segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Soares e Freitas



Ontem, no almoço comemorativo dos 90 anos de Mário Soares estava, naturalmente, Freitas do Amaral. E lembrei-me do combate entre ambos, em 1986. E de mim, por essa altura.

Tinha acabado de chegar de Angola, em novembro de 1985. Passara mais de três anos na embaixada em Luanda, em tempo de guerra civil, com recolher obrigatório permanente, numa cidade de vida difícil e muitos riscos. Pouco tempo antes, o diretor-geral dos Negócios políticos do MNE passara por Luanda e sondara-me sobre se eu estaria disposto a vir mais cedo de Angola, sendo que o "timing" normal seria meados de 1996. Oferecia-me a oportunidade de um interessante lugar de chefia em Lisboa, na estrutura dos assuntos europeus, que fora criada para a próxima entrada de Portugal nas comunidades. Isso mudaria inesperadamente a minha vida, mas decidi arriscar, não apenas porque estava bastante cansado de Angola mas, principalmente, pelo interesse que tinha em aproveitar essa experiência inédita na aventura europeia - mais interessante ainda porque, à época, eu estava muito longe de ser um entusiasta pelas ideias europeias. Fiz as malas um tanto à pressa e, ainda com uma casa em obras em Portugal, saí de Luanda e vim para Lisboa. Nesse entretanto, no mês anterior, tinha havido eleições legislativas em Portugal, que o PSD ganhara, já com Cavaco Silva. Quando cheguei às Necessidades, fui apresentar-me ao secretário-geral do ministério. Notei-o algo embaraçado, pouco à vontade. É que me esperava uma desagradável surpresa: o novo governo decidira não confirmar o convite que me fora feito. Eu não teria a chefia prometida. Melhor: não teria mesmo nenhuma chefia! E, por várias semanas, nem lugar para me sentar iria ter... 

Não era assim o melhor o meu estado de espírito, nesse início de 1986. Na política e não só. A campanha eleitoral em curso em Portugal não me entusiasmava muito. À esquerda, Mário Soares disputava com Salgado Zenha e Maria de Lurdes Pintasilgo a possibilidade de bater Freitas do Amaral, numa possível segunda volta. Tinha a maioria dos meus amigos distribuídos por aqueles três candidatos. Como cidadão, a minha preferência, embora sem excessivo entusiasmo, ia para Zenha, mas eu nem sequer estava inscrito para votar em Portugal. Confesso que então me assustou bastante o discurso da direita, os chapéus de palhinha e os "loden" verde-garrafa que marcaram a campanha de Freitas, por detrás de quem sentia escondido um Portugal contra o qual, pouco mais de uma década antes, eu fizera o 25 de abril. Algumas das caras que rodeavam Freitas do Amaral eram sinistras e não me mereciam a menor confiança democrática. Por semanas, criei mesmo a exagerada sensação de que a eventual chegada deste a Belém poderia significar o início de um regresso ao "fascismo". Por isso, a vitória de Mário Soares, numa muito difícil segunda volta, acabou por ser um dos mais felizes dias políticos da minha vida. Nessa bela noite de Lisboa, avariei, por excesso de utilização, a buzina do meu carro!

Uns anos mais tarde, numa deslocação a Nova Iorque quando estava no governo, andando pela rua com Freitas do Amaral, depois de um jantar, confessei-lhe: a possibilidade da vitória dele, em 1986, havia sido, para mim, um dos momentos mais angustiantes, como cidadão. Freitas do Amaral sorriu e disse-me: "Espero que, com o passar dos anos, tenha percebido que eu não era um fascista". Tinha toda a razão. Embora o futuro nunca me tenha dado uma absoluta certeza daquilo que Freitas do Amaral politicamente é, reconheço, sem a menor dificuldade, que não é um "fascista". E que, pelo menos por ele, o meu susto de 1986 era exagerado. Mas lá que essa vitória de Mário Soares foi muito saborosa, lá isso foi...  

7 comentários:

Anónimo disse...

Faltou á última hora, Rui Mateus.

DC disse...

Comungo do mesmo sentimento!

Anónimo disse...

Não ter nenhuma chefia depois de prometida pela hierarquia? Hum, já vi isto em qualquer lado! E o passarão responsável por está golpada içado e promovido no Oriente! Haja saúde!

Manuel Silva disse...

Para o Anónimo das 23:21,
Dado que o Mário Soares tem muitos amigos em vários quadrantes políticos, acho que faltaram muitos mais:
Deixo-lhe só alguns exemplos:
Costa Freire e Zézé Beleza
(ambos condenados pelo processo do Ministério da Saúde)
Arlindo de Carvalho
Tavares Moreira
(condenado pelo BdP por práticas bancárias fraudulentas, processo posteriormente prescrito)
Oliveira e Costa
Dias Loureiro
(e o resto da trupe do PSD no BPN envolvida no maior escândalo bancário desde o caso Alves dos Reis, nos anos 20)
Duarte Lima
Isaltino de Morais
E tantos outros que não vale a pena referir.
O que me espanta é a facilidade com que algumas pessoas que têm telhados de vidro finíssimos atiram pedras aos dos vizinhos.
Como se este jogo permanente de acusações, de insultos públicos, de passa-culpas e de tentar encontrar sempre um único culpado, seja do que for, nos resolvesse algum problema.
É o exemplo acabado da pequenez de alguns portuguesinhos muito pequenininhos.
Porra, nem um aniversário (embora de alguém que odeiam) merece a benevolência do seu silêncio!


Anónimo disse...

Enquanto se zangam as comadres portuguesas o BCE manda.
Os mercados financeiros, com aquelas siglas absurdas, papam tudo tudo tudo e deixam apenas migalhas, imenso lixo e muito sofrimento pelo caminho.

Anónimo disse...

Grande diferença entre Freitas e Soares. Um deles tem uma espinha dorsal 'muito flexível'. A 'sobrevivência' não pode explicar tudo!
Como se sabe na nossa jovem Democracia muita coisa se passou que não devia ter alvorecido e muita coisa ficou por fazer.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Chico

Leio e pasmo. Tantos franco-atiradores tendo por alvo Mário Soares e, já agora, Freitas do Amaral. Gosto muito do primeiro, gosto pouco do segundo, mas deixei a espingarda em casa.

De snipers estou farto. E mais farto estou dos que se dizem snipers - e não são.

Abç