se encontra focada numa determinada região do mundo, o Estado israelita tem por imparável tropismo proceder a ações militares pontuais no seu "near abroad", assim atenuando os (já de si sempre limitados) custos políticos a pagar por essas aventuras. Verdade seja que a procissão, pela Ucrânia, ainda vai no adro...

domingo, 9 de março de 2014

A Europa e a Crimeia

Teresa de Sousa é, de há muito, uma sagaz observadora das coisas internacionais. Tenho por ela um grande respeito e leio-a sempre com atenção e proveito. Hoje, no seu habitual artigo no "Público" (ser assinante permite-nos consultá-lo a esta hora matutina), suscita uma ideia interessante, resumida no próprio título do texto: "A Europa joga o seu destino na Crimeia". A tese central é a de que, face à atual tensão, e perante o grau de implicação que os americanos parece estarem dispostos a assumir, a Europa tem, na crise ucraniana, a oportunidade "da sua vida" para recuperar a sua relevância, a ser feita através de uma atitude comum, em consonância tática com Washington. O tom das conclusões do último Conselho Europeu anima a articulista, que delas também retira virtualidades para a sobrevivência e/ou reanimação da relação transatlântica,

Muitas vezes estou de acordo com Teresa de Sousa, mas não é este o caso. Acho que a avaliação feita daquilo que resultou da reunião dos chefes de Estado e governo da UE peca por "wishful thinking". A retórica unificada que saiu dessa reunião irá - não tenho disso a menor dúvida - esboroar-se a partir do momento em que a passagem a um estádio superior de medidas "punitivas" a Moscovo (que deverão ser propostas, porque tudo indica que a Rússia não vai ceder no essencial) venha a defrontar-se com as previsíveis reações retaliatórias do "outro lado". Nesse momento, os Estados europeus constatarão que, dentre eles, alguns sentirão mais do que outros o preço de uma quebra dos mecanismos de relação político-económica com a Federação Russa. E isso não deixará de ter consequências imediatas na sua unidade decisória, muito para além da conversa bruxelense, à qual Putin colocará a questão posta por Estaline face à condenação da sua política pela Santa Sé: "Quantas divisões tem o Papa?"

Posso estar enganado, mas tenho a sensação de que a Europa comunitária, com a sombra da NATO a ajudar, acabou por meter a Ucrânia numa "grande alhada". Fê-lo por alguma irresponsabilidade induzida essencialmente pelos Estados bálticos e alguns outros países da antiga "cortina de ferro" - a "nova Europa" de Donald Rumsfeld -, como reconhece Teresa de Sousa, ao falar da "obsessão desses países em continuarem a olhar a Rússia como uma ameaça".

Sei que me arrisco a ser visto como um perigoso "realista", mas nunca tive a menor ilusão sobre a possibilidade da Ucrânia poder exercer o seu pleno direito de opção estratégica. Há "soberanias limitadas"? Claro que há, porque a geografia não se improvisa. Que o diga Cuba.

Tenho hoje a firme convicção de que a Europa perdeu um ensejo precioso de desenhar um modelo de relacionamento "possível" com Kiev, porventura menos ambicioso mas bastante mais pragmático. Um modelo à medida do país muito particular, geopoliticamente falando, que a Ucrânia é e continuará a ser. A União Europeia não percebeu, ou não quis perceber, as lições que deveria ter retirado da atitude russa na crise da Geórgia - e, em especial, da "liberdade" então recuperada por Moscovo para reatuar com maior liberdade nas suas próprias "águas territoriais", em face da então mitigada reação de Washington, secundada pelo já então ineficaz gesticular europeu. Se o tivesse feito, não se deixando seduzir por uma agenda marcadamente anti-Moscovo, talvez tivesse ajudado Putin a reconhecer as vantagens de algum reconhecimento de "respeitabilidade" no plano internacional e apostado na sua adesão, pelo menos formal, a uma ordem global mais dialogada. Não o fez, "armou" em potência e agora resta-lhe "bombardear" Moscovo com comunicados e engrossar a voz. 

Com a presente crise, que ameaça alguns dos seus interesses estratégicos essenciais - a alguém passou pela cabeça que Moscovo iria permitir a indução de riscos no seu acesso naval ao Mar Negro? -, a Rússia já mostrou que está disposta a pagar um preço forte na sua imagem. Nada que um poder essencialmente autoritário não possa comportar. Quem pode vir ainda a sofrer, no rescaldo desta crise, são os opositores internos a Putin, que cada vez mais se sentirá desobrigado de ter de fazer "de democrata". Perdido por cem...

Uma nota final. Se Bruxelas conta com a permanência da intransigência de Washington, no início de um tempo presidencial de fim de ciclo, pode muito bem vir a estar enganada: sem a ajuda prática da Rússia, os EUA não conseguirão retirar as suas tropas do Afeganistão no calendário previsto. E esse é um compromisso que Obama não pode falhar, porque é feito perante o único país que os Estados Unidos verdadeiramente respeitam: a América.