quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Vitor Crespo



Foi-se mais um homem de abril. Naquela madrugada, quando Vitor Crespo se apresentou, impecavelmente uniformizado com a "farda nº 1", no "posto de comando" do Movimento das Forças Armadas, no regimento de Engenharia na Pontinha, em representação da Armada, Otelo perguntou-lhe ironicamente se ele ia "para algum casamento"... Crespo foi dos oficiais de mais alta patente a participar na condução das operações militares do 25 de abril.

Era um homem sereno, mas muito determinado. Logo após regressar de Moçambique, onde teve um exigente mandato como Alto-Comissário, nos momentos tensos de 1974/75, Vitor Crespo apresentou-se numa reunião do Conselho da Revolução, órgão do qual não fazia parte, e ... sentou-se à mesa. Ninguém teve coragem de lhe recusar o seu legítimo lugar nesse órgão.

Poucas pessoas se recordarão que, em 1975, ele foi Ministro da Cooperação do VI governo provisório. O Ministério dos Negócios Estrangeiros, logo após a minha entrada, destacou-me nesse ministério, por quase quase dez meses.

Um dia de fevereiro de 1976, fui chamado ao ministro Vitor Crespo, que estava acompanhado pelo secretário de Estado da Cooperação, Gomes Mota. Ambos me explicaram que, tendo os professores cooperantes portugueses em S. Tomé entrado em greve, por verem goradas algumas expectativas que lhe tinham sido criadas pelas autoridades santomenses antes da sua partida, eu ia ser enviado àquele país recém-independente para pôr termo ao conflito. O ministro disse-me que eu tinha "carta branca" para resolver o assunto com as autoridades locais. De facto, chegado a S. Tomé (via Paris e Libreville, naquela que era a minha primeira viagem a África), ao ser recebido no aeroporto pelo meu colega João da Rocha Páris, fui por este informado que o embaixador português, Amândio Pinto, estava furioso, porque tinha recebido do Ministério da Cooperação uma comunicação para "se colocar à minha disposição" com vista às diligências que eu estava encarregado de fazer. Foi preciso muita "diplomacia" para explicar ao embaixador que o jovem "adido de embaixada" que eu era, e há menos de meio ano, não tinha a menor pretensão de o "chefiar" e que, pelo contrário, estava ali para o coadjuvar na resolução do problema (que logo se resolveu, diga-se).

Há uns anos, num almoço na Associação 25 de abril, com Vasco Lourenço, Costa Neves e Martins Guerreiro, lembrei este episódio a Vitor Crespo. Naturalmente que não se recordava, porque ele tinha sido relevante apenas para mim.

Vitor Crespo tinha uma figura elegante, similar ao estereótipo de um coronel inglês do tempo das Índias. Era um homem com muito humor, embora discreto. De uma inatacável solidez ética, era reconhecido pelos seus pares como uma referência de seriedade e de grande profissionalismo.

Hoje, quinta-feira, a partir das 17 horas, prestar-lhe-emos homenagem na Basílica da Estrela.

3 comentários:

Anónimo disse...

Não o conheci pessoalmente, mas conheci muito do seu tributo à nossa jovem democracia. Paz à sua alma!
MT

EGR disse...

Senhor Embaixador: porventura por minha culpa só agora soube do falecimento de Vitor Crespo.
E este meu comentário tem uma singela razão: sempre que parte alguém a que, de uma forma ou doutra, contribuiu para que eu hoje seja um cidadão de um país livre,e viva num regime democratico, curvo-me perante a sua memoria.

Helena Sacadura Cabral disse...

Francisco
Só agora às 11h45 de Domingo tomei conhecimento da notícia aqui. Fiquei tristíssima. Liga-me a Vitor Crespo uma lindíssima "estória", urdida pela nossa comum amiga Natália Correia.
Passaram 40 anos sobre ela, mas manteve-se sempre entre nós um elo especial de "algo que podia ter sido".
Como eu teria gostado de estar junto dele uns minutos de despedida!